"O Universo inteiro é uma
emanação da suprema Consciência (Cit), vibrando em diferentes níveis de
manifestação."
Tantrāloka de Abhinavagupta
RELAÇÕES INTEMPORAIS
Encontrámos
ligações entre a cosmologia esotérica dos 36 Tattvas da tradição do Shaivismo
da Caxemira com a estrutura do Modelo Padrão da Física das Partículas, em
particular aos estados quânticos dos Quarks (que por coincidência também são
36), assim como correspondências que se estendem também aos conceitos cosmogónicos
presentes no Budismo, Taoismo e Hinduísmo.
Contudo
a ideia em torno de Tattvas correspondente ao número e qualidade dos seus
componentes não apresenta convergência de opiniões nas múltiplas escolas de
filosofia hinduísta, da filosofia do Hata-yoga ou da Tântrica com os seus Chacras.
No entanto vamos ater-nos, pela sua complexidade e completude, às filosofias
Samkhya com 25 Tattvas e ao Shaivism com os seus 36 Tattvas ou ainda a escola
Shaktya e diversos Rishis, como Agastya, Durvasa e Parashurama.
Com os Tattvas, se tivermos em consideração que representam os princípios fundamentais da manifestação da realidade, desde a Consciência Absoluta até a matéria bruta, acreditamos poder estabelecer uma relação análoga com os blocos fundamentais da matéria e com as suas interacções definidas pela Cromo Dinâmica Quântica, expressas nas “partículas” elementares conhecidas por Quarks, cujas propriedades (“cor” e antipartículas) dão forma a esta relação, e às quais, mais adiante, daremos maior atenção.
O
Modelo Padrão das Partículas, cuja estrutura geral aprofundaremos, em
particular aquela dos 36 estados dos Quarks, incute-nos a ideia da existência
de padrões, talvez evidenciando a expressão da natureza nos seus arquetípicos,
que são possíveis de reconhecer nas tradições esotéricas e que parecem incluir
tanto a triplicidade dos Quarks como reflexo das trindades universais
(Trimurti, Trikaya, Gunas), como também o aspecto da dualidade expresso na
relação partícula versus antipartícula representada pelos Antiquarks. Dualidade
sempre presente no Yin-Yang Taoista, em Shiva-Shakti (Consciência Absoluta –
energia dinâmica) do Tantrismo, bem como ainda na estrutura hierárquica dos Tattvas,
que, como veremos, corresponderiam ao princípio holográfico e fractal na física.
Em
particular a hierarquia própria da fractalidade surge também na estrutura dos Tattvas
ao descreverem a manifestação progressiva da consciência até a matéria, princípio
que também pode estar relacionado com o princípio holográfico e com a teoria da
informação quântica.
Estas
hierarquias são também manifestas noutros contextos do Budismo e do Hinduísmo
na concepção das Mandalas ou na Cabala com a estrutura de duas vias dos 10
Sephirots da Árvore da Vida, que também representam a descida da Consciência do
infinito (Ain Soph) até o mundo físico, tal como os Tattvas descrevem o
processo de emanação e condensação da realidade suprema.
O
aspecto dualístico, encarado como polaridades complementares, dado que a
manifestação surge da interacção de duas forças complementares, também é uma
característica fundamental dos Quarks com a existência das suas antipartículas.
Por
outro lado, a característica da triplicidade estende-se a um conceito universal
formatando uma trindade presente em todas as cosmogonias e teogonias. A
existência de três “cores” para os Quarks (vermelho, azul e verde), reflecte
aquele conceito presente em diversas tradições esotéricas. Em várias
cosmologias, a realidade manifesta-se em três princípios fundamentais. No Trikaya
do Budismo Mahayana, as três componentes são representadas respectivamente por Dharmakaya,
o Corpo da Lei ou a realidade última, similar ao vácuo quântico, por Sambhogakaya,
o Corpo de Glória, um nível intermediário, semelhante às interacções
fundamentais, e pelo Nirmanakaya, o Corpo de Manifestação, o nível denso,
congénere da matéria.
Também
no Hinduísmo temos o Trimurti com Brahma (criação), Vishnu (preservação) e Shiva
(destruição e transformação), equivalentes aos três Gunas com o Sattva
(equilíbrio, clareza, ordem), Rajas (energia, movimento, criação) e Tamas
(inércia, resistência, destruição). Poderíamos até estender este conceito à
própria Alquimia e ao Hermetismo, onde o Enxofre representa o princípio activo,
espírito, fogo, energia vital; o elemento Mercúrio o princípio intermediário,
mente, transmutação e o Sal o princípio material, corpo, cristalização.
A triplicidade dos Quarks parece seguir a manifestação deste padrão universal. Assim como as trindades esotéricas representam as forças básicas da criação, as “cores” dos Quarks são fundamentais para a organização da matéria, pois elas ditam a estrutura dos Hadrões através da Força Nuclear Forte operada pelos Gluões.
A
aparente correspondência entre os Tattvas e os estados dos Quarks não é apenas
numerológica, o 36 está presente em muitas tradições exotéricas (1), mas pode reflectir um princípio
mais profundo de estruturação da realidade. Os Tattvas descrevem a transição da
Consciência para a matéria, enquanto os estados dos Quarks descrevem os blocos
fundamentais da matéria que estão na base das características dos átomos de
todos os elementos da Tabela Periódica. Se a Consciência e a Informação são
fundamentais na estrutura da realidade, pode então indiciar que a organização
do mundo físico segue padrões arquetípicos semelhantes já antevistos e descritos
nos sistemas esotéricos antigos.
De uma forma genérica, os Tattvas
desdobram-se hierarquicamente em três categorias, onde a realidade emerge
gradualmente da pura Consciência em direcção à matéria manifesta. Os Tattvas,
como blocos estruturantes do Universo, possuem uma hierarquia própria.
Desenvolvem-se em três grandes fases: a corrente Para-Shiva ou dos 5 Tattvas
Puros, a corrente Para-sakti ou dos 7 Tattvas Puros-Impuros e a corrente
Asuddha dos 24 Tattvas Impuros.
A
primeira categoria, de 1 a 5, envolve os níveis transcendentais, relacionados
com a Consciência pura e ao Absoluto (designada como Parashiva), que em Platão
é referido como o Nous.
Estes 5 Tattvas “puros”, representam
a criação não-dualista saída directamente do Parabrahman, o “Grande Alento” ou
do Uno – o Absoluto. São nomeadamente, formando a corrente Para-shiva ou
Suddha, o Shiva-tattva ou
Consciência e o Shakti-tattva ou
Conhecimento (Informação), da união dos quais vão surgir posteriormente o
Sadasiva-tattva ou Entendimento, representando o princípio Tamas, Isvara-tattva
ou Desejo, representando Rajas e o Suddha vidya-tattva ou o
Entendimento-Desejo, o equilíbrio Sattva. De novo em acordo total com o
princípio dos Gunas, ciclo motor do equilíbrio e da renovação constante dos
Trigunas.
Figura 1 – Tattvas Puros: a partilha de Shiva-Sakti e o ciclo Triguna
A segunda categoria, de 6 a 25, abrange os níveis da mente e da causalidade e incluem os aspectos mais subtis da mente, intelecto, ego e ainda os princípios da percepção ou a Psiké em Platão.
Do
Sakti-tattva surgem outros 6 Tattvas geradores da corrente Para-sakti ou
Suddha-Asuddha, “puros-impuros” ou elementos de transição, nomeadamente Maya,
Kãla, Niyati, Raja, Vidya, Kalã que significam respectivamente os limites
impostos definidos pela Ilusão (Maya), surgida de constrangimentos derivados da
limitação temporal, e da limitação espacial (o aparecimento do espaço-tempo), e
ainda o “desejo” como limitação, o “saber” limitado e o “poder” limitado
(constrangimentos próprios dos Estados Informacionais).
Figura 2 – Tattvas do processo de transição.
Nesta
cascata de desdobramentos de princípios, dos mais elementares e subtis em
direcção aos mais densos, e finalmente á matéria, ainda existem outros 24
Tattvas, os “impuros”, geradores da corrente Asuddha, estes já ligados de forma
directa ao mundo material (que fazemos corresponder ao domínio dos Fermiões do
Modelo Padrão), fazendo parte também dos atributos da esfera animal e humana.
São eles, Purusa-tattva (a alma individual) que ainda faz parte dos 6 Tattvas
da corrente anterior mas inserida em Prakrti-tattva (a energia da alma),
Buddhi-tattva (a inteligência ou intuição), Ahamkara-tattva (o falso ego) e
Manas-tattva (a mente) onde os últimos 3 evoluem ciclicamente entre si de forma
equilibrada e renovada, onde Budhi é Sattva, Purusa é Tamas e Manas é Rajas,
sempre de acordo com o princípio basilar dos Trigunas.
Figura 3 – Gráfico dos Trigunas da corrente Asuddha.
Suportam as famílias de electrões e neutrinos com as suas 3 variantes de
massa crescente.
Outros
Tattvas existem para além destes já enunciados, mas já em estreita
correspondência aos aspectos físicos (do 17 ao 26), aos aspectos
psico-somáticos e da sensibilidade animal (do 27 ao 31) e, aos aspectos do
próprio estado da matéria - do 32 ao 36, onde estão incluídos o “éter” ou
espaço também designado por Akasa, o “fogo” ou plasma, o “ar” ou gás, a “água”
ou o liquido e “terra” ou o sólido.
Assim,
a terceira categoria, de 26 a 36, revela os níveis da manifestação material e representam
os cinco elementos físicos (terra, água, fogo, ar e éter) e depois os órgãos
dos sentidos e de acção. Em Platão será Soma.
Figura 4 - Trigunas, onde o Círculo representa o Universo e o ponto
central, a singularidade, o Uno.
Similitude com o conceito Taoista Yin-Yang.
Do ponto de vista cosmológico actual, as duas primeiras fases representam a criação do Universo aos 10-6 segundos, a fase do Condensado Bose-Einstein dos Inflatões e depois do plasma Quark-Gluão (QGP). Este resultado advém da complementaridade do par Shiva-Shakti, o campo quântico da Consciência/Informação (de acordo com o Princípio de Landauer?) do qual emana a “Luz” (Shakti) ou o Campo Granular do Espaço-Tempo (em consonância com a actual Teoria da Gravidade Quântica em Loop), interferindo com Prakriti (matéria) através do Antakarana (matéria inercial ou o Campo de Higgs), gerando o “movimento” (ou seja a Gravidade) e a forma (mahat ou o Campo quântico Antrópico Holo-Mórfico) que mantém a harmonia e a ordem no Universo através dos ciclos dos Trigunas.
Os 36
Tattvas, na sua descrição aprimorada, lançam um véu que encobre outros
significados. Interessante verificar que os 36 estados dos Quarks assumem
designações, como veremos mais à frente, que se aproximam espantosamente da
nomenclatura dos Tattvas, mas também dos princípios axiomáticos surgidos com a
evolução posterior desencadeada com os processos conhecidos da Bariogénese e da
Nucleosíntese. Refiro-me em particular aos véus da segunda fase com o
surgimento do Espaço-Tempo e com ele a “separatividade” com o espaço vazio
(vácuo), a causalidade e a temporalidade e por consequência a relatividade do
tempo e do espaço.
A
terceira fase volta a falar-nos da Constituição Septenária nas suas duas
componentes: o ternário e o quaternário, unidos pelo Antakarana que fazemos
corresponder ao Campo de Higgs na física quântica.
Esta
fase desdobra os princípios base em 4 modelos (do 17 ao 36), a saber, os “Rhizômata”,
revelando aspectos sensoriais e psico-somáticos, e ainda o modelo relativo aos
estados da matéria, seja através da filosofia Yogue e da Tântrica, esta última
sob a forma de rituais e preceitos que se vão estender até à medicina
Ayurvédica com os seus três tratados fundamentais, Caraka Samhita, Susruta Samhita
e Astanga Hridayam.
Serão
nomeadamente 4 modelos:
Primeiro modelo (17 a 21) - 17. A Sabda ou Audição; 18. Sparsa ou Tacto; 19. Rupa ou Visão; 20. Rasa ou Paladar; 21. Ghanda ou Olfato, formam os cinco sentidos;
O segundo
modelo (22 a 26) - 22. Vak ou Linguagem; 23. Pani ou Manipulação; 24. Pada ou
Deambulação; 25. Payu ou Evacuação; 26. Upastha ou Procriação, constituem os
actos motores-sensoriais;
O terceiro
modelo (27 a 31) - 27. Srotra ou Som; 28. Caksu ou Cor; 29. Tvak ou Forma; 30.
Rasana ou Sabor; 31. Ghrana ou Odor, formam os cinco elementos das vibrações
sensoriais;
Quarto
modelo (32 a 36) - 32. Akasa ou Éter ou espaço; 33. Vayu ou Ar ou estado
gasoso; 34. Tejas ou Fogo ou plasma; 35. Jala ou Água ou estado líquido; 36.
Prithvi ou Terra ou estado sólido, formam os cinco estados da matéria.
A relação entre a hierarquia dos Tattvas e o conceito platónico de Nous (Intelecto Divino), Psiké (Alma) e Soma (Corpo) pode ser compreendida a partir da ideia da emanação da realidade, em que a Consciência se desdobra em diferentes níveis de existência. Tanto no Shaivismo da Caxemira quanto na filosofia platónica, encontramos uma estrutura que descreve a manifestação progressiva da realidade, indo do Absoluto até a matéria.
Platão e os neo-platónicos descrevem três níveis fundamentais da existência, começando pelo Nous (Νοῦς), ou o Intelecto Divino, que representa a realidade suprema, a fonte primordial da inteligência cósmica e da ordem. No neo-platonismo, é equivalente ao Uno de Plotino ou ao Mundo das Ideias de Platão, enquanto no Hermetismo, é identificado com a Mente Universal ou Logos.
Depois temos Psiké (Ψυχή) ou a Alma, o elo entre o Nous e o Soma, ou seja, a ponte entre a inteligência pura e a manifestação material. A alma recebe a influência do Nous e molda a realidade sensível. Nos mistérios órficos, a Psiké passa por um ciclo de purificação, também hierárquica, até retornar ao Nous.
Finalmente Soma (Σῶμα) ou o Corpo, representa o nível da matéria densa e do mundo fenoménico, sendo a expressão mais concreta da existência, onde as formas se tornam visíveis. No platonismo, o corpo é visto como uma prisão para a alma, pois a matéria limita a percepção directa do Nous.
Podemos
então estabelecer as devidas correspondências entre estes dois sistemas
hierárquicos:
Daqui
se depreende que a relação entre os Tattvas e os conceitos platónicos de Nous,
Psiké e Soma revela uma estrutura comum que descreve a manifestação da
realidade a partir da Consciência pura, sugerindo também que a metafísica de
Platão e o Shaivismo da Caxemira convergem em uma visão holística do universo,
onde a realidade é informacional, hierárquica e estruturada em níveis
interdependentes.
Entretanto
esta hierarquia revela alinhamentos conceptuais com os conceitos mais recentes da
Física. Podemos estabelecer as seguintes correspondências:
Nous,
transforma-se no Campo Quântico Informacional, a “Ordem Implícita” de David
Bohm (2). O nível fundamental da
realidade é um Campo de pura Informação, que organiza a manifestação física, ao
passo que Psiké integra-se com os níveis intermediários da Informação
representados pelos fenómenos quânticos do Colapso de Onda ligados ao papel do
observador. Neste caso, assim como os Tattvas intermediários formam a mente e o
intelecto, a interacção do observador com o sistema quântico molda a
experiência da realidade.
Finalmente,
Soma sendo a matéria ou as Partículas Elementares, onde o mundo físico emerge a
partir da informação contida no campo quântico subjacente, do mesmo modo os Tattvas
mais densos representam os elementos brutos, a matéria visível que é apenas uma
expressão da realidade mais profunda por via holográfica.
Em
conclusão, esta perspectiva, aprofundada em estreita relação com a teoria da
informação quântica e a holografia cósmica, faz com que o Nous se assemelhe ao
Campo informacional fundamental, a Psiké à estrutura organizadora da realidade,
e o Soma à expressão fenoménica da matéria.
Antes
recorremos a David Bohm e à sua “Ordem Implícita”, dado que este físico teórico propôs que a
realidade não é apenas o que percebemos directamente (a "Ordem Explícita"), mas sim que
existe um nível mais profundo e invisível de organização (a “Ordem Implícita”). De facto este
conceito sobre a estrutura da realidade ganha similitudes com as ideias
platónicas e neo-platónicas. A relação entre a “Ordem Implícita” de David Bohm
e a estrutura Nous-Psiké-Soma de Platão (também, como veremos de seguida, com a
hierarquia dos 36 Tattvas) pode ser entendida também pela visão holográfica e informacional
da realidade, em que a Consciência e a matéria emergem de um Campo mais
profundo e unificado.
No
argumento de Bohm a realidade emerge de um Campo mais profundo de informação e
potencialidade, idêntico à visão de Platão do Nous como sendo a fonte das
Ideias Eternas ou arquetípicas. Esta correspondência encontra-se também, não só
com o Nous de Platão, mas também com os Tattvas superiores (Shiva-Tattva a
Shuddhavidya). No Shaivismo da Caxemira, Shiva e Shakti são os princípios absolutos
que geram a realidade alargando-se ao conceito holográfico, onde cada parte do Universo contém a informação
do todo.
Completando
estas relações outro conceito foi introduzido por Bohm representando um estado
dinâmico onde a informação da “Ordem Implícita” desdobra-se na “Ordem Explícita”,
para completar o quadro, através da ideia de Holomovimento.
Este
nível intermediário corresponde à Psiké de Platão e aos Tattvas intermediários
(Mahat, Manas, Ahamkara), que moldam a percepção da realidade. Por outras
palavras, a alma não é apenas um receptor passivo da realidade, mas sim um
agente que interpreta e organiza a informação do Campo Implícito.
Mas também equipara-se à visão do Shaivismo,
onde a mente e o intelecto são responsáveis por filtrar a realidade suprema em
experiências individuais.
No
modelo de Bohm, a “Ordem Explícita” é a manifestação densa da realidade, aquilo
que percebemos directamente, do mesmo modo que o conceito de Soma (o corpo e o
mundo físico) em Platão, e nos Tattvas inferiores (os 5 elementos brutos e os
sentidos).
A
matéria, portanto, não é fundamental, mas sim um reflexo da informação contida
na “Ordem Implícita” confirmando o significado Vedanta de Maya (ilusão) em que o
mundo material é uma projecção temporária da realidade última suprema.
Como
anteriormente referimos, Bohm propôs que o Universo funcionava como um
holograma, onde cada parte contém a informação do todo. Esta ideia vai
novamente encontrar paralelos directos em Platão e no Shaivismo. Assim, com Platão
e o seu constructo do Mundo das Ideias, as formas sensíveis (Soma) são projecções
imperfeitas das Ideias Eternas (Nous), emparceirando com o modelo holográfico
de Bohm, em que o mundo físico é apenas um desdobramento parcial da “Ordem
Implícita”.
No Shaivismo
da Caxemira com os Tattvas, o Universo é um jogo de vibração e informação, onde
os Tattvas superiores contêm o código da criação. Da mesma forma que Bohm vê a
matéria emergindo do campo quântico informacional.
Podemos
também estabelecer outra relação com outro conceito, neste caso pertencente à
tradição filosófica Vedanta. Falamos do Akasha e da sua relação com o Campo
Unificado. O conceito de Akasha como um registo de âmbito cósmico alinha-se na
perfeição com a “Ordem Implícita” ao ser assumido como um campo fundamental de
informação holográfica.
Algumas
implicações filosóficas e científicas surgem da integração da “Ordem Implícita”
com Platão e o Shaivismo, levando a algumas conclusões importantes.
A
primeira estabelece que a Realidade
última é Informacional, e a Consciência uma sua propriedade fundamental, pois
que, tanto Platão quanto Bohm (e a visão moderna da teoria da informação
quântica) sugerem que a matéria não é fundamental, mas sim um reflexo da
informação subjacente.
Em
segundo lugar que a Consciência Interage
com a Realidade. Quando Bohm sugeria que a mente e a matéria são aspectos de
um mesmo Campo informacional (o papel do observador na mecânica quântica), ou
no Shaivismo, a consciência não ser um observador passivo, mas sim um agente activo
que molda a realidade. Estas duas visões, apesar de distantes no tempo, ambas reforçam
este axioma.
Por
último que o Universo é Um Todo
Indivisível, assente tanto no holograma quântico de Bohm, como na teoria da
inter-conectividade universal inequivocamente presente nos Upanishads. Estes descrevem
uma realidade onde tudo está interligado. Este aspecto faz-se também
propriedade do Nous de Platão, pois também é um campo unificado de inteligência,
que governa a manifestação da realidade.
Em
conclusão, podemos estabelecer um quadro relacional unificador:
UMA INCURSÃO PELO MICROCOSMO DO MODELO PADRÃO
Esta incursão
vai-se revelar útil para entendermos aquilo que a física usa para explicar
todos os acontecimentos objectivos e fenoménicos ao ter criado um quadro global
onde se inscrevem todas as partículas que constituem a matéria e as forças que
a regem. Este quadro é denominado Modelo Padrão e contempla 61 “partículas”
agrupadas em duas categorias principais – os Fermiões e os Bosões. Constituem
os primeiros os Electrões, os Neutrinos (no conjunto denominados Leptões) e os
Quarks que formam os Protões e os Neutrões dos núcleos atómicos – designados também
por Nucleões.
Predominam
3 gerações genericamente designadas por “partículas”, constando 3 versões de
Electrões (para além do Electrão existe o Tao e o Muão) e 3 versões de Neutrinos
que se transformam uns nos outros (os Trigunas a funcionar!). Os segundos, os Bosões,
são as forças que fazem interagir entre si os Fermiões, a saber os Fotões (do
Campo electromagnético), os Gluões (do Campo Nuclear Forte) e as três “partículas”
W e Z (Campo Nuclear Fraco) e ainda o Bosão de Higgs (que confere massa a
todos).
Mas qual a razão da existência de 61 “partículas”?
Poderemos dizer, que quase todas derivaram de resultados experimentais (o caso
dos Electrões e dos Nucleões) mas muitas outras foram deduzidas conceptualmente
em edifícios teóricos, de grande complexidade e beleza matemática, tais como
foram os hipotéticos Bosões W+, W- e Z0, o Bosão
de Higgs ou as anti-partículas. De resto o CERN confirmou a sua existência, a última
das quais o Higgs..
Por detrás desta complexidade
matemática existiam princípios envolvendo três ordens de critérios: o princípio
de Simetria – a U(1) para o electromagnetismo, a S(2) que descreve a Força
Nuclear Fraca, e a S(3) que descreve a Cromo Dinâmica Quântica (QCD) dos Quarks
ou a Força Nuclear Forte. A U(1) e a S(2) juntaram-se posteriormente formado um
corpo teórico denominado Electro Dinâmica Quântica (EDQ).
Finalmente surgem as “partículas”
alvo da nossa atenção e que ganham designações muito semelhantes àquelas dos
Tattavas. Os Quarks (u,c,d,s,t e b ou up, charm, down, strange, top e bottom ou
estranhamente os designados “6 sabores”) associam-se em grupos de três “cores”
(os trigunas novamente): vermelho, verde e azul, podendo transformarem-se uns
nos outros (3x6) mais as suas anti-partículas os antiquarks, que são indicados
por uma linha sobre o símbolo para o Quark correspondente (18x2). No total são
36 partículas (3x6x2). Aquela nomenclatura faz lembrar a dos Tattvas!
Na arquitectura da Simetria surgem
outras duas componentes: a carga e o momento angular magnético ou spin que vão explicar quase tudo e
compor de forma sólida este Modelo Padrão. O spin resulta de uma carga quando associada a uma “rotação” para a
esquerda ou para a direita gerando um momento magnético designado ora por spin-up ora por spin-down – esta é a origem da Simetria S(2) inerente à força
electromagnética.
Por sua vez, os Leptões em número de
12, como vimos compostos pela família dos Electrões e Neutrinos - cada uma nas
suas 3 versões sempre mais pesadas, e acompanhadas pelas suas anti-partículas,
tem os Electrões para constituir a nuvem de energia em torno dos Nucleões,
dando corpo ao átomo (ou do anti-átomo), onde reina o Princípio de Exclusão de Pauli
que afirma que dois electrões com o mesmo spin
não podem ocupar numa orbital a mesma posição. Este princípio evita que ao
sentarmo-nos não interpenetremos na cadeira ou passemos através das paredes
(coisa que já acontece na física quântica com o Efeito Túnel).
Figura 5 – Modelo Padrão Completo. Notar que o mediador Gluão (g)
corresponde a 8 variedades independentes, perfazendo o conjunto de matéria,
antimatéria, mediadores e bosão de Higgs, um total de 61 partículas. Fonte -
Wikipedia
Electrões
e Neutrinos têm os mesmos spins mas
contudo diferem na carga (neste caso não existe simetria para a força
electromagnética) e utilizam os bosões da força fraca para se transformarem uns
nos outros. Ou seja a força fraca não distingue Electrões e Neutrinos, sendo
simétricos neste âmbito, processo essencial ao funcionamento de todas as
estrelas. Esta é a base da Electro Dinâmica Quântica (QED) que une as duas
forças num único campo quântico - a Força Electrofraca.
Ou seja, existe simetria no spin mas não na carga (o neutrino é
neutro), o que permitiria na concepção do eventual Big Bang, a natureza
estruturar-se logo de início com a constituição de um núcleo atómico simples, criando
os primeiros átomos de Hidrogénio e Hélio, e ao mesmo tempo, permitir também o futuro
nascimento e funcionamento das estrelas. Aqui é estonteante e evidente a
precisão necessária para que tudo funcione!
Esta dualidade, spin - momento magnético/carga tem uma importância fundamental na
construção do Universo. Nos primeiros 3 minutos após aquilo que se considera
ser o Big Bang (ou mais recentemente o que a Cosmologia considera ser um
processo inerente aos Buracos Brancos), formaram-se os átomos de hidrogénio e
hélio que são na verdade basicamente Protões e Neutrões – é a Simetria S(3) a
funcionar.
O Universo no início não tinha a
capacidade para fabricar elementos mais pesados e complexos porque a sua
expansão acelerada diluía a concentração de partículas elementares. Foi preciso
surgirem as estrelas massivas para que se iniciasse a formação de núcleos atómicos
mais pesados para além do Hidrogénio e do Hélio. O processo da Nucleosíntese iniciada
nas estrelas massivas e nas supernovas depende então da Simetria S(2) gerada
pelas forças da Electro Dinâmica Quântica onde se aliam a Força
Electromagnética e a Força Nuclear Fraca.
Parece existir assim um processo
hierárquico, gradual e preciso, ao nanossegundo, na conformação das forças
necessárias para que o Universo resultasse numa estrutura de alta precisão, tal
como a conhecemos hoje em dia. Uma espécie de vector informacional, que vai no
entanto continuar a acompanhar e a manifestar-se no futuro evolutivo do Universo
consubstanciada por dois fenómenos nossos conhecidos.
O primeiro pelo Pêndulo de Foucault
ao revelar um Grande Atractor formado pelas massas dos Super Aglomerados de
Galáxias situadas a milhares de milhões de anos-luz, atestando, mais uma vez,
que o universo se deve comportar como um todo. O segundo, reforçando o
primeiro, apesar de tudo contrariando a hipótese EPR (Einstein-Podolsky-Rosen),
demonstrando que dois fotões (ou outra qualquer “partícula”) com a mesma origem
comum continuam interligados por mais distantes que se encontrem um do outro,
em extremos opostos do Universo, fazendo sempre parte da mesma realidade e
reforçando a ideia de não-localidade.
Daí também a precisão das Constantes
Físicas que não variam no espaço e no tempo, não possuem o sentido de
localidade adaptando-se e transformando-se. As principais são em número de uma
quinzena, desde a carga eléctrica elementar, as massas do Electrão e do Protão,
a constante de gravitação, a velocidade da luz no vácuo, até á constante de
Planck. Calcula-se que a precisão é da ordem de 10-60. Ou seja se alterarmos um algarismo à sexagésima
casa decimal, o Universo torna-se estéril e deixa de existir.
Este facto leva-nos a crer que esta
regulação precisa aliada ao universo pulsando como um todo, são as condições
necessárias e suficientes para gerar um “organismo vivo” onde as redes
informacionais, tidas agora como do tipo neuronal, estabelecidas pelos Super
Aglomerados de galáxias, as estruturas de larga escala e a circulação de
informação por “entanglement”, são a manifestação física da Vida e da
Consciência de que fazemos parte, como reflexo de uma estrutura fractal.
OS TATTVAS UMA HIERARQUIA DE PROCESSOS QUE DESCREVEM “A QUEDA DO ESPÍRITO
NA MATÉRIA”
A palavra sânscrita Tattva ou Tattwa transmite-nos
conceitos de grande profundidade científica (Conhecimento, Shakti) e valor
ético (Consciência, Shiva).
Composta por duas outras, Tat, que
significa O Aquilo (o Uno, Deus) e Twam que significa o Tu, o Indivíduo ou o
Universo, tem um profundo significado confirmando o axioma atribuído a Hermes
Trismegisto (Thoth) na Tábua de Esmeralda, relacionando definitivamente o Macro
e o Microcosmo:
“Verdadeiro, sem falsidade, certo e
muito verdadeiro:
o que está em baixo é como o que está
em cima,
e o que está em cima é como o que
está em baixo,
para realizar o milagre da Coisa
Única.”
A Constituição Septenária é a base do entendimento de que a matéria, o Universo é pura ilusão. A Cosmologia considera hoje em dia ter o Universo saído das flutuações quânticas primordiais do vácuo (do Caos como Hesíodo revela na sua Teogonia), ou talvez de um sistema dinâmico como aquele dos Buracos Negros (ou Brancos) Super Maciços descobertos agora pelo Telescópio Espacial James Webb. É assim que, respeitando sempre o Princípio da Incerteza (ΔE Δt ≥ ꚕ/2), o universo vai permanecer globalmente com um balanço total de energia, carga e momento magnético oscilando em torno do zero.
Figura 6 – Flutuações Quânticas do Vazio. Fonte - Wikimedia Commons
Um
dos pressupostos da física aponta para que a carga eléctrica total do Universo
deverá ser zero ou muito próxima daquele valor. Ou seja, se somarmos todas as
cargas positivas e negativas, temos um cancelamento quase perfeito, levando a
crer que a carga foi conservada desde o início do Universo.
Também
o momento magnético total do Universo é presumivelmente zero ou muito pequeno,
comprovando a ausência de monopolos magnéticos detectáveis e a tendência das
estruturas cósmicas em formarem dipolos equilibrados.
Tudo
porque o Princípio da Incerteza de Heisenberg, ao estabelecer que certas
grandezas conjugadas, como energia e tempo (Δ𝐸⋅Δ𝑡≥ℏ/2) ou posição e momento (Δx⋅Δp≥ℏ/2), não podem ser simultaneamente conhecidas com
precisão arbitrária, conduz a implicações profundas para a estrutura do
universo, permitindo que
localmente aquelas grandezas flutuem, mas globalmente se apresentem em equilíbrio.
Ou seja, o universo permite variações momentâneas e locais naqueles valores,
mas globalmente no grande edifício cósmico, cancelam-se.
Este
equilíbrio global e profundo deverá ser imposto por restrições de natureza
quântica. Podemos então traçar uma analogia entre o equilíbrio global do Universo
(energia, carga e momento magnético próximos de zero) e aquelas restrições
impostas pelos Tattvas da cosmologia tântrica.
Se a
física actual sugere que a soma total de energia, carga e momento magnético do
Universo é próximo de zero, então indica um indicador forte para que a manifestação
ocorra a partir de um estado de equilíbrio absoluto, apenas aparentando separação
ou separatividade devido às restrições dos Tattvas.
Assim
se compreende que a matéria, limitada temporalmente
(Kãla) e espacialmente (Niyati), de
acordo com a Relatividade Geral, curva o espaço-tempo e o espaço-tempo dita o
seu evoluir, e que o “desejo”, o “saber” e o “poder” (Maya, Raga, Vidya e Kalã
ou respectivamente a energia/massa, a
“cor”, a carga e o momento magnético/spin) se encontram assim também
limitados. Todas afinal com uma origem comum!
Sabemos que os Quarks possuem “limitações” dadas por uma carga eléctrica fraccionária, por uma massa individual entre 5 a 10 milhões de electrões-volt (eV), e por um spin também fraccionário de 1/2. Estes são os seus limites.
Como vimos,
no Shaivismo da Caxemira, os Tattvas Puros-Impuros actuam como um intermediário
entre a Consciência pura e a matéria manifesta, representando as limitações
progressivas impostas à “descida” da consciência para que ela possa, no acto da
individualização, tornar-se um agente no mundo fenoménico. Ou seja, na física
das “partículas”, o tempo, o espaço, a massa, o spin e a carga funcionam como
restrições fundamentais, propriedades relacionais, que determinam como as
partículas se vão comportar no Universo e garantir uma cosmogénese perfeita.
Assim,
ambos os sistemas descrevem um princípio de limitação e diferenciação. No Tantra,
essas limitações emergem da Consciência absoluta para criar individualidade e
experiência; na física, essas limitações aparecem como parâmetros fundamentais
que governam a manifestação da matéria e da energia. Entretanto, a visão holográfica
e informacional do Universo sai reforçada, uma vez mais, dado que a realidade
física pode ser vista como um reflexo de uma ordem subjacente, tal como
proposto por David Bohm.
Estaremos
agora aptos a propor uma afinação entre os dois sistemas (Tattva e Física).
Māyā Tattva, considerada a força que impõe
diferenciação e oculta a unidade essencial da realidade, obscurecendo a
natureza absoluta da consciência, por força a Ilusão da Separatividade, será a Massa, aquela que limita o movimento
das “partículas”, impedindo-as de viajar à velocidade da luz (excepção para os
Fotões e Gluões, cuja massa se traduz em energia, dada pela fórmula
universalmente conhecida E=mc2).
Kalā
Tattva, a Capacidade Limitada, tida por reduzir o poder ilimitado da
consciência, atribuindo propriedades ou capacidades específicas que outorgam a
funcionalidade individual a cada entidade, assim também o Spin, sendo uma
propriedade intrínseca que define como as partículas se comportam, classificando-as
em portadoras de força (os Bosões com spin
inteiro) e os constituintes da matéria (Fermiões com spin semi-inteiro).
Vidyā Tattva, o Conhecimento Limitado, a
limitação do conhecimento absoluto, que leva a uma percepção parcial da
realidade, estabelecendo o grau de conhecimento disponível para um Ser,
assemelha-se à Carga Eléctrica se
considerarmos que esta define como uma partícula interage com o campo electromagnético,
como se conformasse a sua capacidade de experiência dentro do espectro das
forças electromagnéticas.
Rāga
Tattva, o Apego e Individualidade, a limitação que gera apego e diferenciação
entre entidades individuais, que faz a consciência desenvolver identidade e
apego a fenómenos específicos, que poderemos associar à estrutura tripartida dos Quarks e às “cores”. Os Quarks, fundamentais
na composição dos Protões e dos Neutrões, são eles que definem as propriedades
(os tais fenómenos específicos) dos elementos da Tabela Periódica. Não existem
isoladamente, mas sempre ligados por interacções fortes, em que cada um carrega
uma "carga de cor" (vermelho, verde, azul).
Kāla Tattva, Tempo e Ciclicidade, é a limitação
imposta pelo Tempo, trazendo mudanças e ciclos de nascimento e morte, governa
os ciclos cósmicos e a transitoriedade da manifestação, o tempo de vida das “partículas”,
governando a sua existência dentro do Modelo Padrão, será expresso pelo
fenómeno de Decaimento das Partículas.
Como vimos anteriormente, todas tem um período de vida.
Niyati Tattva, o Espaço e o Destino, estabelece
restrições espaciais à Consciência, em que as leis de simetria definem os
limites e possibilidades de interacção entre as “partículas”, onde deverá
imperar a noção de espaço, destino (causalidade) e a ordem cósmica. Será
congénere aos processos da Quebra de
Simetria, que como vimos, determina como as forças fundamentais operam e
como as “partículas” adquirem propriedades como massa e carga.
Estas
limitações que vão caracterizar o Universo são introduzidas pela quebra de
simetria inicial do Campo Unificado quando surge o Campo Escalar do Bosão de
Higgs, o Antakarana, que vai conferir massa às 36 sub-partículas quarkianas,
fazendo-as ressaltar do recente criado espaço-tempo granular e informacional. Posteriormente
e de forma sequencial, vai evoluir o Condensado Bose-Einstein dos Inflatões (o
5º estado da matéria) e o futuro plasma Quark-Gluão (4º estado da matéria) em
que prevalece o Campo quântico da Força Nuclear Forte. Tudo isto na fracção de
tempo equivalente entre 10-35 e 10-6 segundos.
A
descida na hierarquia nos Tattvas equivale a um mecanismo de quebra de
simetria, semelhante ao que acontece na física das partículas, tais como a separação
das forças fundamentais, descritas anteriormente, a partir de uma simetria
unificada no início do Universo.
Deste
modo, a realidade parece emergir a partir de um substrato informacional
profundo, como a Ordem Implícita de Bohm, que espelha os Tattvas superiores do edifício
Tantra, estados de máxima liberdade e informação não-local.
Logo de seguida surgem os Protões e Neutrões
bem como os Electrões e os Neutrinos, os quase-imortais com durações de vida de
1033 anos para os Protões e 1024 anos para os Electrões,
todos nas suas três variantes de massa, como prevêem em geral o princípio
universal dos Trigunas. Deste modo surgem os primeiros átomos: Hidrogénio e Hélio.
Em 380.000 anos o Universo torna-se
transparente, os Fotões escapam da prisão da matéria e inicia-se a
diferenciação revelada pela Radiação Cósmica de Fundo em Microondas, com as
áreas anisotrópicas que vão definir as estruturas de larga escala do Universo
futuro e que parecem também revelar, afinal, as reminiscências evolutivas de outros
universos em éons e éons de tempo.
Aos 150 milhões de anos as primeiras
estrelas massivas de curta duração começam a nascer pela estabilização das
imensas nuvens de Hidrogénio e Hélio. Agora actua definitivamente o Campo das
Forças Electrofracas, espontaneamente e mais uma vez pela quebra de simetria
que se especializa com os Campos da Força Electromagnética e Nuclear Fraca.
Assim nasce um Universo a partir da
espantosa metamorfose do vácuo.
Se o Universo opera dentro de um
campo holográfico e informacional, como propõem tanto os modelos quânticos como
os esotéricos, então os Tattvas podem ser entendidos como as regras
fundamentais que corporizam aquela manifestação, “restringindo” os graus de
liberdade (que determinam a forma como um sistema pode evoluir dentro das leis
da natureza) para que a realidade fenomenal se manifeste dentro de um
equilíbrio perfeito. Na cosmologia tântrica, a realidade emerge como uma
progressiva contracção da liberdade absoluta da Consciência, reflectindo um
princípio análogo à redução dos graus de liberdade nos sistemas físicos. Os
Tattvas Superiores, representados por Shiva-Shakti e os primeiros cinco
Tattvas, corresponderiam a um estado de máximo grau de liberdade, onde a
consciência é infinita e sem restrições, onde não há distinção entre observador
e observado, logo não há incerteza – o domínio do Paramaśiva ou Brahman.
Esta abordagem leva a pensar que a
física fundamental e os sistemas esotéricos descrevem a mesma estrutura
profunda da realidade, mas utilizando linguagens diferentes, codificadas pela
semântica do tempo da sua realização. As Pontes são tantas que acreditamos ter
o conhecimento esotérico antigo já intuído uma estrutura hierárquica do
universo, análoga à da física moderna e à teoria da informação, mas expressa em
termos simbólicos. Actualmente estamos a fazer uma redescoberta, um
conhecimento que feito pela segunda vez, só confirma o espólio herdado pelo
acervo presente!
Blavatsky afirma: “Na Doutrina Secreta,
a Unidade oculta (quer ela represente Parabrahman ou o “Grande Extremo” de
Confúcio, ou a Divindade oculta por Phath, a Luz Eterna, ou ainda o Ain Soph
judeu) é sempre simbolizada por um círculo ou um “zero” (o Nada absoluto,
porque é o Infinito e o Todo), …”.(3)
Assim se compreende que a “rotura” da
Unidade Informacional Primordial tivesse sido indispensável para a manifestação
do próprio Universo, numa hierarquia fenoménica como confirma aquela dos
Tattvas. Tudo aconteceu como se tivesse existido um colapso de onda cósmico,
portais que se abrissem, talvez Buracos Negros ou Brancos colossais, resultado
do fim existencial de outros Universos noutros éons, ciclos de Manvantaras e
Pralayas geridos por uma Consciência Informacional hiper-dimensional.
Afinal, o processo cósmico de
“Conhece-te a Ti próprio”!
Será esta uma das chaves para
perceber o Universo pelo Homem, encontrando-se a Si próprio como “Saptaparna”?
Notas
(1) O 36
aparece em diversas áreas do conhecimento como um número estrutural e fundamental,
representando harmonia cósmica, ciclos, manifestação e ligação entre a natureza
material e a espiritual. Presente na numerologia, na física, na geometria e na tradição
esotérica, leva a pensar que pode ser um número chave na compreensão de como a
realidade emerge da Consciência Informacional subjacente. De realçar que na
criptografia e na computação, o 36 é usado como base numérica estendida (base
36), na medida em que representa um conjunto amplo de caracteres, ao unir os 10
algarismos e as 26 letras do alfabeto.
Nas tradições ocultistas e místicas,
nomeadamente nos estudos pitagóricos, o número 36 está relacionado com a
criação e a estrutura do cosmos. O pentagrama, um símbolo da proporção áurea e do
equilíbrio estético, possui ângulos internos de 36 graus. Por outro lado, na
tradição cabalística e em alguns sistemas exotéricos, a soma dos números de 1 a
36 dá 666. Fazendo crer que longe de ser considerado um símbolo negativo,
representa a energia da manifestação material e uma relação intrincada com a
ordem do cosmos.
Também o misticismo judaico, veicula
a crença da existência permanente de 36 “Guardiões da Luz” ocultos (Lamed Vav
Tzadikim), que suportam a existência da humanidade. Por sua vez, a astrologia
divide os 12 signos do Zodíaco em 36 decanatos, cada um governado por um
aspecto diferente ligado às forças planetárias.
(2) David Bohm (1917-1992) foi um físico teórico norte-americano conhecido pelas suas profundas contribuições para a Mecânica Quântica, para a filosofia da ciência e para a natureza da Consciência. Embora tenha trabalhado com grandes nomes como Albert Einstein, desenvolveu no entanto ideias que desafiavam à época a interpretação corrente da física quântica, propondo uma visão mais profunda e relacional da realidade.
David Bohm
Nesse
âmbito, propôs que a realidade fosse estruturada em dois níveis, a saber, a Ordem Explícita caracterizada por uma
realidade manifesta e perceptível, onde os objectos e os fenómenos aparecem
separados no espaço e no tempo (a noção de Separatividade), e por outro lado a Ordem Implícita, que conferia um nível
mais profundo e “oculto” da realidade, uma vez que tudo está interligado de
maneira não-local, em que as informações do universo seriam codificadas de
forma potencial. Segundo Bohm, o que percebemos no mundo físico é apenas um
desdobramento parcial da informação contida na Ordem Implícita, semelhante a
uma projecção holográfica. Aqui surge naturalmente o conceito de Holomovimento como um processo dinâmico
pelo qual a Ordem Implícita se manifesta na Ordem Explícita, colocando tudo em
constante transformação e interligação.
David
Bohm discordava da visão tradicional da mecânica quântica, que sustentava que a
incerteza e a aleatoriedade eram propriedades próprias do universo. Pelo
contrário, propôs a existência de Variáveis
Ocultas, ou seja, de influências de Campos invisíveis que poderiam explicar
o comportamento das partículas sem recorrer ao colapso da função de onda, propondo
para o efeito a existência de uma onda piloto, onde as partículas possuíam
trajectórias bem definidas, guiadas por um "potencial quântico". A sua
visão holográfica da realidade inspirou reflexões, que pela sua importância
permanecem actuais, dado que destacam temas hoje muito em evidência como a
relação entre a Consciência, a Informação e a estrutura fundamental do Universo.
As
ideias de David Bohm sobre a Ordem Implícita, o Holomovimento e as Variáveis
Ocultas ganharam actualmente ainda mais relevância com alguns resultados
experimentais recentes na física quântica, especialmente a confirmação do
emaranhamento e da não-localidade. Em 2022, John Clauser, Alain Aspect e Anton
Zeilinger receberam o Prémio Nobel da Física pelos resultados experimentais que
confirmaram o emaranhamento quântico e a violação das desigualdades de Bell,
reforçando a visão dos modelos da não-localidade em que as “partículas” podem
estar interligadas instantaneamente, independentemente da distância. A mecânica quântica convencional
descrevia o emaranhamento como um fenómeno estatístico, pelo contrário Bohm via
esse fenómeno como sendo a evidência da existência de um Campo subjacente que
mantinha a coerência da realidade. Assim é, que o Potencial Quântico de Bohm
sugeria que as “partículas” não são apenas fenómenos pontuais isolados, mas
expressões de um todo maior, que opera através de uma ordem invisível.
De
facto, a compreensão da natureza destes fenómenos causou um impacto assinalável
na investigação de ponta em áreas como a computação quântica onde a coerência
quântica e o entrelaçamento são aplicados em cálculos ultra rápidos, na
criptografia quântica, tornando impossível a cópia de estados emaranhados sem
perturbar a informação e assegurando níveis de segurança na informação
transaccionada.
Ainda
a visão holográfica e informacional proposta por Bohm alargou as fronteiras da
pesquisa às bases de uma nova teoria quântica da gravidade. A confirmação do
emaranhamento e da não-localidade consolidaram a visão de Bohm dando-o como um
dos pensadores mais visionários da física moderna.
A
abordagem informacional e holográfica, demonstrou ser essencial para a próxima
revolução que já se antevê na física, e que unificará a Mecânica Quântica, a Relatividade
e a Consciência num modelo mais profundo da realidade.
(3) A Doutrina Secreta, Vol. IV, pag. 124, Editora Pensamento, 1980
João Porto e Ponta Delgada, 25/03/2025