“Aquilo que é, apenas é pura consciência,
que apesar de pura, vê através da
mente
e é identificada pelo ego como sendo
apenas a mente.”
Patanjali, 2.20
O
nosso modelo topológico da Teia Informacional Fundamental – TIF, assente nos
tripletos dos operadores de spins associados aos acoplamentos dos estados
temporais formam uma célula topológica mínima
de tempo, como vimos anteriormente um triângulo dinâmico em rotação. Estes
triângulos, conectando-se em tetraedros, formariam uma malha de quantização do
tempo e do espaço, servindo como se fossem “átomos do espaço-tempo”. Seriam os quantas do espaço-tempo!
A rede cósmica tridimensional
surgiria da multiplicação dessas células numa rede tridimensional formando um
sistema dinâmico que evolui conforme a reorganização permanente dos estados
quânticos locais. O Universo seria, então, uma “teia giratória” de ressonâncias
que se auto-organiza a partir de condições iniciais quânticas. O que pressupõe
que o Universo possa ter também um sentido rotacional preferencial.
A fase
inflacionária inicial do Universo poderia ser interpretada como uma aceleração
de ressonância ou uma transição de fase da rede de tripletos, onde os
acoplamentos de spins mudam
abruptamente, gerando expansão geométrica por coerência angular não local,
conformando a explicação para as flutuações quânticas do vácuo, que segundo
alguns cosmologistas, estariam na origem do Universo.
Por sua vez a gravidade mais não seria que um defeito topológico. As ondulações ou imperfeições na rede de tripletos gerariam curvaturas, interpretadas como gravidade, explicando abordagens como as de Verlinde ou da gravidade quântica em laços. O tempo, encarado do ponto de vista cósmico, apresentar-se-ia como uma frequência de ressonância global. Emergiria da frequência dominante da rede, gerada pela média dos “giros” dos tripletos. As flutuações locais naqueles “giros” causariam dilatação ou contracção temporal, correspondendo às variações registadas do tempo fenoménico relativístico.
Com a Teoria das Cordas, o seu conceito de corda
heterótica, atribui dois tipos vibracionais, uma no sentido dos ponteiros do
relógio e a outra no sentido contrário, criando por consequência duas dimensões
diferentes como tentativa de explicar todas as simetrias encontradas na
Relatividade e na Teoria Quântica. De todas as teorias do tipo Kaluza-Klein
apresentadas no passado, a da corda heterótica é a que apresentava maior
potencial para unificar as leis da natureza numa única teoria GUT – Grand
Unified Theory.
A corda heterótica é um tipo especial de
corda fechada proposta em meados
da década de 1980, pelo grupo constituído por David Gross, Jeffrey Harvey, Emil
Martinec e Ryan Rohm, conhecido por quarteto de cordas de Princeton.
Genericamente é construída de maneira assimétrica
por 36 dimensões como mostra o quadro seguinte:
Orientação horária
da corda |
Tipo de teoria |
Número de dimensões |
Esquerda (left-moving)
-sentido anti horário |
Corda bosónica |
26 dimensões |
Direita (right-moving)
– sentido horário |
Supercorda (supersimétrica, tipo II) |
10 dimensões |
Na corda heterótica, os dois sentidos de
propagação vibracional ao longo da corda (esquerda e direita) são tratados de
maneira diferente. Enquanto o lado
esquerdo é bosónico e vive em 26 dimensões, das quais 16 dessas dimensões
extras são compactificadas num toro especial, conhecido como toro de Narain (1), originando as simetrias de calibre
SO(32) ou 𝐸(8) X 𝐸(8),
o lado direito é supersimétrico,
vive nas 10 dimensões comuns da supercorda, onde há uma correspondência entre
Bosões e Fermiões, garantindo estabilidade quântica.
Como resultado, e sem entrarmos em pormenores
teóricos, a junção das duas partes origina uma teoria que é consistente ou
coerente, conhecida como corda heterótica, cuja designação deriva do grego heterosis que significa vigor híbrido, por apresentar dois tipos de
vibrações que são tratadas de dois modos diferentes ao desenvolverem-se uma no
sentido dos ponteiros do relógio e a outra no sentido contrário. O seu carácter
único especial de corda fechada deve-se a que a “mão esquerda” (sentido
anti-horário) vibra como uma corda bosónica vivendo num espaço de 26 dimensões,
enquanto a “mão direita” (sentido horário), super-simétrica (supercorda tipo
II),) vibra como uma corda com 10 dimensões.
Na simetria E(8) X E(8) todas as
vibrações da corda herdam a simetria do espaço de 16 dimensões compactadas.
Assim, o espaço das 26 dimensões das vibrações da corda heterótica no sentido
contrário ao dos ponteiros do relógio, explicariam todas as simetrias
encontradas na Relatividade einsteiniana e na Teoria Quântica. Ou seja, aquela assimetria
(sentido horário e anti-horário) seria compatível com a presença de duas
estruturas internas distintas, com uma junção coerente que respeitaria as simetrias
locais e globais. Deste modo, as simetrias constatadas ao nível subatómico
seriam apenas vestígios de um espaço multidimensional, ao mesmo tempo que
existiria compatibilidade com o aparecimento natural de simetrias de calibre
E(8) X E(8) ou SO(32).
Ao
estudar as características das cordas heteróticas fomos surpreendidos por
eventuais pontos comuns quando tentámos estabelecer uma comparação conceitual e
estrutural entre o nosso modelo topológico do tríplice operador de spins com os seus estados temporais
acoplados inerentes ao modelo TIF, e a corda heterótica, especialmente quando sob
a óptica das simetrias fundamentais da física.
Explicando melhor: o modelo topológico
do tripleto de spins e estados temporais acoplados é caracterizado por três
operadores de spins, que podem ser
associados aos graus de liberdade internos da teia informacional quântica, onde
os estados temporais acoplados (a emergência do fluxo passado, presente,
futuro) podem ser entendidos como modos de ressonância ou projecções da Consciência
Informacional na direccionalidade do fluxo temporal. Os spins formam um tripleto acoplado topologicamente, criando uma
estrutura cíclica ou aquilo que designámos metaforicamente por “nanomotor trifásico”
quântico, com direccionalidade. Podíamos comparar aquela
metáfora fisicalista ao conceito teosófico designado por Atma, Budhi, Manas, a
trilogia védica também de aspecto unificado.
Por outro lado, a Teia
Informacional quântica, globalmente fundamentada nas redes daqueles microestados
de spins, vai posteriormente via
acoplamento ao campo de Higgs, gerar simultaneamente a carga (momento angular
magnético) e a massa/energia nos Fermiões e Bosões (as partículas do Modelo
Padrão), criando deste modo um cenário natural para uma espécie de filtro
quântico que favorece a matéria sobre a antimatéria. Verificando-se um “giro
preferencial” na malha, isso implica uma possível violação de paridade (P), que quando
combinada com as interacções do Higgs na transição de fase electrofraca cria possíveis condições de violação de CP, essencial para gerar uma diferença entre matéria e
antimatéria. Significa que o nosso modelo, torna-se único, ao incorporar uma
explicação para a predominância constatada da existência da matéria sobre a
antimatéria: a razão da nossa existência. (ver o nosso texto O “MOTOR PRIMEIRO”
E A PREDOMINANCIA DA MATÉRIA (ORDEM?) SOBRE A ANTIMATÉRIA”.
O nosso tripleto de spins refere-se a
um estado com spins entrelaçados, geralmente com um total spin inteiro,
característica bosónica, e que aparece normalmente nas teorias quânticas com
múltiplos graus de liberdade internos originando uma espécie de arranjos
dinâmicos que derivam de uma geometrização da informação quântica, compostas na
sua essência por fases topológicas entrelaçadas (o volume espaço-temporal)!
Com a tríade de spins, se houver
assimetria na orientação espacial por helicidade, pela existência de uma
assimetria derivada de uma orientação anti-horária e de outra horária na própria
estrutura de acoplamento ou mesmo nas fases entre aqueles microestados, pode
levar a uma violação efectiva temporal (T) e consequentemente à violação de CP
por inerência da aplicação do teorema CPT da QFT (2). Uma “anomalia” quiral ou CP-violação induzida pela topologia.
Esta poderá ser uma possível origem da CP-violação
com os tripletos de spin. Como os spins estão entrelaçados não-localmente e
sujeitos a condições do contorno das fases quânticas, como são as redes ou no
nosso caso a TIF, um modelo de “vácuo” com tríades de spin, a assimetria na
propagação da informação pode induzir a comportamentos irreversíveis, ou
não-invariantes sob CP, manifestando a “seta do tempo” da existência
fenoménica. Internamente será a quebra dinâmica de simetria por uma espécie de “condensação”que
conduz à assimetria.
Porém, dentro do quadro da QFT padrão, a combinação das três, C, P e T juntas, nunca é violada, mesmo que a natureza quebre separadamente uma delas, como acontece com C no decaimento nuclear fraco, ou com P na violação de paridade, ou ainda em T como em certas interacções fracas de partículas instáveis. A importância dessa não-violação reflecte-se na estabilidade da estrutura do Universo. Este assunto será discutido por nós em trabalhos posteriores (ver "Uma Física pós-CPT no horizonte").
A ligação com a escala cosmológica
vai surgir “naturalmente” com a violação de CP emergente uma vez que terá
implicações na Bariogénese estando na origem e explicando a assimetria
matéria-antimatéria, dado que a geometria do espaço-tempo na sua fase inicial
desenvolve-se com a expansão de tripletos de spin com orientações
preferenciais.
Muitos físicos acreditam que deverão
existir mais fontes de CP-violação, porque a CP-violação do CKM é muito
pequena. O nosso modelo TIF enquadra-se neste problema ultrapassando-o pela
raiz, dando-lhe a devida importância. A fase de Cabibbo-Kobayashi-Maskawa (CKM), é a chave para
entender a violação de CP no modelo padrão da física de partículas e traduz-se numa matriz que descreve
como os Quarks de diferentes "sabores" (tipos: up, down, strange,
charm, bottom, top) se misturam quando interagem através da força fraca que troca
um quark por outro, mas não necessariamente da mesma "família".
Acredita-se que sem a fase CKM,
o Universo poderia não ter mais matéria que antimatéria e nós não existiríamos (3).
Na Teoria das Cordas, justamente pela existência também de uma assimetria
dada pelo entrelaçamento de dois tipos vibracionais distintos na corda heterótica,
um com 26 dimensões bosónicas, outro com 10 dimensões supersimétricas, remeteu-nos
fortemente ao nosso modelo que espelha a dualidade entre Matéria (tripleto de spins via Higgs) e Informação
(Consciência), como duas faces entrelaçadas da mesma realidade única.
Agora podemos construir um quadro de analogias onde sugerimos que o
tripleto de spins actua como se fosse
similar à dupla vibração da corda heterótica. A estrutura cíclica do tripleto e
da consequente emergência do tempo (sentido anti-horário) transformado agora num
reflexo temporal dessa dualidade vibracional (o sentido horário) tal como na
corda heterótica.
Elemento |
Corda Heterótica |
Tripleto Topológico |
Dualidade interna |
Vibrações esquerda/direita |
Spins acoplados geram
helicidade e a “seta do tempo” fenoménica |
Simetrias globais |
E8×E8 / SO(32) |
Simetrias emergentes de entrelaçamentos topológicos |
Tempo e causalidade |
Dimensões compactificadas podem dar origem à “seta do tempo” |
Estados temporais (passado-presente-futuro) integrados no fluxo de spins, originam “seta do tempo” |
Coerência |
Anomalia cancelada pela combinação das duas cordas |
Coerência mantida pela rede de microestados de spins e acoplamento informacional com correcção de erros
quânticos |
Manifestação da realidade |
Vibrações determinam partículas, forças e espaço-tempo |
Colapso de onda manifesta realidade fenoménica e as suas propriedades |
Baseados no quadro podemos criar, sob a simbologia
matemática, uma equação que mostra a contribuição de dois fluxos temporais
(horário e anti-horário) sobre os operadores de spin, como duas dimensões vibracionais que de forma similar co-criam
o tempo presente nos tripletos de spins
da TIF, tal como a corda heterótica conjuga dois modos distintos de vibração
para formar o Universo coerente.
Assim, dando maior
substância ao nosso modelo TIF, podemos criar uma equação simbólica que
transpõe a propriedade considerada essencial e inultrapassável da existência da
corda heterótica (a direccionalidade temporal, que afinal também é própria do
tripleto de spins) para o nosso
modelo, mostrando que conceptualmente até partilham este aspecto fundamental.
Se definirmos os
seguintes termos:
Si = componentes
do tripleto de spin (com orientação temporal);
Ψ(t) = estado da
TIF em função do tempo (ou o fluxo de
Consciência);
α,β = direcções
helicoidais (análogas às vibrações esquerda/direita de uma corda heterótica),
teremos então o fluxo informacional da TIF dado por:
O mesmo é dizer que todas as simetrias
encontradas no Universo das baixas energias, e que são observadas nos elementos
químicos da Tabela Periódica, emergem na teoria das cordas, do enrolamento de
um espaço multidimensional da corda heterótica, enquanto no modelo da TIF, emergem
de uma única 5ª dimensão unificada na geometria dos tripletos de spins. Este modelo resolve a emergência
da Consciência como teia informacional do espaço-tempo, da seta do tempo
fenoménica, da entropia como 2ª lei da termodinâmica, do evento tido como colapso
da função de onda, das propriedades das partículas como a massa e a carga. À
escala cosmológica contextualiza a gravidade e une a Relatividade à Teoria Quântica,
de uma forma simples e bela. Interpreta correctamente as cosmogonias
históricas, nomeadamente as védicas, ou modernamente o fenómeno atribuído à
Matéria Escura, às características consideradas fractais e holográficas do
Universo. Lança âncoras explicativas da própria Existência e ao Livre-Arbítrio (causalidade/retrocausalidade),
obviando aos conceitos tradicionais da dualidade e do reducionismo fisicalista.
Outra constatação interessante prende-se ao facto
de a Natureza também evidenciar um sentido preferencial anti-horário idêntico
àquele do fluxo do “movimento” dos spins
nos tripletos, que poderíamos, neste caso, considerar a sua origem. É conhecido
que todos os aminoácidos usados pelos seres vivos apresentam quiralidade
levógira (L). Exceptuam-se os açúcares como a ribose, a desoxiribose e a
glicose com quiralidade dextrógira (D) que parecem suportar (caso da ribose e
da desoxiribose) a quiralidade dextrógira do B-ADN e do ARN. Dão a indicação de
que a vida escolheu um lado preferencial. A homoquiralidade biológica, designação
pela qual é conhecido este fenómeno, continua a ser um dos maiores mistérios
ligados à origem da vida. Há hipóteses que sugerem que a presença de interacções
com campos físicos assimétricos, tais como radiação circularmente polarizada ou
o decaimento beta da interacção fraca que viola a simetria de paridade (P), pudessem ter influenciado aquela
preferência.
Noutra escala, recentes estudos na área da
Cosmologia, baseados em dados observacionais, sugerem padrões comuns e uma tendência estatística preferencial por rotação
anti-horária nas galáxias.
A nossa interpretação, obviamente de carácter
filosófico, assume que se a realidade é estruturada por uma Teia Informacional
Fundamental - TIF, então a quebra de simetria quiral pode reflectir uma
“intenção” topológica profunda da rede, assente numa forma de direccionalidade
informacional. A “preferência anti-horária/horária” poderia representar uma
memória orientada, uma “seta do tempo” codificada geometricamente, por exemplo,
associada ao entrelaçamento dos operadores do tripleto de spins. Uma herança cosmológica desde a origem do espaço-tempo que
nos pode levar a viagens conceptuais por outras cosmogonias.
O giro anti-horário, nas tradições
espirituais, representa o retorno ao centro, à Fonte, ao Eixo. Nas danças
tântricas, como a de Śiva Natarāja, o giro destruidor é anti-horário,
simbolizando a dissolução da ilusão.
No Śvetāśvatara Upanishad (cap. 5,
verso 1) refere que "Ekākī na ramate" ou “O Uno não se regozija
sozinho.”, um verso que antecede uma reflexão sobre a manifestação do
movimento, da polaridade e da dança cósmica a partir da unidade. Noutra
sequência (5.2 - 5.3), fala-se do Purusha (o espírito cósmico) que, ao projectar-se
no tempo e no espaço, move a “Roda do Dharma”:
"A Roda gira através da ilusão, mas quem vê seu eixo imóvel, transcende o
giro."
Esta ideia associa-se ao caminho de
retorno que vai “contra o giro”, como quem sobe a corrente de entropia ou do
caos, a volta ao eixo silencioso da origem, o anti-horário simbólico. Essa
"inversão" do movimento comum é interpretada em muitas tradições
(tântricas, védicas e yogues) como o caminho espiritual, que rompe o Samsara, a
roda do nascimento e morte.
O evangelho apócrifo Pistis Sophia
contém trechos que transmitem o simbolismo do movimento inverso, da ascensão contra
o fluxo comum do cosmos, muito próximo à ideia do “giro anti-horário”. Um
trecho particularmente significativo é aquele do capítulo 15, “Pistis Sophia”, Edição Nova Acrópole,
2019:
“E o Fado [destino ou o acesso ao tempo futuro] e a Esfera [um espaço multidimensional] sobre os quais eles governam, Eu mudei-os e fiz com que passassem seis meses virados para a esquerda [sentido anti-horário] e realizando a influência deles, e que seis meses eles ficassem voltados para a direita [sentido horário] e realizando as influências deles [a simetria temporal expressa em tempo igual de 6 meses ou, o que bem poderia ser, a representação diagramática dos cones de luz da física relativística]. Pois, por mandato do Primeiro Mandamento e por Mandato do Primeiro Mistério, Yew, o Vigilante da Luz [lei da causalidade, Akasha, Psicostasia, Thoth (4)], tinha-os colocado voltados sempre para a esquerda e realizando as influências deles e as obras deles.”
Aqui, descreve-se um movimento de
retorno à Luz, um esforço contra a corrente descendente que aprisiona Sofia (o
Conhecimento informacional) nas esferas ou dimensões vibracionais inferiores. A
imagem transmitida é de um giro contrário ao fluxo natural de queda, o que,
simbolicamente, pode ser comparado à preferência da alma pela ascensão “contra
o sentido da entropia”, do caos, ou seja, um movimento de sentido horário. Em
Pistis Sophia esta perspectiva enquadra-se na necessidade de um processo
evolutivo que configura a metempsicose (o Acelerador, cfr capítulo 25, pp 86),
a hinduísta Roda Samsara e a inacessibilidade material ao futuro (à
premonição).
Essa inversão de marcha, no contexto
esotérico, é uma clara analogia à mudança de orientação: sair do mundo da
multiplicidade e de retorno à Unidade, passando por um “giro” no sentido
espiritual. Espelha a simbologia de uma quiralidade alquímica presente noutros
contextos mistéricos, que se manifesta na ascensão mística e nos inerentes processos
de correcção.
A geometria apoia esta visão de
quebra de simetria temporal interdimensional realizada pelo “renascimento”
metempsicótico, quando reitera que “Porque
Eu [Cristo-Luz (Lucífer)] mudei nesse
momento as tarefas que eles efectuavam outrora nos quadrados [matéria
organizada, Constituição Quaternária: partículas fermiónicas e as respectivas forças
electromagnética, nucleares forte e fraca]
deles, quando virados para a esquerda, e nos triângulos [Atma, Budhi e
Manas – os Campos unificados da Teia Informacional Fundamental quântica - TIF] deles e nos octógonos [símbolo do
renascimento, metempsicose: o baptistério cristão herdou aquela forma
geométrica] deles, nas quais eles são
continuamente virados para a esquerda [tempo futuro ou “protensão” em
Husserl].”, cfr. Pistis Sophia, capítulo 21.
Este texto faz a clara destrinça
entre a dimensão dos quadrados e aquela dos triângulos, definindo a
possibilidade de ultrapassar esta separatividade (dualidade) apenas através da
quebra da simetria temporal permitida pelos octógonos (o renascimento), ou seja
pela passagem de uma dimensão temporal (matéria) para outra atemporal
(espírito).
A Divina Comédia de Dante Alighieri é
riquíssima em simbologia dos movimentos ascendentes e circulares, e muitos
estudiosos já notaram que Dante descreve a ascensão espiritual como um giro
inverso, espiralado, que reflecte uma cosmologia baseada em uma hierarquia de
esferas e sentidos rotacionais. O próprio movimento do céu e das almas justas é
descrito em termos de giros e órbitas que evocam um sentido “espiritualmente
anti-horário”, não no sentido físico estrito, mas no de uma inversão mística e
metafísica da queda.
No
Canto XXVIII, 12 -24, 48, do Paraíso, Dante contempla o centro do Universo,
Deus, como um ponto de pura Luz cercado por nove esferas angélicas girando: [O
ponto luminoso e os nove círculos de fogo. Explicação de Beatriz: a ordem
celeste e a ordem do mundo. As hierarquias dos anjos.], cfr. Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, tradução de Vasco
Graça Moura, Quetzal.
“E como me voltei, e fui tocando
os meus o que parece em tal volume
se se for o seu giro bem fitando
um ponto vi de onde raiava lume
e tão agudo, que o olhar que enfoca
tem de fechar-se ante tão forte
acume;
…
tal gira e em torno ao ponto se
restringe
um círculo ígneo tão veloz, que sinto
vencera o moto assim que o mundo cinge.
….
mas no mundo sensível ver as rotas
se pode, tanto mais divinas, sim,
quanto elas são do centro mais
remotas.”
Dante descreve, ao longo deste Canto,
um movimento esférico em rotações espirais concêntricas (volume) ao redor do
ponto divino (o ponto matemático, adimensional, indiviso, símbolo de Deus),
onde os céus superiores giram mais rapidamente quanto mais próximos estão de
Deus (como se Deus fosse uma entidade de massa/energia titânicas que conformam
o espaço envolvente com efeito gravitacional intenso, muito similar aos efeitos
de um Horizonte de Eventos de um Buraco Negro). Aquelas inversões de velocidade
e orientação são idênticas à ideia de que o “retorno à Fonte” se dá por uma
inversão do fluxo comum, quase como um movimento anti-horário de cariz espiritual.
Não nos demoraremos mais em ilustrar este tema
com conteúdos de origem revelada expressa em cantos poéticos ou em preposições
axiomáticas de obras icónicas da humanidade, porque parecem provir do âmago da
Consciência ao longo dos séculos, assumindo simplicidade, beleza e verdade,
arquétipos universais transversais a todas as culturas.
A razão da Existência é a quebra da simetria
temporal entre duas dimensões, pelo fluxo contínuo (Holomovimento) entre uma Ordem
Implícita e a outra Explícita, como diria David Bohm (5). A Existência deve-se
ao cavaleiro (Campo Higgs, o Antakharana védico) que cavalga o colapso da
função de onda. Os sistemas (sejam físicos ou biológicos) só evoluem (no
sentido oposto ao estritamente escatológico) por seu intermédio, pelo
renascimento continuado (os ciclos de Entropia/Sintropia, envoltos na
Causalidade/Casualidade), do Homem vitruviano ao Cosmos em éons.
“As mentes são muitas e
individualizadas,
mas há uma mente universal
que a todas rege.”
Patanjali, aforismo 4.5
Ao invés, os contratempos da
teoria das cordas são muitos. A teoria da corda bosónica foi a primeira
tentativa GUT da teoria das cordas, na década de setenta do século XX. A ideia
subjacente, também muito bela e inspiradora, apontava
para uma similitude: assim como as cordas de um instrumento vibram em
diferentes modos para produzir diferentes notas musicais, aquelas cordas fundamentais supostamente
vibrariam de modos diferentes para produzir diferentes partículas elementares. Mas, do seio da teoria surgiram limitações
sérias ao propor a existência de Taquiões (partículas instáveis e de massa
imaginária), e não incluir os Fermiões, significando com isso que não podia
descrever toda a matéria. A corda bosónica só pode vibrar nos modos que
correspondem aos Bosões, ou seja, partículas com spin inteiro (0, 1, 2, ...),
como o Fotão e o Gluão ambos com spin 1,
ou o suposto Gravitão (spin 2?). Limitada por não incluir os Fermiões, como os
Electrões, que têm spin ½, essa limitação só seria ultrapassada apenas pelas
teorias supersimétricas, como as supercordas, que implicavam a existência de s-partículas ou partículas supersimétricas,
nunca detectadas no Grande Colisionador de Hadrões do CERN. Outro exemplo,
flagrante e complicativo, é a estrutura conceptual advogar que as equações da
teoria bosónica das cordas só façam sentido matematicamente, na presença de 26
dimensões do espaço-tempo, o que parece muito estranho, mesmo quando
conceptualiza as dimensões extras compactificadas ou enroladas sobre si mesmas
de forma invisível. Esta situação conduziu a que a teoria decadimensional
caísse numa letargia mortal, constatada hoje em dia pela grande maioria dos
investigadores. Contudo os seus contributos foram importantíssimos, sobretudo
na área da matemática.
Notas
(1) Imagine que as dimensões extras do Universo
(aquelas que não vemos, segundo a teoria das cordas) estão enroladas sobre si
mesmas, como donuts. A ideia do Toro
de Narain elenca que essas dimensões extras não apenas se enrolam como num toro
comum, mas que o modo como se enrolam carrega estruturas internas que
influenciam as partículas e as forças fundamentais. A Teoria das Cordas, para
reduzir de 10 (ou 26) dimensões para as 4 que percebemos, faz a compactificação,
ou seja o enrolamento das dimensões extras como um toro, simbolicamente 𝑇𝑛 ou um n-toro,
representando uma generalização do donut
para várias dimensões.
O Toro de Narain, é pois um tipo especial de n-toro com uma estrutura de rede designada
por lattice, que permite descrever
cordas fechadas que se propagam em espaços compactificados, unificando
simetricamente as vibrações da corda esquerda (bosónica) com as da corda
direita (supersimétrica), ao mesmo tempo que incorpora tanto momentum quanto o enrolamento ou winding da corda e, deste modo, preserva
a coesão matemática das cordas heteróticas incluindo assim aquelas simetrias
duplas.
(2)
O teorema CPT é uma das pedras angulares da Teoria Quântica de Campos (QFT).
Qualquer teoria quântica de campos local, unitária e obedecendo à invariância
de Lorentz deve ser invariante sob o aspecto da combinação simultânea de três
simetrias consideradas fundamentais. São elas, a conjugação de carga (C) trocar
partículas por antipartículas; a paridade (P) que consiste em inverter o espaço
ou realizar o espelhamento, e a reversão temporal (T) trocando o tempo 𝑡 por −𝑡. Porém, dentro do quadro da QFT
padrão, a combinação das três, C, P e T juntas, nunca é violada, mesmo que a
natureza quebre separadamente uma delas, como acontece com C no decaimento nuclear
fraco, ou com P na violação de paridade, ou ainda em T como em certas interacções
fracas de partículas instáveis.
A importância dessa não-violação reflecte-se na estabilidade da estrutura do Universo onde partículas e antipartículas apresentam exactamente a mesma massa e tempo de vida, e onde os processos físicos vistos sob reflexão espacial, troca de carga e inversão temporal são indistinguíveis dos originais. Na prática serve de teste rigoroso à coerência da existência. Pelo contrário qualquer teoria que viole CPT provavelmente não é local, não é relativisticamente invariante, ou não é unitária. Se algum dia for observada uma violação do teorema CPT, significaria que alguma hipótese da QFT falhava, como por exemplo a localidade ou a invariância de Lorentz, ou que podia haver efeitos relativos a uma natureza de uma gravidade quântica, de uma estrutura discreta do espaço-tempo para além do modelo padrão. Poderia abrir portas para outros modelos conceptuais tais como aqueles em apreciação por este nosso trabalho, como as teorias de espuma de spins ou de uma física de cordas.
(3)
Para termos uma ideia mais concisa deste assunto, imaginemos um dançarino
quântico que precisa mudar de roupa (um Quark mudando de “sabor”). Pode fazê-lo
tomando caminhos diferentes onde cada caminho tem um "ritmo"
diferente (a denominada fase). Apesar de todos os caminhos conduzirem ao mesmo
objectivo a existência de interferência entre os mesmos (derivada da combinação
dos “ritmos”) pode gerar um pequeno desequilíbrio. Esse desequilíbrio é a
violação de CP que permite teoricamente explicar, porque o Universo tivesse originalmente
mais matéria do que antimatéria.
(4) No Livro dos Mortos, ocorre a pesagem do
coração (psicostasia), diante do deus Osíris. O coração representa a
consciência moral e vibracional da alma. O coração do falecido é colocado numa
balança contra a pena de Maat (símbolo da Verdade e da ordem cósmica). Se o
coração for leve (ou seja, puro), a alma entra nos Campos de Iaru (paraíso). Se
for pesado, é devorado por Ammit, o monstro do esquecimento. Todo o processo é
supervisionado por Thoth, o escriba e juiz divino, que regista tudo (Akasha).
Na Pistis Sophia, Yew desempenha um papel
semelhante, presidindo os rituais de julgamento das almas quando estas ascendem
pelas “esferas”. Verifica os mistérios recebidos, as “vestimentas de Luz”, e o
grau de purificação da alma, como se fosse um guardião liminar da justiça
divina que permite ou impede a entrada no “Tesouro da Luz”.
Yew, foneticamente relacionado com o nome
sagrado IAO, a forma gnóstica do Tetragrama YHWH, assim como Thoth, representa
o aspecto vigilante e impessoal da justiça divina, que não pode ser enganado.
É o equivalente gnóstico da Consciência
cósmica que regista e avalia a trajectória espiritual da alma, assim como o
sistema egípcio via a psicostasia como algo inevitável e sagrado. Em ambos os
casos, trata-se da transição da alma entre mundos, mediada por entidades
luminais e pela lei da causalidade.
(5) Ver o nosso texto “Os Tattvas, Platão e Bohm
– o fio da meada”, Blog “O Buscador da
Verdade”, https://buscadorverdade.blogspot.com , 26/03/2025.
João Porto e Ponta Delgada, 30 de maio de 2025
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