terça-feira, 21 de dezembro de 2021

A Divina Comédia 700 anos depois


por João Gabriel Fonseca Porto    

No ano de comemoração dos 700 anos do falecimento de Dante Alighieri, propus-me os 3 R`s, reler, reflectir e redigir sobre a Divina Comédia, deixando aqui algumas conjecturas desse esforço dantesco de tentar “digerir” 14 233 versos, acompanhado por consultas bibliográficas colaterais.

A Divina Comédia escrita no início do século XIV por Dante Alighieri (1265-1321), é considerada uma das epopeias clássicas da literatura ocidental e espelho de muitas inovações para o seu tempo, a começar pela escrita em italiano vulgar e não em latim como seria de esperar da alta literatura da época. E assim é, porque para Dante o conhecimento devia libertar o homem e fazê-lo chegar mais depressa ao reino de Deus e á sua contemplação eterna. A obra é dividida em três livros, nomeadamente Inferno, Purgatório e Paraíso, onde cada um está por sua vez dividido em Cantos de tercetos normalmente compostas por 3 versos de 33 sílabas (3 x 11).

Considera-se que a composição desta obra gira em torno da numerologia através do simbolismo do número 3, que a filosofia mais recuada simboliza nos três Logos hinduísta expresso em Atma, Budhi, Manas ou a sua adaptação religiosa da cristandade na Santíssima Trindade, assim como também o equilíbrio e a estabilidade reflectidas no Trigunas hinduísta Tamas, Raja, Sattva, ou o Yang-Yin da filosofia chinesa, ou ainda recuando à antiguidade grega, a relação com o triângulo pitagórico.

Na senda da numerologia sagrada, possui três personagens principais, a saber o próprio Dante Alighieri, que personifica o homem; a sua amada Beatriz que personifica a fé; e Virgílio, o seu guia no Inferno e no Purgatório, que personifica a razão, a ciência, o intelecto.

Os 3 livros que compõem a Divina Comédia são divididos em 33 cantos. No entanto o Inferno possui um canto a mais que serve de introdução. No total perfaz 100 cantos, 33 x 3 + 1, e 14.233 versos.

O Inferno, o Purgatório e o Paraíso, são divididos em nove círculos cada, formando no total 27 diferentes dimensões (3x3x3). Finalmente os 3 livros terminam com um verso que utiliza a mesma palavra: "estrelas", cujo significado permanece ainda por identificar.

Ao descrever a peregrinação do personagem Dante pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, o poeta desenvolve as perspectivas filosóficas, religiosas e científicas do seu tempo. Todos na Europa medieval acompanhavam o pensamento de Ptolomeu e Aristóteles que achavam que a Terra era estática e estava no centro do universo, e que os planetas, entre os quais a Lua e o Sol, giravam á sua volta. A Divina Comédia segue o paradigma aristotélico-ptolomaico ao descrever por exemplo o Paraíso formado por nove céus concêntricos girando em torno da Terra imóvel e estática no centro do Universo.

Uma leitura, que não pode deixar de ser profunda e atenta da Divina Comédia, leva-nos a viajar pela mitologia europeia associando conhecimentos agora corporizados pela Física, Química, Astronomia, História, Filosofia, Arte, Literatura, Metafísica e Religião, traduzindo para além da cosmovisão da realidade na Idade Média, mensagens codificadas inerentes às tradições transmitidas pelas doutrinas secretas dos Templários e dos Maçons construtores de catedrais. Não é por acaso que no último Canto 33 da peregrinação pelo Paraíso, Dante Alighieri é conduzido até à face de Deus por São Bernardo de Claraval (1090 – 1153), padroeiro dos Templários.

“Bernardo me acenava e me sorria

por que eu olhasse ao alto; mas eu era

já por mim mesmo como ele queria;

que minha vista vinha assim sincera,

e mais e mais no raio se entranhava

da alta luz que só por si é vera.”

                                                                          Paraíso, Canto XXXIII, 49-54

Curiosamente Bernardo de Claraval nasceu em Dijon, na mesma cidade onde nasceu o seu primo, o Conde D. Henrique (1066). Defendeu a criação da Ordem dos Templários, redigindo os seus estatutos. Esteve associado á fundação de Portugal, pois foi por mediação da sua abadia de Claraval que o Papa enviou um legado à Península Ibérica, reconhecendo a independência nacional e o título de dux a D. Afonso Henriques, rei templário.

Ao analisarmos a Divina Comédia descortinamos as raízes da ciência na Idade Média contradizendo a presunção, tantas vezes avançada, de que não existiu qualquer progresso científico durante este período histórico, muitas vezes abusivamente apelidada de Idade das Trevas.

Depois de Tomás de Aquino, com os seus estudos, debates e discussões, ter adaptado à gnose cristã a filosofia grega, perdida para o Ocidente após o colapso do Império Romano e recuperada sobretudo a partir de fontes árabes e bizantinas, os pensadores medievais produziram avanços no conhecimento, considerados já de natureza científica, através sobretudo das universidades medievais de Oxford e Paris no decorrer de todo o século XIV.

Na cosmovisão medieval o universo era uma hierarquia de esferas onde se situava a Terra como um globo centrado no espaço e sem movimento próprio, envolvido por uma atmosfera e contendo mares e terras. Quanto mais longe da Terra nos situássemos, mais perto do céu estaríamos, Os dois extremos desta geografia eram dados pelo centro da Terra, onde era colocado o Inferno, e a esfera das estrelas na sua periferia. Entre os dois, uma fronteira definida entre a Terra, região sublunar perecível onde vivia a humanidade, e a esfera celeste dos céus perfeitos e imutáveis, constituía a esfera da Lua. Depois desta fronteira, seguiam-se as nove esferas cristalinas, formadas por éter ou quintessência, orbitando eterna e circularmente em torno da Terra, a saber as esferas da Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Neste modelo de ordem harmoniosa situava-se por último a esfera das estrelas fixas para lá das quais se situava o firmamento e, fora dele, o reino de Deus.

Todos estes fundamentos estavam contidos na quarta disciplina do Quadrivium, transmitidos no Tratado da Esfera de João Sacrobosco.

Esta concepção anti-terraplanista era comum entre os estudiosos medievais e vem formatar a concepção da Terra na Divina Comédia. A geografia terrena apresenta-se com dois hemisférios: um boreal e habitado onde existiriam as terras conhecidas, e outro o austral onde dominavam os mares povoados de monstros mitológicos, que só as navegações de descoberta dos Portugueses desmistificaram. O primeiro estendia-se da foz do rio Ganges na Índia à nascente do Rio Ebro, na Península Ibérica enquanto no centro, ao meio-dia, localizava-se Jerusalém. Nos antípodas de Jerusalém haveria uma ilha que abrigaria a montanha do Purgatório. No entanto a queda de Lúcifer havia produzido uma fenda cónica, onde residiria a estrutura dos 9 círculos do Inferno e no seu centro o anjo caído em desgraça.

Na peregrinação de Dante e Virgílio pelo Inferno, ao descerem pelos círculos do Inferno chegam ao centro da Terra onde encontram Lúcifer. Em seguida, e já no segundo livro, Virgílio sobe com Dante às costas pelo túnel de uma passagem vazia que os leva ao hemisfério austral e à montanha do Purgatório:

De lá tu foste enquanto eu me descia,

mas quando me voltei tinhas passado

ponto que a todo o peso atrai a via.

e ao hemisfério ora te eis chegado

oposto ao que recobre a grande seca (a Terra)

sob o tecto (Jerusalém) da qual sacrificado…”

                                                                        Inferno, Canto XXXIV, 109-114

 

Este “ponto” que “a todo o peso atrai a via” torna claro e traduz na nossa opinião, o efeito da atracção gravitacional provocada pelo centro (o “ponto”) da geometria esférica da Terra. A ligação de centro de massa com o peso dos corpos é autêntica inovação no conhecimento da realidade, uma revolução no pensamento tradicional aristotélico para o qual não havia necessidade de uma força da gravidade uma vez que era o desejo natural dos objectos ocupar os seus devidos lugares que os fazia cair ou ascender. O conceito de força ou de acção à distância só em 1687 foi proposta por Newton com a formulação da Lei da Gravitação Universal.


Diagrama esquemático e didáctico da estrutura da Divina Comédia.

 Fonte: http://divinacomediahq.blogspot.com/2011/06/viagem-de-dante.html


Sem esforçar tendencialmente a nossa interpretação, seguindo a metodologia inovadora da simplicidade franciscana medieval da “navalha de Ockham”, que agora à luz do mundo da Mecânica Quântica e da Astrofísica e da Cosmologia encontra a explicação mais plausível, a peregrinação de Dante naturalmente transporta-nos para um universo multifacetado de mundos paralelos coexistentes e inter-relacionados. Excepção feita para as dimensões dos círculos do Inferno, que são vivencialmente eternos. Todos são assumidos como meios similares ao estado das respectivas almas que os Cantos têm a particularidade de descrever pormenorizadamente. Como se o contexto das frequências vibracionais das almas emparelhasse com o seu meio ou vice-versa, tal como da estrutura fina de um espectro luminoso onde reina a constante universal e unidimensional alfa (α). Constante, que se sabe, unir três domínios essenciais da Física: o Electromagnetismo sob o valor da carga do electrão (e), a Relatividade Geral expressa pela velocidade da luz (c) e a Mecânica Quântica expressa pela Constante de Planck (h).


A constante universal alfa nos dois sistemas de unidades como valor adimensional.


Fizemos esta experiência: dos primeiros Cantos do Inferno, Purgatório e Paraíso, respectivamente os versos 1,3 e 7, obtivemos a seguinte sequência, porém com uma tercina sónica diferente (AAB, CCB, DDE):

 

“No meio do caminho em nossa vida

porque a direita via era perdida,

Tão amarga é, que pouco mais é morte;

 

Buscando águas melhores iça as velas

que deixa atrás de si cruéis porcelas;

A morta poesia ressuscite;

 

A glória do alto ser que tudo move

mais numa parte e menos noutras chove

pois perto a seu desejo indo a subir”

 

Espantosamente resume de forma sucinta e clara o propósito da existência material. Esta só tornada possível porque o valor 1/137 ou 7,297352568 x 10-23 é tão diminuto que permite que a força electromagnética deixe os electrões “saltarem” entre as orbitais dos elementos, controlando deste modo a força das ligações químicas, mas forte o suficiente para que as estrelas possam sintetizar os elementos mais pesados da Tabela Periódica, como o carbono, que está na base da Vida. Daí, talvez, a presença da palavra “estrelas” no fim de cada livro da Divina Comédia.

Este será então o propósito da Vida já contido no Dharma védico expresso nos Upanishads e na Doutrina Secreta de Blavatsky.

A emissão ou absorção de luz em determinadas frequências devido ao “salto” dos electrões em diferentes níveis no átomo, criam as linhas espectrais onde as escuras são a absorção e as claras a emissão. Como se fosse uma estrutura fina, tipo código de barras.

As propriedades de toda a matéria e energia resultam desta relação profunda dos campos quânticos ondulatórios, extensíveis a todas as dimensões, na Divina Comédia tidas como círculos e aqui aprimoradas nestes tercetos onde se revela a natureza imaterial e as propriedades da luz (reflexão e refracção), chegando Beatriz a propor a realização de uma experiência (Paraíso, Canto II, 49-111).

““Eleva a mente grata a Deus”, me disse,

“que nos juntou com a primeira estrela”.

E pareceu que nuvem nos cobrisse,

Lúcida, espessa, sólida e polida,

qual adamante ali que o sol ferisse.

Dentro de si, a eterna margarida (pedra preciosa)

nos recebeu, tal como a água recebe

raio de luz permanecendo unida.

Se eu era corpo, e aqui não se concebe

como uma dimensão outra admitiu,

quer se convém se corpo em corpo embebe,

mais o desejo acesso então surgiu

de ver aquela essência em que se vê

como nossa natura e Deus se uniu.”

                                                                  Paraíso, Canto II, 30-42

 

No seu livro QED - a estranha teoria da luz e da matéria, Richard Feynman afirma acerca desta constante de acopulamento: “Pode-se dizer que a mão de Deus escreveu aquele número, mas não sabemos como Ele usou o lápis.”. E ainda mais á frente, referindo-se às constantes universais: “Não há nenhuma teoria que explique adequadamente estes números. Usamos os números em todas as nossas teorias, mas não os percebemos – o que eles são ou donde vêm. Acredito que, de um ponto de vista fundamental, este é um problema muito interessante e sério.”

 

Na Divina Comédia poderíamos considerar os múltiplos círculos como dimensões paralelas, tão caras à física das “cordas” e às “branas” na cosmologia. A nossa existência material constituiria apenas mais um “círculo” dantesco, suportado por forças titânicas onde dominam os campos quânticos das forças nucleares e electromagnéticas, que nos confinam no “centro” do universo, afastados irremediavelmente das “esferas cristalinas” das estrelas, do “empíreo” firmamento e da deidade e dos seus campos quintescentes e etéricos (quânticos?).


O progresso de Dante e do seu guia Vergílio nos círculos inferiores do Inferno e do Purgatório são sempre descritos com grande esforço e cansaço por efeito das intuídas forças gravitacionais, por vezes desnorte e esmorecimento que só a fé e os olhos de Beatriz são capazes de compensar. Energia e massa são necessárias para os ultrapassar e romper as forças que os sustem.

 

“Eu estava na ponte a ver tal surto,

e se a um rochedo ali não fosse preso,

sem choque lá caía em tempo curto.

E o guia, que me viu assim surpreso,

Diz: “No fogo os espritos são a arder;

cada um se envolve do que nele é acesso.”

                                                                            Inferno, Canto XXVI, 43-48

 

““Bem te segures numa escada tal”,

Me disse o mestre arfando de cansaço,

“é preciso partir de tanto mal”.

E um buraco na pedra fez-lhe espaço (conversão matéria <=> energia)

de sair e me foi na orla pousar;

e veio ter comigo a certo passo.

Alçando os olhos, cri que ia avistar

Lúcifer como o eu tinha deixado;

E então o vi de gâmbias para o ar (efeito gravitacional do centro de massa);

e se eu fiquei um tanto perturbado,

a rude gente o pense, que não vê

que ponto (centro do planeta) é esse que eu tinha passado.”

                                                                           Inferno, Canto XXXIV, 82-93

 

“”Ó minha força, fraca a que te empregue?”,

A mim dizia eu que me sentia

Não ter nas pernas força que carregue.”

                                                                              Purgatório, Canto XVII, 73-75

 

A montanha do Purgatório tendo sido formada após a morte de Cristo pelo colapso da terra na direcção do hemisfério austral, parece assumir a ideia de que o aparecimento da humanidade criou a perspectiva de redenção da alma humana, porventura através de éons de tempo por sucessivos processos reencarnatórios, sendo que aquele avatar humano foi a causa definitiva (conceitos defendidos pelo Cristianismo primitivo anterior ao Concílio de Niceia em 325 dC).

A formação da montanha do Purgatório por colapso de um cone interno da matéria (a Terra = matéria) faz-nos recordar a física de um Buraco Negro, aquele sol central negro já presente na cosmologia da Ísis Sem Véu ou da Doutrina Secreta de H. Blavatsky.

 

“Desta parte tombou vindo do céu;

e a terra que aqui antes se estendia,

do medo que lhe vem fez do mar véu,

vindo ao nosso hemisfério; e então seria

que fugindo, lhe esvaziou ignoto

lugar a que a que ali vês e que ascendia.”

                                                                   Inferno, Canto XXXIV, 121-126

 

A Cosmologia fez-nos compreender que a estrutura temporal do universo é muito semelhante a um cone, onde no centro de qualquer evento surgem por baixo e por cima os cones dos seus eventos futuros e passados, estruturados pela luz que viaja nos seus limites. Deste modo, nas proximidades de um Buraco Negro, estes cones de luz confluem todos, dado que a sua massa desacelera o tempo, de tal modo que o tempo pára nas suas fronteiras ou no seu “horizonte de eventos”. As analogias com o Inferno de Dante são arrasadoras!

 

“Antes de mim não houve coisas mais

Do que as eternas e eu eterna duro.

Deixai todas a esperança, vós que entrais.”

                                                          Inferno, Canto III, 7-9

 

Toda a peregrinação do personagem Dante é assumidamente feita num estado dualidade existencial: está vivo mas percorre o espaço-tempo dos mortos como entidade da mesma natureza daqueles, comunicando e interagindo simultaneamente física e metafisicamente, como se para tal ambos partilhassem um estado de “entanglement”, tal qual paradoxo do “Gato de Schrodinger”. A morte e a vida surgem como estados simultâneos apenas separados dimensionalmente.

 

Partilhamos o que afirma Vasco Graça Moura na sua introdução à Divina Comédia: “Às concepções da Escolástica sucederam o espaço absoluto e o tempo absoluto de Newton, ainda emanados da omnipresença e da permanência divinas, e a estes substitui-se o conglomerado espaço-tempo que Minkowski mostrava ser implicado pela teoria da relatividade….também em Dante há um peculiar entendimento finalista do espaço-tempo, da simetria, da energia, da matéria, do efeito fotoeléctrico, da ondulação e da velocidade da luz…, impondo portanto uma leitura não romântica do Paraíso…”

 

Longe da intenção de explorar todas as vertentes que confluem na Divina Comédia como antecedentes da Ciência, traduzidos pela Filosofia Natural, filha da Ciência Teológica medieval, todo o poema é trespassado por referências astronómicas.

A referência de maior relevo aparece na explicação dada por Beatriz sobre a geografia da superfície lunar e das suas manchas escuras, em Paraíso, Canto II, 49-111.

Surgem tercetos repletos de sinais e orientações estelares, planetárias e de constelações, como aquelas dando acesso ao Purgatório, no Canto I, mas que poderíamos reproduzir em muitos outros ao longo do poema, e que colocam a Astronomia, como astrosofia, no seu cerne.

 

“O planeta que todo o amor conforta (Vénus)

fazia sorrir já todo o oriente,

velando os Peixes (constelação) que a escoltá-lo exorta.

Voltei-me á mão direita e pus a mente

no outro pólo (austral), e aí vi quatro estrelas (virtudes cardeais),

vistas apenas da primeira gente.

Dir-se-ia o céu gozar a chama delas:

Setentrião, tu por viúvo és tido (a humanidade carece das virtudes),

porque privado estás assim de vê-las!

Quando eu de sua vista fui partido,

e o olhar um pouco ao outro pólo (norte) vai,

lá onde o Carro era já fugido (A Ursa Maior abaixo do horizonte),

só, junto a mim, um velho, sobressai,…

´Ergue-te´, disse o mestre, ´fica em pé:

a via é longa e o caminho estreito

e já o Sol na mei-terça é´”. (entre as 7h30 e as 8 horas)

                                                                                          Paraíso, Canto I, 19-31

 

A marcação do tempo é constantemente pautada com a presença dos astros, pois este tem origem na causa primeira do movimento, conferido por Deus ao Primum Mobile, a esfera mais externa do modelo ptolomaico do universo. É Astrosofia versus Astrologia.

 

“A natura do mundo, que aquieta

o centro e todo o resto em torno move,

daqui começa, como em sua meta;…

… e como o tempo tenha nesse testo,

sua raiz e noutros ponha as frondas,

te pode ser agora manifesto”

                                                                   Paraíso, Canto XXVII, 106-108, 118-121


As Esferas Celestes

Por Fastfission – Edward Grant, Celestial Orbs in the Latin Middle Ages, Isis, Vol. 78, No. 2. (Jun., 1987), pp. 152-173. Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=317560

  

Sabe-se que a primeira referência a um relógio mecânico data de 1273, criado em Norwich, Inglaterra, destronando rapidamente as clepsidras romanas. Teve uma aplicação imediata na esfera armilar dando a posição de planetas e constelações de forma bastante imprecisa. Tinham sobretudo o objectivo de marcar as rotinas diárias de oração nos mosteiros. Esta invenção aliada à instituição da numeração árabe (verdadeiramente de origem indiana), as cruzadas e a introdução vital do zero, vai transformar toda a Idade Média e criar as premissas futuras do Renascimento. Contudo Dante Alighieri na Divina Comédia ao fazer ainda uso da numeração romana só demonstra a dificuldade da introdução da notação árabe de Al-Khwarizmi, só amplamente utilizada no então recém século XIII, em grande parte motivada pela resistência da Igreja na sua aceitação. Prevalecia em Dante a ideia de divulgação popular da obra que apoiada no vernáculo italiano mantinha no entanto a numeração romana.

Do mesmo modo que a noção de tempo mantinha-se ligada aos ritos sagrados terrenos da igreja o Primum Mobile criava a ideia prevalecente do tempo ligado à Criação.

 

Enquanto no Inferno o tempo pára, não existe, no Purgatório e no Paraíso a sua existência pontua a evolução futura das almas, distribuídas ao longo de éons de tempo representados pelos terraços. O progresso como não podia deixar de ser, é lento mas constante.

 

“O sol já no horizonte agora conto

cuja meridiana volta alarga

e toca Jerusalém no sumo ponto;…”

                                                              Purgatório, Canto II, 1-3

 

Contudo a entrada no Paraíso leva à inexistência de referências ao tempo por Dante, pois aqui o passado, presente e futuro ganham uma dimensão contínua, absoluta e eterna, fluindo uniformemente sem relação a nada externo. Na eternidade a mudança deixa de existir, e assim, o tempo que é a medida da mudança, de acordo com o pensamento aristotélico. Esta é outra revelação revolucionária de Dante ao diferenciar os conceitos de tempo relativo, caro a Aristóteles, do tempo verdadeiro, matemático e absoluto, newtoniano, muito antes do Principia Mathematica de Isaac Newton (1687), que irá alicerçar a construção da física moderna.

Hoje o conceito de espaço-tempo está relacionado com o próprio campo gravitacional e vice-versa, onde particularmente o tempo se transforma numa complicada trama geométrica tecida em conjunto com a geometria do espaço, ambos curvos e distorcidos devido à sua natureza quantizada e considerada possivelmente granular. A disposição e configuração arquitectónica dos terraços, a sua natureza revelada pela peregrinação de Dante pelo Purgatório, configura uma rede labiríntica de eventos segundo a ordem do tempo, em círculos sucessivos, das trevas à redenção da luz. Também o Inferno ajusta-se a esta ideia sendo, como já referimos, um imenso cone oco invertido até ao centro da Terra.

Em círculos sucessivos de horrores, “areal que um turbilhão aspira”, “rio de negrume”, “água assim de escura espuma”, “A terra lacrimosa soltou vento que lampejou de luz rubra tamanha”, “vale desse abismo doloroso…escuro e profundo era e nebuloso”, são descrições do Inferno ao longo dos Cantos III e IV, que nos fazem lembrar um “horizonte de eventos” nas cercanias de um Buraco Negro onde o tempo pára.

Já no Paraíso, mundo de baixa entropia e de dimensões lumínicas subtis, o tempo é desnecessário, pois como diz o astrofísico italiano Carlo Rovelli em A Ordem do Tempo: “A temporalidade está profundamente ligada ao desfocamento. O desfocamento é o facto de sermos ignorantes face aos detalhes microscópicos do mundo. O tempo da física, em última análise, é a expressão da nossa ignorância do mundo. O tempo é a ignorância.” 


Dante Alighieri, Apoteosi a Firenze, 700° anniversario della morte (1321-2021), illustrazione dell'artista Giovanni Guida.

 Wikimedia Commons.

 

Um dos objectivos na Divina Comédia é dado pela próprio acto de peregrinação, mostrando que a evolução se faz de baixo para cima, da matéria para o subtil. Citando de novo Carlo Rovelli: “É a entropia, e não a energia, que arrasta o mundo.” Ou ainda mais adiante “Dos eventos menores aos mais complexos, é esta dança de entropia crescente, alimentada pela baixa entropia inicial do cosmos, a verdadeira dança de Shiva, o destruidor.”

Concordamos que fazer comparações entre a Divina Comédia e a Física actual é um sério risco, mas a deambulação filosófica arrastada pela intuição é mais forte e criativa. Os pontos de contacto só demonstram que a intuição humana sempre foi ao longo do tempo, a mãe de todas as inspirações e a razão dos arquétipos desde os Vedas, Platão a Carl Jung.

 

Continuando nesta senda, o Canto XXVIII, 23-18, do Paraíso atribui a configuração próxima de Deus a um ponto único e infinito na sua essência adimensional, tal singularidade espacial também atribuída pela actual astrofísica, tanto à origem como ao termo do evento conhecido por Big Bang, ou ainda à mais recente teoria de Roger Penrose da Cosmologia Cíclica Conforme.

 

“E como me voltei, e foi tocando

os meus o que aparece em tal volume (esfera)

se se for o seu giro bem fitando,

um ponto vi de onde raiava lume (luz ofuscante)

e tão agudo, que o olhar que enfoca

tem de fechar-se ante tão forte acume;…”

 

No mesmo Canto XXVIII, Beatriz explica o ponto luminoso e os nove círculos de fogo, que em torno daquele ponto se desenvolvem cada vez mais rápidos se mais próximos dele e do qual depende o céu e toda a natureza. 

Esta concepção surge no influente Livro dos 24 filósofos (Liber XXIV philosophorum), onde no 2º aforismo, é dito que “Deus é uma esfera infinita cujo centro está em todo lugar e cuja circunferência não está em lugar nenhum.”. No aforismo 18º volta-se a referir que “Deus é a esfera cujo todo tem tantas circunferências quanto pontos”. Em 24 aforismos, dois são dedicados á ideia de esfera!

 

Este conceito também foi transmitido mais tarde em a A DOUTRINA SECRETA, Antropogénese, vol. III, Estância I, 6 por Helena Blavatsky, onde é revelado:

 

“Os Sete Sublimes e as Sete Verdades (a) haviam cessado de ser; e o Universo, filho da Necessidade, estava mergulhado em Paranishpanna (b), para ser expirado (c) por aquele que é e, todavia, não é. Nada existia.”

 

Conjecturamos que:

(a)    Sete Sublimes e Sete Verdades são na cosmogonia os Campos de Forças, veículos para a manifestação do Pensamento e Vontade do Uno, expressos na constituição septenária;

(b)    Paranishpanna é o estado entre dois éons após um período de expansão do universo (Manvantara) e um período de repouso que antecede outro período de expansão, em perfeito acordo com a Cosmologia Cíclica Conforme (CCC) de Roger Penrose;

(c)    O aparecimento e desaparecimento do Universo, descrito como acto de expiração e inspiração, em que a primeiro corresponde á emissão de uma ondulação, perturbação do vácuo, vibração do Pensamento/Consciência do qual surge o universo.

Uma passagem no Paraíso, Canto I, 103-108, partilha esta mesma ideia e é elucidativa na explicação de como o Pensamento ou Consciência de Deus está na origem da “criação” do universo:

 

“´Vês toda a cousa extante

Ter ordem entre si e esta é forma

que o universo a Deus faz semelhante.

Vêem altas criaturas se conforma

cá a marca do valor eterno, fim

ao qual é feita a supradita norma.

Na ordem que eu descrevo tende assim

toda a natura, por diversa sorte,

mais ou menos a seu princípio afim;

onde a diversos portos se transporte

no grande mar do ser, e a cada um enfuna

instinto que lhe é dado a que lá aporte.”

 

O universo sendo “filho da Necessidade” traduz uma Lei, tal qual a entropia, que manda o Universo existir, manifestar-se, e que estará presente em todas as coisas sob a forma de uma seta do tempo (passado-presente-futuro) e na perenidade dos valores das constantes físicas, sempre no sentido de ascese (Dharma) e reposição constante do equilíbrio (acção tradicional dos Trigunas) perturbado por esta “Necessidade”.

A ideia de entropia, desenvolvida por Clausius e Boltzmann no século XIX e expressas na segunda lei da termodinâmica, poderá considerar-se estar intuitivamente subentendida em Dante na Divina Comédia, quando manifesta no conceito de “corrupção” introduzido por Beatriz no Paraíso, Canto VII, 124-129:

 

Tu dizes: “Vejo a água, vejo o fogo,

o ar e a terra e todas as misturas

chegar a corrupção e morrer logo;

e estas cousas foram criaturas;

mas, se o que é dito fora verdadeiro,

deviam ser de corrupção seguras.”

 

Contudo de forma oposta, no Inferno a mesma lei parece não ser aplicável, quando no Canto XXIV, 97-105, Vanni Fucci, entre outros ladrões, é atacado por serpentes e transformado em cinzas. Contudo, como Fénix renascida, o pó das cinzas logo se “espessa” voltando a criar o personagem, que assim entra num rodopio de extinções e renascimentos. Deste ciclo infernal podemos deduzir a existência dos processos reencarnatórios sucessivos durante éons de tempo, e não propriamente uma corruptela das leis da termodinâmica.

 

“E estando um já de nós mais perto assim,

se lançou uma serpe que o furou

onde o pescoço aos ombros tem o fim.

Nem o nem i mais cedo se traçou

que aceso ardeu e logo em cinzas todo

caindo lá, por força se tornou;

e destruído em terra deste modo,

o pó logo em seguida mais se espessa

e volta a sua forma nesse engodo”

 

Aliás, em todas os nove círculos do Inferno, as almas entram em ciclos eternos (ou quase eternos?) de sujeição de penas apropriadas às suas faltas terrenas. Outra forma segura de exercer a entropia noutras dimensões.

 

Poderíamos supor que Dante Alighieri teria conhecimentos avançados para a sua época, mantidos secretos pela sua codificação declarada ao longo de doutrinas milenárias expressas na Cabala hebraica ou por filosofias orientalistas veiculadas pelos textos védicos e dos Upanishads. A terza rima inventada pelo poeta, transporta em si própria um modelo de encadeamento fluido de narrativas recheadas de simbolismos teológicos, místicos e mitológicos, por vezes fazendo uso da numerologia (entre muitos outros, o caso relevante do “um e quinhentos dez e cinco”, Purgatório, Canto XXXIII, 43) reforçando sempre o ponto de vista da estrutura sónica rítmica das tercinas.

 

As relações de proximidade estabelecidas por nós entre o pensamento teológico e místico dos versos da Divina Comédia com tais doutrinas e filosofias, surgiu naturalmente e tem sido explorado por muitos que se tem debruçado sobre a interpretação dos conteúdos desta obra. Já forçoso será dizer que as relações com a Cosmologia, Astrofísica e Física modernas, construíram-se e abeiraram-se do espírito também pelas suas similaridades dos seus contextos de natureza científica por um lado e a estrutura simbólica, muitas vezes obscura, por outro, mas que se apoiam por transmutação analógica. Essencialmente trespassam toda a obra poética, sob a forma de uma portentosa simulação, o que parecem ser noções de entropia, espaço-tempo curvo, gravidade, dimensões características de campos de força quânticos, cosmologia e física.

Com Dante partilhamos hoje aquilo que nos tempos actuais a simulação é na ciência, técnica corrente utilizada por meios computacionais de alta tecnologia, que permitem criar visões passadas e futuristas.

Sobretudo a Divina Comédia é uma visão para o futuro.

 

Ponta Delgada, 21/12/2021


Bibliografia

A DIVINA COMÉDIA em quadradinhos (livro electrónico) de Dante Alighieri; adaptação de Piero e GiuseppoBagnariol; tradução de Jorge Wanderlay, Henriqueta Lisboa, Haroldo de Campos. S. Paulo, Editora Peirópolis, 2015.

A DIVINA COMÉDIA, Dante Alighieri, Tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal Editores, 2011.

A DOUTRINA SECRETA, Antropogénese, Volume III, Helena P. Blavatsky, Editora Pensamento, 2019.

A ORDEM DO TEMPO, Carlo Rovelli, Penguin Random House, Grupo Editorial Unipessoal, Lda, 2020. 

QED – A estranha teoria da luz e da matéria, Richard Feynman, Edição revista e aumentada, Editora GRADIVA, 2021.

THE BOOK OF THE TWENTY-FOUR PHILOSOPHERS, Liber XXIV philosophorum, edition minima, The Matheson Trust For the Study of Comparative Religion.


Artigo publicado na Revista Fénix da Nova Acrópole

https://www.revistafenix.pt/a-divina-comedia-700-anos-depois/


terça-feira, 23 de novembro de 2021

137 e a Constituição Septenária

(Dedicado à Isabel e à Alice nascidas respectivamente a 22 e a 23 de Novembro de 2021) 

por João Gabriel fonseca Porto

Muitos cientistas, desde o início do século passado, dedicaram praticamente toda a sua vida profissional a medir uma constante universal, considerada a mais importante de todas, com a maior precisão possível. O grande Richard Feynman (1918-1988), na sua obra QED: Strange Theory of Light and Matter (1), dizia em 1985, referindo-se à Constante da Estrutura Fina, conhecida pela primeira letra do alfabeto grego alfa (α) e definida pela fracção 1/137: “Tem sido desde sempre um mistério desde que foi descoberta há mais de 50 anos, e todos os melhores físicos teóricos deverão colocar este número nos escaparates dos seus gabinetes revelando a sua preocupação e ignorância com a sua existência. De imediato deverá gostar de saber a sua origem: estará ligada a pi (π) ou talvez à base dos logaritmos naturais? Ninguém sabe.” Ou ainda: “One of the greatest damn mysteries of physics: a magic number that comes to us with no understanding by man” (2).

Richard Feynmam

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Richard_feynman_-_fermilab1.jpg

Esta constante α relaciona três domínios essenciais da Física: o Electromagnetismo sob o valor da carga do electrão (e), a Relatividade Geral expressa pela velocidade da luz (c) e a Mecânica Quântica expressa pela Constante de Planck (h). Este caso particular levou a que surgissem esperanças de encontrar definitivamente um modelo GUT - Grand Unified Theory com a integração desta constante.

Para calcular alfa é necessário elevar ao quadrado o valor da carga de um electrão, dividir pela velocidade da luz no vácuo multiplicada pela constante de Planck e multiplicar o resultado final por 2π. As unidades de referência deste cálculo são dadas em coulombs, metros por segundo e joules por segundo que se cancelam mutuamente deixando-nos uma fracção de unidades adimensionais seja qual for o sistema de unidades considerado (SI – Sistema Internacional ou CGS – Sistema Dimensional centímetro, grama, segundo) ou seja não depende do sistema de unidades de medida.

Como as unidades de medida c, e, e h se anulam mutuamente, o valor resultante é simplesmente 137.03599913. Por razões históricas é sempre usado o seu inverso 2πe2/hc ou seja 1/137.03599913, de que resulta mais precisamente o valor 7,297352568 x 10-23, designado por número puro que não utiliza nem precisa de unidades de medida. Na equação do Sistema Internacional (SI) ε0 é a permissividade do vácuo ou anteriormente designado éter igual 1/4πK sendo K a constante electrostática no vácuo expressa em unidades Coulombs.

Para alguns astrobiologistas seria o número perfeito a transmitir, na busca de civilizações alienígenas, pois seria do seu conhecimento desde que possuíssem conhecimentos equiparados ao nosso estado de desenvolvimento científico.

A designação de Constante de Estrutura Finaα, também conhecida pela Constante Mágica, advém da interacção dos electrões ou protões (partículas com carga) com os campos electromagnéticos ao determinar a velocidade com que um átomo ao ser excitado emite fotões ou partículas de luz em determinadas frequências do espectro luminoso a designada “estrutura fina”. Em 1955 a descoberta da estrutura fina do átomo de hidrogénio atribuiu o Nobel de Física a Willis Eugene Lamb. Torna-se assim evidente que 1/137 ao caracterizar a força electromagnética aparece em tudo o que se refere aos fenómenos materiais, desde átomos, moléculas, até às partículas com carga, afectando todos os sectores do desenvolvimento científico, desde a Física, á Química até á Biologia. As reacções químicas só são possíveis porque o valor 1/137 ou 7,297352568x10-23 é tão diminuto que permite que a força electromagnética deixe os electrões “saltarem” entre as orbitais dos elementos, controlando deste modo a força das ligações químicas, mas forte suficiente para que as estrelas possam sintetizar os elementos mais pesados da Tabela Periódica, como o carbono, que está na base da Vida.

Toda a realidade imagética, é transmitida de forma codificada, de acordo com as condições definidas por esta constante. A emissão ou absorção de luz em determinadas frequências devido ao “salto” dos electrões em diferentes níveis no átomo, criam as linhas espectrais onde as escuras são a absorção e as claras a emissão, como se fosse uma estrutura fina, tipo código de barras. As propriedades de toda a matéria e energia resultam de uma relação profunda entre nós e o que nos é transmitido. 

“Um objecto é cognoscível ou não pela mente, se ela assumir a “cor” do objecto”, ou em sanscrito “Taduparãgãpeksitvãccisya vastu jñãtãjñãtam” – Pãtañjali 4.17.

A realidade não é o que parece e por detrás desta constatação está a sequência numérica 1, 3, 7, geradora de um valor definitivamente “afinado” para o surgimento da Vida. A molécula da clorofila C55H72O5N4Mg é formada por 137 átomos e nela desenvolvem-se processos quânticos ligados a fenómenos de “entanglement” ou a denominada “acção á distância”, só agora descobertos, e que estão na base da existência de toda a biomassa e do oxigénio que respiramos. O astrónomo e matemático Fred Hoyle, afirmava que a clorofila era muito parecida com uma molécula interestelar, dado a suas propriedades na absorção da luz semelhantes com a poeira interestelar (3).

Figura 1 - Espectro electromagnético

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Electromagnetic_spectrum-pt_br.svg

“If alpha [the fine-structure constant] were bigger than it really is, we should not be able to distinguish matter from ether [the vacuum, nothingness], and our task to disentangle the natural laws would be hopelessly difficult. The fact however that alpha has just its value 1/137 is certainly no chance but itself a law of nature. It is clear that the explanation of this number must be the central problem of natural philosophy.  Max Born (4). Partilhamos inteiramente da sua opinião sendo que os sublinhados são nossos.

Quando Richard Feynman aviltava intuitivamente uma hipotética relação entre π e alfa (α), não supunha que o valor dos sete primeiros elementos que constituem o valor de π = 3.141592, elevados ao quadrado, 3² + 1² + 4² + 1² + 5² + 9² + 2², resultariam em 137.

Alfa surge de outras relações com π, tais como:

α ≈ 1/cos(π/137)/137  e  α ≈ 4π³ + π² + π, respectivamente com 99.9999% e 99.999% de exactidão relativa ao seu valor.

Que usando π e 137 num triângulo pitagórico obteríamos 137,03601, ou seja um valor aproximado do valor real em cerca de 99,9999%. Sendo um número primo, o 33º, também é um primo pitagórico.

Um primo pitagórico é um número primo da forma 4n + 1 tais como 5, 13, 17, 29, 37, 41, 53, 61, 73, 89, 97, etc. Os primos pitagóricos são exactamente os números primos ímpares que são a soma de dois quadrados ou seja o conjunto dos números primos que podem constituir o comprimento da hipotenusa de um triângulo rectângulo de lados inteiros, por exemplo 29 = 25 + 4. De facto, sendo a única excepção o número 2 (2=12+12), eles são os únicos primos que podem ser representados como a soma de dois quadrados.

Figura 2 – Triângulo Pitagórico e o número 137

Outras relações são estabelecidas pela Gematria ou "numerologia judaica", onde a cada letra do alfabeto hebraico é atribuído um valor numérico, transformando uma palavra no somatório dos valores das letras que a compõem. Kabbalah – em hebraico קַבָּלָה, equivale a 137, cujos números somados 1+3+7 = 11, um número com significado muito poderoso no Zohar, os cinco livros de Moisés sobre a Torah acerca da revelação de Deus, incluindo a Cosmogonia hebraica, que teria sido dada ao rabbi Shimeon Bar Yohai.

Aqui surge Sephiroth (em hebraico: סְפִירוֹת), a “Árvore da Vida”, onde se inscrevem as potências ou agentes construtores, na filosofia Védica referidos no sânscrito como Dhyan-chohans, ou a concepção neoplatónica de Deus, do Uno em Plotino ou ainda da “Alma do Mundo” – Anima mundi, pelos quais Ein Sof (Deus) manifestou a Sua vontade na construção do Universo.

A Árvore da Vida, representada por 11 estádios evolutivos, os 10 Sephiroth mais Ein Sof, a Deidade, tanto pode ser usada para explicar a criação do Universo, a Cosmogénese (visão macrocósmica), como para hierarquizar o processo evolutivo do homem, na sua ascensão a planos superiores de consciência (visão microcósmica). De cima para baixo (o macrocosmo) é composta, de acordo com a mística hebraica, por Kether – Coroa, Chokmah – Sabedoria, Binah – Entendimento, Chesed – Misericórdia, Geburah – Julgamento, Tipareth – Beleza, Netzach – Vitória, Hod – Esplendor, Yesod – Fundamento, Mal'hut – Reino e Daath – Conhecimento.

Figura 3 – Esquema dos 4 planos da Árvore da Vida


Figura 4 - A estrutura das 10 dimensões dos Sephiroth, a sua relação com a dimensão infinita e o número 137.

A Árvore da Vida é dividida em quatro diferentes planos de dimensões energéticas ou de campos quânticos progressivamente mais densos:

1. Atziluth, dimensão das Emanações ou do Pensamento através das quais a Deidade age directamente pelas sephiroth Kether, Chokmah e Binah;

2. Beriah, ou Briah, dimensão das Criações ou da Alma, uma dimensão mais densa onde a acção é transmitida pelos sephiroth Chesed, Geburah e Tiphareth;

3. Yetzirah, dimensão das Formações ou da Corporeidade, onde actuam os sephiroth Netzach, Hod e Yesod, e

4. Asiyah, ou Assiah, dimensão material das Acções onde persiste apenas a sephirah Malkuth.

 

Na filosofia dos Vedas e na Teosofia, de acordo com Helena Blavatsky, a Constituição Septenária vai reflectir esta estrutura com o desdobramento do número 137, onde:

1. O número 1 representa a Deidade referida como o Infinito, o Uno, Brahman, a Mente Cósmica em H. P. Blavatsky;

2. O número 3 como ternário formado por Atma, Budhi e Manas;

3. O número 7 como o somatório das duas estruturas, ternária e quaternária, esta última formada por Kama Rupa, Prana, Linga Sharira e Sthula Sharira.

A tríade superior liga-se ao quaternário inferior pelo Anthakarana.

Figura 5 - Constituição Septenária de acordo com a Cabala Caldaica e a tradição védica

segundo H. P. Blavatsky em “Doutrina Secreta – Cosmogénese”, Volume I


Figura 6 – A Constituição Septenária na óptica dos campos quânticos.

Em nossa opinião o gráfico da Figura 5, sobretudo no que diz respeito á tradição ocultista caldaica, representada do lado direito, está consentâneo com a nossa explanação que, de forma muito sucinta, pode ser sintetizada em duas estruturas principais, graficamente representadas na Figura 6, da seguinte forma:

O Quaternário, onde teremos da esquerda para a direita e de baixo para cima:

4º Plano – Matéria fermiónica (Quarks e Leptões)

3º Plano – Campo Electromagnético – dois globos: Fotões e Neutrinos (de Majorana ou os supostos neutrinos estéreis), os elementos mais abundantes no Universo

2º Plano – Campo Quântico da Força Fraca – dois globos: bosões W e Z

(O 2º e o 3º planos partilham atributos pois formam o campo unificado da Força Electrofraca)

1º Plano – Campo Quântico da Força Forte – 2 globos: Gluões com dois estados de polarização. 

O grande círculo encerra todos os Bosões.

O Ternário:

3º Plano – Campo Quântico covariante Holo-Morfogenético, Akasha

2º Plano – Campo Quântico covariante Granular do Espaço

1º Plano – Campo Quântico covariante da Informação/Consciência

A ligação entre as duas estruturas, o Ternário e o Quaternário, representada nos Vedas pelo Anthakarana é referida como o Campo Quântico do Bosão de Higgs. 

Será esta a resposta que os três grandes físicos, Max Born (1882 – 1970), Richard Feynmam (1918-1988) e Wolfgang Pauli (1900 – 1958) procuravam obsessivamente durante todas as suas carreiras, quando este último disse numa das suas conferências: “When I die my first question to the Devil will be: What is the meaning of the fine structure constant?”.

A ligação misteriosa estabelecida pelo número 137 entre a Ciência e a tradição ocultista oriental com milhares de anos transmitida nos Vedas e depois em todas as principais cosmogonias, a confirmar-se, faz uma série de previsões que poderão futuramente ser testadas, a saber:

1. A existência dos neutrinos estéreis e de Majorana;

2. A existência de outros campos quânticos covariantes atribuídos pela natureza de uma gravitação quântica ao espaço-tempo como “espuma de spins”, o espaço-tempo granular, quantizável;

3. A existência de uma dimensão de natureza quântica que define o actualmente designado campo antrópico holo-mórfico ou morfogenético, transversal a toda a natureza, tipologicamente arquétipo platónico com propriedades de ressonância e transferência de informação, uma espécie de Akasha védico.

4. A informação como campo quântico que permeia todo o Universo como consciência. Diz Rovelli (5) “São muitos os cientistas que suspeitam que o conceito de “informação” poderá ser fundamental para realizar novos passos em frente na física.” Como diria John Wheller, o pai da gravidade quântica: “it from bit” ou “tudo é informação”.

Na realidade estes 4 pontos constituem actualmente fontes de pesquisa, desde o experimento MiniBooNE do Fermilab nos EUA, à computação quântica e experiências de “entanglement”, como aquela realizada pelo satélite chinês Micius, até à detecção dos “Pontos de Hawking” que confirmam a existência de universos passados, indo de encontro à teoria cíclica cosmológica de Roger Penrose e, mais uma vez corresponder à filosofia védica dos ciclos Manvatáricos, ou ainda à teoria granular do espaço-tempo e da Gravidade Quântica em Loop (GQL) de Ashtekar, Smolin e Carlo Rovelli, em que o espaço-tempo obedece às dimensões mínimas relativas à escala de Planck (10-35 metros ou 10-43 segundos) resolvendo de uma vez por todas as questões ligadas às incongruências da existência de singularidades e da abusiva renormalização matemática e unindo finalmente os fundamentos da Relatividade e da Física Quântica.

137, o número que expressa o fenómeno de absorção e emissão de fotões pelas partículas com carga, já imanente naquela dimensão subatómica e da geração dos campos quânticos electromagnético, nuclear forte e nuclear fraco, mas que a um nível de organização de triliões de átomos, onde o todo é superior à soma das partes, como é a matéria viva, produto da evolução de éons de tempo, vai consubstanciar a existência de uma matriz de “luz” indestrutível e permanente, criando numa escala microcósmica a informação sob a forma conhecida de consciência, obra de princípios construtores, memórias organizadas em arquétipos do macrocosmo, cuja Cosmogénese se alicerça em sete axiomas herméticos, na base dos quais reside o conceito de “Construtor” e a sua capacidade de replicação ou cópia, recriando processos contínuos de milhares de milhões de transformações sobre substratos e introduzindo com esse processo novos atributos que constroem e ampliam a Informação tida como Consciência.

De um relance, são eles:

1. O que está em baixo é como o que está em cima – o princípio da organização fractal da natureza também assente no número de ouro Φ = 6,1803 ou Sequência de Fibonacci ou ainda no Espaço anti-DeSitter ou no Espaço Conformal de Roger Penrose;

2. O todo é mental – a equivalência energia-massa-informação no Princípio de Landauer. A realidade é o resultado do colapso de onda ψ (Psi), originada na interferência permanente dos campos quânticos covariantes “de que é feito mundo” (6);

3. Tudo é vibração - Os campos quânticos das forças nucleares forte e fraca, o electromagnético, o de Higgs e aqueles teorizados pela Ressonância Morfogenética de Rupert Sheldrake e pela estrutura granular do Espaço da Teoria da Gravidade Quântica en Loop de Lee Smolin e de Carlo Rovelii.

“ Os campos quânticos covariantes representam a melhor descrição que temos hoje do apeiron, a substância primordial que forma o todo, colocada em hipótese pelo primeiro cientista e primeiro filósofo, Anaximandro.” – Carlo Rovelli (7).

4. Tudo tem o seu oposto - matéria e anti-matéria, carga positiva e carga negativa, atracão e repulsão magnética;

5. Tudo é ritmo - tudo se desenvolve em torno da concepção hinduísta de Rajas, Sattva e Tamas, os ciclos da natureza, desde os eclipses, aos fenómenos económicos até à fisiologia.

6. Toda a causa tem seu efeito - associada à ideia de ciência através de Galileu (Lei do Movimento dos Corpos) e Newton (Lei da Causalidade Newtoniana), mas com antecedências em Aristóteles (distinguia na sua Metafísica quatro causas: formal, material, eficiente e final), deram forma matemática a este princípio;

7. O Género está em tudo - os princípios Masculino e Feminino, a combinação e o equilíbrio dos opostos, da polaridade.

 

Inspirando-nos na filosofia ancestral dos Vedas, dos Upanishads, do Bhagavad Gita, a “criação” do Universo, resulta da complementaridade de Purusha, o campo quântico da consciência/informação (de acordo com o Princípio de Landauer) do qual emana a “Luz” (shakti) com o Campo Granular do Espaço (ver Teoria da Gravidade Quântica em Loop), interferindo com Prakriti (matéria inercial ou o Campo de Higgs), gerando Fohat, o movimento (Magnetismo? Gravidade?) e a forma (Mahat ou o Campo quântico Antrópico Holo-Mórfico) que mantém a harmonia e a ordem no Universo, diferenciando-se logo após nos três estados ou modos, os Trigunas: Sattva, Rajas e Tamas (Fermiões e Bosões da Força Nuclear Forte), a seta entrópica do espaço-tempo, onde a luz cai na matéria.

Vivemos numa época espantosa de viragem radical do conhecimento e da construção de novos paradigmas onde se perde cada vez mais a velha distinção entre ciência e filosofia do século XIX.

 

Notas e bibliografia

(1) R. P. Feynman, QED: The Strange Theory of Light and Matter, página 129, Princeton, Newjersey, Princeton University Press.

(2) Idem

(3) Hoyle, F., Wickramasinghe, C. On the nature of interstellar grains. Astrophys Space Sci 66, 77–90 (1979). https://doi.org/10.1007/BF00648361.

https://link.springer.com/article/10.1007/BF00648361.

(4) THE MYSTERIOUS NUMBER 137. Lecture delivered to the South Indian Science Association, Bangalore, the 9th of November 1935, by Max BORN. Received November 12, 1935. (Communicated by Sir C. V. Raman, Kt., F.R.S., N.I.).

(5) Carlo Rovelli, A Realidade não é o que parece – a natureza alucinante do universo, Contraponto, 1ª Edição Outubro 2019.

(6) Idem.

(7) Idem.

Helena P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Volume IV, Editora Pensamento, 2019.

Richard P.  Feynman, QED, A estranha teoria da luz e da matéria, Edição Gradiva, 6ª Edição Outubro 2021.

Pãtañjali, Yoga Sutra (Aforismos de Yoga), Coleção omnia, Edição CLUC 2020.


Texto publicado em

 https://www.matematicaparafilosofos.pt/137-e-a-constituicao-septenaria/



Quando o Vazio deixa de ser vazio

 https://docs.google.com/document/d/1YKbmzpIFSm1zD9FQ5VyqnlQoDDsUiBD2mR1u1PbSfWA/edit?usp=sharing https://docs.google.com/document/d/12MgCad...