ou uma proposta teórica estranha
sob uma nova perspectiva da teoria da informação
INTRODUÇÃO
O
“problema dos três corpos” que consiste em determinar o movimento de três
corpos sujeitos exclusivamente à interacção gravitacional mútua, constitui um
dos problemas fundamentais da mecânica clássica (Euler, 1767; Lagrange, 1772;
Poincaré, 1890; Szebehely, 1967). Embora as equações de movimento possam ser
formuladas de maneira simples a partir da lei da gravitação de Newton, a
presença simultânea das três interacções — entre os pares (1!-!2), (2!-!3) e
(3!-!1) — produz um sistema dinâmico fortemente acoplado, para o qual não
existe, em geral, uma solução analítica fechada. Ao contrário do problema de
dois corpos, cuja dinâmica pode ser reduzida a um problema integrável (Valtonen
& Karttunen, 2006), o sistema interactivo de três corpos pode apresentar
comportamento não integrável e elevada sensibilidade às condições iniciais,
constituindo um exemplo paradigmático de dinâmica caótica (Poincaré, 1890;
Lorenz, 1963; Strogatz, 2015).
A
dificuldade fundamental reside não tanto na formulação das equações, mas na
complexidade emergente das relações entre os três corpos ou as três massas.
Esta característica torna o problema particularmente relevante para abordagens
que procuram compreender a dinâmica física a partir da estrutura das relações
subjacentes. Nesse contexto, o framework
da Teia Informacional Fibrada (TIF) propõe uma reformulação na qual a estrutura
triádica passa a constituir um elemento fundamental da descrição da interacção
gravitacional. Nesta perspectiva, três entidades podem ser representadas pela
influência de três qutrits,
realizados como tripletos de spins (Porto,
2026), cujas correlações binárias e triádicas codificariam a estrutura
relacional do sistema numa autêntica projecção de parâmetros entre domínios
dimensionais extremados.
A
hipótese explorada neste trabalho consiste em introduzir, além das interacções
entre pares, um termo genuinamente triádico (designado por nós como K123), capaz de representar a
informação relacional associada ao conjunto dos três elementos. O objectivo
seria investigar se uma dinâmica deste tipo permitiria uma descrição
alternativa da complexidade do “problema dos três corpos” e, em particular, se
a dinâmica gravitacional clássica pode emergir como um limite macroscópico de
uma dinâmica informacional mais fundamental.
UM OPERADOR TRIÁDICO: K123
A
TIF propõe uma reformulação do problema dos três corpos na qual a estrutura triádica
de correlações informacionais (Nielsen & Chuang, 2010), constitui o nível
fundamental da dinâmica fenomenológica que os envolve, permitindo interpretar a
geometria e a interacção gravitacional como fenómenos emergentes. Uma hipótese
de resolução do “problema dos 3 corpos” exige demonstrar que as equações TIF
possuem um limite clássico que reproduzem as equações de Newton e,
simultaneamente, que a dinâmica triádica poderá eventualmente fornecer
informação adicional capaz de caracterizar o comportamento caótico do sistema.
Assim,
o “problema dos três corpos” deixa de ser primordialmente um problema
de três massas que se atraem num espaço previamente existente e passa
a ser um problema de evolução de uma estrutura triádica de informação,
da qual espaço, geometria e interacção gravitacional são manifestações
macroscópicas da primeira.
Na mecânica
newtoniana o problema clássico dos três
corpos assume a existência de três massas m1, m2
e m3 relacionadas
(rij) pela igualdade
seguinte, com as três interacções acopladas
O caos aparece porque as três interacções estão acopladas não linearmente (Poincaré, 1890;
Strogatz, 2015). Uma pequena alteração inicial pode produzir uma trajectória
completamente diferente depois de algum tempo. O sistema, em
geral, não possui uma solução analítica fechada e apresenta comportamento
caótico dado que as tais pequenas alterações nas condições iniciais podem
produzir grandes diferenças na evolução posterior (Lorenz, 1963; Strogatz,
2015).
Claro que os pressupostos do modelo TIF não eliminam necessariamente o caos gravitacional tão característico do designado “problema dos 3 corpos”. Contudo, pode tentar explicar o caos como uma propriedade emergente de uma dinâmica informacional. Ou seja, o caos deixaria de ser simplesmente uma "falha" em encontrar uma solução analítica, e transformar-se-ia numa propriedade da própria evolução da rede informacional.
Uma vez que os tripletos de spins/qutriticos fornecem a "sintaxe" do Universo (Porto, 2026), dado que a hipotética estrutura triangular relacional é dotada de um grupo de formalismos tratados por nós [1], tais como a simetria U(1), também a existência de três relações binárias (na base da simetria SU(2)) e ao mesmo tempo uma relação triádica global (base da simetria SU(3)), irá deste modo conferir orientação, coerência e uma curvatura potencial, que globalmente definirão uma estado informacional muito complexo e potente. A gravidade, vista como curvatura da coerência, seria também a manifestação macroscópica de uma alteração global da estrutura de coerência da própria teia. Neste caso, se a intensidade de conexão entre os qutrits for Cij, podemos definir uma distância informacional, por exemplo, dij = f (Cij), com f escolhida de modo que uma maior coerência corresponda a uma maior proximidade relacional. A rede passa então a possuir uma geometria emergente definida por {Cij} ⟶ gμν e a curvatura, como uma primeira hipótese fenomenológica da TIF, poderia ser associada à variação espacial da coerência expressa do seguinte modo R ∼ ∇2C (Ryu & Takayanagi, 2006; Swingle, 2012; Van Raamsdonk, 2010).
Surge assim a base da nossa exploração com uma dupla estrutura triádica: de um lado os 3 corpos, do outro, um tripleto de spins. Isto é mais uma vez a evidência que a profundidade das nossas questões conduz-nos sempre ao formalismo matemático, à linguagem universal em que tudo se traduz.
Um qutrit realizado como triplo de spins, Qi = {∣+1⟩, ∣0⟩, ∣−1⟩} (Nielsen & Chuang, 2010), não seria apenas uma unidade de armazenamento de informação. Representaria agora uma unidade relacional, uma célula informacional fundamental, capaz de codificar três estados e as respectivas transições entre os mesmos. Globalmente uma autêntica célula totipotente capaz de se “diferenciar”, informacionalmente falando.
Assim, vamos deslocar esta ideia para os três corpos que agora podem ser
representados como se fossem uma triangulação relacional de informação, cujos
termos Q1, Q2, Q3, estariam ligados por uma
rede de coerência Q1 ↔ Q2 ↔ Q3 ↔ Q1,
numa potente estrutura de retroacção. Aqui a diferença fundamental, que vai
condicionar a nossa análise futura, surge pela distinção de que na mecânica clássica, a relação entre os três
corpos é consequência ad-hoc de
forças, e agora com a TIF, a estrutura relacional é primária e as massas e a
topologia emergem dela. Como se a gravidade fosse o bosão de Higgs numa outra
escala!
Se, na TIF, as massas e a própria topologia espacial são variáveis emergentes da rede informacional, então o caos do “problema dos três corpos” deixa de ser apenas o resultado de três massas colocadas e moldadas por um espaço-tempo dado como pré-existente. Poderia agora ser reinterpretado como uma consequência da dinâmica auto-referencial da própria rede que implica simultaneamente massa, distância, geometria e interacção.
A TIF permitiria introduzir no Hamiltoniano (H) um termo que não aparece naturalmente numa simples soma de interacções binárias (Nielsen & Chuang, 2010):
onde Jij representaria a coerência
informacional entre dois qutrits, Kijk
representaria uma coerência
genuinamente triádica, e Oij/Oijk seriam
operadores relacionais. Esta expressão representaria a projecção da dimensão
pré-espaçotemporal sobre o macrocosmo (a dimensão espaço-temporal).
Para três corpos seria então HTIF = J12O12
+ J23O23 + J31O31 + K123O123.
É precisamente o último termo, designado por nós como K123, que abre uma nova oportunidade exploratória.
Na TIF, porque existe informação relacional do conjunto, que não está contida nas três relações tomadas isoladamente (o todo é sempre maior que a soma das partes), permite-nos postular uma ideia muito próxima daquilo que, na linguagem da teoria da informação quântica, procura caracterizar através das designadas correlações multipartidas (Nielsen & Chuang, 2010), ou seja que
Enquanto o clássico problema newtoniano se limita a tentar prever a evolução das relações estabelecidas pelos 3 corpos ao longo do tempo, com o modelo TIF procuramos a evolução do estado informacional traduzido pela expressão agora proposta
onde C123 representaria a coerência triádica. A geometria seria então reconstruída a partir das relações gμν = F(Cij, Cijk), (Ryu & Takayanagi, 2006; Swingle, 2012; Van Raamsdonk, 2010). Portanto em vez de assumir previamente uma geometria euclidiana e colocar três massas dentro dela devemos antes considerar o fluxo de interconexões desta rede informacional, da qual deveria surgir uma métrica que conduz à dinâmica gravitacional observável (Jacobson, 1995; Verlinde, 2011), que de forma gráfica poderíamos resumir assim:
Esta geometria não seria o palco onde as relações acontecem, mas uma representação macroscópica da estrutura das relações informacionais.
Para afirmar que a TIF “resolve” o “problema dos três corpos”, seria necessário construir um modelo matemático completo em diversas etapas. Isto, aliás, poderia transformar-se num teste matemático particularmente forte para a TIF, ou seja, traduzir-se-ia na construção de um modelo de três qutrits/spins, introduzir explicitamente o termo K123, calcular a dinâmica e verificar se, no limite clássico, recuperávamos as soluções conhecidas do “problema dos três corpos” — e se a descrição informacional revelaria invariantes ou estruturas que ficassem ocultos na formulação newtoniana.
Aqui, K123 deveria representar a regra operacional que transformaria três unidades relacionais num sistema triádico dotado de propriedades que não pertencessem a nenhum par isoladamente. Poderia existir uma relação que não é redutível à soma das três relações binárias, daí a importância do termo K123. Este termo triádico introduziria uma nova fonte de dinâmica que não existe no problema gravitacional newtoniano convencional, transformando o caos clássico, que poderia então ser um limite da dinâmica informacional subjacente.
Será que o termo genuinamente triádico alteraria qualitativamente a dinâmica relativamente ao modelo puramente par-a-par?
Ou seja, a distância entre dois objectos não seria necessariamente uma variável fundamental. Poderíamos ter, por exemplo, dij = F(Cij,C123,…), onde Cij representa a coerência/correlação informacional entre dois nodos e C123 uma correlação genuinamente triádica. Da mesma forma, a massa poderia ser uma quantidade colectiva mi= Mi[C, ρ, T], dependente do estado de coerência (C) da rede, da distribuição informacional ρ e da topologia T. Neste caso, teríamos uma cadeia de retroalimentação de onde derivaria o caos observável. O sistema dos 3 corpos tornar-se-ia não linear e auto-referencial com origem num sistema de retroalimentação.
Deste modo, na TIF sendo a massa emergente, então poderíamos ter mi = mi(t), e se também a topologia também fosse dinâmica T = T(t), (Einstein, 1916; Jacobson, 1995), então a própria equação gravitacional deveria assumir uma forma modificada:
Com estas três fontes de complexidade, a saber, a não linearidade gravitacional, a variação da massa emergente (no sentido em
que E = mc2), e a deformação
dinâmica da própria geometria/topologia. o caos poderia, portanto, ser
muito mais do que uma propriedade das trajectórias, e apresentar-se como uma
propriedade da rede que produz as
trajectórias.
Em resumo, se o vazio é constituído por unidades
triádicas de spins qutriticos, então
a relação entre três graus de liberdade pode constituir, no nível pré-espaçotemporal,
o protótipo matemático de uma possível relação gravitacional entre três corpos
no espaço-tempo emergente. Não estamos a identificar directa ou indirectamente
os três spins com três planetas ou 3
asteróides. Com esta afirmação protegemo-nos contra uma interpretação indevida de uma
possível analogia microcosmo/macrocosmo. O que podemos identificar é uma
hipotética estrutura relacional formada por três entidades (Q).
UMA
APROXIMAÇÃO TEÓRICA
Revendo os
nossos conceitos, podemos afirmar que o tripleto qutritico pode ser formulado
como um ciclo de relações complexas. Consideremos uma
célula fundamental da Teia Informacional Fibrada formada por três spins T =
{q1,
q2,
q3},
em que cada qutrit possui três estados
básicos
definidos assim ∣qi⟩ ∈
{∣0⟩,
∣1⟩,
∣2⟩}. Logo
o estado
conjunto vive em HT = C3
⊗ C3
⊗ C3,
possuindo portanto 33
=
27
configurações de base (Nielsen & Chuang, 2010).
Mas o
aspecto mais importante não é o número 27, mas os três
elementos que podem estabelecer relações mútuas
que nos levam a representar a célula por um grafo
q1↔q2,
q2↔q3,
q3↔q1,
ou seja um autêntico triângulo relacional. Estas 3 relações são mediadas por “distâncias
informacionais” de entanglement (não
por aquelas comuns ao nosso espaço tridimensional) que podemos formalizar
individualmente por dij = F(ρi,
ρj), (Nielsen & Chuang, 2010), onde F, sob proposta da TIF, mediria alguma forma de distinção,
correlação ou emaranhamento entre os estados i e j, gerando então d12,
d23, d31.
Destas três relações pode surgir uma geometria quando aquelas relações satisfazem condições que permitam interpretá-las como distâncias, isto é, quando
d12 + d23 > d31,
d23 + d31 > d12,
d31 + d12 > d23
em representação afinal de uma estrutura
relacional mais fundamental.
Se compararmos o problema da interacção newtoniana das 3 massas (corpos) com esta nova formulação, descobrimos que a estrutura matemática é de uma analogia com implicações filosóficas surpreendente:
|
TIF pré-espaçotemporal |
Espaço-tempo emergente |
|
q1,
q2, q3 |
m1,
m2, m3 |
|
Correlação
Cij |
Interacção
gravitacional |
|
Distância
informacional dij |
Distância
espacial rij |
|
Dinâmica
dos estados qutriticos |
Dinâmica
orbital |
|
Conectividade
da teia |
Geometria |
|
Coerência
colectiva |
Campo
gravitacional efectivo |
A questão importante agora é partirmos do pressuposto de que a "massa" não seja fundamental, mas uma propriedade colectiva emergente da configuração informacional (Jacobson, 1995; Verlinde, 2011), o que nos conduz a podermos escrever, esquematicamente mi = M(ρi,{ρj},G), onde G representaria a topologia da teia.
Então, no problema de três corpos, as massas poderiam resultar
de uma dinâmica mais profunda, o que modificaria radicalmente a interpretação
do problema, pois enquanto na mecânica clássica newtoniana partimos das 3
massas para calcularmos a sua evolução, agora existe uma estrutura relacional
fundamental de três graus de liberdade, da qual emergem simultaneamente
propriedades equivalentes a massa, a distância e a interacção.
Como sabemos, o “problema dos três corpos” é famoso porque pequenas diferenças nas condições iniciais podem produzir grandes diferenças na evolução futura, o que em linguagem de sistemas dinâmicos será expresso por δx(0) → δx(t) ∼ δx(0)eλt quando e sempre que exista um expoente de Lyapunov positivo λ > 0 (Lorenz, 1963; Strogatz, 2015). Ora, uma célula TIF triádica também poderia possuir dinâmica não linear (Nielsen & Chuang, 2010), ou seja visto pela teia como sendo a igualdade dρi / dt = − i[HTIF,ρi] + Ni(ρ1, ρ2, ρ3), onde Ni representaria acoplamentos não lineares. Se estes acoplamentos fossem suficientemente complexos, poderíamos ter também um λ > 0, ou seja o caos gravitacional poderia então ser visto, hipoteticamente, como uma manifestação macroscópica de uma propriedade muito mais fundamental ligada a uma dinâmica não linear de relações triádicas.
Com isto não podemos dizer que 3 planetas ou 3 asteróides se comportam como 3 spins! Podemos no entanto afirmar que tal como um sistema microscópico pode produzir ou influenciar um outro à escala macroscópica, também os graus de liberdade fundamentais não precisam ser iguais às variáveis efectivas newtonianas, mas talvez “inspirar-se” nas primeiras, sem contudo poder reflectir todo o seu esplendor informacional e relacional complexo.
O que nos leva a formular se existiria uma transformação matemática que leve a dinâmica de Cij para uma dinâmica efectiva de rij semelhante à dinâmica gravitacional de três corpos e que poderíamos expressar genericamente pela projecção (a) onde Ɛ seria um mapa da emergência:
Ou de outro modo, se a complexidade relacional informacional dos tripletos consegue reflectir-se numa estrutura macroscópica na dimensão espaço-temporal, ou ainda se o caos observado não tem qualquer tipo de resolução matemática porque a passagem de uma dimensão pré-espaçotemporal para a nossa resulta mesmo em puro caos! Como se a primeira “quisesse esconder” a sua geometria interna do macrocosmo. Tal não aconteceria aquando da proposta do modelo da TIF ao revelar a sua influência “genética” na estrutura geracional triádica dos Quarks e dos Fermiões no Modelo Padrão das Partículas: ali não existe caos! Talvez porque ali “trabalha-se” na escala do microcosmo onde a igualdade E = mc2 tudo dita de forma directa, uma vez que a dinâmica é regida pela relação de equivalência massa-energia. O caos não seria uma propriedade do microcosmo dos quarks, mas sim a assinatura macroscópica da rede informacional ao projectar a geometria, a massa e as trajectórias no espaço-tempo. A dimensão pré-espaçotemporal preservaria a sua coerência geométrica sem caos no microcosmo subatómico, manifestando a dinâmica caótica apenas no limite macroscópico gravitacional.
Porque se fossemos capazes de definir uma energia efectiva
da célula TIF hipoteticamente dada por
ETI F = E(C12, C23, C31),
poderíamos procurar uma região no espaço de parâmetros
onde a dinâmica efectiva obedecesse aproximadamente a
Então, na hipótese do modelo TIF, a gravidade newtoniana poderia representar um limite efectivo que a dinâmica da Teia Informacional Fibrada seria capaz de atingir. O problema fundamental de três massas que interagem num espaço previamente existente, teria então origem na dinâmica de uma relação triádica cuja própria geometria informacional e propriedades “inerciais” abortam ao emergirem da teia, traduzindo-se no caos observado.
UMA QUESTÃO
EM SUSPENSO
O “problema dos três corpos” parte
de um dos problemas fundamentais da mecânica clássica centrada em determinar a
evolução de três corpos sujeitos exclusivamente à interacção gravitacional
mútua. Embora as equações de Newton sejam simples de formular, a interacção
simultânea entre os três corpos produz um sistema fortemente acoplado, não
integrável em geral e extremamente sensível às condições iniciais, tornando o
problema um exemplo paradigmático de dinâmica caótica.
Na Teia Informacional Fibrada, o “problema
dos três corpos” adquire uma interpretação distinta da formulação newtoniana.
Se massa, distância e topologia espacial são grandezas emergentes da coerência
informacional da rede, então a dinâmica gravitacional não actua sobre uma
geometria previamente dada, mas participa da própria constituição dessa geometria
(Einstein, 1916; Jacobson, 1995). O caso dos três corpos é particularmente
relevante porque constitui o primeiro sistema gravitacional no qual a interacção
conjunta pode apresentar não integrabilidade e comportamento caótico (Poincaré,
1890; Valtonen & Karttunen, 2006). Na TIF, essa propriedade pode ser
reinterpretada como uma manifestação macroscópica da dinâmica não linear de uma
rede triádica, na qual correlações binárias e genuinamente triádicas modificam
simultaneamente os acoplamentos, a geometria emergente e as grandezas efectivas
associadas à massa. O caos orbital poderá, assim, representar não uma
irregularidade fundamental da natureza, mas a assinatura bloqueada de uma
dinâmica informacional subjacente.
Por hipótese socorremo-nos de um operador
designado por K₁₂₃, introduzido como
um termo genuinamente triádico que não se reduz à soma das interacções entre
pares. A proposta consiste em investigar se uma dinâmica informacional deste
tipo poderá explicar a complexidade observada no “problema dos três corpos” e,
sobretudo, se a dinâmica gravitacional clássica poderá emergir como um limite
macroscópico de uma dinâmica informacional mais profunda. Se o espaço dita à
massa por onde ir, e esta última “dobra-o” ou modela-o, lógico seria assumir
que a estrutura fundamental do primeiro poderia impor condições que a dinâmica
de 3 massas não daria solução. Esta é a premissa da qual partimos! A hipótese
central da TIF é que massa, distância, geometria e interacção não sejam
necessariamente entidades fundamentais, mas propriedades emergentes da
organização e da coerência da teia informacional fibrada. Assim, as correlações
entre qutrits originariam distâncias
informacionais, uma geometria emergente e, no limite apropriado, um campo
gravitacional global efectivo. Divisávamos uma relação entre os três corpos e o
tripleto de spins constituindo, deste
modo, uma dupla estrutura triádica dimensionalmente diferentes: uma no
espaço-tempo emergente einsteiniano e outra no domínio pré-espaçotemporal
quantizado, relacionando-se pela introdução de variantes extremamente sensíveis
derivadas de pequeníssimas condições iniciais em ambas as configurações geométrica
triádicas, e normalmente detectadas pela física envolvente.
Exploramos a possibilidade de que a
própria massa seja uma propriedade colectiva da rede e, consequentemente, uma
grandeza geradora de dinâmicas que teriam consequências nas configurações que
modelariam as micro condições iniciais de saída. Se tanto as relações inter-massa
como a topologia forem emergentes e variáveis, o sistema poderá adquirir uma
dinâmica não linear e auto-referencial, na qual o caos não seja apenas uma
característica das trajectórias dos corpos, mas uma propriedade da própria rede
que condiciona essas trajectórias.
O que se propõe é a detecção de uma
possível correspondência estrutural entre os graus de liberdade fundamentais e
as variáveis efectivas que emergem no espaço-tempo. A questão decisiva passa a
ser saber se poderá existir uma transformação matemática que projecte a
dinâmica das correlações informacionais na dinâmica de distâncias e massas da
gravitação newtoniana. O teste fundamental seria construir um modelo matemático
completo de três qutrits/spins com o
termo K₁₂₃, determinar a sua dinâmica
e verificar se, no limite clássico, recupera as equações gravitacionais
conhecidas e o comportamento caótico do “problema dos três corpos”. Se tal
correspondência puder ser demonstrada, o caos orbital poderia ser entendido
como uma manifestação macroscópica de uma dinâmica informacional triádica
subjacente, ou seja, se poderá o modelo TIF recuperar, no limite clássico
apropriado, as equações do problema gravitacional dos três corpos e o correspondente
comportamento caótico.
A questão em
aberto permanece e está para além de qualquer analogia: será o caos do “problema
dos três corpos” a assinatura macroscópica de uma estrutura relacional mais
profunda, da qual informação, geometria e massa emergem conjuntamente? Se a
estrutura triádica é fundamental no nível pré-espaçotemporal, poderá a dinâmica
gravitacional de três corpos ser uma manifestação efectiva dessa estrutura, com
massa, distância e geometria emergindo das relações informacionais? A hipótese
de que o caos também seja emergente?
Se conseguíssemos construir um modelo matemático que
percorresse uma cadeia formal de estados e parâmetros provacionais desde a
estrutura triádica pré-espaçotemporal, geometria emergente, massa/distância, gravidade
e finalmente o caos dos três corpos, e como tal reproduzisse quantitativamente a
fenomenologia newtoniana no limite apropriado, teríamos algo que deveria ser
seriamente tomado em consideração pelo impacto que instilaria na Ciência e na
Filosofia.
Notas
[1] Porto, J.
(2026). Deus Joga as Dados. Bubok
Publishing S.L..
Na
arquitectura relacional da TIF, as simetrias estão hierarquizadas segundo a
complexidade da ligação: a simetria U(1) associa-se à estrutura triangular
relacional, a simetria SU(2) serve de base às três relações binárias entre os
pares, e a simetria SU(3) constitui a base da relação triádica global do
conjunto. Deste modo, a simetria SU(3) é o elemento formal que impede que o
sistema seja tratado como três conexões independentes, convertendo-o numa
unidade relacional integrada cuja reorganização de coerência se manifesta
macroscopicamente como gravidade e curvatura emergentes.
Ao contrário
da mecânica clássica, em que as massas são fixas, na TIF a massa emerge como
uma quantidade colectiva dependente da coerência (C), da distribuição de informação (ρ) e da topologia (T),
expressa por mi = Mi[C, ρ, T]. Como a coerência e a topologia são
dinâmicas e evoluem no tempo (T = T(t)),
as próprias massas tornam-se variáveis no tempo (mi = mi(t)), gerando uma cadeia de retroalimentação
não-linear e auto-referencial, em que a rede determina a massa e a geometria, e
a variação destas altera continuamente as condições de acoplamento e a evolução
subsequente da própria rede. Aqui, a organização complexa qutritica assumirá um
papel importantíssimo na correcção quântica de erros (QECC) e na consequente estabilização
das massas. Não esquecer que o modelo HaPPY (Pastawski, Yoshida, Harlow e
Preskill, 2015) utiliza redes de tensores (como códigos pentagonais) para
demonstrar explicitamente como a métrica do espaço e a distância física emergem
da estrutura de emaranhamento e da correcção de erros. Também Daniel Harlow
(2017) provou que a lei de área da gravidade quântica e a fórmula de entropia
de Ryu-Takayanagi derivam directamente das propriedades algébricas dos códigos
de correcção quântica de erros. Na verdade, nas abordagens modernas de
gravidade quântica e holografia (no contexto da dualidade holográfica como a
correspondência AdS/CFT), descobriu-se que o próprio espaço-tempo e os objectos
dentro dele (massa, campos de matéria e geometria) funcionam estruturalmente
como um código de correcção de erros quânticos, de modo que os graus de
liberdade no interior do espaço-tempo (bulk)
corresponderiam a qubits lógicos protegidos, enquanto a fronteira quântica é
composta por qubits físicos altamente emaranhados. Em trabalhos pioneiros como
o de Almheiri, Dong e Harlow (2015), demonstrou-se que a massa ou matéria
localizada no bulk é redundantemente
codificada na fronteira. Isto significa que a informação sobre uma massa no
interior permanece protegida mesmo se partes significativas da fronteira forem
apagadas.
A ideia
central na hipótese do modelo TIF seria que a massa não seria estabilizada directamente
pelo código, mas pela persistência da organização informacional que, dá origem
à massa. Para a testar, seria necessário mostrar que a proteção da informação lógica reduz efectivamente as variações da massa emergente.
[2] O expoente de Lyapunov mede a rapidez com que duas trajectórias inicialmente muito próximas se afastam num sistema dinâmico, e pode ser representado, de forma simplificada, por δx(t) ≈ δx(0)eλt, onde δx(0) representa a pequena diferença inicial; δx(t) a diferença após um determinado tempo, e λ o expoente de Lyapunov. Se λ > 0 as trajectórias afastam-se exponencialmente gerando comportamento caótico, mas se λ = 0 não há afastamento exponencial representando uma situação marginal. Porém, se λ < 0 as trajectórias tendem a aproximar-se gerando um comportamento estável. Aplicado ao “problema dos três corpos”, significa que uma alteração extremamente pequena nas posições ou velocidades iniciais pode, depois de algum tempo, produzir uma configuração orbital completamente diferente. É uma forma quantitativa de caracterizar a sensibilidade às condições iniciais, ou de quão rapidamente o sistema esquece as suas condições iniciais, propriedade muito característica dos sistemas caóticos.
No contexto da Teia Informacional Fibrada, um λ > 0
poderia ser um sinal inequívoco não apenas na dinâmica orbital macroscópica da geometria espaço-temporal, mas
também da dinâmica não linear introduzida pela rede triádica de qutrits do domínio pré-espaçotemporal. Constituiria
uma influência inegável.
Referências
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Ponta Delgada, 28 de Setembro de
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