quarta-feira, 2 de abril de 2025

Tempus Machina – a realidade não é o que pensamos ser

 


 Cito Marcus de Sautoy: “Os livros sobre mecânica versam todos a evolução do Universo relativamente ao tempo. A equação da trajectória de uma bola tem por input o tempo e outputs a localização da bola. Mas nenhum destes livros define o tempo, e nenhum físico foi capaz de dar uma definição satisfatória daquilo que entendemos por tempo, pelo que a melhor estratégia será, porventura, eliminá-lo completamente.”, O que não Podemos Saber”, Editorial Bizâncio, pp 340.

Este curto texto dá o actual state of the art quanto à interpretação do conceito do Tempo. Normalmente, o que acontece é seguir-se o comportamento da avestruz, ignorando a questão.

O Tempo visto pela Física actual leva-nos até Richard Feynman. O Conceito de Tempo com Richard Feynman, resume os nossos conhecimentos sobre o tema. Hoje, todos reconhecem que Feynman, um dos grandes físicos do século XX, trouxe contribuições profundas para a compreensão do tempo, especialmente dentro da mecânica quântica e da Electro Dinâmica Quântica (QED), cuja visão está ligada a conceitos como setas do tempo, trajectórias múltiplas e retrocausalidade.

Influenciado pela ideia de antipartículas de Paul Dirac, sugeriu que o tempo pode ser tratado de forma simétrica, isto é, as leis fundamentais da física funcionam tanto para frente quanto para trás no tempo, quando ele próprio corrobora que "Na mecânica quântica não há diferença fundamental entre ir para frente e para trás no tempo." (The Character of Physical Law, 1965). Ou seja, invalida o conceito de tempo newtoniano e a noção intuitiva geral de uma direcção única própria de um tempo linear e absoluto.

A da sua autoria a proposta que qualquer antipartícula pode ser vista como a partícula original, mas viajando para trás no tempo. Por exemplo, um Electrão e um Positrão podem ser interpretados como a mesma entidade movendo-se em direcções opostas no tempo. Isto foi expresso através dos chamados Diagramas de Feynman, amplamente usados pelo contributo esclarecedor introduzido na evolução das “partículas”. Afirmou em 1964 nas célebres “Feynman Lectures on Physics” que "Uma antipartícula é simplesmente uma partícula comum que se move para trás no tempo.". Como se a existência das antipartículas se devesse exactamente a uma seta do tempo do futuro para o passado ou presente, consubstanciando as ideias de retrocausalidade, onde eventos futuros poderiam influenciar o presente, afinal, como veremos, a mesma ideia explorada por Carl Jung na sincronicidade e por Bohm na Ordem Implícita.

As configurações geométricas introduzidas pelos Diagramas de Feynman caracterizam-se por uma nova abordagem expressa no conceito quântico de Multiplicidade ou Integrais de Caminhos, em que uma partícula não segue uma trajectória única, mas explora todas as trajectórias possíveis entre dois pontos, até ser sujeita ao acto observacional, devido exactamente ao facto de o tempo poder ser tratado como uma variável que permite a coexistência de múltiplos caminhos antes da medição. Isto lembra uma visão holográfica do tempo e o conceito de tempo cíclico nas tradições esotéricas, como os Yugas védicos e o tempo não-linear em Pistis Sophia.

Embora Feynman reconhecesse que as leis fundamentais quânticas permitissem viagens no tempo para trás e para frente, explicou contudo porque percebemos sempre a direcção única do tempo indo apenas para frente, recorrendo à segunda lei da termodinâmica que afirma que a Entropia (significando normalmente desordem) tem sempre a tendência de aumentar. Esta é a razão macroscópica para termos uma “seta do tempo”, mesmo que as leis fundamentais sejam simétricas, como se houvesse uma ilusão da percepção ou mesmo um desdobramento de uma realidade mais profunda.

"Por que nos lembramos do passado, mas não do futuro? A resposta está na termodinâmica: a entropia aumenta sempre.", The Feynman Lectures on Physics, Vol. 1, 1963.

Na realidade, os programas de investigação levados a cabo pelo CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), tem desempenhado um papel crucial no estudo do conceito do tempo através do delineamento experimental que explora a simetria temporal nas leis da física e que tem testado e confirmado as previsões da teoria da Relatividade.

Podemos referir que um dos testes mais significativos realizados no CERN, foi sobre a dilatação do tempo, prevista por Albert Einstein, envolvendo o estudo de Muões relativísticos. Os Muões são partículas subatómicas instáveis com uma vida útil extremamente curta. Ao acelerá-los a velocidades próximas da luz, observou-se que sua vida útil aumentava conforme previsto pela Relatividade Especial, confirmando que o tempo passa mais devagar para partículas em movimento rápido em relação a um observador estacionário. Este teste foi corroborado, ao nível biológico e macroscópico, por dois astronautas gémeos, um permanecendo na Terra e o outro a bordo da estação espacial.

Outro dos testes realizados foi sobre a ​Seta do Tempo e a Simetria Temporal. Em 1998, o projecto CPLEAR investigou a violação da simetria temporal (T) em sistemas de Mesões K neutros. Os resultados mostraram que as taxas de transformação de Antikaões em Kaões eram diferentes das de Kaões em Antikaões, indicando claramente uma seta do tempo ao nível microscópico. Esta foi a primeira observação directa de uma assimetria temporal em partículas subatómicas, indicando que, embora muitas leis físicas sejam simétricas no tempo, algumas interacções fundamentais não o são.

O CERN continua a explorar questões fundamentais relacionadas com o tempo e a simetria temporal. Projectos como o NA63 investigam processos de radiação em campos electromagnéticos fortes, contribuindo para a compreensão de fenómenos na área da astrofísica e de outros efeitos em colisionadores lineares. Além disso, o CERN tem planeado futuros projectos que visam aprofundar a compreensão de partículas fundamentais e possivelmente revelar novos insights sobre a natureza do tempo e do Universo como o High-Luminosity LHC, previsto para iniciar em 2029, e o Future Circular Collider, estimado para começar por volta de 2040.

Não podemos passar sem referir o conceito de Tempo com Albert Einstein que revolucionou a compreensão do tempo com as teorias da Relatividade, mostrando que o tempo não é absoluto, como pensava Newton, mas sim relativo ao observador e influenciado pelo espaço e pela gravidade.

Na Relatividade Restrita o tempo não é universal, mas depende do referencial do observador, passando mais devagar para um observador em movimento em relação a outro comprovando o fenómeno da dilatação temporal, tão bem conhecida pelo acerto do GPS. Assim a simultaneidade não é absoluta, dado que dois eventos que parecem simultâneos para um observador podem não ser para outro. Sobre isto disse Einstein que “As pessoas como nós, que acreditam na física, sabem que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente.” (Carta para a família de Michele Besso, 1955). Numa carta de condolências à família Besso, Albert Einstein escreveu: "Agora Besso partiu deste estranho mundo um pouco antes de mim. Isto não significa nada. Pessoas como nós, que acreditam na física, sabem que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente", (Fonte Wikipédia).

Por outro lado, com a Relatividade Geral, Einstein expandiu a ideia de tempo ao incorporar a gravidade, em que o tempo é afectado por esta, de um modo directo e proporcional, onde quanto mais forte o campo gravitacional, mais devagar o tempo passa devido à dilatação gravitacional do tempo. Assim, o tempo e o espaço não são entidades separadas, mas partes de um tecido contínuo chamado espaço-tempo, e a presença de massa e energia, curva o espaço-tempo, modelando a passagem do tempo. Isto tem consequências reveladas muito recentemente, colocando em causa a ideia da expansão acelerada do Universo e a existência da própria Constante Lambda.

Com Einstein e na Relatividade o tempo é relativo ao observador tal como o conceito de tempo ser uma construção mental com Santo Agostinho ou Blavatsky. O espaço-tempo é um contínuo modelado pelas massas e energia. Também com David Bohm o tempo emerge da Ordem Implícita. A distinção entre passado e futuro é ilusória na Relatividade e também na retrocausalidade revelada pela mecânica quântica e na sincronicidade de Carl Jung.

Em conclusão, a ideia de que o tempo pode não ser fundamental, mas sim emergente, e tratado como uma propriedade de algo mais subtil e fundamental, um fenómeno relacional, parece estar a ganhar força na física moderna, especialmente na gravidade quântica em loop e na holografia.

Para Einstein, o tempo não é absoluto, mas depende do referencial do observador, a gravidade pode curvar e desacelerar o tempo, o espaço e o tempo são inseparáveis e formam uma estrutura única e a distinção entre passado, presente e futuro pode ser uma ilusão. Esta visão alinha-se com muitas tradições filosóficas e esotéricas, que vêem o tempo como uma manifestação relativa da Consciência e não como algo absoluto e fixo.

Num tempo mais recente, David Bohm tinha uma visão profunda e não convencional sobre o mesmo, ligado ao conceito das Ordens Implícita e Explícita e a ideia de um universo em Holomovimento. Quando diz que “O tempo é uma projecção da eternidade no domínio da ordem explícita.” (Wholeness and the Implicate Order, 1980), Bohm sugere que o tempo, como o percebemos, não é fundamental, mas sim uma projecção que emerge de um nível mais profundo da realidade, que ele denomina de Ordem Implícita. Significa que o tempo não é absoluto (como em Newton), mas um efeito da estrutura subjacente da realidade. A Ordem Implícita contém todas as possibilidades sob a forma de probabilidades quânticas, e o tempo emerge à medida que certas informações se desdobram na Ordem Explícita, em que o Holomovimento passa a descrever esse fluxo dinâmico onde tempo e espaço não são consideradas entidades separadas, mas interligadas. É assim que a realidade subjacente tem um carácter informacional intrínseco. Se dúvidas houvesse, teríamos esta citação de Bohm relacionando o tempo com a Consciência: “O tempo é criado pelo pensamento como um meio para medir e ordenar nossas experiências, mas a realidade subjacente pode não estar sujeita a essa limitação.” (Thought as a System, 1992).

Em Bohm o tempo pode ser uma propriedade emergente da Consciência e da organização quântica: “Se olharmos para a totalidade da realidade como um sistema indivisível, talvez tenhamos que reconsiderar o próprio significado do tempo.” (Causality and Chance in Modern Physics, 1957). Aqui o Tempo surge como Desdobramento do Todo, não uma entidade fundamental, mas um efeito de um nível mais profundo da realidade. Esta visão tem fortes paralelos com o pensamento esotérico em Pistis Sophia, Blavatsky e os Vedas, e também com teorias contemporâneas da física, como a holografia e a emergência do tempo na gravidade quântica em loop.

Também outras implicações surgem no horizonte, ao elencar a existência de uma ”Onda piloto” agindo como um Campo invisível que determina o movimento da “partícula”, como se esta fosse um barco navegando num rio. Como se a água ao redor criasse ondas que influenciam o trajecto do barco. Na mecânica de Bohm, a “partícula” é o barco que tem uma posição real, mas o seu trajecto é guiado pela Onda Piloto que é o fluxo do rio. Esta Onda Piloto obedece à equação de Schrödinger e não colapsa, ao contrário do que sugere a interpretação de Copenhaga, onde prevalece o elemento indeterminístico das probabilidades que levanta questões em torno da realidade existir antes de ser medida. Também resolve o aparente paradoxo da "partícula estar em dois lugares ao mesmo tempo" na experiência da dupla fenda. Enquanto a mecânica quântica tradicional diz que uma partícula comporta-se como uma onda e pode passar pelas duas fendas ao mesmo tempo, formando um padrão de interferência, na interpretação de Bohm a partícula passa por apenas por uma fenda, tal como um objecto clássico, mas a onda piloto passa por ambas as fendas e interfere consigo mesma em que a partícula segue um caminho específico influenciado pela onda, formando o mesmo padrão de interferência observado experimentalmente. Por outro lado, a teoria é não-local, o que significa que a Onda Piloto pode influenciar instantaneamente uma partícula mesmo que ela esteja distante, explicando também o fenómeno do entrelaçamento quântico, onde partículas separadas por grandes distâncias parecem comunicar-se instantaneamente.

Esta “Onda Piloto” parece assim inscrever-se numa realidade objectiva subjacente, ao contrário da visão convencional da mecânica quântica, onde a realidade só existe quando é medida. Isto é, a realidade visível emerge de uma ordem oculta mais profunda, que nos faz lembrar aquelas mesmas características e propriedades atribuídas pela tradição védica e hinduísta ao Akasha, às “Potencias” presentes na gnose em Pistis Sophia, similar a um Campo Informacional da Consciência. Também poderá estar ligada a uma visão cosmológica de um Universo holográfico, onde as informações sobre toda a realidade estão distribuídas de maneira não-local. Os fundamentos de que a Consciência e o Tempo são elementos emergentes de algo maior e indescritível.

Interessante que em Dezembro de 2024, a Google demonstrava que o seu chip quântico conhecido como Willow de 105 qubits, conseguia resolver em 5 minutos um problema computacional tão complexo que os melhores super-computadores da actualidade levariam cerca de 10 setilhões de anos para resolvê-lo, muito mais do que a idade do nosso Universo. A Google garante ter tido acesso a universos paralelos com este chip quântico. Este desempenho extraordinário levou Hartmut Neven, fundador da equipa de Quantum AI da Google, a sugerir que a computação quântica poderia ocorrer em múltiplos universos paralelos, alinhando-se com a teoria dos multiversos proposta pelo físico David Deutsch, em que infinitas realidades coexistem simultaneamente. Para Deutsch sempre que ocorre um evento quântico, o Universo divide-se em múltiplas versões, onde cada resultado possível desenvolve-se num universo paralelo diferente. Na nossa opinião estes “universos paralelos” são os Campos informacionais realmente paralelos se encararmos as suas múltiplas dimensões informacionais da sua existência como “Ondas Piloto” que se estendem num “oceano” de emaranhamento e da não-localidade.

Chegados aqui, impõe-se explorar outras ligações, algumas ancestrais, nomeadamente as fontes esotéricas e místicas.

Roger Penrose, físico laureado com o Prémio Nobel, colaborou com o Observatório do Vaticano e com a Universidade de Pádua na obra "A Eternidade entre o Espaço e o Tempo: Da Consciência ao Cosmos", uma colectânea de textos que reúne reflexões tanto de físicos como de teólogos sobre a eternidade, explorando-a sob diversas perspectivas científicas e filosóficas. No entanto, a questão da relação entre Deus ou a divindade e o Tempo coloca desafios e reflecte um esforço contínuo de promover discussões profundas sobre a intersecção entre a cosmologia, o tempo e a espiritualidade. Uma das respostas poderá ser simplesmente esta: Tirem Deus do tempo. Tal como Deus não se localiza no espaço, também não é necessário localizá-lo no tempo. Evidentemente que não é a resposta oficial do Vaticano sobre o assunto!

Noutro âmbito, aquele ligado às tradições esotéricas com fontes nos textos védicos, Blavatsky faz referências directas ao gnosticismo, em que a sua visão do tempo pode ser comparada à de Pistis Sophia. Helena Blavatsky sugere que há diferentes camadas do tempo, associadas a diferentes níveis de Consciência e planos de existência. Assim, no plano físico, o tempo surge em formato linear e finito. Nos planos subtis das dimensões do astral e mental, o tempo tem características de um fluido não-linear, permitindo percepções simultâneas de passado, presente e futuro, enquanto no plano espiritual, o tempo desaparece completamente, pois a consciência entra em sintonia com a Eternidade. Uma visão que se aproxima das últimas reflexões científico-teológicas que contaram com os vencedores do Prémio Nobel Gerard 't Hooft e Roger Penrose, a que se juntaram Federico Faggin, Mauro D'Ariano, Gabriele Veneziano, Massimo Cacciari, Giulio Goggi e Kurt Appel, de um total de 24 contribuições em Maio de 2022 na Universidade de Pádua.

Em vez de um tempo linear, Blavatsky adopta a visão védica cosmológica dos Yugas, que descrevem ciclos cósmicos de criação, preservação e dissolução. Ali, o tempo não é uniforme, mas manifesta-se em grandes ciclos conhecidos como Manvantaras e Pralayas, respectivamente os períodos de manifestação e dissolução do Universo e em que cada ciclo reflecte a evolução da Consciência através dos diferentes planos da existência, ciclos que apresentam fractalidade, porque estendem-se desde os grandes ciclos cósmicos até aos ciclos menores que afetam civilizações, indivíduos e até átomos. Esta visão do tempo enquadra-se com a de Giordano Bruno (1548 – 1600), que também via o Universo como infinito e cíclico.

Blavatsky adopta uma visão semelhante à das filosofias orientais, especialmente o Vedanta e o Budismo, ao afirmar que o tempo, como o percebemos, é uma ilusão (Māyā). É sua, esta afirmação: “O Tempo só é uma ilusão produzida pela sucessão de nossos estados de consciência ao viajarmos através da Eternidade.”, (Doutrina Secreta, Vol. 1). Ou seja, o tempo não é um factor absoluto, mas um efeito da percepção da mente finita. Lembra tanto as visões de Agostinho de Hipona, que também via o tempo como uma construção da mente, assim como as de Giordano Bruno, que por sua vez defendia a relatividade do tempo à percepção e à mudança dos fenómenos locais.

A visão de Santo Agostinho sobre o tempo não é meramente teológica, mas profundamente filosófica e psicológica. Ao defender que o tempo não é um objecto absoluto, mas um fenómeno da consciência, transforma o presente no único "tempo real", pois o passado e o futuro existem apenas na mente, mas porém, Deus e a Eternidade transcendem o tempo e a mudança. Deste conceito surge a possibilidade da Consciência poder reorganizar a percepção do tempo, quando ligada a uma realidade superior. É assim, que Agostinho distingue três aspectos do tempo, que correspondem não a entidades absolutas, mas a estados da mente. O passado faz a sua presença existencial apenas como memória, enquanto o futuro existe apenas como expectativa, sendo que o presente constitui apenas como percepção momentânea, continuamente fluindo entre um e outro.

"O que é, então, o tempo? Se, ninguém me pergunta, eu sei; mas se quero explicá-lo a quem pergunta, já não sei.", Confissões XI, 14,17.

Apesar da existência das diferenças, podemos estabelecer um quadro de convergência:


Contudo, será legitimo aproximar estes conceitos místicos das ideias contemporâneas da física?

A relatividade einsteiniana em que o tempo é explicado como um fluido não-absoluto, mudando conforme o observador, reflecte a visão de Agostinho de que ele só existe como processo psicológico ligado à mente. O tempo emergente em David Bohm que pode ser um efeito da Consciência sobre a realidade, alinha-se perfeitamente com a ideia de Deus como "fora do tempo". Depois com Carl Jung e a física quântica que colocam os eventos futuros a informar o presente, dão ênfase aos aspectos da sincronicidade e da retrocausalidade, visto o tempo ser fluido. A retrocausalidade implica que estados futuros possam influenciar o presente, algo que Carl Jung percebeu em experiências de sincronicidade, onde eventos subjectivos (sonhos, símbolos, arquétipos) pareciam antecipar acontecimentos futuros.

Giordano Bruno, influenciado pelo neoplatonismo e pela tradição hermética, via o tempo como uma expressão da eternidade, não uma sequência linear de eventos, mas uma projecção dinâmica do Uno na manifestação. Assim, como no conceito védico de Kāla, Giordano Bruno acreditava que o tempo era cíclico e eterno, reflectindo padrões arquetípicos que se repetiam em escalas diferentes. Rejeitava a ideia aristotélica de um universo finito e introduzia uma concepção infinitista, onde o tempo fazia parte da estrutura holográfica do cosmos, em que o tempo podia ser um efeito da projecção de informações no espaço-tempo, afinal uma ideia próxima à Ordem Implícita de Bohm. O tempo não era apenas uma medida de movimento, na sua acepção reducionista e fisicalista, mas um campo de transformação da Consciência, onde a alma podia elevar-se através da compreensão dos princípios cósmicos, emparceirando com a visão gnóstica de Pistis Sophia, onde o tempo material aprisionava a Consciência, mas, contudo, podia ser transcendido através do conhecimento (gnosis). Giordano Bruno via o tempo como um aspecto da manifestação infinita do cosmos, ligado à eternidade, à circularidade do tempo e à Consciência como elemento organizador da realidade.

Por sua vez o evangelho gnóstico Pistis Sophia descreve uma cosmologia hierárquica onde o tempo está ligado à ascensão e queda da Consciência dentro dos domínios mais subtis e de outros mais materiais. No universo gnóstico, os Aeons (Éons) representam níveis de realidade onde o tempo e o espaço são percebidos de formas diferentes. Na manifestação inferior (o cosmos material), o tempo funciona de maneira linear e determinística, criando ciclos de karma e reencarnação. É o tempo como restrição causal.

Mas também o tempo é sofre com um processo de correcção quântica quando Pistis Sophia descreve um processo de retorno à Luz, onde a alma deve superar as forças que a prendem no tempo cíclico do mundo material dando a ideia de que o tempo pode ser transcendido através da Consciência, semelhante às ideias védicas onde Kāla é uma restrição da percepção, mas não da realidade última.

Verificamos que nos Tattvas Puros e Impuros do Shaivinismo da Caxemira a realidade é estruturada da mesma forma que os Aeons estruturam a existência em Pistis Sophia. Assim como as Potências em Pistis Sophia actuam como processos de códigos de correcção quântica da Consciência, os Tattvas também definem os graus de liberdade na manifestação do espaço-tempo, confinando com a Ordem Implícita de David Bohm, que descortina que o tempo manifesto é uma projecção holográfica de um estado atemporal e mais profundo da realidade.

Por último, por ser a fonte mais antiga, os Vedas e as tradições filosóficas indianas, o conceito de tempo (Kāla) é profundo e multifacetado, indo muito além da noção linear, assumido simultaneamente como um ciclo eterno, uma força cósmica activa, por força conceptual exotérica uma divindade associada à transformação e dissolução. Diferente da visão ocidental linear, o tempo nos Vedas é cíclico, reflectindo os ritmos cósmicos da natureza através dos Yugas (as Eras Cósmicas. O tempo cósmico é dividido em quatro grandes Eras, formando um ciclo completo chamado de Maha Yuga, composto por Satya Yuga (Era da verdade, da harmonia e da consciência elevada), Treta Yuga (o declínio gradual da virtude), Dvapara Yuga (maior corrupção e diminuição da consciência) e Kali Yuga (a Era actual, marcada pelo materialismo e pelo esquecimento espiritual). Cada Maha Yuga repete-se em ciclos dentro de um Kalpa (ou dia de Brahma), que dura 4,32 mil milhões de anos. Depois, após um Kalpa, há uma fase de dissolução chamada Pralaya, antes do recomeço de um novo ciclo manvantárico.

No Vedanta e no Vishnu Purana, o tempo é descrito como o acto de respiração de Brahma (inspiração/expiração). Um Kalpa equivale a um dia de Brahma, e ao final de 100 anos de Brahma, o universo entra na dissolução total (Mahapralaya), uma espécie de modelo oscilante do universo, onde há fases de expansão e contracção, semelhante a teorias cosmológicas modernas como a CCC – Ciclo Cosmológico Conformal de Roger Penrose.

Nos Vedas, o tempo (Kāla) não é apenas um medidor de eventos, mas uma força activa e “devoradora”, relacionada com a transformação e dissolução. É assim que no Bhagavad Gita (11:32), na famosa visão de Krishna a Arjuna, Krishna diz: "Eu sou o Tempo (Kāla), o destruidor dos mundos." Kāla é descrito como a força inescapável da destruição e mudança, uma noção semelhante à Segunda Lei da Termodinâmica, onde o tempo conduz à Entropia, motor da transformação do universo. Por este motivo Kāla é frequentemente associado a Shiva, o deus da dissolução cósmica.

O tempo também é transmitido com uma percepção relativística. Nos textos védicos, o tempo é relativo e percebido de maneiras diferentes por diferentes seres. Por exemplo no Vishnu Purana, é dito que um dia e uma noite para os deuses equivalem a um ano humano e no Bhagavata Purana, o tempo passa mais devagar para seres divinos e mais rápido para humanos, uma ideia semelhante à dilatação temporal da Relatividade Geral de Einstein. Esta visão faz do tempo uma entidade que não é absoluta, mas relativa aos planos da Consciência como teia informacional fundamental.

O conceito védico de Kāla como um ciclo eterno e fundamental para a estrutura do cosmos pode ser visto como um aspecto emergente da informação holográfica, onde o passado, presente e futuro estão entrelaçados num padrão maior. Entretanto se Kāla está além da percepção linear, pode indicar que o tempo é um fenómeno emergente, tal como o espaço, como algumas interpretações da física quântica propõem. O conceito de Akasha como um campo informacional atemporal pode estar entranhado com este princípio.

Pressente-se a existência de uma relação profunda entre a noção de tempo, nos conceitos dos Vedas, em Pistis Sophia, com Giordano Bruno, a retrocausalidade de Jung, o tempo einsteiniano e a Ordem Implícita de Bohm. Provavelmente foram beber às mesmas fontes! Newton, a meio deste percurso, vem quebrar esta corrente. No Principia Mathematica, Livro I, afirma: "O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, em si e por sua própria natureza, flui uniformemente, sem relação com qualquer coisa externa."

Isaac Newton, nos Principia Mathematica (1687), introduziu a ideia de que o tempo é Absoluto e Universal, fluindo igualmente para todos os observadores, independentemente de qualquer evento ou movimento, sendo Independente do Espaço ao passar de maneira uniformemente constante e ainda linear e ininterrupto uma vez que não é afectado por forças externas ou pela própria matéria.

A visão de Newton “quebra”, como corte epistemológico, frente às abordagens modernas e antigas por ser determinista, imutável e atemporal na sua essência. Até Agostinho de Hipona via o tempo como uma percepção da mente humana, o que já é um avanço sobre a concepção linear de Newton. Para não falar nos Ciclos Cosmológicos Conformais de Penrose que propõem que o tempo pode ser reconfigurado em escalas cosmológicas (o que parece estar a ser provado pelas observações do telescópio espacial James Webb), rompendo mais uma vez frontalmente com a linearidade de Newton. Não é por acaso que Isaac Newton e, pouco antes, Galileu Galilei introduzem o método científico experimental, essencial mas reducionista por ser eminentemente fisicalista.

Na verdade com Einstein, ao retomar as mesmas indagações, o tempo e o espaço formam um contínuo 4D (espaço-tempo), quebrando a visão de tempo uniforme de Newton. O tempo deixa de ser absoluto e passa a ser relativo ao referencial do observador em que a dilatação do tempo e contracção do espaço ocorrem com velocidades próximas à da luz.

Enquanto Newton vê o tempo como uma "marcha universal", Roger Penrose e muitos físicos contemporâneos percebem o tempo como uma construção contextual, cíclica e até mesmo ligada à Consciência. Percebemos que a colaboração entre Penrose e o Vaticano aponta para uma busca por integrar essas visões aparentemente contraditórias, reflectindo sobre como a eternidade e a temporalidade, podem coexistir numa perspectiva mais abrangente, assunto que os Vedas já tinham resolvido! A grande síntese védica reside na percepção de que tempo e eternidade coexistem. A temporalidade está relacionada com o mundo manifesto, às mudanças e às transformações enquanto a eternidade está ligada ao absoluto, ao imutável, ao núcleo da realidade que é Brahman. Deste modo a manifestação e a dissolução dos Universos ocorrem dentro do tempo cíclico, mas o estado essencial permanece imperturbável e eterno. Os Vedas resolvem a questão da eternidade e da temporalidade ao integrá-las, vendo-as como as duas faces da mesma realidade fundamental. A experiência directa dessa integração é considerada o auge do conhecimento espiritual – o estado de Nirvana.

A dimensão atemporal védica (Brahman) está além da narrativa histórica, assim como o tempo mítico transcende a cronologia. As histórias dos deuses e dos ciclos cósmicos nas escrituras hinduístas, como os Puranas, frequentemente possuem uma estrutura mítica que reforça a ideia do tempo sagrado e repetitivo que dá forma aos ritos repetidos temporalmente. O tempo mítico é uma dimensão temporal que não segue a cronologia linear da história, mas sim um tempo arquetípico, eterno e recorrente. Constitui um tempo que faz parte dos nossos tempos vivenciais do dia-a-dia.

 Mircea Eliade, descreve o tempo mítico como o retorno ao “tempo das origens”, onde os acontecimentos fundamentais são revividos e reactualizados. Assim, no conceito do Eterno Retorno, os eventos míticos não pertencem ao passado histórico, mas acontecem em um “tempo fora do tempo” e podem ser repetidos ciclicamente. O que lhe confere uma sacralidade através de rituais e celebrações muitas delas de carácter religioso, onde os mitos são revividos, ao situarem-se em estados arquetípicos por introdução de uma suspensão temporal que transcende a cronologia comum.

Na experiência humana, o tempo mítico pode ser percebido na exploração de estados de consciência expandida, onde o indivíduo se sente ligado a algo atemporal e universal. Os rituais que recriam mitos são, portanto, uma maneira de experienciar o atemporal dentro da temporalidade. As práticas espirituais que transcendem a mente racional também permitem um “mergulho” no tempo mítico-arquetípico, acedendo a camadas profundas da psique e da Consciência. Portanto, a eternidade e o tempo mítico encontram-se no ponto de confluência onde o espiritual e o simbólico convergem, manifestando uma realidade que transcende tanto a linha temporal quanto a narrativa histórica.

Poderíamos aqui fazer uso da visão de Bohm, por exemplo, onde o conceito de Holomovimento representa uma ordem que se desdobra e se manifesta no tempo linear, mas permanece essencialmente atemporal, uma noção que faz lembrar o tempo mítico como expressão do eterno.

Fig. 1 - Modelo Redutor do Tempo 

O Tempo emerge da fórmula de Schrödinger por efeito

da Entropia ao “colapsar” os feixes das Ondas Piloto transformando a dimensão atemporal (implícita)

em temporal (explícita). Grafismo do autor.


No Tempo concebido como Estrutura Fixa, denominada Blocos do Tempo, o Universo é considerado um bloco 4D onde passado, presente e futuro coexistem. Não há um fluxo temporal real — tudo já está "escrito" no bloco do espaço-tempo e “na sua capacidade para ser dobrado, moldado e distorcido. A teoria de Einstein passou com distinção em todos os testes realizados. O espaço e o tempo estão tão interligados que o que afecta um, afecta o outro. Se o espaço pode ser dobrado, então, o tempo também pode.” (Carlo Rovelli, Tempo, 10 Coisas Que Deve Saber, Penguin Random House Group Editorial, 2024, pp 63).

É na assunção deste princípio que surge o Modelo Redutor do Tempo, que represento na figura 1, e que descreve de forma gráfica o processo da “passagem” da Ordem Implícita ligada à Teia Informacional Fundamental (TIF), não-local, como tal originada em Brahman, para a Consciência Local da incompletude (por falta de Gnosis), a Ordem Explícita. Esta dever-se-á à Segunda Lei da Termodinâmica, a Entropia, presente na “brana” do Tempo Presente, simulador do livre-arbítrio em concordância com a Interpretação de Aharonov, onde os estados futuros influenciam os estados passados, desde que a coerência quântica seja mantida. No nosso caso seria mantida pelo processo de correcção quântica de erros, similar àquela dos Cristais Temporais Quânticos, que já defendemos noutro texto. Alguns casos experimentais perfilam-se na confirmação desta assunção, como aqueles da Experiência da Escolha Retardada de Wheeler ou ainda a Experiência de Delayed-Choice Entanglement, dos quais já fizemos amplas referências. Também poderíamos chamar a atenção para o Princípio da Autoconsistência de Novikov que estabelece que se existe um acontecimento que possa causar um paradoxo ligado à alteração do passado, então a probabilidade que ele ocorra é zero. E acrescentaríamos: precisamente devido ao processo de correcção quântica de erros!

Na medida em que cada parte da teia (TIF) pode conter informações sobre o todo de maneira holográfica, podemos fazer derivar aquele conceito védico de Akasha, assumido na forma exotérica como um “armazém” de informações, que no entanto podem ser acedidas de acordo com níveis hierárquicos diferentes dependendo de estados de Consciência, uma vez que correspondem a diferentes camadas da estrutura fractal do Universo. O Eterno Retorno manifesto nos rituais e expresso em todas as mitologias seria o plasmar material do pressentido arquétipo.

O Tempo seria um fenómeno emergente – o Tempo Termodinâmico que torna evidente o papel da Entropia, defendido por Carlo Rovelli, proveniente daquelas oscilações quânticas da “espuma de spins” do Espaço. Daí a sua interligação forte e indissociável, traduzida em modo local da Ordem Explícita, dada a conhecer como espaço-tempo e Entropia (Holomovimento ou uma espécie de vector Dhármico védico?).

Nos Vedas, especialmente em textos como os Upanishads e no Bhagavad Gita, o tempo também possui um aspecto imóvel, um bloco informacional eterno com o conceito de Brahman. A realidade última, atemporal e imutável, abarcando todos os tempos de uma só vez e em que a realidade manifesta – o tempo presente momentâneo que passa rapidamente a passado (ambos são Maya) e que se desenrola ciclicamente. Mas a verdade essencial está além do fluxo temporal, uma atemporalidade fundamental da existência, a ideia de que o tempo é apenas uma percepção relativa e não uma mudança real na essência última.

"A alma não nasce nem morre, nem, uma vez tendo existido, deixará de existir. É não nascida, eterna, permanente e primitiva; não é morta quando o corpo é morto.", Bhagavad Gita (2.20).

Assim como no conceito Bloco do Tempo, onde os eventos estão todos “presentes” de uma só vez, também na tradição védica, o tempo cósmico é repetitivo e eterno, de modo que a manifestação e a dissolução são simultâneas em níveis diferentes da realidade. O conceito de Mahakalpa (ciclo de criação e destruição cósmica) abarca uma eternidade de éons em que os ciclos menores – como se fossem “blocos”, são parte de uma estrutura eterna e fixa. A percepção da passagem do tempo e das transformações é atribuída à mente (Manas - Kama Manas) e à ilusão de Maya, enquanto a Consciência pura (Atma) permanece imutável e atemporal. Aqui a Consciência, numa visão integrada com o observador, percorre os “blocos” dentro do Bloco do Tempo, também visto como estrutura imutável e eterna da realidade (Brahman) - a estrutura fractal e holográfica, afinal a origem do conceito de Karma e Samsara, onde o indivíduo, ao não reconhecer a eternidade da Consciência, fica preso ao fluxo temporal ilusório.

"Aquele que conhece o Imutável, que está além do tempo e da mudança, não é tocado pela ilusão da morte. Pois aquilo que é eterno não pode ser destruído, e aquele que conhece o eterno vive na luz do conhecimento.", Mundaka Upanishad 2.2.7.

Esta integração entre ciência e filosofia impele-nos a considerar que a realidade última transcende tanto o tempo quanto o espaço (porque estão indissociavelmente ligados), enquanto a percepção de mudança e linearidade é um fenómeno iminentemente local ligado à Consciência enquanto apropriada (ou partilhada?) pelo observador e aos seus consequentes níveis de percepção.

"Aquilo que é imutável, imperecível, eterno, que não nasce nem morre, que é o próprio ser da consciência — este é o Brahman. Os sábios que conhecem esta verdade transcendem o fluxo do tempo e alcançam a eternidade.", Katha Upanishad 2.18.

Podemos aprofundar a relação entre Entropia e o conceito de Holomovimento de David Bohm a partir de uma perspectiva de dinâmica da informação e das Ordens Implícita e Explícita.

Como atrás constatámos, o Holomovimento é a ideia de que o Universo é uma totalidade indivisível em constante movimento e transformação, onde nesse movimento contínuo, existem aquelas duas Ordens, uma desdobrando-se da outra. A Entropia, na termodinâmica e na teoria da informação, mede a desordem ou incerteza de um sistema. Enquanto na física clássica, aquela está relacionada com o aumento da desordem em sistemas isolados, porém na teoria da informação, mede a quantidade de informação desconhecida ou incerta. O processo de desdobramento da Ordem Implícita para a Ordem Explícita pode ser visto como um movimento de aumento de Entropia. Ou seja, a Ordem Implícita contém a potencialidade pura, que é altamente ordenada e correlacionada, mas que ao manifestar-se na Ordem Explícita, vai induzir a um aparente aumento da Entropia, pois as relações “ocultas” tornam-se aparentemente caóticas ou desordenadas. Como se fossem assumidos véus!

Analogamente, poderíamos comparar a outros fenómenos naturais, nomeadamente a um holograma codificado que contivesse informações completas, mas que, ao ser projectado, cria padrões fragmentados e distribuídos, ou ainda ao caso da energia potencial altamente ordenada que se transforma em calor disperso (alta entropia). O Holomovimento carrega informação quântica global, mas quando ocorre o desdobramento para a Ordem Explícita, a informação distribui-se, aparentando desordem e fragmentação. Neste contexto, surge o conceito de Entropia Quântica que representaria a perda de correlação e coerência à medida que a Realidade se vai manifestando como fenómeno explícito, podendo ser interpretado como um processo de decoerência ou de colapso, onde a Ordem Implícita altamente correlacionada se fragmenta em partes não correlacionadas, gerando o fenómeno entrópico.

Outra ligação, esta cosmológica, pode ser feita à própria natureza dos Buracos Negros. Bohm também sugeria que a Ordem Explícita pode ser reabsorvida na Ordem Implícita, assim como um movimento de retorno ao estado de maior coerência, sugerindo que o aumento da entropia não é um processo irreversível num contexto holonómico, mas parte de um ciclo contínuo de manifestação e dissolução, lembrando o conceito de um Universo em que a informação supostamente perdida nos Buracos Negros, afinal não é destruída, mas reabsorvida pela Ordem Implícita, noutra dimensão temporal. Uma clara similitude aos textos védicos dos ciclos em éons dos processos de Manvantaras e Pralayas ou da teoria cosmológica conformal de Roger Penrose.

Esta relação entre Entropia e Holomovimento reflecte porém algo tido como paradoxo. Se por um lado a desordem aparente (alta entropia) da Ordem Explícita é, na verdade, uma manifestação parcial de uma ordem oculta mais profunda e coerente, por outro lado, o aumento da Entropia corresponde ao desdobramento do Holomovimento, e a sua redução poderia ser vista como um recolhimento ou regresso na Ordem Implícita – algo semelhante ao conceito de Nirvana ou a um sistema Samsara. Neste caso, reforçaria a ideia de que a Entropia não é apenas a perda de ordem, mas sobretudo uma dinâmica entre o explícito e o implícito. A estrutura fundamental permanece ordenada, mas a manifestação pode aparentar caos e fragmentação (tal como é revelado em Pistis Sophia). Esta abordagem leva à ideia de que o aumento de Entropia no Universo não é um simples movimento em direcção ao caos, mas um processo dinâmico de revelação e ocultação cíclica de uma ordem subjacente, que é sempre preservada no nível holonómico. Unificam-se conceitos ancestrais como Dharma, Nirvana, a Roda de Samsara e coloca-se a Entropia Quântica num contexto de centralidade de acção para justificar cientificamente a quantização do espaço-tempo e a gravidade como resultado explícito.

Assim a Termodinâmica que defende a irreversibilidade da desordem num sistema fechado e a Mecânica Quântica que defende a reversibilidade do fluxo de informação e do tempo, ultrapassadas estas duas contradições, seriam os dois pilares da física moderna integrando a explicação cabal da Realidade. O gráfico que aqui apresentamos, tenta mostrar de forma intuitiva o que propomos.

Naquele gráfico referimos de passagem que a equação de Schrödinger mostra que o tempo está intrinsecamente relacionado à evolução da função de onda e que a dinâmica quântica é descrita como uma oscilação complexa. A presença do tempo implica que o estado quântico está sempre em mudança — excepto em casos estacionários, onde a solução independente do tempo é usada.

Vamos então supor que a equação de Schrödinger pode ser reinterpretada no contexto do Holomovimento de David Bohm e das Ordens Implícita e Explícita.

Imaginemos a função de onda quântica como uma expressão matemática do Holomovimento, reclassificando as ordens. Assim, a Ordem Implícita estaria associada à estrutura complexa e correlacionada da função de onda no espaço de configurações, enquanto a Ordem Explícita emergia como a manifestação aparente das probabilidades ou eventos observáveis (por via do quadrado da função de onda: Ψ2).

A equação de Schrödinger pode ser escrita de duas maneiras principais: a forma dependente do tempo e a forma independente do tempo. Por razões óbvias vamos utilizar a primeira.

Onde:

𝑖 = unidade imaginária (−1 ou raiz quadrada de -1);

= constante de Planck reduzida;

Ψ(r,t) = função de onda (dependente da posição 𝑟 e do tempo 𝑡) que codificará tanto a ordem implícita quanto a explícita;

∂Ψ/∂t = derivada parcial da função de onda em relação ao tempo;

𝐻 = operador Hamiltoniano (representa a energia total do sistema, cinética e potencial) que conterá os padrões manifestos da Ordem Explícita.

O tempo aparece na derivada parcial temporal ∂Ψ/∂𝑡, que expressa como a função de onda muda ao longo do tempo. Isso significa que a função de onda evolui de forma dinâmica, e que a equação descreve essa evolução. O tempo não está incluído directamente no Hamiltoniano (que contém a energia cinética e potencial), mas a evolução temporal da função de onda é determinada pela interacção entre o Hamiltoniano e o termo temporal.

Podemos dividir a função de onda como uma soma ou superposição de componentes que representam diferentes aspectos da Ordem Implícita e da Ordem Explícita. Assim teremos:

Em que ψ i (r) são as Funções espaciais que representam padrões potenciais da Ordem Implícita.

e 𝜙𝑖(𝑡) são as componentes temporais que representam a manifestação da Ordem Explícita ao longo do tempo.

Apliquemos então o desdobramento com a evolução temporal:

A derivada temporal ∂Ψ/∂𝑡 representa o processo de desdobramento contínuo do Holomovimento, onde os padrões ocultos tornam-se explícitos. Podemos imaginar então que o Holomovimento é intrinsecamente dinâmico, onde a função de onda é actualizada continuamente, integrando as Ordens Implícita e Explícita e que a evolução da função de onda está ligada ao fluxo de informação e coerência quântica — afinal um reflexo da passagem da Ordem Implícita (potencial) para a Ordem Explícita (fenomenal).

Consideremos a fase da função de onda como Ordem Implícita. Então, a fase complexa da função de onda, é dada por:


Onde:

𝑅(𝑟,𝑡) é a amplitude da Ordem Explícita (probabilidade).

𝑆(𝑟,𝑡) é a fase ligada à Ordem Implícita (estrutura de potencialidade).

Deste modo, a fase contém uma informação oculta e correlacionada, que, quando "desdobrada" no espaço-tempo, torna-se a manifestação que observamos.

Na interpretação de Bohm, o potencial quântico influencia a partícula, mesmo sem um Campo clássico, reforçando a ideia de que o potencial quântico actua como um elo entre a Ordem Implícita e a Ordem Explícita, orientando o comportamento sem que seja directamente observável. Então a não-localidade associada ao potencial quântico passa a ser um reflexo da Ordem Implícita, transcendendo a separação espacial.

Podemos agora antever uma equação modificada para o Holomovimento, uma generalização onde o termo de fase da função de onda interage com um Campo representando o fluxo do Holomovimento:

Onde 𝑉ℎ𝑜𝑙 (𝑟,𝑡)​ representa um potencial holonómico que codifica a ligação entre as Ordens Implícita e Explícita, modulando assim a dinâmica.

Agora a equação de Schrödinger, passa a ser reinterpretada sob a perspectiva do Holomovimento, descrevendo uma evolução contínua entre as dimensões da Realidade — da potencialidade implícita para a manifestação explícita. Ali a função de onda não representa apenas uma distribuição probabilística, mas também um campo holonómico dinâmico que reflecte a interacção entre os dois níveis daquela Realidade. Também ultrapassa a Relatividade einsteiniana que é determinística e não-probabilística, dado que a sua formulação relativística é não-estocástica e considerada como uma teoria “acabada” em termos da sua conceptualização.

Como vimos, a Relatividade Geral de Einstein é determinística e contínua, descrevendo o espaço-tempo como uma variedade geométrica suave. Por outro lado, a mecânica quântica é intrinsecamente probabilística e discreta (em termos de quantização de estados). No entanto a abordagem de Bohm, com sua onda piloto, tenta de algum modo reconciliar o determinismo com a mecânica quântica, mas ainda depende de uma estrutura de fundo estática — algo que contrasta com a dinâmica do espaço-tempo da Relatividade Geral. A introdução do conceito de Holomovimento de Bohm oferece, no entanto, uma perspectiva mais dinâmica e fluida da realidade, uma vez que a Ordem Implícita está além da causalidade linear e da descrição espaço-temporal clássica, e a Ordem Explícita surge como um fenómeno local, mas guiado por uma estrutura global não local.

Será que o Holomovimento transcende as limitações do conceito clássico de espaço-tempo? Para conciliar o Holomovimento com a Relatividade, devíamos considerar aquela como um Campo Holonómico Dinâmico, ou seja um Campo subjacente que modula o espaço-tempo local, actuando como um campo geométrico fundamental - a ideia de “espuma de spins” para o espaço-tempo, associado à sua curvatura, mas com uma componente informacional dinâmica. Para tal, teríamos que Incorporar um potencial quântico dinâmico às equações da Relatividade Geral:

Onde   representaria um tensor de energia-momento quântico holonómico, e depois usar uma equação de Schrödinger relativística modificada, com um termo que inclua a dinâmica do campo holonómico:

Em que ם  é o operador d’Alembertiano que reflecte a estrutura do espaço-tempo.

Daqui se extrai a conclusão de que a não-localidade quântica não seria uma violação na Relatividade, mas sim um reflexo da inter-conectividade holonómica que permeia o espaço-tempo, acrescentando que a não-localidade quântica não ocorre dentro do espaço-tempo, mas por meio dele, como se as ligações fossem curvaturas informacionais em uma estrutura superior. Por outro lado. Poderia também concluir-se que o tempo e a causalidade seriam efeitos emergentes dessa rede holonómica mais fundamental – a Teia Informacional Fundamental (TIF).

Esta proposta de uma equação holonómica relativística poderia, então, ultrapassar o paradigma estocástico actual ao reintegrar o tempo como uma dimensão fluida e interligada, incorporando os Campos Informacionais que transcendem o espaço-tempo clássico e mantendo a coerência global como uma propriedade geométrica do próprio Holomovimento.

Finalmente, seria um modelo de unificação teórica que transcende tanto o modelo quântico convencional quanto a Relatividade clássica, propondo uma Realidade em que o tempo, o espaço, a não-localidade e o emaranhamento são aspectos de uma ordem mais profunda e implícita, como sempre temos defendido em variados textos.

Inclusivamente este Modelo de Geometria Informacional, é reconhecível no conceito transmitido pelos textos védicos e hinduístas como o Campo Akáshico. Basta para tal pensar na Teia Informacional Fundamental (TIF) como um Campo geométrico subjacente que permeia toda a realidade. Uma “geometria” simples baseada na superfície mínima possível – o triângulo, reproduzido tridimensionalmente como uma “espuma”. Não seria por acaso que na física, as estruturas triangulares aparecem frequentemente dando forma às redes cristalinas e em modelos de triangulação dinâmica, como na gravidade quântica em laços e na teoria das redes de spin. É sabido que a simetria triangular favorece a formação de redes interligadas, expansíveis tridimensionalmente, formando estruturas poliédricas ou teias de grafos interligados. Daí a nossa proposta de aplicação do Triângulo de Pascal (feita noutro texto), dado que configura uma estrutura interessante de coeficientes binomiais, que podem introduzir pesos de conexão entre os vértices, são geradores de amplitudes de probabilidade, e formam cadeias de números combinatórios que podem estar associados a estados quânticos superpostos e a séries de momentos angulares ou spins, cujas combinações levam à formação dos padrões geométricos verificados matematicamente. Como seria edificada esta estrutura?

 

Fig. 2 – Representação gráfica do campo informacional com estrutura triangular e interconexões angulares, concebida por IA com base nos conceitos de Holomovimento e Teia Informacional Fundamental (TIF).


Uma possibilidade seria a cada triângulo básico da teia informacional atribuir um estado fundamental, com os vértices associados a Momentos Angulares Intrínsecos ou spin. Cada vértice possuiria um valor de spin associado (𝑠=1/2, 1, 3/2, …). Por outro lado, os Momentos Angulares Orbitais (L), seriam as ligações entre os vértices que representariam momentos orbitais, formando estruturas angulares tridimensionais, e a Correlação Angular Magnética seria constituída pelos Momentos Angulares interagindo de forma que a orientação de um triângulo afectasse os vizinhos, originando assim uma teia coerente mas elástica.

Podíamos então laborar sobre uma Equação de Estado para o Campo Informacional Fundamental (TIF), propondo uma função de onda holonómica triangular, considerando a coerência global como sendo o somatório das fases angulares, dada por:

Onde teríamos:

 ψi  representando a amplitude de probabilidade associada ao triângulo 𝑖;

𝜃𝑖  a fase angular gerada pela soma dos momentos angulares e spins nos vértices.

Assim, a função de onda global poderia ser vista como uma rede de fases inter-ligadas, em sede das quais as mudanças locais num triângulo desencadeariam ajustes angulares nos vizinhos, dando à teia uma coerência global, garantindo uma transmissão não-local e instantânea das informações. A não-localidade quântica poderia ser reinterpretada como uma reorganização angular na TIF, com a transmissão de coerência ocorrendo através de variações geométricas subtis – a elasticidade como propriedade intrínseca.

A relação com o modelo de Bohm torna-se perfeita e implicaria apenas que a Ordem Implícita corresponderia às potencialidades das configurações angulares e a Ordem Explícita surgiria como padrões estáveis ou quase estáveis das orientações triangulares. O Holomovimento seria a actualização contínua da teia angular, movendo as fases conforme as interacções ocorressem, um corrector perfeito de erros quânticos, tais como os processos que decorrem nos cristais temporais quânticos.

Deste modo a ideia central residiria em atribuir à Ordem Implícita a natureza de um Campo de informação coerente, que se actualiza continuamente conforme as interacções ocorrem, e os fenómenos da não-localidade quântica e do emaranhamento quântico serem compreendidos como uma mudança topológica desse campo informacional, que conecta estados distantes em uma malha holonómica global. Seria a instantaneidade tão constatada nos processos quânticos. Este modelo geométrico utilizaria uma variedade de informação com métrica que muda conforme a densidade da correlação quântica. Só assim se poderia explicar as ligações não-locais instantâneas, então concebidas como distorções na estrutura informacional e as respectivas mudanças de coerência como variações na sua “curvatura”.

Esta modelagem topológica da TIF plasmaria uma rede tridimensional de tetraedros interconectados, onde cada triângulo básico seria uma face de um tetraedro, com cada vértice representando um estado de spin e as respectivas ligações entre triângulos garantes de uma malha topológica de fluxo, que evolui conforme os estados quânticos locais mudam.

"Assim como as teias de uma aranha surgem dela e nela se recolhem, assim também brotam do Eterno os mundos e nele se dissolvem.", Mundaka Upanishad (II.2.5).

Expressa claramente a ideia de que toda a estrutura do Universo — incluindo as ligações e teias que sustentam a realidade — emerge de uma fonte unificadora e para ela retorna. Vemos uma correspondência directa com a ideia do Holomovimento, onde o Campo quântico informacional fundamental (a TIF), se manifesta como uma teia dinâmica de conexões triangulares ou tetraédricas que emergem do campo Akáshico (visto como memória informacional) e retornam a ele conforme a coerência global muda (os níveis de Consciência).

"Cada pessoa é, ao mesmo tempo, o centro e a circunferência; a estrutura e o fluxo da realidade entrelaçam-se como uma tapeçaria infinita, onde cada fio está em conexão com todos os outros.", Aldous Huxley, As Portas da Percepção, (1954).

Huxley manifesta aqui a inter-conectividade da Consciência e da Realidade, na visão de uma tapeçaria cósmica que transmite a nossa ideia da TIF e de uma dinâmica que ultrapassa a localidade.

"O tempo é a eternidade disfarçada de sucessão".

Esta frase da Filosofia Perene (1945), também faz recordar o conceito dos Upanishads, a coexistência do tempo cíclico e a eternidade imutável, anos depois retomada na exploração científica do Holomovimento de David Bohm, onde a Ordem Explícita (a realidade material) e Implícita (a Realidade fundamental) desdobram-se de forma contínua.

 

"Há em tudo qualquer coisa de absoluto,

Que se não compreende, mas se vê

Que é a trama da essência de onde tudo é tecido."

 

Fernando Pessoa, in Fragmentos Poéticos

 

Assim se estabelecem possíveis diálogos entre a ciência, a poesia e a sabedoria ancestral.

 

 

      João Porto e Ponta Delgada, 2 de abril de 2025

quarta-feira, 26 de março de 2025

Os Tattvas, Platão e Bohm – o fio da meada

 



"O Universo inteiro é uma emanação da suprema Consciência (Cit), vibrando em diferentes níveis de manifestação."

Tantrāloka de Abhinavagupta

 

RELAÇÕES INTEMPORAIS

 

Encontrámos ligações entre a cosmologia esotérica dos 36 Tattvas da tradição do Shaivismo da Caxemira com a estrutura do Modelo Padrão da Física das Partículas, em particular aos estados quânticos dos Quarks (que por coincidência também são 36), assim como correspondências que se estendem também aos conceitos cosmogónicos presentes no Budismo, Taoismo e Hinduísmo.

Contudo a ideia em torno de Tattvas correspondente ao número e qualidade dos seus componentes não apresenta convergência de opiniões nas múltiplas escolas de filosofia hinduísta, da filosofia do Hata-yoga ou da Tântrica com os seus Chacras. No entanto vamos ater-nos, pela sua complexidade e completude, às filosofias Samkhya com 25 Tattvas e ao Shaivism com os seus 36 Tattvas ou ainda a escola Shaktya e diversos Rishis, como Agastya, Durvasa e Parashurama.

 

Com os Tattvas, se tivermos em consideração que representam os princípios fundamentais da manifestação da realidade, desde a Consciência Absoluta até a matéria bruta, acreditamos poder estabelecer uma relação análoga com os blocos fundamentais da matéria e com as suas interacções definidas pela Cromo Dinâmica Quântica, expressas nas “partículas” elementares conhecidas por Quarks, cujas propriedades (“cor” e antipartículas) dão forma a esta relação, e às quais, mais adiante, daremos maior atenção.

O Modelo Padrão das Partículas, cuja estrutura geral aprofundaremos, em particular aquela dos 36 estados dos Quarks, incute-nos a ideia da existência de padrões, talvez evidenciando a expressão da natureza nos seus arquetípicos, que são possíveis de reconhecer nas tradições esotéricas e que parecem incluir tanto a triplicidade dos Quarks como reflexo das trindades universais (Trimurti, Trikaya, Gunas), como também o aspecto da dualidade expresso na relação partícula versus antipartícula representada pelos Antiquarks. Dualidade sempre presente no Yin-Yang Taoista, em Shiva-Shakti (Consciência Absoluta – energia dinâmica) do Tantrismo, bem como ainda na estrutura hierárquica dos Tattvas, que, como veremos, corresponderiam ao princípio holográfico e fractal na física.

Em particular a hierarquia própria da fractalidade surge também na estrutura dos Tattvas ao descreverem a manifestação progressiva da consciência até a matéria, princípio que também pode estar relacionado com o princípio holográfico e com a teoria da informação quântica.

Estas hierarquias são também manifestas noutros contextos do Budismo e do Hinduísmo na concepção das Mandalas ou na Cabala com a estrutura de duas vias dos 10 Sephirots da Árvore da Vida, que também representam a descida da Consciência do infinito (Ain Soph) até o mundo físico, tal como os Tattvas descrevem o processo de emanação e condensação da realidade suprema.

O aspecto dualístico, encarado como polaridades complementares, dado que a manifestação surge da interacção de duas forças complementares, também é uma característica fundamental dos Quarks com a existência das suas antipartículas.

Por outro lado, a característica da triplicidade estende-se a um conceito universal formatando uma trindade presente em todas as cosmogonias e teogonias. A existência de três “cores” para os Quarks (vermelho, azul e verde), reflecte aquele conceito presente em diversas tradições esotéricas. Em várias cosmologias, a realidade manifesta-se em três princípios fundamentais. No Trikaya do Budismo Mahayana, as três componentes são representadas respectivamente por Dharmakaya, o Corpo da Lei ou a realidade última, similar ao vácuo quântico, por Sambhogakaya, o Corpo de Glória, um nível intermediário, semelhante às interacções fundamentais, e pelo Nirmanakaya, o Corpo de Manifestação, o nível denso, congénere da matéria.

Também no Hinduísmo temos o Trimurti com Brahma (criação), Vishnu (preservação) e Shiva (destruição e transformação), equivalentes aos três Gunas com o Sattva (equilíbrio, clareza, ordem), Rajas (energia, movimento, criação) e Tamas (inércia, resistência, destruição). Poderíamos até estender este conceito à própria Alquimia e ao Hermetismo, onde o Enxofre representa o princípio activo, espírito, fogo, energia vital; o elemento Mercúrio o princípio intermediário, mente, transmutação e o Sal o princípio material, corpo, cristalização.

A triplicidade dos Quarks parece seguir a manifestação deste padrão universal. Assim como as trindades esotéricas representam as forças básicas da criação, as “cores” dos Quarks são fundamentais para a organização da matéria, pois elas ditam a estrutura dos Hadrões através da Força Nuclear Forte operada pelos Gluões.

A aparente correspondência entre os Tattvas e os estados dos Quarks não é apenas numerológica, o 36 está presente em muitas tradições exotéricas (1), mas pode reflectir um princípio mais profundo de estruturação da realidade. Os Tattvas descrevem a transição da Consciência para a matéria, enquanto os estados dos Quarks descrevem os blocos fundamentais da matéria que estão na base das características dos átomos de todos os elementos da Tabela Periódica. Se a Consciência e a Informação são fundamentais na estrutura da realidade, pode então indiciar que a organização do mundo físico segue padrões arquetípicos semelhantes já antevistos e descritos nos sistemas esotéricos antigos.

De uma forma genérica, os Tattvas desdobram-se hierarquicamente em três categorias, onde a realidade emerge gradualmente da pura Consciência em direcção à matéria manifesta. Os Tattvas, como blocos estruturantes do Universo, possuem uma hierarquia própria. Desenvolvem-se em três grandes fases: a corrente Para-Shiva ou dos 5 Tattvas Puros, a corrente Para-sakti ou dos 7 Tattvas Puros-Impuros e a corrente Asuddha dos 24 Tattvas Impuros.

A primeira categoria, de 1 a 5, envolve os níveis transcendentais, relacionados com a Consciência pura e ao Absoluto (designada como Parashiva), que em Platão é referido como o Nous.

Estes 5 Tattvas “puros”, representam a criação não-dualista saída directamente do Parabrahman, o “Grande Alento” ou do Uno – o Absoluto. São nomeadamente, formando a corrente Para-shiva ou Suddha, o Shiva-tattva ou Consciência e o Shakti-tattva ou Conhecimento (Informação), da união dos quais vão surgir posteriormente o Sadasiva-tattva ou Entendimento, representando o princípio Tamas, Isvara-tattva ou Desejo, representando Rajas e o Suddha vidya-tattva ou o Entendimento-Desejo, o equilíbrio Sattva. De novo em acordo total com o princípio dos Gunas, ciclo motor do equilíbrio e da renovação constante dos Trigunas. 


Figura 1 – Tattvas Puros: a partilha de Shiva-Sakti e o ciclo Triguna

 

A segunda categoria, de 6 a 25, abrange os níveis da mente e da causalidade e incluem os aspectos mais subtis da mente, intelecto, ego e ainda os princípios da percepção ou a Psiké em Platão.

Do Sakti-tattva surgem outros 6 Tattvas geradores da corrente Para-sakti ou Suddha-Asuddha, “puros-impuros” ou elementos de transição, nomeadamente Maya, Kãla, Niyati, Raja, Vidya, Kalã que significam respectivamente os limites impostos definidos pela Ilusão (Maya), surgida de constrangimentos derivados da limitação temporal, e da limitação espacial (o aparecimento do espaço-tempo), e ainda o “desejo” como limitação, o “saber” limitado e o “poder” limitado (constrangimentos próprios dos Estados Informacionais).


Figura 2 – Tattvas do processo de transição.

 

Nesta cascata de desdobramentos de princípios, dos mais elementares e subtis em direcção aos mais densos, e finalmente á matéria, ainda existem outros 24 Tattvas, os “impuros”, geradores da corrente Asuddha, estes já ligados de forma directa ao mundo material (que fazemos corresponder ao domínio dos Fermiões do Modelo Padrão), fazendo parte também dos atributos da esfera animal e humana. São eles, Purusa-tattva (a alma individual) que ainda faz parte dos 6 Tattvas da corrente anterior mas inserida em Prakrti-tattva (a energia da alma), Buddhi-tattva (a inteligência ou intuição), Ahamkara-tattva (o falso ego) e Manas-tattva (a mente) onde os últimos 3 evoluem ciclicamente entre si de forma equilibrada e renovada, onde Budhi é Sattva, Purusa é Tamas e Manas é Rajas, sempre de acordo com o princípio basilar dos Trigunas.

Figura 3 – Gráfico dos Trigunas da corrente Asuddha.

Suportam as famílias de electrões e neutrinos com as suas 3 variantes de massa crescente.


Outros Tattvas existem para além destes já enunciados, mas já em estreita correspondência aos aspectos físicos (do 17 ao 26), aos aspectos psico-somáticos e da sensibilidade animal (do 27 ao 31) e, aos aspectos do próprio estado da matéria - do 32 ao 36, onde estão incluídos o “éter” ou espaço também designado por Akasa, o “fogo” ou plasma, o “ar” ou gás, a “água” ou o liquido e “terra” ou o sólido.

Assim, a terceira categoria, de 26 a 36, revela os níveis da manifestação material e representam os cinco elementos físicos (terra, água, fogo, ar e éter) e depois os órgãos dos sentidos e de acção. Em Platão será Soma.

Figura 4 - Trigunas, onde o Círculo representa o Universo e o ponto central, a singularidade, o Uno.

Similitude com o conceito Taoista Yin-Yang.

 

Do ponto de vista cosmológico actual, as duas primeiras fases representam a criação do Universo aos 10-6 segundos, a fase do Condensado Bose-Einstein dos Inflatões e depois do plasma Quark-Gluão (QGP). Este resultado advém da complementaridade do par Shiva-Shakti, o campo quântico da Consciência/Informação (de acordo com o Princípio de Landauer?) do qual emana a “Luz” (Shakti) ou o Campo Granular do Espaço-Tempo (em consonância com a actual Teoria da Gravidade Quântica em Loop), interferindo com Prakriti (matéria) através do Antakarana (matéria inercial ou o Campo de Higgs), gerando o “movimento” (ou seja a Gravidade) e a forma (mahat ou o Campo quântico Antrópico Holo-Mórfico) que mantém a harmonia e a ordem no Universo através dos ciclos dos Trigunas.

Os 36 Tattvas, na sua descrição aprimorada, lançam um véu que encobre outros significados. Interessante verificar que os 36 estados dos Quarks assumem designações, como veremos mais à frente, que se aproximam espantosamente da nomenclatura dos Tattvas, mas também dos princípios axiomáticos surgidos com a evolução posterior desencadeada com os processos conhecidos da Bariogénese e da Nucleosíntese. Refiro-me em particular aos véus da segunda fase com o surgimento do Espaço-Tempo e com ele a “separatividade” com o espaço vazio (vácuo), a causalidade e a temporalidade e por consequência a relatividade do tempo e do espaço.

A terceira fase volta a falar-nos da Constituição Septenária nas suas duas componentes: o ternário e o quaternário, unidos pelo Antakarana que fazemos corresponder ao Campo de Higgs na física quântica.

Esta fase desdobra os princípios base em 4 modelos (do 17 ao 36), a saber, os “Rhizômata”, revelando aspectos sensoriais e psico-somáticos, e ainda o modelo relativo aos estados da matéria, seja através da filosofia Yogue e da Tântrica, esta última sob a forma de rituais e preceitos que se vão estender até à medicina Ayurvédica com os seus três tratados fundamentais, Caraka Samhita, Susruta Samhita e Astanga Hridayam.

Serão nomeadamente 4 modelos:

Primeiro modelo (17 a 21) - 17. A Sabda ou Audição; 18. Sparsa ou Tacto; 19. Rupa ou Visão; 20. Rasa ou Paladar; 21. Ghanda ou Olfato, formam os cinco sentidos;

O segundo modelo (22 a 26) - 22. Vak ou Linguagem; 23. Pani ou Manipulação; 24. Pada ou Deambulação; 25. Payu ou Evacuação; 26. Upastha ou Procriação, constituem os actos motores-sensoriais;

O terceiro modelo (27 a 31) - 27. Srotra ou Som; 28. Caksu ou Cor; 29. Tvak ou Forma; 30. Rasana ou Sabor; 31. Ghrana ou Odor, formam os cinco elementos das vibrações sensoriais;

Quarto modelo (32 a 36) - 32. Akasa ou Éter ou espaço; 33. Vayu ou Ar ou estado gasoso; 34. Tejas ou Fogo ou plasma; 35. Jala ou Água ou estado líquido; 36. Prithvi ou Terra ou estado sólido, formam os cinco estados da matéria.

 

A relação entre a hierarquia dos Tattvas e o conceito platónico de Nous (Intelecto Divino), Psiké (Alma) e Soma (Corpo) pode ser compreendida a partir da ideia da emanação da realidade, em que a Consciência se desdobra em diferentes níveis de existência. Tanto no Shaivismo da Caxemira quanto na filosofia platónica, encontramos uma estrutura que descreve a manifestação progressiva da realidade, indo do Absoluto até a matéria.

Platão e os neo-platónicos descrevem três níveis fundamentais da existência, começando pelo Nous (Νοῦς), ou o Intelecto Divino, que representa a realidade suprema, a fonte primordial da inteligência cósmica e da ordem. No neo-platonismo, é equivalente ao Uno de Plotino ou ao Mundo das Ideias de Platão, enquanto no Hermetismo, é identificado com a Mente Universal ou Logos.

Depois temos Psiké (Ψυχή) ou a Alma, o elo entre o Nous e o Soma, ou seja, a ponte entre a inteligência pura e a manifestação material. A alma recebe a influência do Nous e molda a realidade sensível. Nos mistérios órficos, a Psiké passa por um ciclo de purificação, também hierárquica, até retornar ao Nous.

Finalmente Soma (Σῶμα) ou o Corpo, representa o nível da matéria densa e do mundo fenoménico, sendo a expressão mais concreta da existência, onde as formas se tornam visíveis. No platonismo, o corpo é visto como uma prisão para a alma, pois a matéria limita a percepção directa do Nous.

Podemos então estabelecer as devidas correspondências entre estes dois sistemas hierárquicos:



Daqui se depreende que a relação entre os Tattvas e os conceitos platónicos de Nous, Psiké e Soma revela uma estrutura comum que descreve a manifestação da realidade a partir da Consciência pura, sugerindo também que a metafísica de Platão e o Shaivismo da Caxemira convergem em uma visão holística do universo, onde a realidade é informacional, hierárquica e estruturada em níveis interdependentes.

 

Entretanto esta hierarquia revela alinhamentos conceptuais com os conceitos mais recentes da Física. Podemos estabelecer as seguintes correspondências:

 

Nous, transforma-se no Campo Quântico Informacional, a “Ordem Implícita” de David Bohm (2). O nível fundamental da realidade é um Campo de pura Informação, que organiza a manifestação física, ao passo que Psiké integra-se com os níveis intermediários da Informação representados pelos fenómenos quânticos do Colapso de Onda ligados ao papel do observador. Neste caso, assim como os Tattvas intermediários formam a mente e o intelecto, a interacção do observador com o sistema quântico molda a experiência da realidade.

Finalmente, Soma sendo a matéria ou as Partículas Elementares, onde o mundo físico emerge a partir da informação contida no campo quântico subjacente, do mesmo modo os Tattvas mais densos representam os elementos brutos, a matéria visível que é apenas uma expressão da realidade mais profunda por via holográfica.

Em conclusão, esta perspectiva, aprofundada em estreita relação com a teoria da informação quântica e a holografia cósmica, faz com que o Nous se assemelhe ao Campo informacional fundamental, a Psiké à estrutura organizadora da realidade, e o Soma à expressão fenoménica da matéria.

 

Antes recorremos a David Bohm e à sua “Ordem Implícita”, dado que este físico teórico propôs que a realidade não é apenas o que percebemos directamente (a "Ordem Explícita"), mas sim que existe um nível mais profundo e invisível de organização (a “Ordem Implícita”). De facto este conceito sobre a estrutura da realidade ganha similitudes com as ideias platónicas e neo-platónicas. A relação entre a “Ordem Implícita” de David Bohm e a estrutura Nous-Psiké-Soma de Platão (também, como veremos de seguida, com a hierarquia dos 36 Tattvas) pode ser entendida também pela visão holográfica e informacional da realidade, em que a Consciência e a matéria emergem de um Campo mais profundo e unificado.

No argumento de Bohm a realidade emerge de um Campo mais profundo de informação e potencialidade, idêntico à visão de Platão do Nous como sendo a fonte das Ideias Eternas ou arquetípicas. Esta correspondência encontra-se também, não só com o Nous de Platão, mas também com os Tattvas superiores (Shiva-Tattva a Shuddhavidya). No Shaivismo da Caxemira, Shiva e Shakti são os princípios absolutos que geram a realidade alargando-se ao conceito holográfico, onde cada parte do Universo contém a informação do todo.

Completando estas relações outro conceito foi introduzido por Bohm representando um estado dinâmico onde a informação da “Ordem Implícita” desdobra-se na “Ordem Explícita”, para completar o quadro, através da ideia de Holomovimento.

Este nível intermediário corresponde à Psiké de Platão e aos Tattvas intermediários (Mahat, Manas, Ahamkara), que moldam a percepção da realidade. Por outras palavras, a alma não é apenas um receptor passivo da realidade, mas sim um agente que interpreta e organiza a informação do Campo Implícito.

 Mas também equipara-se à visão do Shaivismo, onde a mente e o intelecto são responsáveis por filtrar a realidade suprema em experiências individuais.

 

No modelo de Bohm, a “Ordem Explícita” é a manifestação densa da realidade, aquilo que percebemos directamente, do mesmo modo que o conceito de Soma (o corpo e o mundo físico) em Platão, e nos Tattvas inferiores (os 5 elementos brutos e os sentidos).

A matéria, portanto, não é fundamental, mas sim um reflexo da informação contida na “Ordem Implícita” confirmando o significado Vedanta de Maya (ilusão) em que o mundo material é uma projecção temporária da realidade última suprema.

Como anteriormente referimos, Bohm propôs que o Universo funcionava como um holograma, onde cada parte contém a informação do todo. Esta ideia vai novamente encontrar paralelos directos em Platão e no Shaivismo. Assim, com Platão e o seu constructo do Mundo das Ideias, as formas sensíveis (Soma) são projecções imperfeitas das Ideias Eternas (Nous), emparceirando com o modelo holográfico de Bohm, em que o mundo físico é apenas um desdobramento parcial da “Ordem Implícita”.

No Shaivismo da Caxemira com os Tattvas, o Universo é um jogo de vibração e informação, onde os Tattvas superiores contêm o código da criação. Da mesma forma que Bohm vê a matéria emergindo do campo quântico informacional.

 

Podemos também estabelecer outra relação com outro conceito, neste caso pertencente à tradição filosófica Vedanta. Falamos do Akasha e da sua relação com o Campo Unificado. O conceito de Akasha como um registo de âmbito cósmico alinha-se na perfeição com a “Ordem Implícita” ao ser assumido como um campo fundamental de informação holográfica.

Algumas implicações filosóficas e científicas surgem da integração da “Ordem Implícita” com Platão e o Shaivismo, levando a algumas conclusões importantes.

A primeira estabelece que a Realidade última é Informacional, e a Consciência uma sua propriedade fundamental, pois que, tanto Platão quanto Bohm (e a visão moderna da teoria da informação quântica) sugerem que a matéria não é fundamental, mas sim um reflexo da informação subjacente.

Em segundo lugar que a Consciência Interage com a Realidade. Quando Bohm sugeria que a mente e a matéria são aspectos de um mesmo Campo informacional (o papel do observador na mecânica quântica), ou no Shaivismo, a consciência não ser um observador passivo, mas sim um agente activo que molda a realidade. Estas duas visões, apesar de distantes no tempo, ambas reforçam este axioma.

Por último que o Universo é Um Todo Indivisível, assente tanto no holograma quântico de Bohm, como na teoria da inter-conectividade universal inequivocamente presente nos Upanishads. Estes descrevem uma realidade onde tudo está interligado. Este aspecto faz-se também propriedade do Nous de Platão, pois também é um campo unificado de inteligência, que governa a manifestação da realidade.

Em conclusão, podemos estabelecer um quadro relacional unificador:


UMA INCURSÃO PELO MICROCOSMO DO MODELO PADRÃO

 

Esta incursão vai-se revelar útil para entendermos aquilo que a física usa para explicar todos os acontecimentos objectivos e fenoménicos ao ter criado um quadro global onde se inscrevem todas as partículas que constituem a matéria e as forças que a regem. Este quadro é denominado Modelo Padrão e contempla 61 “partículas” agrupadas em duas categorias principais – os Fermiões e os Bosões. Constituem os primeiros os Electrões, os Neutrinos (no conjunto denominados Leptões) e os Quarks que formam os Protões e os Neutrões dos núcleos atómicos – designados também por Nucleões.

Predominam 3 gerações genericamente designadas por “partículas”, constando 3 versões de Electrões (para além do Electrão existe o Tao e o Muão) e 3 versões de Neutrinos que se transformam uns nos outros (os Trigunas a funcionar!). Os segundos, os Bosões, são as forças que fazem interagir entre si os Fermiões, a saber os Fotões (do Campo electromagnético), os Gluões (do Campo Nuclear Forte) e as três “partículas” W e Z (Campo Nuclear Fraco) e ainda o Bosão de Higgs (que confere massa a todos).

 

Mas qual a razão da existência de 61 “partículas”? Poderemos dizer, que quase todas derivaram de resultados experimentais (o caso dos Electrões e dos Nucleões) mas muitas outras foram deduzidas conceptualmente em edifícios teóricos, de grande complexidade e beleza matemática, tais como foram os hipotéticos Bosões W+, W- e Z0, o Bosão de Higgs ou as anti-partículas. De resto o CERN confirmou a sua existência, a última das quais o Higgs..

Por detrás desta complexidade matemática existiam princípios envolvendo três ordens de critérios: o princípio de Simetria – a U(1) para o electromagnetismo, a S(2) que descreve a Força Nuclear Fraca, e a S(3) que descreve a Cromo Dinâmica Quântica (QCD) dos Quarks ou a Força Nuclear Forte. A U(1) e a S(2) juntaram-se posteriormente formado um corpo teórico denominado Electro Dinâmica Quântica (EDQ).

Finalmente surgem as “partículas” alvo da nossa atenção e que ganham designações muito semelhantes àquelas dos Tattavas. Os Quarks (u,c,d,s,t e b ou up, charm, down, strange, top e bottom ou estranhamente os designados “6 sabores”) associam-se em grupos de três “cores” (os trigunas novamente): vermelho, verde e azul, podendo transformarem-se uns nos outros (3x6) mais as suas anti-partículas os antiquarks, que são indicados por uma linha sobre o símbolo para o Quark correspondente (18x2). No total são 36 partículas (3x6x2). Aquela nomenclatura faz lembrar a dos Tattvas!

Na arquitectura da Simetria surgem outras duas componentes: a carga e o momento angular magnético ou spin que vão explicar quase tudo e compor de forma sólida este Modelo Padrão. O spin resulta de uma carga quando associada a uma “rotação” para a esquerda ou para a direita gerando um momento magnético designado ora por spin-up ora por spin-down – esta é a origem da Simetria S(2) inerente à força electromagnética.

Por sua vez, os Leptões em número de 12, como vimos compostos pela família dos Electrões e Neutrinos - cada uma nas suas 3 versões sempre mais pesadas, e acompanhadas pelas suas anti-partículas, tem os Electrões para constituir a nuvem de energia em torno dos Nucleões, dando corpo ao átomo (ou do anti-átomo), onde reina o Princípio de Exclusão de Pauli que afirma que dois electrões com o mesmo spin não podem ocupar numa orbital a mesma posição. Este princípio evita que ao sentarmo-nos não interpenetremos na cadeira ou passemos através das paredes (coisa que já acontece na física quântica com o Efeito Túnel).


Figura 5 – Modelo Padrão Completo. Notar que o mediador Gluão (g) corresponde a 8 variedades independentes, perfazendo o conjunto de matéria, antimatéria, mediadores e bosão de Higgs, um total de 61 partículas. Fonte - Wikipedia

 

Electrões e Neutrinos têm os mesmos spins mas contudo diferem na carga (neste caso não existe simetria para a força electromagnética) e utilizam os bosões da força fraca para se transformarem uns nos outros. Ou seja a força fraca não distingue Electrões e Neutrinos, sendo simétricos neste âmbito, processo essencial ao funcionamento de todas as estrelas. Esta é a base da Electro Dinâmica Quântica (QED) que une as duas forças num único campo quântico - a Força Electrofraca.

Ou seja, existe simetria no spin mas não na carga (o neutrino é neutro), o que permitiria na concepção do eventual Big Bang, a natureza estruturar-se logo de início com a constituição de um núcleo atómico simples, criando os primeiros átomos de Hidrogénio e Hélio, e ao mesmo tempo, permitir também o futuro nascimento e funcionamento das estrelas. Aqui é estonteante e evidente a precisão necessária para que tudo funcione!

Esta dualidade, spin - momento magnético/carga tem uma importância fundamental na construção do Universo. Nos primeiros 3 minutos após aquilo que se considera ser o Big Bang (ou mais recentemente o que a Cosmologia considera ser um processo inerente aos Buracos Brancos), formaram-se os átomos de hidrogénio e hélio que são na verdade basicamente Protões e Neutrões – é a Simetria S(3) a funcionar.

O Universo no início não tinha a capacidade para fabricar elementos mais pesados e complexos porque a sua expansão acelerada diluía a concentração de partículas elementares. Foi preciso surgirem as estrelas massivas para que se iniciasse a formação de núcleos atómicos mais pesados para além do Hidrogénio e do Hélio. O processo da Nucleosíntese iniciada nas estrelas massivas e nas supernovas depende então da Simetria S(2) gerada pelas forças da Electro Dinâmica Quântica onde se aliam a Força Electromagnética e a Força Nuclear Fraca.

Parece existir assim um processo hierárquico, gradual e preciso, ao nanossegundo, na conformação das forças necessárias para que o Universo resultasse numa estrutura de alta precisão, tal como a conhecemos hoje em dia. Uma espécie de vector informacional, que vai no entanto continuar a acompanhar e a manifestar-se no futuro evolutivo do Universo consubstanciada por dois fenómenos nossos conhecidos.

O primeiro pelo Pêndulo de Foucault ao revelar um Grande Atractor formado pelas massas dos Super Aglomerados de Galáxias situadas a milhares de milhões de anos-luz, atestando, mais uma vez, que o universo se deve comportar como um todo. O segundo, reforçando o primeiro, apesar de tudo contrariando a hipótese EPR (Einstein-Podolsky-Rosen), demonstrando que dois fotões (ou outra qualquer “partícula”) com a mesma origem comum continuam interligados por mais distantes que se encontrem um do outro, em extremos opostos do Universo, fazendo sempre parte da mesma realidade e reforçando a ideia de não-localidade.

Daí também a precisão das Constantes Físicas que não variam no espaço e no tempo, não possuem o sentido de localidade adaptando-se e transformando-se. As principais são em número de uma quinzena, desde a carga eléctrica elementar, as massas do Electrão e do Protão, a constante de gravitação, a velocidade da luz no vácuo, até á constante de Planck. Calcula-se que a precisão é da ordem de 10-60. Ou seja se alterarmos um algarismo à sexagésima casa decimal, o Universo torna-se estéril e deixa de existir.

Este facto leva-nos a crer que esta regulação precisa aliada ao universo pulsando como um todo, são as condições necessárias e suficientes para gerar um “organismo vivo” onde as redes informacionais, tidas agora como do tipo neuronal, estabelecidas pelos Super Aglomerados de galáxias, as estruturas de larga escala e a circulação de informação por “entanglement”, são a manifestação física da Vida e da Consciência de que fazemos parte, como reflexo de uma estrutura fractal.

OS TATTVAS UMA HIERARQUIA DE PROCESSOS QUE DESCREVEM “A QUEDA DO ESPÍRITO NA MATÉRIA”

A palavra sânscrita Tattva ou Tattwa transmite-nos conceitos de grande profundidade científica (Conhecimento, Shakti) e valor ético (Consciência, Shiva).

Composta por duas outras, Tat, que significa O Aquilo (o Uno, Deus) e Twam que significa o Tu, o Indivíduo ou o Universo, tem um profundo significado confirmando o axioma atribuído a Hermes Trismegisto (Thoth) na Tábua de Esmeralda, relacionando definitivamente o Macro e o Microcosmo:

“Verdadeiro, sem falsidade, certo e muito verdadeiro:

o que está em baixo é como o que está em cima,

e o que está em cima é como o que está em baixo,

para realizar o milagre da Coisa Única.”

 

A Constituição Septenária é a base do entendimento de que a matéria, o Universo é pura ilusão. A Cosmologia considera hoje em dia ter o Universo saído das flutuações quânticas primordiais do vácuo (do Caos como Hesíodo revela na sua Teogonia), ou talvez de um sistema dinâmico como aquele dos Buracos Negros (ou Brancos) Super Maciços descobertos agora pelo Telescópio Espacial James Webb. É assim que, respeitando sempre o Princípio da Incerteza (ΔE Δt ≥ ꚕ/2), o universo vai permanecer globalmente com um balanço total de energia, carga e momento magnético oscilando em torno do zero.

 

Figura 6 – Flutuações Quânticas do Vazio. Fonte - Wikimedia Commons

 

Um dos pressupostos da física aponta para que a carga eléctrica total do Universo deverá ser zero ou muito próxima daquele valor. Ou seja, se somarmos todas as cargas positivas e negativas, temos um cancelamento quase perfeito, levando a crer que a carga foi conservada desde o início do Universo.

Também o momento magnético total do Universo é presumivelmente zero ou muito pequeno, comprovando a ausência de monopolos magnéticos detectáveis e a tendência das estruturas cósmicas em formarem dipolos equilibrados.

Tudo porque o Princípio da Incerteza de Heisenberg, ao estabelecer que certas grandezas conjugadas, como energia e tempo (Δ𝐸⋅Δ𝑡/2) ou posição e momento (ΔxΔp≥/2), não podem ser simultaneamente conhecidas com precisão arbitrária, conduz a implicações profundas para a estrutura do universo, permitindo que localmente aquelas grandezas flutuem, mas globalmente se apresentem em equilíbrio. Ou seja, o universo permite variações momentâneas e locais naqueles valores, mas globalmente no grande edifício cósmico, cancelam-se.

Este equilíbrio global e profundo deverá ser imposto por restrições de natureza quântica. Podemos então traçar uma analogia entre o equilíbrio global do Universo (energia, carga e momento magnético próximos de zero) e aquelas restrições impostas pelos Tattvas da cosmologia tântrica.

Se a física actual sugere que a soma total de energia, carga e momento magnético do Universo é próximo de zero, então indica um indicador forte para que a manifestação ocorra a partir de um estado de equilíbrio absoluto, apenas aparentando separação ou separatividade devido às restrições dos Tattvas.

Assim se compreende que a matéria, limitada temporalmente (Kãla) e espacialmente (Niyati), de acordo com a Relatividade Geral, curva o espaço-tempo e o espaço-tempo dita o seu evoluir, e que o “desejo”, o “saber” e o “poder” (Maya, Raga, Vidya e Kalã ou respectivamente a energia/massa, a “cor”, a carga e o momento magnético/spin) se encontram assim também limitados. Todas afinal com uma origem comum!

Sabemos que os Quarks possuem “limitações” dadas por uma carga eléctrica fraccionária, por uma massa individual entre 5 a 10 milhões de electrões-volt (eV), e por um spin também fraccionário de 1/2. Estes são os seus limites.

 

Como vimos, no Shaivismo da Caxemira, os Tattvas Puros-Impuros actuam como um intermediário entre a Consciência pura e a matéria manifesta, representando as limitações progressivas impostas à “descida” da consciência para que ela possa, no acto da individualização, tornar-se um agente no mundo fenoménico. Ou seja, na física das “partículas”, o tempo, o espaço, a massa, o spin e a carga funcionam como restrições fundamentais, propriedades relacionais, que determinam como as partículas se vão comportar no Universo e garantir uma cosmogénese perfeita.

Assim, ambos os sistemas descrevem um princípio de limitação e diferenciação. No Tantra, essas limitações emergem da Consciência absoluta para criar individualidade e experiência; na física, essas limitações aparecem como parâmetros fundamentais que governam a manifestação da matéria e da energia. Entretanto, a visão holográfica e informacional do Universo sai reforçada, uma vez mais, dado que a realidade física pode ser vista como um reflexo de uma ordem subjacente, tal como proposto por David Bohm.

Estaremos agora aptos a propor uma afinação entre os dois sistemas (Tattva e Física).

 

Māyā Tattva, considerada a força que impõe diferenciação e oculta a unidade essencial da realidade, obscurecendo a natureza absoluta da consciência, por força a Ilusão da Separatividade, será a Massa, aquela que limita o movimento das “partículas”, impedindo-as de viajar à velocidade da luz (excepção para os Fotões e Gluões, cuja massa se traduz em energia, dada pela fórmula universalmente conhecida E=mc2).

 Kalā Tattva, a Capacidade Limitada, tida por reduzir o poder ilimitado da consciência, atribuindo propriedades ou capacidades específicas que outorgam a funcionalidade individual a cada entidade, assim também o Spin, sendo uma propriedade intrínseca que define como as partículas se comportam, classificando-as em portadoras de força (os Bosões com spin inteiro) e os constituintes da matéria (Fermiões com spin semi-inteiro).

Vidyā Tattva, o Conhecimento Limitado, a limitação do conhecimento absoluto, que leva a uma percepção parcial da realidade, estabelecendo o grau de conhecimento disponível para um Ser, assemelha-se à Carga Eléctrica se considerarmos que esta define como uma partícula interage com o campo electromagnético, como se conformasse a sua capacidade de experiência dentro do espectro das forças electromagnéticas.

 Rāga Tattva, o Apego e Individualidade, a limitação que gera apego e diferenciação entre entidades individuais, que faz a consciência desenvolver identidade e apego a fenómenos específicos, que poderemos associar à estrutura tripartida dos Quarks e às “cores”. Os Quarks, fundamentais na composição dos Protões e dos Neutrões, são eles que definem as propriedades (os tais fenómenos específicos) dos elementos da Tabela Periódica. Não existem isoladamente, mas sempre ligados por interacções fortes, em que cada um carrega uma "carga de cor" (vermelho, verde, azul).

Kāla Tattva, Tempo e Ciclicidade, é a limitação imposta pelo Tempo, trazendo mudanças e ciclos de nascimento e morte, governa os ciclos cósmicos e a transitoriedade da manifestação, o tempo de vida das “partículas”, governando a sua existência dentro do Modelo Padrão, será expresso pelo fenómeno de Decaimento das Partículas. Como vimos anteriormente, todas tem um período de vida.

Niyati Tattva, o Espaço e o Destino, estabelece restrições espaciais à Consciência, em que as leis de simetria definem os limites e possibilidades de interacção entre as “partículas”, onde deverá imperar a noção de espaço, destino (causalidade) e a ordem cósmica. Será congénere aos processos da Quebra de Simetria, que como vimos, determina como as forças fundamentais operam e como as “partículas” adquirem propriedades como massa e carga.

 

Estas limitações que vão caracterizar o Universo são introduzidas pela quebra de simetria inicial do Campo Unificado quando surge o Campo Escalar do Bosão de Higgs, o Antakarana, que vai conferir massa às 36 sub-partículas quarkianas, fazendo-as ressaltar do recente criado espaço-tempo granular e informacional. Posteriormente e de forma sequencial, vai evoluir o Condensado Bose-Einstein dos Inflatões (o 5º estado da matéria) e o futuro plasma Quark-Gluão (4º estado da matéria) em que prevalece o Campo quântico da Força Nuclear Forte. Tudo isto na fracção de tempo equivalente entre 10-35 e 10-6 segundos.

A descida na hierarquia nos Tattvas equivale a um mecanismo de quebra de simetria, semelhante ao que acontece na física das partículas, tais como a separação das forças fundamentais, descritas anteriormente, a partir de uma simetria unificada no início do Universo.

Deste modo, a realidade parece emergir a partir de um substrato informacional profundo, como a Ordem Implícita de Bohm, que espelha os Tattvas superiores do edifício Tantra,  estados de máxima liberdade e informação não-local.

 

Logo de seguida surgem os Protões e Neutrões bem como os Electrões e os Neutrinos, os quase-imortais com durações de vida de 1033 anos para os Protões e 1024 anos para os Electrões, todos nas suas três variantes de massa, como prevêem em geral o princípio universal dos Trigunas. Deste modo surgem os primeiros átomos: Hidrogénio e Hélio.

Em 380.000 anos o Universo torna-se transparente, os Fotões escapam da prisão da matéria e inicia-se a diferenciação revelada pela Radiação Cósmica de Fundo em Microondas, com as áreas anisotrópicas que vão definir as estruturas de larga escala do Universo futuro e que parecem também revelar, afinal, as reminiscências evolutivas de outros universos em éons e éons de tempo.

Aos 150 milhões de anos as primeiras estrelas massivas de curta duração começam a nascer pela estabilização das imensas nuvens de Hidrogénio e Hélio. Agora actua definitivamente o Campo das Forças Electrofracas, espontaneamente e mais uma vez pela quebra de simetria que se especializa com os Campos da Força Electromagnética e Nuclear Fraca.

Assim nasce um Universo a partir da espantosa metamorfose do vácuo.

Se o Universo opera dentro de um campo holográfico e informacional, como propõem tanto os modelos quânticos como os esotéricos, então os Tattvas podem ser entendidos como as regras fundamentais que corporizam aquela manifestação, “restringindo” os graus de liberdade (que determinam a forma como um sistema pode evoluir dentro das leis da natureza) para que a realidade fenomenal se manifeste dentro de um equilíbrio perfeito. Na cosmologia tântrica, a realidade emerge como uma progressiva contracção da liberdade absoluta da Consciência, reflectindo um princípio análogo à redução dos graus de liberdade nos sistemas físicos. Os Tattvas Superiores, representados por Shiva-Shakti e os primeiros cinco Tattvas, corresponderiam a um estado de máximo grau de liberdade, onde a consciência é infinita e sem restrições, onde não há distinção entre observador e observado, logo não há incerteza – o domínio do Paramaśiva ou Brahman.

Esta abordagem leva a pensar que a física fundamental e os sistemas esotéricos descrevem a mesma estrutura profunda da realidade, mas utilizando linguagens diferentes, codificadas pela semântica do tempo da sua realização. As Pontes são tantas que acreditamos ter o conhecimento esotérico antigo já intuído uma estrutura hierárquica do universo, análoga à da física moderna e à teoria da informação, mas expressa em termos simbólicos. Actualmente estamos a fazer uma redescoberta, um conhecimento que feito pela segunda vez, só confirma o espólio herdado pelo acervo presente!

Blavatsky afirma: “Na Doutrina Secreta, a Unidade oculta (quer ela represente Parabrahman ou o “Grande Extremo” de Confúcio, ou a Divindade oculta por Phath, a Luz Eterna, ou ainda o Ain Soph judeu) é sempre simbolizada por um círculo ou um “zero” (o Nada absoluto, porque é o Infinito e o Todo), …”.(3)

Assim se compreende que a “rotura” da Unidade Informacional Primordial tivesse sido indispensável para a manifestação do próprio Universo, numa hierarquia fenoménica como confirma aquela dos Tattvas. Tudo aconteceu como se tivesse existido um colapso de onda cósmico, portais que se abrissem, talvez Buracos Negros ou Brancos colossais, resultado do fim existencial de outros Universos noutros éons, ciclos de Manvantaras e Pralayas geridos por uma Consciência Informacional hiper-dimensional.

Afinal, o processo cósmico de “Conhece-te a Ti próprio”!

Será esta uma das chaves para perceber o Universo pelo Homem, encontrando-se a Si próprio como “Saptaparna”?

 

Notas

(1) O 36 aparece em diversas áreas do conhecimento como um número estrutural e fundamental, representando harmonia cósmica, ciclos, manifestação e ligação entre a natureza material e a espiritual. Presente na numerologia, na física, na geometria e na tradição esotérica, leva a pensar que pode ser um número chave na compreensão de como a realidade emerge da Consciência Informacional subjacente. De realçar que na criptografia e na computação, o 36 é usado como base numérica estendida (base 36), na medida em que representa um conjunto amplo de caracteres, ao unir os 10 algarismos e as 26 letras do alfabeto.

Nas tradições ocultistas e místicas, nomeadamente nos estudos pitagóricos, o número 36 está relacionado com a criação e a estrutura do cosmos. O pentagrama, um símbolo da proporção áurea e do equilíbrio estético, possui ângulos internos de 36 graus. Por outro lado, na tradição cabalística e em alguns sistemas exotéricos, a soma dos números de 1 a 36 dá 666. Fazendo crer que longe de ser considerado um símbolo negativo, representa a energia da manifestação material e uma relação intrincada com a ordem do cosmos.

Também o misticismo judaico, veicula a crença da existência permanente de 36 “Guardiões da Luz” ocultos (Lamed Vav Tzadikim), que suportam a existência da humanidade. Por sua vez, a astrologia divide os 12 signos do Zodíaco em 36 decanatos, cada um governado por um aspecto diferente ligado às forças planetárias.

 (2) David Bohm (1917-1992) foi um físico teórico norte-americano conhecido pelas suas profundas contribuições para a Mecânica Quântica, para a filosofia da ciência e para a natureza da Consciência. Embora tenha trabalhado com grandes nomes como Albert Einstein, desenvolveu no entanto ideias que desafiavam à época a interpretação corrente da física quântica, propondo uma visão mais profunda e relacional da realidade.

 

David Bohm

 

Nesse âmbito, propôs que a realidade fosse estruturada em dois níveis, a saber, a Ordem Explícita caracterizada por uma realidade manifesta e perceptível, onde os objectos e os fenómenos aparecem separados no espaço e no tempo (a noção de Separatividade), e por outro lado a Ordem Implícita, que conferia um nível mais profundo e “oculto” da realidade, uma vez que tudo está interligado de maneira não-local, em que as informações do universo seriam codificadas de forma potencial. Segundo Bohm, o que percebemos no mundo físico é apenas um desdobramento parcial da informação contida na Ordem Implícita, semelhante a uma projecção holográfica. Aqui surge naturalmente o conceito de Holomovimento como um processo dinâmico pelo qual a Ordem Implícita se manifesta na Ordem Explícita, colocando tudo em constante transformação e interligação.

David Bohm discordava da visão tradicional da mecânica quântica, que sustentava que a incerteza e a aleatoriedade eram propriedades próprias do universo. Pelo contrário, propôs a existência de Variáveis Ocultas, ou seja, de influências de Campos invisíveis que poderiam explicar o comportamento das partículas sem recorrer ao colapso da função de onda, propondo para o efeito a existência de uma onda piloto, onde as partículas possuíam trajectórias bem definidas, guiadas por um "potencial quântico". A sua visão holográfica da realidade inspirou reflexões, que pela sua importância permanecem actuais, dado que destacam temas hoje muito em evidência como a relação entre a Consciência, a Informação e a estrutura fundamental do Universo.

As ideias de David Bohm sobre a Ordem Implícita, o Holomovimento e as Variáveis Ocultas ganharam actualmente ainda mais relevância com alguns resultados experimentais recentes na física quântica, especialmente a confirmação do emaranhamento e da não-localidade. Em 2022, John Clauser, Alain Aspect e Anton Zeilinger receberam o Prémio Nobel da Física pelos resultados experimentais que confirmaram o emaranhamento quântico e a violação das desigualdades de Bell, reforçando a visão dos modelos da não-localidade em que as “partículas” podem estar interligadas instantaneamente, independentemente da distância. A mecânica quântica convencional descrevia o emaranhamento como um fenómeno estatístico, pelo contrário Bohm via esse fenómeno como sendo a evidência da existência de um Campo subjacente que mantinha a coerência da realidade. Assim é, que o Potencial Quântico de Bohm sugeria que as “partículas” não são apenas fenómenos pontuais isolados, mas expressões de um todo maior, que opera através de uma ordem invisível.

De facto, a compreensão da natureza destes fenómenos causou um impacto assinalável na investigação de ponta em áreas como a computação quântica onde a coerência quântica e o entrelaçamento são aplicados em cálculos ultra rápidos, na criptografia quântica, tornando impossível a cópia de estados emaranhados sem perturbar a informação e assegurando níveis de segurança na informação transaccionada.

Ainda a visão holográfica e informacional proposta por Bohm alargou as fronteiras da pesquisa às bases de uma nova teoria quântica da gravidade. A confirmação do emaranhamento e da não-localidade consolidaram a visão de Bohm dando-o como um dos pensadores mais visionários da física moderna.

A abordagem informacional e holográfica, demonstrou ser essencial para a próxima revolução que já se antevê na física, e que unificará a Mecânica Quântica, a Relatividade e a Consciência num modelo mais profundo da realidade.

 (3) A Doutrina Secreta, Vol. IV, pag. 124, Editora Pensamento, 1980

 

 João Porto e Ponta Delgada, 25/03/2025


Tempus Machina – a realidade não é o que pensamos ser

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