Cito Marcus de Sautoy: “Os livros sobre
mecânica versam todos a evolução do Universo relativamente ao tempo. A equação
da trajectória de uma bola tem por input
o tempo e outputs a localização da
bola. Mas nenhum destes livros define o tempo, e nenhum físico foi capaz de dar
uma definição satisfatória daquilo que entendemos por tempo, pelo que a melhor
estratégia será, porventura, eliminá-lo completamente.”, O que não Podemos Saber”, Editorial Bizâncio, pp 340.
Este curto texto dá o actual state of the art quanto à interpretação
do conceito do Tempo. Normalmente, o que acontece é seguir-se o comportamento
da avestruz, ignorando a questão.
O Tempo visto pela Física actual
leva-nos até Richard Feynman. O Conceito de Tempo com Richard Feynman, resume
os nossos conhecimentos sobre o tema. Hoje, todos reconhecem que Feynman, um
dos grandes físicos do século XX, trouxe contribuições profundas para a
compreensão do tempo, especialmente dentro da mecânica quântica e da Electro
Dinâmica Quântica (QED), cuja visão está ligada a conceitos como setas do
tempo, trajectórias múltiplas e retrocausalidade.
Influenciado pela ideia de
antipartículas de Paul Dirac, sugeriu que o tempo pode ser tratado de forma
simétrica, isto é, as leis fundamentais da física funcionam tanto para frente
quanto para trás no tempo, quando ele próprio corrobora que "Na mecânica quântica não há diferença
fundamental entre ir para frente e para trás no tempo." (The Character
of Physical Law, 1965). Ou seja, invalida o conceito de tempo newtoniano e a
noção intuitiva geral de uma direcção única própria de um tempo linear e
absoluto.
A da sua autoria a proposta que
qualquer antipartícula pode ser vista como a partícula original, mas viajando
para trás no tempo. Por exemplo, um Electrão e um Positrão podem ser
interpretados como a mesma entidade movendo-se em direcções opostas no tempo.
Isto foi expresso através dos chamados Diagramas de Feynman, amplamente usados
pelo contributo esclarecedor introduzido na evolução das “partículas”. Afirmou
em 1964 nas célebres “Feynman Lectures on Physics” que "Uma antipartícula é simplesmente uma
partícula comum que se move para trás no tempo.". Como se a existência
das antipartículas se devesse exactamente a uma seta do tempo do futuro para o
passado ou presente, consubstanciando as ideias de retrocausalidade, onde
eventos futuros poderiam influenciar o presente, afinal, como veremos, a mesma
ideia explorada por Carl Jung na sincronicidade e por Bohm na Ordem Implícita.
As configurações geométricas
introduzidas pelos Diagramas de Feynman caracterizam-se por uma nova abordagem
expressa no conceito quântico de Multiplicidade ou Integrais de Caminhos, em
que uma partícula não segue uma trajectória única, mas explora todas as
trajectórias possíveis entre dois pontos, até ser sujeita ao acto
observacional, devido exactamente ao facto de o tempo poder ser tratado como
uma variável que permite a coexistência de múltiplos caminhos antes da medição.
Isto lembra uma visão holográfica do tempo e o conceito de tempo cíclico nas
tradições esotéricas, como os Yugas védicos e o tempo não-linear em Pistis
Sophia.
Embora Feynman reconhecesse que as
leis fundamentais quânticas permitissem viagens no tempo para trás e para
frente, explicou contudo porque percebemos sempre a direcção única do tempo
indo apenas para frente, recorrendo à segunda lei da termodinâmica que afirma
que a Entropia (significando normalmente desordem) tem sempre a tendência de
aumentar. Esta é a razão macroscópica para termos uma “seta do tempo”, mesmo
que as leis fundamentais sejam simétricas, como se houvesse uma ilusão da
percepção ou mesmo um desdobramento de uma realidade mais profunda.
"Por que nos lembramos do passado, mas não do futuro? A resposta está na
termodinâmica: a entropia aumenta sempre.", The Feynman Lectures on Physics, Vol. 1, 1963.
Na realidade, os programas de
investigação levados a cabo pelo CERN (Organização Europeia para a Pesquisa
Nuclear), tem desempenhado um papel crucial no estudo do conceito do tempo
através do delineamento experimental que explora a simetria temporal nas leis
da física e que tem testado e confirmado as previsões da teoria da
Relatividade.
Podemos referir que um dos testes
mais significativos realizados no CERN, foi sobre a dilatação do tempo, prevista
por Albert Einstein, envolvendo o estudo de Muões relativísticos. Os Muões são
partículas subatómicas instáveis com uma vida útil extremamente curta. Ao acelerá-los
a velocidades próximas da luz, observou-se que sua vida útil aumentava conforme
previsto pela Relatividade Especial, confirmando que o tempo passa mais devagar
para partículas em movimento rápido em relação a um observador estacionário.
Este teste foi corroborado, ao nível biológico e macroscópico, por dois
astronautas gémeos, um permanecendo na Terra e o outro a bordo da estação
espacial.
Outro dos testes realizados foi sobre
a Seta do Tempo e a Simetria Temporal. Em 1998, o projecto CPLEAR investigou a
violação da simetria temporal (T) em sistemas de Mesões K neutros. Os
resultados mostraram que as taxas de transformação de Antikaões em Kaões eram diferentes
das de Kaões em Antikaões, indicando claramente uma seta do tempo ao nível
microscópico. Esta foi a primeira observação directa de uma assimetria temporal
em partículas subatómicas, indicando que, embora muitas leis físicas sejam
simétricas no tempo, algumas interacções fundamentais não o são.
O CERN continua
a explorar questões fundamentais relacionadas com o tempo e a simetria
temporal. Projectos como o NA63 investigam processos de radiação em campos
electromagnéticos fortes, contribuindo para a compreensão de fenómenos na área
da astrofísica e de outros efeitos em colisionadores lineares. Além disso, o CERN tem planeado futuros projectos que visam
aprofundar a compreensão de partículas fundamentais e possivelmente revelar
novos insights sobre a natureza do
tempo e do Universo como o High-Luminosity
LHC, previsto para iniciar em 2029, e o Future
Circular Collider, estimado para começar por volta de 2040.
Não podemos passar sem referir o
conceito de Tempo com Albert Einstein que revolucionou a compreensão do tempo
com as teorias da Relatividade, mostrando que o tempo não é absoluto, como
pensava Newton, mas sim relativo ao observador e influenciado pelo espaço e
pela gravidade.
Na Relatividade Restrita o tempo não
é universal, mas depende do referencial do observador, passando mais devagar
para um observador em movimento em relação a outro comprovando o fenómeno da
dilatação temporal, tão bem conhecida pelo acerto do GPS. Assim a
simultaneidade não é absoluta, dado que dois eventos que parecem simultâneos
para um observador podem não ser para outro. Sobre isto disse Einstein que “As pessoas como nós, que acreditam na
física, sabem que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma
ilusão teimosamente persistente.” (Carta
para a família de Michele Besso, 1955). Numa carta de condolências à
família Besso, Albert Einstein escreveu: "Agora Besso partiu deste
estranho mundo um pouco antes de mim. Isto não significa nada. Pessoas como
nós, que acreditam na física, sabem que a distinção entre passado, presente e
futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente", (Fonte Wikipédia).
Por outro lado, com a Relatividade
Geral, Einstein expandiu a ideia de tempo ao incorporar a gravidade, em que o
tempo é afectado por esta, de um modo directo e proporcional, onde quanto mais
forte o campo gravitacional, mais devagar o tempo passa devido à dilatação
gravitacional do tempo. Assim, o tempo e o espaço não são entidades separadas,
mas partes de um tecido contínuo chamado espaço-tempo, e a presença de massa e
energia, curva o espaço-tempo, modelando a passagem do tempo. Isto tem
consequências reveladas muito recentemente, colocando em causa a ideia da
expansão acelerada do Universo e a existência da própria Constante Lambda.
Com Einstein e na Relatividade o
tempo é relativo ao observador tal como o conceito de tempo ser uma construção
mental com Santo Agostinho ou Blavatsky. O espaço-tempo é um contínuo modelado
pelas massas e energia. Também com David Bohm o tempo emerge da Ordem
Implícita. A distinção entre passado e futuro é ilusória na Relatividade e
também na retrocausalidade revelada pela mecânica quântica e na sincronicidade
de Carl Jung.
Em conclusão, a ideia de que o tempo
pode não ser fundamental, mas sim emergente, e tratado como uma propriedade de algo
mais subtil e fundamental, um fenómeno relacional, parece estar a ganhar força
na física moderna, especialmente na gravidade quântica em loop e na holografia.
Para Einstein, o tempo não é
absoluto, mas depende do referencial do observador, a gravidade pode curvar e
desacelerar o tempo, o espaço e o tempo são inseparáveis e formam uma estrutura
única e a distinção entre passado, presente e futuro pode ser uma ilusão. Esta
visão alinha-se com muitas tradições filosóficas e esotéricas, que vêem o tempo
como uma manifestação relativa da Consciência e não como algo absoluto e fixo.
Num tempo mais recente, David Bohm
tinha uma visão profunda e não convencional sobre o mesmo, ligado ao conceito das
Ordens Implícita e Explícita e a ideia de um universo em Holomovimento. Quando
diz que “O tempo é uma projecção da
eternidade no domínio da ordem explícita.” (Wholeness and the Implicate Order, 1980), Bohm sugere que o tempo,
como o percebemos, não é fundamental, mas sim uma projecção que emerge de um nível
mais profundo da realidade, que ele denomina de Ordem Implícita. Significa que
o tempo não é absoluto (como em Newton), mas um efeito da estrutura subjacente
da realidade. A Ordem Implícita contém todas as possibilidades sob a forma de
probabilidades quânticas, e o tempo emerge à medida que certas informações se
desdobram na Ordem Explícita, em que o Holomovimento passa a descrever esse
fluxo dinâmico onde tempo e espaço não são consideradas entidades separadas,
mas interligadas. É assim que a realidade subjacente tem um carácter
informacional intrínseco. Se dúvidas houvesse, teríamos esta citação de Bohm
relacionando o tempo com a Consciência: “O
tempo é criado pelo pensamento como um meio para medir e ordenar nossas
experiências, mas a realidade subjacente pode não estar sujeita a essa
limitação.” (Thought as a System, 1992).
Em Bohm o tempo pode ser uma
propriedade emergente da Consciência e da organização quântica: “Se olharmos
para a totalidade da realidade como um sistema indivisível, talvez tenhamos que
reconsiderar o próprio significado do tempo.” (Causality and Chance in Modern Physics, 1957). Aqui o Tempo surge como
Desdobramento do Todo, não uma entidade fundamental, mas um efeito de um nível
mais profundo da realidade. Esta visão tem fortes paralelos com o pensamento
esotérico em Pistis Sophia, Blavatsky e os Vedas, e também com teorias
contemporâneas da física, como a holografia e a emergência do tempo na
gravidade quântica em loop.
Também outras implicações surgem no horizonte,
ao elencar a existência de uma ”Onda piloto” agindo como um Campo invisível que
determina o movimento da “partícula”, como se esta fosse um barco navegando num
rio. Como se a água ao redor criasse ondas que influenciam o trajecto do barco.
Na mecânica de Bohm, a “partícula” é o barco que tem uma posição real, mas o
seu trajecto é guiado pela Onda Piloto que é o fluxo do rio. Esta Onda Piloto
obedece à equação de Schrödinger e não colapsa, ao contrário do que sugere a
interpretação de Copenhaga, onde prevalece o elemento indeterminístico das
probabilidades que levanta questões em torno da realidade existir antes de ser
medida. Também resolve o aparente paradoxo da "partícula estar em dois
lugares ao mesmo tempo" na experiência da dupla fenda. Enquanto a mecânica
quântica tradicional diz que uma partícula comporta-se como uma onda e pode
passar pelas duas fendas ao mesmo tempo, formando um padrão de interferência,
na interpretação de Bohm a partícula passa por apenas por uma fenda, tal como
um objecto clássico, mas a onda piloto passa por ambas as fendas e interfere
consigo mesma em que a partícula segue um caminho específico influenciado pela
onda, formando o mesmo padrão de interferência observado experimentalmente. Por
outro lado, a teoria é não-local, o que significa que a Onda Piloto pode
influenciar instantaneamente uma partícula mesmo que ela esteja distante,
explicando também o fenómeno do entrelaçamento quântico, onde partículas
separadas por grandes distâncias parecem comunicar-se instantaneamente.
Esta “Onda Piloto” parece assim
inscrever-se numa realidade objectiva subjacente, ao contrário da visão
convencional da mecânica quântica, onde a realidade só existe quando é medida.
Isto é, a realidade visível emerge de uma ordem oculta mais profunda, que nos
faz lembrar aquelas mesmas características e propriedades atribuídas pela
tradição védica e hinduísta ao Akasha, às “Potencias” presentes na gnose em
Pistis Sophia, similar a um Campo Informacional da Consciência. Também poderá estar
ligada a uma visão cosmológica de um Universo holográfico, onde as informações
sobre toda a realidade estão distribuídas de maneira não-local. Os fundamentos
de que a Consciência e o Tempo são elementos emergentes de algo maior e
indescritível.
Interessante que em Dezembro de 2024,
a Google demonstrava que o seu chip quântico conhecido como Willow de 105
qubits, conseguia resolver em 5 minutos um problema computacional tão complexo
que os melhores super-computadores da actualidade levariam cerca de 10
setilhões de anos para resolvê-lo, muito mais do que a idade do nosso Universo.
A Google garante ter tido acesso a universos paralelos com este chip quântico.
Este desempenho extraordinário levou Hartmut Neven, fundador da equipa de
Quantum AI da Google, a sugerir que a computação quântica poderia ocorrer em
múltiplos universos paralelos, alinhando-se com a teoria dos multiversos
proposta pelo físico David Deutsch, em que infinitas realidades coexistem
simultaneamente. Para Deutsch sempre que ocorre um evento quântico, o Universo
divide-se em múltiplas versões, onde cada resultado possível desenvolve-se num
universo paralelo diferente. Na nossa opinião estes “universos paralelos” são
os Campos informacionais realmente paralelos se encararmos as suas múltiplas
dimensões informacionais da sua existência como “Ondas Piloto” que se estendem
num “oceano” de emaranhamento e da não-localidade.
Chegados aqui, impõe-se explorar
outras ligações, algumas ancestrais, nomeadamente as fontes esotéricas e
místicas.
Roger Penrose, físico laureado com o
Prémio Nobel, colaborou com o Observatório do Vaticano e com a Universidade de
Pádua na obra "A Eternidade entre o
Espaço e o Tempo: Da Consciência ao Cosmos", uma colectânea de textos
que reúne reflexões tanto de físicos como de teólogos sobre a eternidade,
explorando-a sob diversas perspectivas científicas e filosóficas. No entanto, a
questão da relação entre Deus ou a divindade e o Tempo coloca desafios e
reflecte um esforço contínuo de promover discussões profundas sobre a
intersecção entre a cosmologia, o tempo e a espiritualidade. Uma das respostas
poderá ser simplesmente esta: Tirem Deus do tempo. Tal como Deus não se
localiza no espaço, também não é necessário localizá-lo no tempo. Evidentemente
que não é a resposta oficial do Vaticano sobre o assunto!
Noutro âmbito, aquele ligado às
tradições esotéricas com fontes nos textos védicos, Blavatsky faz referências directas
ao gnosticismo, em que a sua visão do tempo pode ser comparada à de Pistis
Sophia. Helena Blavatsky sugere que há diferentes camadas do tempo, associadas
a diferentes níveis de Consciência e planos de existência. Assim, no plano
físico, o tempo surge em formato linear e finito. Nos planos subtis das
dimensões do astral e mental, o tempo tem características de um fluido não-linear,
permitindo percepções simultâneas de passado, presente e futuro, enquanto no
plano espiritual, o tempo desaparece completamente, pois a consciência entra em
sintonia com a Eternidade. Uma visão que se aproxima das últimas reflexões
científico-teológicas que contaram com os vencedores do Prémio Nobel Gerard 't
Hooft e Roger Penrose, a que se juntaram Federico Faggin, Mauro D'Ariano,
Gabriele Veneziano, Massimo Cacciari, Giulio Goggi e Kurt Appel, de um total de
24 contribuições em Maio de 2022 na Universidade de Pádua.
Em vez de um tempo linear, Blavatsky
adopta a visão védica cosmológica dos Yugas, que descrevem ciclos cósmicos de
criação, preservação e dissolução. Ali, o tempo não é uniforme, mas
manifesta-se em grandes ciclos conhecidos como Manvantaras e Pralayas,
respectivamente os períodos de manifestação e dissolução do Universo e em que
cada ciclo reflecte a evolução da Consciência através dos diferentes planos da
existência, ciclos que apresentam fractalidade, porque estendem-se desde os
grandes ciclos cósmicos até aos ciclos menores que afetam civilizações,
indivíduos e até átomos. Esta visão do tempo enquadra-se com a de Giordano
Bruno (1548 – 1600), que também via o Universo como infinito e cíclico.
Blavatsky adopta uma visão semelhante
à das filosofias orientais, especialmente o Vedanta e o Budismo, ao afirmar que
o tempo, como o percebemos, é uma ilusão (Māyā). É sua, esta afirmação: “O Tempo só é uma ilusão produzida pela
sucessão de nossos estados de consciência ao viajarmos através da Eternidade.”,
(Doutrina Secreta, Vol. 1). Ou seja,
o tempo não é um factor absoluto, mas um efeito da percepção da mente finita.
Lembra tanto as visões de Agostinho de Hipona, que também via o tempo como uma
construção da mente, assim como as de Giordano Bruno, que por sua vez defendia
a relatividade do tempo à percepção e à mudança dos fenómenos locais.
A visão de Santo Agostinho sobre o
tempo não é meramente teológica, mas profundamente filosófica e psicológica. Ao
defender que o tempo não é um objecto absoluto, mas um fenómeno da consciência,
transforma o presente no único "tempo real", pois o passado e o futuro
existem apenas na mente, mas porém, Deus e a Eternidade transcendem o tempo e a
mudança. Deste conceito surge a possibilidade da Consciência poder reorganizar
a percepção do tempo, quando ligada a uma realidade superior. É assim, que Agostinho
distingue três aspectos do tempo, que correspondem não a entidades absolutas,
mas a estados da mente. O passado faz a sua presença existencial apenas como
memória, enquanto o futuro existe apenas como expectativa, sendo que o presente
constitui apenas como percepção momentânea, continuamente fluindo entre um e
outro.
"O que é, então, o tempo? Se, ninguém me pergunta, eu sei; mas se quero
explicá-lo a quem pergunta, já não sei.", Confissões XI, 14,17.
Apesar da existência das diferenças,
podemos estabelecer um quadro de convergência:
Contudo, será legitimo aproximar
estes conceitos místicos das ideias contemporâneas da física?
A relatividade einsteiniana em que o
tempo é explicado como um fluido não-absoluto, mudando conforme o observador,
reflecte a visão de Agostinho de que ele só existe como processo psicológico
ligado à mente. O tempo emergente em David Bohm que pode ser um efeito da Consciência
sobre a realidade, alinha-se perfeitamente com a ideia de Deus como "fora
do tempo". Depois com Carl Jung e a física quântica que colocam os eventos
futuros a informar o presente, dão ênfase aos aspectos da sincronicidade e da retrocausalidade,
visto o tempo ser fluido. A retrocausalidade implica que estados futuros possam
influenciar o presente, algo que Carl Jung percebeu em experiências de
sincronicidade, onde eventos subjectivos (sonhos, símbolos, arquétipos)
pareciam antecipar acontecimentos futuros.
Giordano Bruno, influenciado pelo
neoplatonismo e pela tradição hermética, via o tempo como uma expressão da
eternidade, não uma sequência linear de eventos, mas uma projecção dinâmica do
Uno na manifestação. Assim, como no conceito védico de Kāla, Giordano Bruno
acreditava que o tempo era cíclico e eterno, reflectindo padrões arquetípicos
que se repetiam em escalas diferentes. Rejeitava a ideia aristotélica de um
universo finito e introduzia uma concepção infinitista, onde o tempo fazia
parte da estrutura holográfica do cosmos, em que o tempo podia ser um efeito da
projecção de informações no espaço-tempo, afinal uma ideia próxima à Ordem
Implícita de Bohm. O tempo não era apenas uma medida de movimento, na sua
acepção reducionista e fisicalista, mas um campo de transformação da
Consciência, onde a alma podia elevar-se através da compreensão dos princípios
cósmicos, emparceirando com a visão gnóstica de Pistis Sophia, onde o tempo
material aprisionava a Consciência, mas, contudo, podia ser transcendido
através do conhecimento (gnosis). Giordano Bruno via o tempo como um aspecto da
manifestação infinita do cosmos, ligado à eternidade, à circularidade do tempo
e à Consciência como elemento organizador da realidade.
Por sua vez o evangelho gnóstico
Pistis Sophia descreve uma cosmologia hierárquica onde o tempo está ligado à
ascensão e queda da Consciência dentro dos domínios mais subtis e de outros
mais materiais. No universo gnóstico, os Aeons (Éons) representam níveis de
realidade onde o tempo e o espaço são percebidos de formas diferentes. Na
manifestação inferior (o cosmos material), o tempo funciona de maneira linear e
determinística, criando ciclos de karma e reencarnação. É o tempo como
restrição causal.
Mas também o tempo é sofre com um
processo de correcção quântica quando Pistis Sophia descreve um processo de
retorno à Luz, onde a alma deve superar as forças que a prendem no tempo
cíclico do mundo material dando a ideia de que o tempo pode ser transcendido
através da Consciência, semelhante às ideias védicas onde Kāla é uma restrição
da percepção, mas não da realidade última.
Verificamos que nos Tattvas Puros e Impuros
do Shaivinismo da Caxemira a realidade é estruturada da mesma forma que os
Aeons estruturam a existência em Pistis Sophia. Assim como as Potências em
Pistis Sophia actuam como processos de códigos de correcção quântica da
Consciência, os Tattvas também definem os graus de liberdade na manifestação do
espaço-tempo, confinando com a Ordem Implícita de David Bohm, que descortina
que o tempo manifesto é uma projecção holográfica de um estado atemporal e mais
profundo da realidade.
Por último, por ser a fonte mais
antiga, os Vedas e as tradições filosóficas indianas, o conceito de tempo (Kāla)
é profundo e multifacetado, indo muito além da noção linear, assumido
simultaneamente como um ciclo eterno, uma força cósmica activa, por força
conceptual exotérica uma divindade associada à transformação e dissolução.
Diferente da visão ocidental linear, o tempo nos Vedas é cíclico, reflectindo
os ritmos cósmicos da natureza através dos Yugas (as Eras Cósmicas. O tempo
cósmico é dividido em quatro grandes Eras, formando um ciclo completo chamado
de Maha Yuga, composto por Satya Yuga (Era da verdade, da harmonia e da consciência
elevada), Treta Yuga (o declínio gradual da virtude), Dvapara Yuga (maior
corrupção e diminuição da consciência) e Kali Yuga (a Era actual, marcada pelo materialismo
e pelo esquecimento espiritual). Cada Maha Yuga repete-se em ciclos dentro de
um Kalpa (ou dia de Brahma), que dura 4,32 mil milhões de anos. Depois, após um
Kalpa, há uma fase de dissolução chamada Pralaya, antes do recomeço de um novo
ciclo manvantárico.
No Vedanta e no Vishnu Purana, o
tempo é descrito como o acto de respiração de Brahma (inspiração/expiração). Um
Kalpa equivale a um dia de Brahma, e ao final de 100 anos de Brahma, o universo
entra na dissolução total (Mahapralaya), uma espécie de modelo oscilante do
universo, onde há fases de expansão e contracção, semelhante a teorias
cosmológicas modernas como a CCC – Ciclo Cosmológico Conformal de Roger
Penrose.
Nos Vedas, o tempo (Kāla) não é
apenas um medidor de eventos, mas uma força activa e “devoradora”, relacionada
com a transformação e dissolução. É assim que no Bhagavad Gita (11:32), na
famosa visão de Krishna a Arjuna, Krishna diz: "Eu sou o Tempo (Kāla), o destruidor dos mundos." Kāla é
descrito como a força inescapável da destruição e mudança, uma noção semelhante
à Segunda Lei da Termodinâmica, onde o tempo conduz à Entropia, motor da
transformação do universo. Por este motivo Kāla é frequentemente associado a
Shiva, o deus da dissolução cósmica.
O tempo também é transmitido com uma
percepção relativística. Nos textos védicos, o tempo é relativo e percebido de
maneiras diferentes por diferentes seres. Por exemplo no Vishnu Purana, é dito
que um dia e uma noite para os deuses equivalem a um ano humano e no Bhagavata
Purana, o tempo passa mais devagar para seres divinos e mais rápido para
humanos, uma ideia semelhante à dilatação temporal da Relatividade Geral de
Einstein. Esta visão faz do tempo uma entidade que não é absoluta, mas relativa
aos planos da Consciência como teia informacional fundamental.
O conceito védico de Kāla como um
ciclo eterno e fundamental para a estrutura do cosmos pode ser visto como um
aspecto emergente da informação holográfica, onde o passado, presente e futuro
estão entrelaçados num padrão maior. Entretanto se Kāla está além da percepção
linear, pode indicar que o tempo é um fenómeno emergente, tal como o espaço,
como algumas interpretações da física quântica propõem. O conceito de Akasha
como um campo informacional atemporal pode estar entranhado com este princípio.
Pressente-se a existência de uma
relação profunda entre a noção de tempo, nos conceitos dos Vedas, em Pistis
Sophia, com Giordano Bruno, a retrocausalidade de Jung, o tempo einsteiniano e
a Ordem Implícita de Bohm. Provavelmente foram beber às mesmas fontes! Newton,
a meio deste percurso, vem quebrar esta corrente. No Principia Mathematica,
Livro I, afirma: "O tempo absoluto,
verdadeiro e matemático, em si e por sua própria natureza, flui uniformemente,
sem relação com qualquer coisa externa."
Isaac Newton, nos Principia
Mathematica (1687), introduziu a ideia de que o tempo é Absoluto e Universal,
fluindo igualmente para todos os observadores, independentemente de qualquer
evento ou movimento, sendo Independente do Espaço ao passar de maneira
uniformemente constante e ainda linear e ininterrupto uma vez que não é
afectado por forças externas ou pela própria matéria.
A visão de Newton “quebra”, como
corte epistemológico, frente às abordagens modernas e antigas por ser determinista,
imutável e atemporal na sua essência. Até Agostinho de Hipona via o tempo como
uma percepção da mente humana, o que já é um avanço sobre a concepção linear de
Newton. Para não falar nos Ciclos Cosmológicos Conformais de Penrose que
propõem que o tempo pode ser reconfigurado em escalas cosmológicas (o que
parece estar a ser provado pelas observações do telescópio espacial James
Webb), rompendo mais uma vez frontalmente com a linearidade de Newton. Não é
por acaso que Isaac Newton e, pouco antes, Galileu Galilei introduzem o método
científico experimental, essencial mas reducionista por ser eminentemente
fisicalista.
Na verdade com Einstein, ao retomar
as mesmas indagações, o tempo e o espaço formam um contínuo 4D (espaço-tempo),
quebrando a visão de tempo uniforme de Newton. O tempo deixa de ser absoluto e
passa a ser relativo ao referencial do observador em que a dilatação do tempo e
contracção do espaço ocorrem com velocidades próximas à da luz.
Enquanto Newton vê o tempo como uma
"marcha universal", Roger Penrose e muitos físicos contemporâneos
percebem o tempo como uma construção contextual, cíclica e até mesmo ligada à
Consciência. Percebemos que a colaboração entre Penrose e o Vaticano aponta
para uma busca por integrar essas visões aparentemente contraditórias, reflectindo
sobre como a eternidade e a temporalidade, podem coexistir numa perspectiva
mais abrangente, assunto que os Vedas já tinham resolvido! A grande síntese
védica reside na percepção de que tempo e eternidade coexistem. A temporalidade
está relacionada com o mundo manifesto, às mudanças e às transformações
enquanto a eternidade está ligada ao absoluto, ao imutável, ao núcleo da
realidade que é Brahman. Deste modo a manifestação e a dissolução dos Universos
ocorrem dentro do tempo cíclico, mas o estado essencial permanece imperturbável
e eterno. Os Vedas resolvem a questão da eternidade e da temporalidade ao
integrá-las, vendo-as como as duas faces da mesma realidade fundamental. A
experiência directa dessa integração é considerada o auge do conhecimento
espiritual – o estado de Nirvana.
A dimensão atemporal védica (Brahman)
está além da narrativa histórica, assim como o tempo mítico transcende a
cronologia. As histórias dos deuses e dos ciclos cósmicos nas escrituras
hinduístas, como os Puranas, frequentemente possuem uma estrutura mítica que
reforça a ideia do tempo sagrado e repetitivo que dá forma aos ritos repetidos
temporalmente. O tempo mítico é uma dimensão temporal que não segue a
cronologia linear da história, mas sim um tempo arquetípico, eterno e
recorrente. Constitui um tempo que faz parte dos nossos tempos vivenciais do
dia-a-dia.
Mircea Eliade, descreve o tempo mítico como o
retorno ao “tempo das origens”, onde os acontecimentos fundamentais são
revividos e reactualizados. Assim, no conceito do Eterno Retorno, os eventos
míticos não pertencem ao passado histórico, mas acontecem em um “tempo fora do
tempo” e podem ser repetidos ciclicamente. O que lhe confere uma sacralidade
através de rituais e celebrações muitas delas de carácter religioso, onde os
mitos são revividos, ao situarem-se em estados arquetípicos por introdução de
uma suspensão temporal que transcende a cronologia comum.
Na experiência humana, o tempo mítico
pode ser percebido na exploração de estados de consciência expandida, onde o
indivíduo se sente ligado a algo atemporal e universal. Os rituais que recriam
mitos são, portanto, uma maneira de experienciar o atemporal dentro da
temporalidade. As práticas espirituais que transcendem a mente racional também
permitem um “mergulho” no tempo mítico-arquetípico, acedendo a camadas
profundas da psique e da Consciência. Portanto, a eternidade e o tempo mítico
encontram-se no ponto de confluência onde o espiritual e o simbólico convergem,
manifestando uma realidade que transcende tanto a linha temporal quanto a
narrativa histórica.
Poderíamos aqui fazer uso da visão de
Bohm, por exemplo, onde o conceito de Holomovimento representa uma ordem que se
desdobra e se manifesta no tempo linear, mas permanece essencialmente
atemporal, uma noção que faz lembrar o tempo mítico como expressão do eterno.
Fig. 1 - Modelo Redutor do Tempo
O Tempo emerge da fórmula de Schrödinger por efeito
da Entropia ao “colapsar” os feixes das Ondas Piloto transformando a
dimensão atemporal (implícita)
em temporal (explícita). Grafismo do autor.
No Tempo concebido como Estrutura
Fixa, denominada Blocos do Tempo, o Universo é considerado um bloco 4D onde
passado, presente e futuro coexistem. Não há um fluxo temporal real — tudo já
está "escrito" no bloco do espaço-tempo e “na sua capacidade para ser dobrado, moldado e distorcido. A teoria de
Einstein passou com distinção em todos os testes realizados. O espaço e o tempo
estão tão interligados que o que afecta um, afecta o outro. Se o espaço pode
ser dobrado, então, o tempo também pode.” (Carlo Rovelli, Tempo, 10 Coisas Que Deve Saber, Penguin
Random House Group Editorial, 2024, pp 63).
É na assunção deste princípio que
surge o Modelo Redutor do Tempo, que represento na figura 1, e que descreve de
forma gráfica o processo da “passagem” da Ordem Implícita ligada à Teia
Informacional Fundamental (TIF), não-local, como tal originada em Brahman, para
a Consciência Local da incompletude (por falta de Gnosis), a Ordem Explícita.
Esta dever-se-á à Segunda Lei da Termodinâmica, a Entropia, presente na “brana”
do Tempo Presente, simulador do livre-arbítrio em concordância com a Interpretação
de Aharonov, onde os estados futuros influenciam os estados passados, desde que
a coerência quântica seja mantida. No nosso caso seria mantida pelo processo de
correcção quântica de erros, similar àquela dos Cristais Temporais Quânticos,
que já defendemos noutro texto. Alguns casos experimentais perfilam-se na confirmação
desta assunção, como aqueles da Experiência da Escolha Retardada de Wheeler ou
ainda a Experiência de Delayed-Choice
Entanglement, dos quais já fizemos amplas referências. Também poderíamos
chamar a atenção para o Princípio da Autoconsistência de Novikov que estabelece
que se existe um acontecimento que possa causar um paradoxo ligado à alteração
do passado, então a probabilidade que ele ocorra é zero. E acrescentaríamos:
precisamente devido ao processo de correcção quântica de erros!
Na medida em que cada parte da teia
(TIF) pode conter informações sobre o todo de maneira holográfica, podemos
fazer derivar aquele conceito védico de Akasha, assumido na forma exotérica
como um “armazém” de informações, que no entanto podem ser acedidas de acordo
com níveis hierárquicos diferentes dependendo de estados de Consciência, uma
vez que correspondem a diferentes camadas da estrutura fractal do Universo. O
Eterno Retorno manifesto nos rituais e expresso em todas as mitologias seria o
plasmar material do pressentido arquétipo.
O Tempo seria um fenómeno emergente –
o Tempo Termodinâmico que torna evidente o papel da Entropia, defendido por
Carlo Rovelli, proveniente daquelas oscilações quânticas da “espuma de spins”
do Espaço. Daí a sua interligação forte e indissociável, traduzida em modo
local da Ordem Explícita, dada a conhecer como espaço-tempo e Entropia (Holomovimento
ou uma espécie de vector Dhármico védico?).
Nos Vedas, especialmente em textos
como os Upanishads e no Bhagavad Gita, o tempo também possui um aspecto imóvel,
um bloco informacional eterno com o conceito de Brahman. A realidade última,
atemporal e imutável, abarcando todos os tempos de uma só vez e em que a realidade
manifesta – o tempo presente momentâneo que passa rapidamente a passado (ambos
são Maya) e que se desenrola ciclicamente. Mas a verdade essencial está além do
fluxo temporal, uma atemporalidade fundamental da existência, a ideia de que o
tempo é apenas uma percepção relativa e não uma mudança real na essência
última.
"A alma não nasce nem morre, nem, uma vez tendo existido, deixará de
existir. É não nascida, eterna, permanente e primitiva; não é morta quando o
corpo é morto.", Bhagavad Gita
(2.20).
Assim como no conceito Bloco do
Tempo, onde os eventos estão todos “presentes” de uma só vez, também na
tradição védica, o tempo cósmico é repetitivo e eterno, de modo que a
manifestação e a dissolução são simultâneas em níveis diferentes da realidade.
O conceito de Mahakalpa (ciclo de criação e destruição cósmica) abarca uma
eternidade de éons em que os ciclos menores – como se fossem “blocos”, são
parte de uma estrutura eterna e fixa. A percepção da passagem do tempo e das
transformações é atribuída à mente (Manas - Kama Manas) e à ilusão de Maya, enquanto
a Consciência pura (Atma) permanece imutável e atemporal. Aqui a Consciência,
numa visão integrada com o observador, percorre os “blocos” dentro do Bloco do
Tempo, também visto como estrutura imutável e eterna da realidade (Brahman) - a
estrutura fractal e holográfica, afinal a origem do conceito de Karma e Samsara, onde o indivíduo, ao não
reconhecer a eternidade da Consciência, fica preso ao fluxo temporal ilusório.
"Aquele que conhece o Imutável,
que está além do tempo e da mudança, não é tocado pela ilusão da morte. Pois
aquilo que é eterno não pode ser destruído, e aquele que conhece o eterno vive
na luz do conhecimento.", Mundaka
Upanishad 2.2.7.
Esta integração entre ciência e
filosofia impele-nos a considerar que a realidade última transcende tanto o
tempo quanto o espaço (porque estão indissociavelmente ligados), enquanto a
percepção de mudança e linearidade é um fenómeno iminentemente local ligado à
Consciência enquanto apropriada (ou partilhada?) pelo observador e aos seus
consequentes níveis de percepção.
"Aquilo que é imutável, imperecível, eterno, que não nasce nem morre,
que é o próprio ser da consciência — este é o Brahman. Os sábios que conhecem
esta verdade transcendem o fluxo do tempo e alcançam a eternidade.", Katha Upanishad 2.18.
Podemos aprofundar a relação entre
Entropia e o conceito de Holomovimento de David Bohm a partir de uma
perspectiva de dinâmica da informação e das Ordens Implícita e Explícita.
Como atrás constatámos, o Holomovimento
é a ideia de que o Universo é uma totalidade indivisível em constante movimento
e transformação, onde nesse movimento contínuo, existem aquelas duas Ordens,
uma desdobrando-se da outra. A Entropia, na termodinâmica e na teoria da
informação, mede a desordem ou incerteza de um sistema. Enquanto na física
clássica, aquela está relacionada com o aumento da desordem em sistemas
isolados, porém na teoria da informação, mede a quantidade de informação
desconhecida ou incerta. O processo de desdobramento da Ordem Implícita para a
Ordem Explícita pode ser visto como um movimento de aumento de Entropia. Ou
seja, a Ordem Implícita contém a potencialidade pura, que é altamente ordenada
e correlacionada, mas que ao manifestar-se na Ordem Explícita, vai induzir a um
aparente aumento da Entropia, pois as relações “ocultas” tornam-se
aparentemente caóticas ou desordenadas. Como se fossem assumidos véus!
Analogamente, poderíamos comparar a
outros fenómenos naturais, nomeadamente a um holograma codificado que
contivesse informações completas, mas que, ao ser projectado, cria padrões
fragmentados e distribuídos, ou ainda ao caso da energia potencial altamente
ordenada que se transforma em calor disperso (alta entropia). O Holomovimento
carrega informação quântica global, mas quando ocorre o desdobramento para a
Ordem Explícita, a informação distribui-se, aparentando desordem e
fragmentação. Neste contexto, surge o conceito de Entropia Quântica que representaria
a perda de correlação e coerência à medida que a Realidade se vai manifestando
como fenómeno explícito, podendo ser interpretado como um processo de
decoerência ou de colapso, onde a Ordem Implícita altamente correlacionada se
fragmenta em partes não correlacionadas, gerando o fenómeno entrópico.
Outra ligação, esta cosmológica, pode
ser feita à própria natureza dos Buracos Negros. Bohm também sugeria que a
Ordem Explícita pode ser reabsorvida na Ordem Implícita, assim como um
movimento de retorno ao estado de maior coerência, sugerindo que o aumento da
entropia não é um processo irreversível num contexto holonómico, mas parte de
um ciclo contínuo de manifestação e dissolução, lembrando o conceito de um Universo
em que a informação supostamente perdida nos Buracos Negros, afinal não é destruída,
mas reabsorvida pela Ordem Implícita, noutra dimensão temporal. Uma clara
similitude aos textos védicos dos ciclos em éons dos processos de Manvantaras e
Pralayas ou da teoria cosmológica conformal de Roger Penrose.
Esta relação entre Entropia e Holomovimento
reflecte porém algo tido como paradoxo. Se por um lado a desordem aparente
(alta entropia) da Ordem Explícita é, na verdade, uma manifestação parcial de
uma ordem oculta mais profunda e coerente, por outro lado, o aumento da Entropia
corresponde ao desdobramento do Holomovimento, e a sua redução poderia ser
vista como um recolhimento ou regresso na Ordem Implícita – algo semelhante ao
conceito de Nirvana ou a um sistema Samsara. Neste caso, reforçaria a ideia de
que a Entropia não é apenas a perda de ordem, mas sobretudo uma dinâmica entre
o explícito e o implícito. A estrutura fundamental permanece ordenada, mas a
manifestação pode aparentar caos e fragmentação (tal como é revelado em Pistis
Sophia). Esta abordagem leva à ideia de que o aumento de Entropia no Universo
não é um simples movimento em direcção ao caos, mas um processo dinâmico de
revelação e ocultação cíclica de uma ordem subjacente, que é sempre preservada
no nível holonómico. Unificam-se conceitos ancestrais como Dharma, Nirvana, a
Roda de Samsara e coloca-se a Entropia Quântica num contexto de centralidade de
acção para justificar cientificamente a quantização do espaço-tempo e a
gravidade como resultado explícito.
Assim a Termodinâmica que defende a
irreversibilidade da desordem num sistema fechado e a Mecânica Quântica que
defende a reversibilidade do fluxo de informação e do tempo, ultrapassadas
estas duas contradições, seriam os dois pilares da física moderna integrando a
explicação cabal da Realidade. O gráfico que aqui apresentamos, tenta mostrar
de forma intuitiva o que propomos.
Naquele gráfico referimos de passagem
que a equação de Schrödinger mostra que o tempo está intrinsecamente
relacionado à evolução da função de onda e que a dinâmica quântica é descrita
como uma oscilação complexa. A presença do tempo implica que o estado quântico
está sempre em mudança — excepto em casos estacionários, onde a solução
independente do tempo é usada.
Vamos então supor que a equação de
Schrödinger pode ser reinterpretada no contexto do Holomovimento de David Bohm
e das Ordens Implícita e Explícita.
Imaginemos a função de onda quântica
como uma expressão matemática do Holomovimento, reclassificando as ordens.
Assim, a Ordem Implícita estaria associada à estrutura complexa e
correlacionada da função de onda no espaço de configurações, enquanto a Ordem Explícita
emergia como a manifestação aparente das probabilidades ou eventos observáveis
(por via do quadrado da função de onda: ∣Ψ∣2).
A equação de Schrödinger pode ser
escrita de duas maneiras principais: a forma dependente do tempo e a forma independente
do tempo. Por razões óbvias vamos utilizar a primeira.
Onde:
𝑖 = unidade imaginária (√−1 ou raiz quadrada de -1);
ℏ = constante de Planck reduzida;
Ψ(r,t)
= função de onda (dependente da posição 𝑟
e do tempo 𝑡) que codificará tanto a ordem implícita quanto a
explícita;
∂Ψ/∂t =
derivada parcial da função de onda em relação ao tempo;
𝐻 = operador Hamiltoniano (representa
a energia total do sistema, cinética e potencial) que conterá os padrões
manifestos da Ordem Explícita.
O tempo aparece na derivada parcial
temporal ∂Ψ/∂𝑡, que expressa como a função de onda muda ao longo do
tempo. Isso significa que a função de onda evolui de forma dinâmica, e que a equação
descreve essa evolução. O tempo não está incluído directamente no Hamiltoniano
(que contém a energia cinética e potencial), mas a evolução temporal da função
de onda é determinada pela interacção entre o Hamiltoniano e o termo temporal.
Podemos dividir a função de onda como
uma soma ou superposição de componentes que representam diferentes aspectos da
Ordem Implícita e da Ordem Explícita. Assim teremos:
Em que ψ
i (r) são as
Funções espaciais que representam padrões potenciais da Ordem Implícita.
e
𝜙𝑖(𝑡) são as componentes temporais que representam a manifestação
da Ordem Explícita ao longo do tempo.
Apliquemos então o desdobramento com a evolução temporal:
A derivada temporal ∂Ψ/∂𝑡
representa o processo de desdobramento contínuo do Holomovimento, onde os
padrões ocultos tornam-se explícitos. Podemos imaginar então que o Holomovimento
é intrinsecamente dinâmico, onde a função de onda é actualizada continuamente,
integrando as Ordens Implícita e Explícita e que a evolução da função de onda
está ligada ao fluxo de informação e coerência quântica — afinal um reflexo da
passagem da Ordem Implícita (potencial) para a Ordem Explícita (fenomenal).
Consideremos a fase da função de onda como Ordem Implícita. Então, a fase complexa da função de onda, é dada por:
Onde:
𝑅(𝑟,𝑡) é a amplitude da Ordem Explícita (probabilidade).
𝑆(𝑟,𝑡) é a fase ligada à Ordem Implícita (estrutura de
potencialidade).
Deste modo, a fase contém uma
informação oculta e correlacionada, que, quando "desdobrada" no
espaço-tempo, torna-se a manifestação que observamos.
Na interpretação de Bohm, o potencial
quântico influencia a partícula, mesmo sem um Campo clássico, reforçando a
ideia de que o potencial quântico actua como um elo entre a Ordem Implícita e a
Ordem Explícita, orientando o comportamento sem que seja directamente
observável. Então a não-localidade associada ao potencial quântico passa a ser
um reflexo da Ordem Implícita, transcendendo a separação espacial.
Podemos agora antever uma equação
modificada para o Holomovimento, uma generalização onde o termo de fase da
função de onda interage com um Campo representando o fluxo do Holomovimento:
Onde 𝑉ℎ𝑜𝑙
(𝑟,𝑡) representa um potencial holonómico que codifica a ligação
entre as Ordens Implícita e Explícita, modulando assim a dinâmica.
Agora a equação de Schrödinger, passa
a ser reinterpretada sob a perspectiva do Holomovimento, descrevendo uma
evolução contínua entre as dimensões da Realidade — da potencialidade implícita
para a manifestação explícita. Ali a função de onda não representa apenas uma
distribuição probabilística, mas também um campo holonómico dinâmico que reflecte
a interacção entre os dois níveis daquela Realidade. Também ultrapassa a
Relatividade einsteiniana que é determinística e não-probabilística, dado que a
sua formulação relativística é não-estocástica e considerada como uma teoria
“acabada” em termos da sua conceptualização.
Como vimos, a Relatividade Geral de
Einstein é determinística e contínua, descrevendo o espaço-tempo como uma
variedade geométrica suave. Por outro lado, a mecânica quântica é
intrinsecamente probabilística e discreta (em termos de quantização de
estados). No entanto a abordagem de Bohm, com sua onda piloto, tenta de algum
modo reconciliar o determinismo com a mecânica quântica, mas ainda depende de
uma estrutura de fundo estática — algo que contrasta com a dinâmica do
espaço-tempo da Relatividade Geral. A introdução do conceito de Holomovimento
de Bohm oferece, no entanto, uma perspectiva mais dinâmica e fluida da
realidade, uma vez que a Ordem Implícita está além da causalidade linear e da
descrição espaço-temporal clássica, e a Ordem Explícita surge como um fenómeno
local, mas guiado por uma estrutura global não local.
Será que o Holomovimento transcende
as limitações do conceito clássico de espaço-tempo? Para conciliar o
Holomovimento com a Relatividade, devíamos considerar aquela como um Campo
Holonómico Dinâmico, ou seja um Campo subjacente que modula o espaço-tempo
local, actuando como um campo geométrico fundamental - a ideia de “espuma de
spins” para o espaço-tempo, associado à sua curvatura, mas com uma componente
informacional dinâmica. Para tal, teríamos que Incorporar um potencial quântico
dinâmico às equações da Relatividade Geral:
Onde
Em que ם é o operador d’Alembertiano que reflecte a
estrutura do espaço-tempo.
Daqui se extrai a conclusão de que a
não-localidade quântica não seria uma violação na Relatividade, mas sim um reflexo
da inter-conectividade holonómica que permeia o espaço-tempo, acrescentando que
a não-localidade quântica não ocorre dentro do espaço-tempo, mas por meio dele,
como se as ligações fossem curvaturas informacionais em uma estrutura superior.
Por outro lado. Poderia também concluir-se que o tempo e a causalidade seriam
efeitos emergentes dessa rede holonómica mais fundamental – a Teia
Informacional Fundamental (TIF).
Esta proposta de uma equação holonómica
relativística poderia, então, ultrapassar o paradigma estocástico actual ao reintegrar
o tempo como uma dimensão fluida e interligada, incorporando os Campos Informacionais
que transcendem o espaço-tempo clássico e mantendo a coerência global como uma
propriedade geométrica do próprio Holomovimento.
Finalmente, seria um modelo de unificação
teórica que transcende tanto o modelo quântico convencional quanto a Relatividade
clássica, propondo uma Realidade em que o tempo, o espaço, a não-localidade e o
emaranhamento são aspectos de uma ordem mais profunda e implícita, como sempre
temos defendido em variados textos.
Inclusivamente este Modelo de Geometria Informacional, é reconhecível no conceito transmitido pelos textos védicos e hinduístas como o Campo Akáshico. Basta para tal pensar na Teia Informacional Fundamental (TIF) como um Campo geométrico subjacente que permeia toda a realidade. Uma “geometria” simples baseada na superfície mínima possível – o triângulo, reproduzido tridimensionalmente como uma “espuma”. Não seria por acaso que na física, as estruturas triangulares aparecem frequentemente dando forma às redes cristalinas e em modelos de triangulação dinâmica, como na gravidade quântica em laços e na teoria das redes de spin. É sabido que a simetria triangular favorece a formação de redes interligadas, expansíveis tridimensionalmente, formando estruturas poliédricas ou teias de grafos interligados. Daí a nossa proposta de aplicação do Triângulo de Pascal (feita noutro texto), dado que configura uma estrutura interessante de coeficientes binomiais, que podem introduzir pesos de conexão entre os vértices, são geradores de amplitudes de probabilidade, e formam cadeias de números combinatórios que podem estar associados a estados quânticos superpostos e a séries de momentos angulares ou spins, cujas combinações levam à formação dos padrões geométricos verificados matematicamente. Como seria edificada esta estrutura?
Fig. 2 – Representação gráfica do campo informacional
com estrutura triangular e interconexões angulares, concebida por IA com base
nos conceitos de Holomovimento e Teia Informacional Fundamental (TIF).
Uma possibilidade seria a cada
triângulo básico da teia informacional atribuir um estado fundamental, com os
vértices associados a Momentos Angulares Intrínsecos ou spin. Cada vértice possuiria um valor de spin associado (𝑠=1/2, 1, 3/2, …). Por outro lado, os Momentos Angulares
Orbitais (L), seriam as ligações entre os vértices que representariam momentos
orbitais, formando estruturas angulares tridimensionais, e a Correlação Angular
Magnética seria constituída pelos Momentos Angulares interagindo de forma que a
orientação de um triângulo afectasse os vizinhos, originando assim uma teia
coerente mas elástica.
Podíamos então laborar sobre uma Equação
de Estado para o Campo Informacional Fundamental (TIF), propondo uma função de
onda holonómica triangular, considerando a coerência global como sendo o
somatório das fases angulares, dada por:
Onde teríamos:
ψi representando
a amplitude de probabilidade associada ao triângulo 𝑖;
𝜃𝑖 a fase angular gerada pela soma dos momentos
angulares e spins nos vértices.
Assim, a função de onda global
poderia ser vista como uma rede de fases inter-ligadas, em sede das quais as
mudanças locais num triângulo desencadeariam ajustes angulares nos vizinhos,
dando à teia uma coerência global, garantindo uma transmissão não-local e
instantânea das informações. A não-localidade quântica poderia ser
reinterpretada como uma reorganização angular na TIF, com a transmissão de
coerência ocorrendo através de variações geométricas subtis – a elasticidade
como propriedade intrínseca.
A relação com o modelo de Bohm torna-se
perfeita e implicaria apenas que a Ordem Implícita corresponderia às
potencialidades das configurações angulares e a Ordem Explícita surgiria como
padrões estáveis ou quase estáveis das orientações triangulares. O Holomovimento
seria a actualização contínua da teia angular, movendo as fases conforme as
interacções ocorressem, um corrector perfeito de erros quânticos, tais como os
processos que decorrem nos cristais temporais quânticos.
Deste modo a ideia central residiria
em atribuir à Ordem Implícita a natureza de um Campo de informação coerente,
que se actualiza continuamente conforme as interacções ocorrem, e os fenómenos
da não-localidade quântica e do emaranhamento quântico serem compreendidos como
uma mudança topológica desse campo informacional, que conecta estados distantes
em uma malha holonómica global. Seria a instantaneidade tão constatada nos
processos quânticos. Este modelo geométrico utilizaria uma variedade de
informação com métrica que muda conforme a densidade da correlação quântica. Só
assim se poderia explicar as ligações não-locais instantâneas, então concebidas
como distorções na estrutura informacional e as respectivas mudanças de
coerência como variações na sua “curvatura”.
Esta modelagem topológica da TIF
plasmaria uma rede tridimensional de tetraedros interconectados, onde cada
triângulo básico seria uma face de um tetraedro, com cada vértice representando
um estado de spin e as respectivas ligações
entre triângulos garantes de uma malha topológica de fluxo, que evolui conforme
os estados quânticos locais mudam.
"Assim como as
teias de uma aranha surgem dela e nela se recolhem, assim também brotam do
Eterno os mundos e nele se dissolvem.", Mundaka Upanishad (II.2.5).
Expressa claramente a ideia de que
toda a estrutura do Universo — incluindo as ligações e teias que sustentam a
realidade — emerge de uma fonte unificadora e para ela retorna. Vemos uma
correspondência directa com a ideia do Holomovimento, onde o Campo quântico informacional
fundamental (a TIF), se manifesta como uma teia dinâmica de conexões
triangulares ou tetraédricas que emergem do campo Akáshico (visto como memória
informacional) e retornam a ele conforme a coerência global muda (os níveis de
Consciência).
"Cada pessoa é, ao mesmo tempo, o centro e a circunferência; a estrutura
e o fluxo da realidade entrelaçam-se como uma tapeçaria infinita, onde cada fio
está em conexão com todos os outros.", Aldous Huxley, As Portas da Percepção, (1954).
Huxley manifesta aqui a inter-conectividade
da Consciência e da Realidade, na visão de uma tapeçaria cósmica que transmite
a nossa ideia da TIF e de uma dinâmica que ultrapassa a localidade.
"O tempo é a eternidade disfarçada de sucessão".
Esta frase da Filosofia Perene (1945), também faz recordar o conceito dos
Upanishads, a coexistência do tempo cíclico e a eternidade imutável, anos
depois retomada na exploração científica do Holomovimento de David Bohm, onde a
Ordem Explícita (a realidade material) e Implícita (a Realidade fundamental) desdobram-se
de forma contínua.
"Há em tudo qualquer coisa de absoluto,
Que se não compreende, mas se vê
Que é a trama da essência de onde tudo é tecido."
Fernando Pessoa,
in Fragmentos Poéticos
Assim se estabelecem possíveis diálogos
entre a ciência, a poesia e a sabedoria ancestral.
João Porto e Ponta Delgada, 2 de abril de 2025