segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O PROBLEMA DOS 3 CORPOS

 

ou uma proposta teórica estranha

sob uma nova perspectiva da teoria da informação

 

INTRODUÇÃO

 

O “problema dos três corpos” que consiste em determinar o movimento de três corpos sujeitos exclusivamente à interacção gravitacional mútua, constitui um dos problemas fundamentais da mecânica clássica (Euler, 1767; Lagrange, 1772; Poincaré, 1890; Szebehely, 1967). Embora as equações de movimento possam ser formuladas de maneira simples a partir da lei da gravitação de Newton, a presença simultânea das três interacções — entre os pares (1!-!2), (2!-!3) e (3!-!1) — produz um sistema dinâmico fortemente acoplado, para o qual não existe, em geral, uma solução analítica fechada. Ao contrário do problema de dois corpos, cuja dinâmica pode ser reduzida a um problema integrável (Valtonen & Karttunen, 2006), o sistema interactivo de três corpos pode apresentar comportamento não integrável e elevada sensibilidade às condições iniciais, constituindo um exemplo paradigmático de dinâmica caótica (Poincaré, 1890; Lorenz, 1963; Strogatz, 2015).

A dificuldade fundamental reside não tanto na formulação das equações, mas na complexidade emergente das relações entre os três corpos ou as três massas. Esta característica torna o problema particularmente relevante para abordagens que procuram compreender a dinâmica física a partir da estrutura das relações subjacentes. Nesse contexto, o framework da Teia Informacional Fibrada (TIF) propõe uma reformulação na qual a estrutura triádica passa a constituir um elemento fundamental da descrição da interacção gravitacional. Nesta perspectiva, três entidades podem ser representadas pela influência de três qutrits, realizados como tripletos de spins (Porto, 2026), cujas correlações binárias e triádicas codificariam a estrutura relacional do sistema numa autêntica projecção de parâmetros entre domínios dimensionais extremados.

A hipótese explorada neste trabalho consiste em introduzir, além das interacções entre pares, um termo genuinamente triádico (designado por nós como K123), capaz de representar a informação relacional associada ao conjunto dos três elementos. O objectivo seria investigar se uma dinâmica deste tipo permitiria uma descrição alternativa da complexidade do “problema dos três corpos” e, em particular, se a dinâmica gravitacional clássica pode emergir como um limite macroscópico de uma dinâmica informacional mais fundamental.

 

UM OPERADOR TRIÁDICO: K123

A TIF propõe uma reformulação do problema dos três corpos na qual a estrutura triádica de correlações informacionais (Nielsen & Chuang, 2010), constitui o nível fundamental da dinâmica fenomenológica que os envolve, permitindo interpretar a geometria e a interacção gravitacional como fenómenos emergentes. Uma hipótese de resolução do “problema dos 3 corpos” exige demonstrar que as equações TIF possuem um limite clássico que reproduzem as equações de Newton e, simultaneamente, que a dinâmica triádica poderá eventualmente fornecer informação adicional capaz de caracterizar o comportamento caótico do sistema.

Assim, o “problema dos três corpos” deixa de ser primordialmente um problema de três massas que se atraem num espaço previamente existente e passa a ser um problema de evolução de uma estrutura triádica de informação, da qual espaço, geometria e interacção gravitacional são manifestações macroscópicas da primeira.

Na mecânica newtoniana o problema clássico dos três corpos assume a existência de três massas m1, m2 e m3 relacionadas (rij) pela igualdade seguinte, com as três interacções acopladas

O caos aparece porque as três interacções estão acopladas não linearmente (Poincaré, 1890; Strogatz, 2015). Uma pequena alteração inicial pode produzir uma trajectória completamente diferente depois de algum tempo. O sistema, em geral, não possui uma solução analítica fechada e apresenta comportamento caótico dado que as tais pequenas alterações nas condições iniciais podem produzir grandes diferenças na evolução posterior (Lorenz, 1963; Strogatz, 2015).

Claro que os pressupostos do modelo TIF não eliminam necessariamente o caos gravitacional tão característico do designado “problema dos 3 corpos”. Contudo, pode tentar explicar o caos como uma propriedade emergente de uma dinâmica informacional. Ou seja, o caos deixaria de ser simplesmente uma "falha" em encontrar uma solução analítica, e transformar-se-ia numa propriedade da própria evolução da rede informacional.

Uma vez que os tripletos de spins/qutriticos fornecem a "sintaxe" do Universo (Porto, 2026), dado que a hipotética estrutura triangular relacional é dotada de um grupo de formalismos tratados por nós [1], tais como a simetria U(1), também a existência de três relações binárias (na base da simetria SU(2)) e ao mesmo tempo uma relação triádica global (base da simetria SU(3)), irá deste modo conferir orientação, coerência e uma curvatura potencial, que globalmente definirão uma estado informacional muito complexo e potente. A gravidade, vista como curvatura da coerência, seria também a manifestação macroscópica de uma alteração global da estrutura de coerência da própria teia. Neste caso, se a intensidade de conexão entre os qutrits for Cij, podemos definir uma distância informacional, por exemplo, dij = f (Cij), com f escolhida de modo que uma maior coerência corresponda a uma maior proximidade relacional. A rede passa então a possuir uma geometria emergente definida por {Cij} ⟶ gμν e a curvatura, como uma primeira hipótese fenomenológica da TIF, poderia ser associada à variação espacial da coerência expressa do seguinte modo R ∼ ∇2C (Ryu & Takayanagi, 2006; Swingle, 2012; Van Raamsdonk, 2010).

Surge assim a base da nossa exploração com uma dupla estrutura triádica: de um lado os 3 corpos, do outro, um tripleto de spins. Isto é mais uma vez a evidência que a profundidade das nossas questões conduz-nos sempre ao formalismo matemático, à linguagem universal em que tudo se traduz.

Um qutrit realizado como triplo de spins, Qi = {∣+1⟩, ∣0⟩, ∣−1⟩} (Nielsen & Chuang, 2010), não seria apenas uma unidade de armazenamento de informação. Representaria agora uma unidade relacional, uma célula informacional fundamental, capaz de codificar três estados e as respectivas transições entre os mesmos. Globalmente uma autêntica célula totipotente capaz de se “diferenciar”, informacionalmente falando.

Assim, vamos deslocar esta ideia para os três corpos que agora podem ser representados como se fossem uma triangulação relacional de informação, cujos termos Q1, Q2, Q3, estariam ligados por uma rede de coerência Q1 ↔ Q2 ↔ Q3 ↔ Q1, numa potente estrutura de retroacção. Aqui a diferença fundamental, que vai condicionar a nossa análise futura, surge pela distinção de que na mecânica clássica, a relação entre os três corpos é consequência ad-hoc de forças, e agora com a TIF, a estrutura relacional é primária e as massas e a topologia emergem dela. Como se a gravidade fosse o bosão de Higgs numa outra escala!

Se, na TIF, as massas e a própria topologia espacial são variáveis emergentes da rede informacional, então o caos do “problema dos três corpos” deixa de ser apenas o resultado de três massas colocadas e moldadas por um espaço-tempo dado como pré-existente. Poderia agora ser reinterpretado como uma consequência da dinâmica auto-referencial da própria rede que implica simultaneamente massa, distância, geometria e interacção.

A TIF permitiria introduzir no Hamiltoniano (H) um termo que não aparece naturalmente numa simples soma de interacções binárias (Nielsen & Chuang, 2010):


onde Jij representaria a coerência informacional entre dois qutrits, Kijk representaria uma coerência genuinamente triádica, e Oij/Oijk seriam operadores relacionais. Esta expressão representaria a projecção da dimensão pré-espaçotemporal sobre o macrocosmo (a dimensão espaço-temporal).

Para três corpos seria então HTIF ​= J12​O12 ​+ J23​O23​ + J31​O31 ​+ K123​O123​.

É precisamente o último termo, designado por nós como K123​​, que abre uma nova oportunidade exploratória.

Na TIF, porque existe informação relacional do conjunto, que não está contida nas três relações tomadas isoladamente (o todo é sempre maior que a soma das partes), permite-nos postular uma ideia muito próxima daquilo que, na linguagem da teoria da informação quântica, procura caracterizar através das designadas correlações multipartidas (Nielsen & Chuang, 2010), ou seja que

Enquanto o clássico problema newtoniano se limita a tentar prever a evolução das relações estabelecidas pelos 3 corpos ao longo do tempo, com o modelo TIF procuramos a evolução do estado informacional traduzido pela expressão agora proposta

onde C123 representaria a coerência triádica. A geometria seria então reconstruída a partir das relações gμν = F(Cij​, Cijk​), (Ryu & Takayanagi, 2006; Swingle, 2012; Van Raamsdonk, 2010). Portanto em vez de assumir previamente uma geometria euclidiana e colocar três massas dentro dela devemos antes considerar o fluxo de interconexões desta rede informacional, da qual deveria surgir uma métrica que conduz à dinâmica gravitacional observável (Jacobson, 1995; Verlinde, 2011), que de forma gráfica poderíamos resumir assim:


Esta geometria não seria o palco onde as relações acontecem, mas uma representação macroscópica da estrutura das relações informacionais.

Para afirmar que a TIF “resolve” o “problema dos três corpos”, seria necessário construir um modelo matemático completo em diversas etapas. Isto, aliás, poderia transformar-se num teste matemático particularmente forte para a TIF, ou seja, traduzir-se-ia na construção de um modelo de três qutrits/spins, introduzir explicitamente o termo K123, calcular a dinâmica e verificar se, no limite clássico, recuperávamos as soluções conhecidas do “problema dos três corpos” — e se a descrição informacional revelaria invariantes ou estruturas que ficassem ocultos na formulação newtoniana.

Aqui, K123​ deveria representar a regra operacional que transformaria três unidades relacionais num sistema triádico dotado de propriedades que não pertencessem a nenhum par isoladamente. Poderia existir uma relação que não é redutível à soma das três relações binárias, daí a importância do termo K123. Este termo triádico introduziria uma nova fonte de dinâmica que não existe no problema gravitacional newtoniano convencional, transformando o caos clássico, que poderia então ser um limite da dinâmica informacional subjacente.

 Será que o termo genuinamente triádico alteraria qualitativamente a dinâmica relativamente ao modelo puramente par-a-par?

Ou seja, a distância entre dois objectos não seria necessariamente uma variável fundamental. Poderíamos ter, por exemplo, dij = F(Cij,C123,…), onde Cij representa a coerência/correlação informacional entre dois nodos e C123 uma correlação genuinamente triádica. Da mesma forma, a massa poderia ser uma quantidade colectiva mi= Mi[C, ρ, T], dependente do estado de coerência (C) da rede, da distribuição informacional ρ e da topologia T. Neste caso, teríamos uma cadeia de retroalimentação de onde derivaria o caos observável. O sistema dos 3 corpos tornar-se-ia não linear e auto-referencial com origem num sistema de retroalimentação.

Deste modo, na TIF sendo a massa emergente, então poderíamos ter mi = mi(t), e se também a topologia também fosse dinâmica T = T(t), (Einstein, 1916; Jacobson, 1995),  então a própria equação gravitacional deveria assumir uma forma modificada:

Com estas três fontes de complexidade, a saber, a não linearidade gravitacional, a variação da massa emergente (no sentido em que E = mc2), e a deformação dinâmica da própria geometria/topologia. o caos poderia, portanto, ser muito mais do que uma propriedade das trajectórias, e apresentar-se como uma propriedade da rede que produz as trajectórias.

Em resumo, se o vazio é constituído por unidades triádicas de spins qutriticos, então a relação entre três graus de liberdade pode constituir, no nível pré-espaçotemporal, o protótipo matemático de uma possível relação gravitacional entre três corpos no espaço-tempo emergente. Não estamos a identificar directa ou indirectamente os três spins com três planetas ou 3 asteróides. Com esta afirmação protegemo-nos contra uma interpretação indevida de uma possível analogia microcosmo/macrocosmo. O que podemos identificar é uma hipotética estrutura relacional formada por três entidades (Q).

 

UMA APROXIMAÇÃO TEÓRICA

Revendo os nossos conceitos, podemos afirmar que o tripleto qutritico pode ser formulado como um ciclo de relações complexas. Consideremos uma célula fundamental da Teia Informacional Fibrada formada por três spins T = {q1, q2, q3}, em que cada qutrit possui três estados básicos definidos assim ∣qi⟩ ∈ {∣0⟩, ∣1⟩, ∣2⟩}. Logo o estado conjunto vive em HT  = C3 ⊗ C3 ⊗ C3, possuindo portanto  33 = 27 configurações de base (Nielsen & Chuang, 2010). Mas o aspecto mais importante não é o número 27, mas os três elementos que podem estabelecer relações mútuas que nos levam a representar a célula por um grafo q1​↔q2​, q2​↔q3​, q3​↔q1​, ou seja um autêntico triângulo relacional. Estas 3 relações são mediadas por “distâncias informacionais” de entanglement (não por aquelas comuns ao nosso espaço tridimensional) que podemos formalizar individualmente por dij ​= F(ρi​, ρj​), (Nielsen & Chuang, 2010), onde F, sob proposta da TIF, mediria alguma forma de distinção, correlação ou emaranhamento entre os estados i e j, gerando então d12​, d23​, d31​.

Destas três relações pode surgir uma geometria quando aquelas relações satisfazem condições que permitam interpretá-las como distâncias, isto é, quando

d12 + d23 > d31,

d23 + d31 > d12,

d31 + d12 > d23

em representação afinal de uma estrutura relacional mais fundamental.

Se compararmos o problema da interacção newtoniana das 3 massas (corpos) com esta nova formulação, descobrimos que a estrutura matemática é de uma analogia com implicações filosóficas surpreendente:

TIF pré-espaçotemporal

Espaço-tempo emergente

q1, q2, q3

m1, m2, m3

Correlação Cij

Interacção gravitacional

Distância informacional dij

Distância espacial rij

Dinâmica dos estados qutriticos

Dinâmica orbital

Conectividade da teia

Geometria

Coerência colectiva

Campo gravitacional efectivo

A questão importante agora é partirmos do pressuposto de que a "massa" não seja fundamental, mas uma propriedade colectiva emergente da configuração informacional (Jacobson, 1995; Verlinde, 2011), o que nos conduz a podermos escrever, esquematicamente mi = M(ρi,{ρj},G), onde G representaria a topologia da teia.

Então, no problema de três corpos, as massas poderiam resultar de uma dinâmica mais profunda, o que modificaria radicalmente a interpretação do problema, pois enquanto na mecânica clássica newtoniana partimos das 3 massas para calcularmos a sua evolução, agora existe uma estrutura relacional fundamental de três graus de liberdade, da qual emergem simultaneamente propriedades equivalentes a massa, a distância e a interacção.

Como sabemos, o “problema dos três corpos” é famoso porque pequenas diferenças nas condições iniciais podem produzir grandes diferenças na evolução futura, o que em linguagem de sistemas dinâmicos será expresso por δx(0) → δx(t) ∼ δx(0)eλt quando e sempre que exista um expoente de Lyapunov positivo λ > 0 (Lorenz, 1963; Strogatz, 2015). Ora, uma célula TIF triádica também poderia possuir dinâmica não linear (Nielsen & Chuang, 2010), ou seja visto pela teia como sendo a igualdade dρi / dt = − i[HTIF,ρi] + Ni(ρ1, ρ2, ρ3), onde Ni representaria acoplamentos não lineares. Se estes acoplamentos fossem suficientemente complexos, poderíamos ter também um λ > 0, ou seja o caos gravitacional poderia então ser visto, hipoteticamente, como uma manifestação macroscópica de uma propriedade muito mais fundamental ligada a uma dinâmica não linear de relações triádicas.

Com isto não podemos dizer que 3 planetas ou 3 asteróides se comportam como 3 spins! Podemos no entanto afirmar que tal como um sistema microscópico pode produzir ou influenciar um outro à escala macroscópica, também os graus de liberdade fundamentais não precisam ser iguais às variáveis efectivas newtonianas, mas talvez “inspirar-se” nas primeiras, sem contudo poder reflectir todo o seu esplendor informacional e relacional complexo.


O que nos leva a formular se existiria uma transformação matemática que leve a dinâmica de Cij para uma dinâmica efectiva de rij semelhante à dinâmica gravitacional de três corpos e que poderíamos expressar genericamente pela projecção (a) onde Ɛ seria um mapa da emergência:

 (a)

Ou de outro modo, se a complexidade relacional informacional dos tripletos consegue reflectir-se numa estrutura macroscópica na dimensão espaço-temporal, ou ainda se o caos observado não tem qualquer tipo de resolução matemática porque a passagem de uma dimensão pré-espaçotemporal para a nossa resulta mesmo em puro caos! Como se a primeira “quisesse esconder” a sua geometria interna do macrocosmo. Tal não aconteceria aquando da proposta do modelo da TIF ao revelar a sua influência “genética” na estrutura geracional triádica dos Quarks e dos Fermiões no Modelo Padrão das Partículas: ali não existe caos! Talvez porque ali “trabalha-se” na escala do microcosmo onde a igualdade E = mc2 tudo dita de forma directa, uma vez que a dinâmica é regida pela relação de equivalência massa-energia. O caos não seria uma propriedade do microcosmo dos quarks, mas sim a assinatura macroscópica da rede informacional ao projectar a geometria, a massa e as trajectórias no espaço-tempo. A dimensão pré-espaçotemporal preservaria a sua coerência geométrica sem caos no microcosmo subatómico, manifestando a dinâmica caótica apenas no limite macroscópico gravitacional.

Porque se fossemos capazes de definir uma energia efectiva da célula TIF hipoteticamente dada por

ETI F = E(C12, C23, C31),

poderíamos procurar uma região no espaço de parâmetros onde a dinâmica efectiva obedecesse aproximadamente a

Então, na hipótese do modelo TIF, a gravidade newtoniana poderia representar um limite efectivo que a dinâmica da Teia Informacional Fibrada seria capaz de atingir. O problema fundamental de três massas que interagem num espaço previamente existente, teria então origem na dinâmica de uma relação triádica cuja própria geometria informacional e propriedades “inerciais” abortam ao emergirem da teia, traduzindo-se no caos observado.

 

UMA QUESTÃO EM SUSPENSO

O “problema dos três corpos” parte de um dos problemas fundamentais da mecânica clássica centrada em determinar a evolução de três corpos sujeitos exclusivamente à interacção gravitacional mútua. Embora as equações de Newton sejam simples de formular, a interacção simultânea entre os três corpos produz um sistema fortemente acoplado, não integrável em geral e extremamente sensível às condições iniciais, tornando o problema um exemplo paradigmático de dinâmica caótica.

Na Teia Informacional Fibrada, o “problema dos três corpos” adquire uma interpretação distinta da formulação newtoniana. Se massa, distância e topologia espacial são grandezas emergentes da coerência informacional da rede, então a dinâmica gravitacional não actua sobre uma geometria previamente dada, mas participa da própria constituição dessa geometria (Einstein, 1916; Jacobson, 1995). O caso dos três corpos é particularmente relevante porque constitui o primeiro sistema gravitacional no qual a interacção conjunta pode apresentar não integrabilidade e comportamento caótico (Poincaré, 1890; Valtonen & Karttunen, 2006). Na TIF, essa propriedade pode ser reinterpretada como uma manifestação macroscópica da dinâmica não linear de uma rede triádica, na qual correlações binárias e genuinamente triádicas modificam simultaneamente os acoplamentos, a geometria emergente e as grandezas efectivas associadas à massa. O caos orbital poderá, assim, representar não uma irregularidade fundamental da natureza, mas a assinatura bloqueada de uma dinâmica informacional subjacente.

Por hipótese socorremo-nos de um operador designado por K₁₂₃, introduzido como um termo genuinamente triádico que não se reduz à soma das interacções entre pares. A proposta consiste em investigar se uma dinâmica informacional deste tipo poderá explicar a complexidade observada no “problema dos três corpos” e, sobretudo, se a dinâmica gravitacional clássica poderá emergir como um limite macroscópico de uma dinâmica informacional mais profunda. Se o espaço dita à massa por onde ir, e esta última “dobra-o” ou modela-o, lógico seria assumir que a estrutura fundamental do primeiro poderia impor condições que a dinâmica de 3 massas não daria solução. Esta é a premissa da qual partimos! A hipótese central da TIF é que massa, distância, geometria e interacção não sejam necessariamente entidades fundamentais, mas propriedades emergentes da organização e da coerência da teia informacional fibrada. Assim, as correlações entre qutrits originariam distâncias informacionais, uma geometria emergente e, no limite apropriado, um campo gravitacional global efectivo. Divisávamos uma relação entre os três corpos e o tripleto de spins constituindo, deste modo, uma dupla estrutura triádica dimensionalmente diferentes: uma no espaço-tempo emergente einsteiniano e outra no domínio pré-espaçotemporal quantizado, relacionando-se pela introdução de variantes extremamente sensíveis derivadas de pequeníssimas condições iniciais em ambas as configurações geométrica triádicas, e normalmente detectadas pela física envolvente.

Exploramos a possibilidade de que a própria massa seja uma propriedade colectiva da rede e, consequentemente, uma grandeza geradora de dinâmicas que teriam consequências nas configurações que modelariam as micro condições iniciais de saída. Se tanto as relações inter-massa como a topologia forem emergentes e variáveis, o sistema poderá adquirir uma dinâmica não linear e auto-referencial, na qual o caos não seja apenas uma característica das trajectórias dos corpos, mas uma propriedade da própria rede que condiciona essas trajectórias.

O que se propõe é a detecção de uma possível correspondência estrutural entre os graus de liberdade fundamentais e as variáveis efectivas que emergem no espaço-tempo. A questão decisiva passa a ser saber se poderá existir uma transformação matemática que projecte a dinâmica das correlações informacionais na dinâmica de distâncias e massas da gravitação newtoniana. O teste fundamental seria construir um modelo matemático completo de três qutrits/spins com o termo K₁₂₃, determinar a sua dinâmica e verificar se, no limite clássico, recupera as equações gravitacionais conhecidas e o comportamento caótico do “problema dos três corpos”. Se tal correspondência puder ser demonstrada, o caos orbital poderia ser entendido como uma manifestação macroscópica de uma dinâmica informacional triádica subjacente, ou seja, se poderá o modelo TIF recuperar, no limite clássico apropriado, as equações do problema gravitacional dos três corpos e o correspondente comportamento caótico.

A questão em aberto permanece e está para além de qualquer analogia: será o caos do “problema dos três corpos” a assinatura macroscópica de uma estrutura relacional mais profunda, da qual informação, geometria e massa emergem conjuntamente? Se a estrutura triádica é fundamental no nível pré-espaçotemporal, poderá a dinâmica gravitacional de três corpos ser uma manifestação efectiva dessa estrutura, com massa, distância e geometria emergindo das relações informacionais? A hipótese de que o caos também seja emergente?

Se conseguíssemos construir um modelo matemático que percorresse uma cadeia formal de estados e parâmetros provacionais desde a estrutura triádica pré-espaç​otemporal, geometria emergente, massa/distância, gravidade e finalmente o caos dos três corpos, e como tal reproduzisse quantitativamente a fenomenologia newtoniana no limite apropriado, teríamos algo que deveria ser seriamente tomado em consideração pelo impacto que instilaria na Ciência e na Filosofia.

 

Notas

 

[1] Porto, J. (2026). Deus Joga as Dados. Bubok Publishing S.L..

Na arquitectura relacional da TIF, as simetrias estão hierarquizadas segundo a complexidade da ligação: a simetria U(1) associa-se à estrutura triangular relacional, a simetria SU(2) serve de base às três relações binárias entre os pares, e a simetria SU(3) constitui a base da relação triádica global do conjunto. Deste modo, a simetria SU(3) é o elemento formal que impede que o sistema seja tratado como três conexões independentes, convertendo-o numa unidade relacional integrada cuja reorganização de coerência se manifesta macroscopicamente como gravidade e curvatura emergentes.

Ao contrário da mecânica clássica, em que as massas são fixas, na TIF a massa emerge como uma quantidade colectiva dependente da coerência (C), da distribuição de informação (ρ) e da topologia (T), expressa por mi = Mi[C, ρ, T]. Como a coerência e a topologia são dinâmicas e evoluem no tempo (T = T(t)), as próprias massas tornam-se variáveis no tempo (mi = mi(t)), gerando uma cadeia de retroalimentação não-linear e auto-referencial, em que a rede determina a massa e a geometria, e a variação destas altera continuamente as condições de acoplamento e a evolução subsequente da própria rede. Aqui, a organização complexa qutritica assumirá um papel importantíssimo na correcção quântica de erros (QECC) e na consequente estabilização das massas. Não esquecer que o modelo HaPPY (Pastawski, Yoshida, Harlow e Preskill, 2015) utiliza redes de tensores (como códigos pentagonais) para demonstrar explicitamente como a métrica do espaço e a distância física emergem da estrutura de emaranhamento e da correcção de erros. Também Daniel Harlow (2017) provou que a lei de área da gravidade quântica e a fórmula de entropia de Ryu-Takayanagi derivam directamente das propriedades algébricas dos códigos de correcção quântica de erros. Na verdade, nas abordagens modernas de gravidade quântica e holografia (no contexto da dualidade holográfica como a correspondência AdS/CFT), descobriu-se que o próprio espaço-tempo e os objectos dentro dele (massa, campos de matéria e geometria) funcionam estruturalmente como um código de correcção de erros quânticos, de modo que os graus de liberdade no interior do espaço-tempo (bulk) corresponderiam a qubits lógicos protegidos, enquanto a fronteira quântica é composta por qubits físicos altamente emaranhados. Em trabalhos pioneiros como o de Almheiri, Dong e Harlow (2015), demonstrou-se que a massa ou matéria localizada no bulk é redundantemente codificada na fronteira. Isto significa que a informação sobre uma massa no interior permanece protegida mesmo se partes significativas da fronteira forem apagadas.

A ideia central na hipótese do modelo TIF seria que a massa não seria estabilizada directamente pelo código, mas pela persistência da organização informacional que, dá origem à massa. Para a testar, seria necessário mostrar que a proteção da informação lógica reduz efectivamente as variações da massa emergente.

[2] O expoente de Lyapunov mede a rapidez com que duas trajectórias inicialmente muito próximas se afastam num sistema dinâmico, e pode ser representado, de forma simplificada, por δx(t) ≈ δx(0)eλt, onde δx(0) representa a pequena diferença inicial; δx(t) a diferença após um determinado tempo, e λ o expoente de Lyapunov. Se λ > 0 as trajectórias afastam-se exponencialmente gerando comportamento caótico, mas se λ = 0 não há afastamento exponencial representando uma situação marginal. Porém, se λ < 0 as trajectórias tendem a aproximar-se gerando um comportamento estável. Aplicado ao “problema dos três corpos”, significa que uma alteração extremamente pequena nas posições ou velocidades iniciais pode, depois de algum tempo, produzir uma configuração orbital completamente diferente. É uma forma quantitativa de caracterizar a sensibilidade às condições iniciais, ou de quão rapidamente o sistema esquece as suas condições iniciais, propriedade muito característica dos sistemas caóticos.

No contexto da Teia Informacional Fibrada, um λ > 0 poderia ser um sinal inequívoco não apenas na dinâmica orbital macroscópica da geometria espaço-temporal, mas também da dinâmica não linear introduzida pela rede triádica de qutrits do domínio pré-espaçotemporal. Constituiria uma influência inegável.


Referências

 

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Ponta Delgada, 28 de Setembro de 2026


O PROBLEMA DOS 3 CORPOS

  ou uma proposta teórica estranha sob uma nova perspectiva da  teoria da informação   INTRODUÇÃO   O “problema dos três corpos” q...