sexta-feira, 14 de junho de 2024

O Espaço uma Entidade Magnética

 

“Até que a gravitação seja entendida simplesmente como atracção e repulsão magnética, e o papel desempenhado pelo próprio magnetismo nas infinitas correlações de forças no éter do espaço…”

                       H. P. Blavatsky, Escritos Compilados, Volume I (1874-1878), edição 2024

Como já se aperceberam, ao iniciar este texto com uma citação truncada de H.P.B., mas no entanto plena de conteúdo suficiente para esta análise, poderão deduzir que foi da leitura desta obra publicada agora em 2024 em língua portuguesa pelo Centro Lusitano de Unificação Cultural e Editora Teosófica, que me surgiram as ideias que de seguida expresso, inevitavelmente formuladas com algum pendor “técnico” do qual tentarei suavizar sem no entanto desvirtuar o significado do conteúdo.

Em 1971 Roger Penrose, professor emérito da Cátedra Rouse Beall de Matemática da Universidade de Oxford, laureado com o Prémio Nobel de Física em 2020, descreveu pela primeira vez aquilo que hoje é conhecido por redes de spin, descrito pela Física Quântica como técnicas diagramáticas que podem ser utilizados para representar estados e interacções entre partículas e campos quânticos.

Deste modo podiam-se representar matematicamente funções mais complicadas (tais como funções lineares em todas as suas variáveis), definindo espaços vectoriais topológicos contínuos ou outros não-lineares, de aspectos geométricos convexos, como o espaço de Minkowski, também conhecido como a métrica de Minkowski e tido como reflectir correctamente a nossa existência material.

Esta outra geometria resumia-se à formulação matemática de como é normalmente concebida a Teoria da Relatividade Especial ou Restrita de Einstein, publicada pela primeira vez em 1905. Ao invés do tradicional espaço euclidiano tridimensional, onde reina o sistema de coordenadas cartesianas, Minkowski (1864-1909), professor de Einstein no Instituto Politécnico de Zurique, logo em 21 de Setembro de 1908 na sua famosa palestra “Espaço e Tempo”, na 80a Assembleia Alemã de Cientistas e Médicos, comunicou que a recém-descoberta teoria da relatividade restrita podia ser apreciada como uma nova geometria num novo espaço-tempo a quatro dimensões que envolvia conceitos matemáticos pouco usuais ao tempo, tais como tensores e geometria não-euclidiana.

Nos dias de hoje, esta é a nossa concepção comummente aceite do espaço e do tempo, curvados e modulados pelas massas de corpos estelares e planetários, como se vivêssemos no interior de um corpo gigantesco de uma lesma ou de uma água-viva. Agora o éter Newtoniano, onde o espaço e o tempo, cada um por si, infinitos e absolutos, eram substituídos definitivamente por uma entidade relativistica, o continuum espaço-tempo, esta sim uma entidade absoluta onde o tempo representava a quarta dimensão.

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Com Maxwell (1831-1879) julgava-se que a luz era formada por ondas de uma substância designada por éter tendo sido concebidas algumas experiências para provar a sua existência, nomeadamente através da célebre experiência de 1887 de Michelson-Morley para detectar o movimento da Terra pelo éter. Contudo nada se conseguiu provar, levando a crer que a velocidade da luz relativamente à Terra não era afectada pelo movimento desta em torno do Sol. Já Poincaré em 1902 no seu livro La Science et l’hypothèse (1), colocava em dúvida a existência do éter e a possibilidade prática de provar a sua realidade.

Como Max Born havia declarado em 1956, na preparação da conferência comemorativa dos 50 anos da Teoria da Relatividade: “Teoria da Relatividade restrita não foi, afinal, uma descoberta de um só homem. A contribuição de Einstein foi a pedra angular de um arco que Lorentz, Poincaré e outros construíram e que viria a suportar a estrutura erigida por Minkowski.”(2). Acho que se fez justiça!

Entretanto impõe-se esclarecer o que é spin (designação de “giro” em inglês) e campo quântico. E aqui vem a parte mais dolorosa da explicação “técnica”.

A hipotética existência do spin foi introduzida em 1925 por Samuel Abraham Goudsmit e George Eugene Uhlenbeck para explicar um conjunto de fenómenos como aquele do Efeito Zeemann, do qual não é nosso propósito adiantar explicações, e só mais tarde em 1927 foi definitiva e formalmente aceite matematicamente através do método matricial por Wolfgang Pauli.

Todas as “partículas”, ou aquilo que hoje se considera ser uma excitação localizada num campo quântico, possuem spin, inteiro ou semi-inteiro, quantizado e restringido a múltiplos de h/2p, onde h é a constante de Planck (6,626x10-34 joules por segundo).

Todas possuem spin que é o responsável final pelas propriedades magnéticas da matéria. Sejam fermiões que constituem a estrutura do átomo (electrões, protões, neutrões), sejam os bosões que são as forças que medeiam as interacções entre as partículas e que mantêm a estrutura agregada dos átomos (fotões, gluões da força nuclear forte ou os bosões W e Z da força nuclear fraca), todas em conjunto com o bosão de Higgs, responsável por atribuir massa às partículas e com spin nulo e sem carga eléctrica, formam o quadro do Modelo Padrão das Partículas Elementares. O caso Higgs é um caso especial, pois é um campo quântico que contem, por assim dizer, todos os outros.

 É a ligação entre o spin e o designado momento angular intrínseco que faz surgir o magnetismo e que irá ter implicações no próximo futuro no tratamento da informação na computação quântica com o desenvolvimento de algoritmos que irão explorar as propriedades quânticas do spin – a nova ciência spintrónica.

O conceito de spin associado à ideia de momento magnético das partículas subatómicas com carga e em rotação, surge em primeiro lugar derivada da ideia de que o electrão rodava sobre si próprio e pela experiência de que o deslocamento de uma carga eléctrica (ou uma corrente eléctrica num fio metálico) produz sempre um campo magnético. Esta ideia contudo não poderia ser aplicada aos neutrões que não possuem carga. Contudo possuem momento angular intrínseco (outra designação para o spin). Isto ainda acontece a certos núcleos atómicos como o Urânio 235. Nestes casos estes momentos magnéticos, denominados de intrínsecos, relacionam-se com o momento angular das partículas, e é encarado como mais uma variável, um número quântico, para além da carga e da massa, que condicionam no seu conjunto os graus de liberdade do sistema. Isto é evidenciado na prática por fenómenos como a conhecida ressonância magnética nuclear de que muitos de nós já experimentámos na prática da medicina.

E no caso do fotão, que não tem carga ou massa? Este apresenta porém um eixo central de deslocação (MAS – momento angular de spin, à velocidade de quase 300.000 km/s, a tal velocidade da luz) à volta do qual rodam continuamente os seus campos eléctricos e magnéticos. É esta rotação que ao exercer o seu sentido para a esquerda ou para a direita relativamente ao observador, define a polarização da luz ou da onda electromagnética. Este fenómeno também é nosso conhecido na aplicação de ópticas, mais concretamente de lentes polarizadas dos óculos de Sol que bloqueiam a intensidade da luz solar, protegendo os nossos olhos.


Polarização de uma onda electromagnética ou da luz e os seus momentos magnéticos respectivos +h ou –h (h=constante de Planck) e onde as expressões matemáticas dão as 3 componentes do campo eléctrico. Fonte Wikipédia.


Verifica-se assim que todas as partículas que giram, rodam ou orbitam outro corpo, possuem movimento angular e com ele também momento angular. Assim todas as partículas que apresentam momento angular intrínseco contínuo e deste modo infinito, comportam-se como se rodassem. Mas se assim fosse, teríamos mais um paradoxo violando a lei da conservação da energia ou então decairiam sobre si próprias e não existiriam materialmente. Logo o spin é ilusório e as partículas não rodam! Apenas comportam-se como se rodassem: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta". Júlio César assim o referiu no caso do seu divórcio com Pompeia.

Aqui o caso revela contornos diferentes: o que parece, afinal não é mesmo!

Contudo, não parece ser assunto devidamente assente o caso do actual divórcio comummente assumido entre a Mecânica Quântica e a Relatividade Restrita ou Especial, porque considera-se que a existência do momento angular intrínseco (referido como número quântico de spin e representado pela letra s), deriva afinal de efeitos especiais relativísticos.

Afinal a grande questão persiste apenas entre a Relatividade Geral e a Física Quântica! E é neste âmbito que presentemente as redes de spin são aplicadas à teoria da gravidade quântica por uma pleíade de grandes investigadores teóricos, tais como Carlo Rovelli, Lee Smolin, Jorge Pullin, Rodolfo Gambini e ainda muitos outros.


Rede de spin de Penrose. Fonte Wikipédia.

A rede de spin pode assim ser caracterizada: cada segmento de linha é um número de spin n onde cada unidade designada por n-unidade tem  um momento angular nħ/2, onde ħ é a constante de Planck reduzida. Para os bosões (fotões e gluões), n é um número par. Para os fermiões (electrões e quarks), n é ímpar. Três segmentos de linha unem-se e formam um vértice (vertex), interpretado como um evento no qual uma única unidade se divide em duas ou duas unidades colidem e se unem numa única unidade. Os diagramas cujos segmentos de linha estão todos unidos em vértices são então designados por redes de spin.

A rede de spin, também conhecida por Gravitação Quântica em Laços, sendo uma teoria de geometria quântica do espaço-tempo cujo objectivo é ultrapassar as dissensões teóricas entre a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade Geral, constrói o espaço com linhas e nós (vertex) que reflectem os estados quânticos permitidos. Formam uma rede que transposta para o espaço-tempo numa perspectiva canónica (do ponto de vista matemático) corresponde a formas diagramáticas conhecidas também como espuma de spin. Ou seja, representa a quantização do espaço-tempo à escala diminuta de Planck, a fracção última a que se pode reduzir a existência material, e constituem uma alternativa à complexa teoria das cordas para a gravidade, a explicação da entropia para os buracos negros/brancos e ultrapassada a singularidade introduzida pelo Big Bang acrescida pela previsão de um universo colapsante anterior (ver teoria CCC – Cosmologia Cíclica Conformal de Roger Penrose) . Isto não conflitua com a Relatividade Geral dado que esta não determina a distância entre dois pontos no espaço-tempo estabelecendo apenas as mútuas relações que existem, entre os campos gravitacionais e os campos materiais. Aqui dominaria tão só a densidade de 5.1 × 1096 kg/m3, 1023 massas solares contidas num espaço equivalente a um único núcleo atómico – a denominada densidade de Planck.

Seria lógico que, o espaço-tempo concebido como uma vasta teia de spins, nos pudesse presentear uma estrutura de tipologia de campo quântico onde prevalecem momentos magnéticos intrínsecos inerentes à construção de holonomias, consequência geométrica de curvaturas de ligação e de fluxos de campos de força produtores de uma espécie de uma cartografia própria de simetria fractal. Holonomias seriam assim as unidades estruturais.

Holonomia. Fonte Wikipédia.

Esta seria a ideia base por detrás da estrutura espaço-temporal: um organismo “vivo”, pleno de informação, um campo quântico covariante contendo os restantes campos quânticos e os fermiões, potencial gerador e portador do fenómeno de não-localidade designado por emparelhamento – o milenar conceito de Akasha dos Vedas agora experimentalmente constatado em 2022 pela tríade de investigadores, Alain Aspect, John F. Clauser e Anton Zelinger, galardoados com o Prémio Nobel de Física.

Seria formalmente, e de acordo com o Akasha, o registo de todos os acontecimentos, por ter as características de meio magnético permeado por Qubits de informação: um computador quântico universal onde as partículas surgem como uma propriedade emergente do espaço-tempo quântico.

Poderíamos alicerçar aquele nosso entendimento com o que H.P.B. nos diz na Doutrina Secreta (3): “Foi o que levou Demócrito a dizer, segundo o seu perceptor Leucipo, que os princípios ou elementos primordiais de tudo eram átomos e um vacuum, no sentido de espaço; não, porém, um espaço vazio, pois “a Natureza tem horror ao vácuo”, conforme os princípios peripatéticos e dos filósofos antigos em geral.”

Revela-nos por sua vez o Glossário Teosófico que o Akasha é “a essência supersensorial e espiritual subtil que permeia todo o espaço; a substância primordial erradamente identificada com o Éter.” (4)

Conclusão: Algumas veredas serão possíveis na investigação científica, cada vez mais exacerbada pela sua crescente capacidade criativa. Poderão confirmar esta hipótese do espaço-tempo como teia, ténue véu de “espuma de spins”, campo quântico covariante que contem todos os outros e do qual sobressaem constantemente a matéria fermiónica e os colapsos de onda. Destacamos seis:

a) apresentar-se independente das massas que contem e causar efeitos dinâmicos na topologia cosmológica, detectáveis de acordo com aquela sua natureza, ultrapassando a descrição da Relatividade Geral einsteiniana (5). 

O spin seria mais uma propriedade das partículas, tal como a carga e a massa, emergente da própria  natureza do espaço: um pouco como uma transferência de estado aquando da perturbação do campo quântico de onde surge a "partícula". Tal como o campo Higgs confere massa e como tal tem spin 0.

b) utilizar o campo Higgs como interface entre aquela sua natureza covariante e a emergente da matéria e das respectivas forças que a suportam e estruturam, nomeadamente os campos electromagnéticos e as duas forças nucleares forte e fraca.

c) ser a residência e o âmago de uma “memória”, perene de todos os acontecimentos, traduzida em baixíssimas frequências, constituindo o registo e o meio de informação indestrutível e partilhado que poderá ser acessível e constatado cientificamente, pelo menos matematicamente (6);

d) Justificar e ser o suporte do fenómeno supra-lumínico de não-localidade e não temporalidade do emaranhamento quântico pelo qual tudo no Universo se encontra ligado, num acto de partilha titânico, assunto revelado na nossa dimensão espaço-temporal pelas sincronicidades Jungianas e dos fenómenos de acausalidade da rectrocausalidade situados para além dos cones de luz da geometria de Minkowski;

e) revelar uma estrutura fractal dinâmica tal qual a geometria topológica dos mosaicos não-periódicos de Penrose ou inclinações de Penrose, afinal a derradeira Matriz, a base de todas as leis da natureza uma vez que nelas assentam a previsibilidade dos acontecimentos.

f) perceber num outro âmbito, o microcosmos, o reflexo e as implicações deste espaço-tempo no comportamento das estruturas biológicas, na estrutura da célula e do papel do genoma como ferramenta recorrente pelas mesmas ao interpretarem “forças” geradas por informação topológica e geometria conformal aliada a “sinais” electromagnéticos e de fenomenologia quântica (efeito túnel e sobreposição) na construção embriónica. De acordo com Alfonso Arias (7) “Observando este processo é difícil recusar a impressão de que as células sabem sempre o que fazer e para onde se moverem relativamente umas às outras, para encontrarem as suas posições no espaço de modo que as células de órgãos, como o coração e pulmões, trabalham em conjunto no ajuste das suas ligações.” Como referiu Lewis Wolpert, parece existir uma Informação Posicional, um morfogene gerador da forma nas vastas distâncias do organismo. Em suma, perceber como o espaço-tempo controla o desenvolvimento biológico.

Finalmente, esta seria a grande revolução em direcção à verdadeira e Grande Unificação e o caminho seguro para a elevação espiritual da Humanidade: finalmente o Todo reunido no Um.


Bibliografia e Notas

(1) H. Poincaré: La Science et l’hypothèse. Flammarion, 1968.

(2) M. Born: Physics and Relativity. In A. Mercer and M. Kervaire (eds.): Jubilee of Relativity Theory, pp. 244–260. Birkhäuser, 1956.

(3) H. P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Volume I – Cosmogénese, Editora Pensamento-Cultrix Ltda, 2020, pp. 123.

(4) Helena Blavatsky, Glossário Teosófico, a versão original e póstuma de 1892, editada por George Mead, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Colecção Omnia.

(5) Richard Lieu, The binding of cosmological structures by massless topological defects, Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, Volume 531, Issue 1, Junho 2024, Páginas 1630–1636, https://doi.org/10.1093/mnras/stae1258

(6) https://youtu.be/97Fe3voDxnM?si=kKAo-6kOm9-WqySe

(7) Alfonso Martinez Arias, The Master Builder, How de new science of the cell is rewriting the story of life, John Murray Press, Basic Books London, 2023

H. P. Blavatsky, Escritos Compilados, Volume I (1874-1878), Centro Lusitano de Unificação Cultural e Editora Teosófica, Edição 2024.







domingo, 5 de maio de 2024

O Demónio de Maxwell



 James Clerk Maxwell (1831 – 1879) foi um dos maiores físicos possuidor de uma criatividade inigualável que até hoje a humanidade conheceu. A ele, se deve a segunda grande unificação na Física (a primeira deve-se a Isaac Newton com as suas leis da gravitação universal) que unificou o magnetismo, a electricidade e os próprios fenómenos luminosos, a concepção da ideia de campo e portanto da natureza do primeiro campo quântico electromagnético reflectida nas suas respectivas equações.

Em 1867 idealizou uma estrutura, que posteriormente ficou conhecida como “Maxwell Demon”, uma espécie de máquina cujo objectivo era peneirar de acordo com a temperatura, moléculas constituintes de um meio gasoso, em que as de maior temperatura iriam para um lado e as mais “frias” para o outro, um processo em completo desacordo com a segunda lei universal da termodinâmica, mais conhecida por entropia, onde o tempo é a variável que tudo resolve ao assumir uma direcção única de desenvolvimento de todos os fenómenos, uma direcção do passado para o futuro em que um efeito é consequência de uma causa. 

O “Demónio de Maxwell” onde a entropia decresce 
Fonte: Wikipédia

Ou seja, a ideia subjacente a este processo envolveria a criação de um sistema que produzisse frio extraindo calor invertendo a lei da causalidade ou a lei de causa e efeito. Poderíamos chamar a este processo uma exploração de uma “ordem causal indefinida” como processo probabilístico que fundamentalmente caracteriza os processos de transferência de fluxos de calor na termodinâmica. Sabemos que de acordo com a segunda lei da termodinâmica, o fluxo de calor só pode ser feito naturalmente de um corpo quente para um corpo frio, nunca havendo transferência de calor entre sistemas à mesma temperatura. É a teoria base da cinética dos gases.
O “demónio” aqui seria uma criatura hipotética, que envolvesse uma nano tecnologia, que desafiando a segunda lei da termodinâmica, ordenaria as partículas ou moléculas de um gás, de modo que seria invertido o sentido normal do fluxo de calor. 
A ideia seria fazer com que os eventos se sucedessem numa ordem probabilística de modo que o calor fluísse para o lado desejado (quente ou frio) sem colidir com as leis da termodinâmica. Ora, esta acção probabilística da termodinâmica é também partilhada com a mecânica quântica. É aqui que vai entrar a “mágica” da Mecânica Quântica, pela qual são possíveis gerar acontecimentos sem qualquer referência temporal ou estrutura de causa/efeito, coisa que no tempo de Maxwell era impensável. Só que agora para inverter o fluxo temporal, em vez do “demónio” vai usar-se a actualmente designada “testemunha de inseparabilidade causal”, criando a tal "ordem causal indefinida", e que em vez de apenas ficar separando partículas frias e quentes, fica também observando e registando com um (sim) ou zero (não), se respectivamente as operações são realizadas numa ordem causal definida ou não (indefinida). A ideia é fazer prevalecer o registo zero ou “não”, a informação dada pela “testemunha causal”, tirando proveito da indefinição da causalidade ou do seu aspecto inerentemente probabilístico, de tal modo que os fluxos de acontecimentos se sucedam em determinada ordem em que obrigatoriamente o calor flua para um dos lados, ou quente ou frio. É este o processo quântico “mágico” utilizando qubits de informação que actualmente a nanotecnologia permite. 
Obviamente não teremos competência, nem tampouco é nosso objectivo na exploração deste tema, entrar nos pormenores técnicos relativos ao desenvolvimento e delineamento da experiência concebida pela equipa de físicos da Universidade escocesa de Edimburgo liderada por Davis Leigh (1), que conduziu à construção de uma “máquina” que concretiza o “Demónio de Maxwell”. Antecipam-se já utilizações excepcionais futuras que mais perecem do domínio da ficção científica, como motores movidos a informação: é este o preço a pagar pela compreensão, sempre parca e temporária, dos fenómenos no domínio da física quântica.


Sistema quântico de quatro tempos baseado na ordem causal indefinida.
Fonte: Xinfang Nie et al. - 10.1103/PhysRevLett.129.100603.

O resultado final da medição do qubit de controlo decide a direcção do fluxo de calor.
Fonte: Xinfang Nie et al. - 10.1103/PhysRevLett.129.100603, (2).


Motores movidos a informação, faz-nos pensar em algo subjacente às bases conceptuais de todas cosmogonias universais. Ali são exemplos de informação, a Vontade e a Necessidade expressas por entidades supra humanas, para uns Deuses, para outros, Demónios, na “criação” de universos, um processo eminentemente probabilístico de uma ordem causal indefinida, assente na ideia de que na origem era o “Caos” do qual se fez a “Luz” – talvez uma flutuação do vazio, como agora é a ideia defendida pela cosmologia. Aliás este conceito soluciona o paradoxo da entropia na origem do universo: do nada surgem sistemas de uma organização crescente. De uma incompreensível singularidade surgem nuvens de gás que se organizam em triliões de sóis em galáxias que por sua vez formam redes ou teias cósmicas de matéria que constitui apenas cerca de 4% do que conhecemos. Então a entropia parece querer aqui salvaguardar o processo do eterno retorno às origens previsto teoricamente por Roger Penrose na sua Cosmologia Cíclica Conforme sem qualquer referência a um tempo global ou a uma estrutura causal. 
Mas…isto já os Vedas laboravam há alguns milénios!
Interessante verificar que a visão reducionista que tem prevalecido na metodologia científica e que nos conduziu pela mão da física quântica, noutras escalas, à confirmação da inexistência de uma seta do tempo naqueles domínios, também o faz na visão inversa, não reducionista mas alargada ao domínio cosmológico, onde as estruturas titânicas dos Buracos Negros (e Brancos) com as suas singularidades expostas, e por agora inatingíveis, nos conduzem também a uma referência intemporal. Nos dois domínios o tempo não existe e a rectrocausalidade é possível. Em ambos os casos eventos quânticos juntam-se aos eventos relativísticos e estabelecem-se tanto nas diferentes escalas do microcosmo como do macrocosmo, e independem do espaço e do tempo, e quebram a simetria da causa/efeito.
Mas, isto já Agostinho de Hipona defendia!

Outro fenómeno também alia a visão reducionista com a universal. Uma espécie de visão cosmista transmitida pelo fenómeno do emaranhamento quântico e que nos faz pensar numa origem comum que assume o Cosmos como uma entidade única, semelhante à orgânica, onde qualquer evento é partilhado (a tal acção fantasmagórica à distância einsteiniana). Uma partícula – um quark, um átomo, uma molécula, que compartilhe propriedades com outra é afectada instantaneamente por qualquer coisa que aconteça com a primeira, mesmo que elas sejam levadas para lados opostos da galáxia. Esta descoberta, que confirmou a violação das desigualdades de Bell, garantiu o Prémio Nobel da Física a um trio de investigadores. Mas, então aqui temos a causalidade a actuar ainda que independentemente do espaço e do tempo. No entanto é exactamente esta causalidade que vai conferir o aspecto da permanência necessária ao Universo e permitir a eclosão e a possibilidade de a Vida singrar. Ou seja, é necessário que exista alguma estabilidade que só o espaço e o tempo podem conferir. Esta, é dada na nossa dimensão macro pela existência de uma seta do tempo (do passado para o futuro) e da entropia (do quente para o frio): em termos humanos será sempre a causa de uma intrusão manifesta na nossa visão reducionista geradora de dualidades (os princípios hinduístas Rajas, Sattva, Tamas) ou os pilares da Árvore da Vida da Cabala. Dela, nos liames da ilusão Maya, a Ciência tem-no demonstrado paulatinamente, que iremos nos libertando na medida do progresso material e espiritual no caminho do Conhecimento e da Verdade. 

Mas esta não é a única dualidade. Outra mais radical impõe-se instalada entre a nossa dimensão onde prevalece a entropia e a causalidade e aquela que lhe instilou a não-localidade, o emaranhamento e a independência do espaço e do tempo, fenómenos que na matéria revelam a sua existência, a de uma natureza superior e seguramente de uma dimensão quântica de natureza covariante que se contém a si própria e todas as outras formadas pelos conhecidos campos quânticos electromagnéticos, da Força Nuclear Forte e da Força Nuclear Fraca. São os campos quânticos covariantes que aglomeram a matriz fractal em “laços” do espaço – a antevista gravidade quântica, suporte forçoso do referido fenómeno não-local do emaranhamento e onde reside e evolui toda a informação holomórfica e da consciência. Esta foi intuída sob a forma revelada panpsiquista ou definida pelo Akasha sânscrito (Ākāśa) nos Puranas, o Svabhavat ou o Buddhi mais Atman do Budismo do Norte ou ainda expressa no inconsciente colectivo de Carl Gustav Jung.
Os fenómenos de sincronicidade com características incontornáveis de conexão acausal (diferente de casualidade) revelados por Jung são a prova, de que estes fenómenos únicos e irreproduzíveis pela vontade, sendo experiências únicas, podem contudo ser explicados pela introdução daqueles campos de natureza covariante que canalizam e introduzem padrões subjacentes com “coincidência significativa” para a mente humana (Manas e Kama Manas).
Assim, se por um lado temos a dualidade manifesta no dia-a-dia própria da matéria/anti-matéria e das forças que a regem; por outro lado temos aquela outra dualidade que como um espelho reflecte dimensões de uma escala covariante subtil na primeira – afinal a que conduz ao despertar da consciência. A Pistis Sophia que cai no Caos e dele se levanta inúmeras vezes. Contudo, subsiste algo a envolver estas duas escalas de dimensões dualistas: aquela que tudo contém e de onde tudo provém e que sendo única não apresenta dualidades por ser infinita e incognoscível para nós, partículas, ínfimas, mas de enorme potencial porque saídas do seu seio.
Entretanto saibamos estar sempre sintonizados com as manifestações de não-localidade, de acausalidade e da sincronicidade atemporais de que estamos permanentemente envoltos sem dar por isso. Somos “motores” movidos a informação!


Notas e Bibliografia

(1) “Exercising Demons: A Molecular Information”; Ratchet, Viviana Serreli, Chin-Fa Lee, Euan R. Kay, David A. Leigh; Nature, 1 February 2007, Vol.: 445, Issue 7126 - 523-527.

(2) Explicação sucinta do processo como fluxo cíclico de informação em quatro tempos ou etapas, onde se regista a transferência não clássica de calor:
Primeiro tempo: Quando a testemunha causal é medida, de acordo com uma ordem causal indefinida, em que o material de trabalho entra em contacto com duas fontes de calor, surgem duas alternativas expressas simbolicamente em duas alternativas: se o resultado for |0>-|1>, o ciclo continua; no caso contrário, o processo é repetido até se obter |0>-|1>; 
Segundo tempo: O material de trabalho entra em contacto de forma clássica com a fonte externa e liberta o fluxo de calor; 
Terceiro tempo: O material de trabalho entra em contacto de forma clássica com as duas fontes de calor e liberta o fluxo de calor; 
Quarto tempo: A testemunha causal e o material de trabalho são reinicializados.


João Porto e Ponta Delgada, 5 de Maio de 2024



segunda-feira, 1 de abril de 2024

SOMOS TODOS ZARASTRUSTA

 

    Faravahar, o “Sol Alado”


Falar sobre Ahura Mazda sem referir o Zoroastrismo, Zarastustra ou Zoroastro, o Culto Solar, do Fogo e de Mitra, é ter uma visão unilateral e truncada de culturas, de que somos ainda herdeiros, pertencentes a um conjunto de povos de uma imensa região geográfica que se estendia desde o norte da Índia, Tasjakistão, Afeganistão, Irão, Assíria, Mesopotâmia (o Crescente Fértil), a antiga Pérsia. Convulsionada por milénios de lutas fratricidas, de guerras intestinas e de invasões e fusões de povos e etnias. Contudo, nada obviou a que as tradições culturais desta amálgama de populações da Ásia central e médio oriente (indo-iranianos), fundamentadas nas tradições milenares védicas (civilização do Vale do Indo), se reflectissem posteriormente em todas as teologias e teogonias, desde os mitos gregos, ao império romano até aos rituais exotéricos actuais do catolicismo ou dos ocultos cabalísticos traduzidos em metáforas de tratados alquímicos como o “Rosário dos Filósofos”, - Rosarium philosophorum sive pretiosissimum donum Dei, editado no século XVI no De Alchimia Opuscula complura veterum philosophorum.

Como princípio monista já presente no ramo extinto do Zurvanismo, emanação de Zeruan Akerna, o “Um”, o “Único”, o “Tempo Sem Limites”, o Chronos grego), Mazda (o “Onisciente”, a designação mais antiga) e Ahura (o “Governador” introduzido por Zoroaster Spitāma), ou Ormuzd (ao reunir as duas designações no persa), representa simbolicamente a deidade criadora e sustentadora do Universo, que no Hormazd Tasht dos Yasht (abreviadamente Yt), - colecção de 21 hinos, supostamente escritos por Zoroastro, cada um invocando uma deidade zoroastriana na linguagem antiga Avestan ou língua “gáthica”, - aparece referido por mais de vinte títulos, entre os quais o “Eu Sou”, curiosamente também presente na Cabala hebraica, um dos sete nomes de Deus.

Zoroastro ou Zarathushtra, tal como Manu e Vyasa na Índia, é a designação da reencarnação de vários avatares (serão 13 os mencionados no Dabistãn [1], de acordo com H. Blavatsky), o último nascido no fim do segundo milénio a.C., algures na Ásia Central entre os actuais Uzbekistão e Tasjakistão. Esta linha de profetas citada pela primeira vez por Aristóteles (datando-o de 9600 anos antes de Platão) seria o sétimo Zoroastro. Outro avatar teria surgido 4000 a.C.. Segundo Annie Besant o primeiro Zoroastro dataria de 20.000 anos atrás (Zoroastrianism, p. 7; Four Great Religions, 1897) e de acordo com as escrituras Zoroastrinas, o Avesta, ter-lhe-iam sucedido Gayomard, Hoshang, Tehmuras, Jamshid, Faridun. Finalmente Zaratrusta Spitāma terá sido o último e manifestar-se-á no “Julgamento Final”.

Impossível deixar de referir que a antiga língua Avestan tem forte afinidade linguística e histórica com o sânscrito Rigueveda e pressupõe-se ser mais antiga do que a língua usada para escrever o resto do Avestá ou “palavra da vida“, o "avéstico mais recente". Interessante notar que o termo ahura (governador) no Avestan está linguisticamente relacionado com asura (trevas), termo hinduísta para designar os “anjos caídos na Terra”, entre os quais figura Mithra – o correspondente védico e hinduísta Mitra ou ainda Maitreia, o Bodisatva na tradição budista que surgirá depois de Sidarta Gautama.

Estas afinidades permitiram estabelecer a existência de uma origem cultural e linguística comum destes textos.

De realçar a ligação posterior à Ásia Menor e á Anatólia através da tradição mitológica grega Avestá Mithra conduzindo às várias variantes com Apollo, Helios e Hermes (sempre presente o Culto Solar) e ainda mais tarde (146 a.C.) à figura dos Mistérios romanos Mitraicos ou Culto de Mitra. Uma ligação profunda ao dualismo zoroástrico (sempre a presença da luta entre os pólos opostos, entre o bem e o mal, entre o espírito e a matéria).

O culto Mitraico romano envolve sempre a tauroctonia simbólica e a partilha de um banquete com o deus Sol: Os açorianos Terceirenses talvez sejam os últimos guardiões deste ritual, sem o saberem, com as touradas e os banquetes do “5º touro”, festejam Mitra [2].

Ahura Mazda, representado pelo Faravahar, símbolo solar do pré-Zoroastrismo , o “Sol Alado”,associado à divindade e à realeza no antigo Egipto dinástico, onde representava Hórus na cidade de Edfu, estendia o seu simbolismo universal também na Mesopotâmia, Anatólia e Pérsia.

"Sol Alado de Tebas” (Egyptian Mythology and Egyptian Christianity por Samuel Sharpe,1863)

O símbolo solar encarnado materialmente no ser humano sob a designação de “fravashi” ou o espírito individual (Atma, em Avestan “aquele que foi escolhido para exaltação”), onde na dimensão material irá sofrer as provações desenvolvidas pela dualidade da luta entre o bem e o mal. Porém no colapso material do corpo físico e ao quarto dia após a morte, a alma ou corpo étereo (“urvan”) separa-se do “fravashi” incorporando-se na unidade dimensional de Mazda, onde acumula as experiências e a sabedoria das sucessivas reencarnações.
No zoroastrismo todas as coisas animadas ou inanimadas possuem uma centelha deste espírito “fravashi” que evolui gradativamente de acordo com a complexidade da matéria inorgânica a orgânica como nela se acumulasse a energia solar radiante sob a forma de ligações electroquímicas sempre mais complexas.
Nos tempos correntes “O Leão e o Sol” é um dos símbolos principais do Irão. Esteve presente na sua bandeira nacional até à revolução de 1979 que instalou a Republica Islâmica.

“O Leão e o Sol” na bandeira nacional do Irão


 

Bandeiras do Tasjakistão (à esquerda) e do Uzbekistão


Como já referimos, Zurvã ou Zeruan Akerna é o pai dos dois opostos que representam o Bem, Ahura Mazda e o mal Arimã. De Ahura Mazda (o Logos) emanam por sua vez dois aspectos do próprio, outra dualidade, também de carácter polar e masculina: Spenta Mainyu e Angra Mainyu, que representam, de uma maneira geral, a partilha entre duas dimensões, a do Espírito e a da Matéria, a da Vida e a da Forma, Luz e Trevas, representada na constituição septenária humana e da terminologia teosófica, a natureza dual da mente - de um lado Budhi-Manas e do outro Kama-manas. 

A completar o esquema dualístico, outra deidade fazendo parte da trindade zoroastriana, agora de carácter feminino, é designada por Ārmaiti, a “Sabedoria Criativa” através da qual foi concebido o Universo.

No Gnósticismo, Sophia (Sabedoria) era a sizígia divina de Cristhus (os Éons complementares feminino-masculino, as forças simétricas da natureza) e não apenas uma simples palavra significando sabedoria, tal como nas escrituras zoroastriana do Avesta.

É atribuída à constituição septenária zoroastriana esta estrutura: Do lado direito de Ahura Mazda e com carácter masculino estão: Vohu Manah ou Vohūman correspondendo a Budhi; seguida por Asha Vahishta e por Khshathra Vairya ou Kshatraver, o Manas e Kama-manas.

Do lado esquerdo de Ahura Mazda e com carácter feminino têm assento Spenta Ārmaiti ou Spendarmad representado possivelmente o plano astral; Haurvatāt ou as energias associadas à vitalidade ou ao Prana, e finalmente Ameretāt ou etéreo fisíco.

Tendo em conta o próprio Ahura Mazda (o plano Átmico), somam sete os diferentes aspectos desta cosmogonia dos quais sobressaem sempre os pólos opostos - Spenta Mainyu versus Angra Mainyu. Estes opostos ou Deva, linguisticamente relacionados com os devas sânscritos, tomam também designações: Āka Manah, Indra, Saurava ou Sauru, Nāonghaithya ou Taromad, e os gémeos Tauru e Zairicha. Lembremo-nos que esta organização dual está presente em Pistis Sophia onde o Karma, “a matéria do Barbelo” que a “Potência de Sabaoth”, designação aplicada para “o Todo Poderoso”, a “Verdade”, é a informação relevante dos “arquivos akáshicos” que definem o futuro. Assim, Sabaoth, que “saiu da Região da Direita”, o Futuro, lança esta informação “a todas as Regiões daqueles da Esquerda”, que constituem o Passado das acções humanas, de modo que a “Veste de Luz” passa a estar em consonância com o respectivo Karma. Cfr. Pistis Sophia, final do Capítulo 63, pp 159.

Segundo Annie Besant o primeiro Zoroastro revelou a natureza sagrada do Fogo e a sua importância nos rituais zoroastrinos quando invocado a partir do profundo brilho do “akasha”, o Agni ou a antiga designação védica Ātar ou Āthrā. As relações são mais que muitas e evidentes!

Exceptuando Ahura Mazda, a estrutura em pólos opostos gera hostes de “demónios”, que parecem corresponder na sua descrição e características aos “elementais” e às suas actividades naturais ou às “Potencias” em Pistis Sophia. Por esta razão o Fogo (um dos 4 elementos alquímicos), um dos filhos de Ahura Mazda e presente em todos os templos, adquire uma importância central no zoroastrismo. Tal como no hinduísmo, o Fogo é o mensageiro entre o céu e a terra e constitui um elemento sagrado. 

O ritual da manutenção do Fogo sagrado pelas Vestais e o culto a Vesta que presidia ao Fogo doméstico em todos os lares romanos, foi a expansão desta tradição até a estes tempos tardios.

Ahura Mazda adquire um papel central na cosmogonia zoroastrina. Esta, apresenta-se dividida em quatro períodos de ciclos de 12.000 anos correspondentes a signos do Zodíaco.

Tudo se desenrola em torno de polaridades, entre Spenta Mainyu (a Luz) e Angra Mainyu (as Trevas). No primeiro ciclo Angra ou Āhriman mantém-se inactiva, mas no segundo dá-se a criação dos primeiros átomos, da terra, da água. do céu, das plantas, dos animais e dos seres humanos e em consonância dos Devas por Angra Mainyu que se opõe a Spenta. Aqui os “fravashi” encarnam no homem para se oporem a Angra. Durante o terceiro período, chamado de “Primeiro Período Humano”, as forças de Angra vão sendo substituídas pelas forças de Spenta. Então no último período dar-se-á o “Julgamento Final” por Ahura Mazda com o advento do avatar Zarathushtra Spitãma em que as forças do Bem derrotam as do Mal. Uma cosmogonia onde o Cristianismo primitivo foi beber. Em Pistis Sophia, o “Éon Cristhus” irá também restaurar a harmonia no mundo dos Éons, curando a “doença” no mundo material em consequência da catástrofe na ordem ideal, dando ao homem o conhecimento e a Sabedoria que irá resgatá-lo do domínio da matéria e do mal.

Tal como Dante Alighieri na sua Divina Comédia o Zoroastrismo possui um texto religioso, o livro de Arda Viraf (talvez Dante se tenha inspirado neste texto), onde um zoroastrista viaja pelo mundo dos mortos para provar a justeza da doutrina de Zoroastro. Para tal este viajante, Wirãz, toma um alucinogénio, uma mistura de vinho, canabis e Haoma ou Soma, que liberta a sua alma até às outras dimensões e onde é esperado não pela bela Beatriz, mas pela bela Dên, que igualmente representa a fé e a virtude. Do mesmo modo que Dante é guiado pelo divino Vergílio, aqui a companhia é feita pelo divino Srosh. Deste modo, depois de atravessar a ponte Chinvat que separa os dois mundos, é conduzido aos lugares reservados aos virtuosos e fiéis à doutrina, percorrendo o caminho das estrelas, o da Lua e o do Sol. Aqui encontra Ahura Mazda que lhe mostra as almas dos abençoados, vivendo realidades virtuais ideais mas semelhantes às vidas terrenas. Depois desce, guiado até aos infernos onde lhe é mostrado os sofrimentos atrozes infligidos aos fracos pecadores. Deste modo concretiza-se o objectivo de Ahura Mazda quando lhe transmite que o Zoroastrismo é a única via correcta para uma vida próspera e livre de adversidades.

Chegados até aqui não poderíamos esquecer os Parsis e a sua ligação à Teosofia que é imensa e genética. Considera-se o Zoroastrismo a religião oficial dos Parsis. 

No Glossário Teosófico [3] diz H. Blavatsky que Ormazd ou Ahura Mazda (Zend-Avesta) é o deus dos zoroastristas ou dos parsis modernos. Simbolizado pelo Sol, como sendo a “Luz das Luzes”. Esotericamente, ele é a síntese de seus seis Amshaspends ou Elohim, e do Logos criador.

O Coronel Olcott, fundador da Sociedade Teosófica com H. P. Blavatsky, escreveu nos seus diários constituídos por seis volumes, extractos de “Old Diary Leaves”, que a comunidade Parsi, na Índia, sempre votou grande afecto e amizade com a Sociedade Teosófica, colaborando e apoiando materialmente as suas iniciativas. Tanto Hindus como Parsis envolveram-se directamente na edificação do ramo da Sociedade Teosófica em Bombaim. Foram proeminentes teosofistas zoroastrianos, Navroji Dorabji Khandalavala, Kavasji Merwanji Shroff, Sorabji J. Padshah, Bahman Pestonji Wadia e P. Iyaloo Naidu entre muitos outros.


Templo Zoroastriano de Adyar. Fonte: Arquivo da Sociedade Teosófica Americana.


Sede da Sociedade Teosófica em Adyar desde 17 de Novembro de 1882


No decorrer dos anos este centro teosófico transformou-se num lugar de estudos e meditação para todas as religiões tendo sido criados um templo Hindu Bharata Samaj, um budista, outro Jainista e outro Sikh, bem como a igreja católica de São Miguel de Todos os Santos, uma mesquita, um templo zoroastriano e uma sinagoga judaica sem esquecer ainda um templo maçónico. Toda esta importante estrutura física consubstanciava um dos princípios teosóficos promotores do estudo comparado das religiões procurando eliminar a ignorância, a intolerância e promover a paz.

É assim, que no volume 1 da colecção Agnimile do Círculo de Estudos Orientais da Nova Acrópole, 1ª edição 2019, “A Chave para a Teosofia” p.59, Helena Petrovna Blavatsky define os propósitos da Teosofia:

“1. Formar o núcleo de uma Irmandade Universal da Humanidade sem distinção de raça, cor ou credo.

2. Promover o estudo das Escrituras Árias, entre outras, das religiões e das ciências do Mundo, e reivindicar a importância da literatura Asiática Antiga, nomeadamente, aquela das filosofias Brãhmânica, Budista e Zoroastrista.

3. Investigar os mistérios ocultos da Natureza sob todos os aspectos possíveis, especialmente os poderes psíquicos e espirituais latentes no Homem. Estes são, em linhas gerais, os três principais objectivos da S. T.".

 

Notas

[1] O Dabestãn ou “escola das religiões” é uma obra persa datada de 1655 d.C., que examina e compara as religiões Abrahamicas, Dhármicas e outras do século XVII da Eurásia e do sudeste, cuja autoria se atribui com alguma incerteza a Mollah Mowbad.

 

[2] Na ilha açoriana da Terceira, celebram-se anualmente entre o dia 1 de Maio e até final de Setembro, dezenas de touradas à corda, onde são “corridos” 4 touros seguindo-se o conhecido na gíria popular por “quinto touro”. Este “5º touro” consiste em banquetes realizados por particulares mas abertos à participação da comunidade num acto de amplo convívio e celebração fraternal. Estas festividades marcam um período de 6 meses e constituem globalmente um acontecimento inequivocamente identitário do povo terceirense, que cimenta o “espírito” festivo e democrático que o caracteriza. Estas celebrações unem sempre um acto “sacrificial” simbólico do touro a um banquete de partilha, tal como no culto mitraico romano.

 

[3] Helena Blavatsky, Glossário Teosófico, Edição CLUC – Centro Lusitano de Unificação Cultural, p. 273.

 


sexta-feira, 15 de março de 2024

Pitris, deidades solares e lunares

 

      Fonte: IA Bing Image Creator da Microsoft

Dois acontecimentos se entrecruzaram na minha mente, activando provavelmente as sinapses de dois neurónios, configurando, mais uma vez, talvez a expressiva e profunda mensagem que Miguel Ângelo deixou no tecto da Capela Sistina. Parece ser um processo recorrente!

Um deles resultou da leitura de um trabalho científico, produto de 11 investigadores oriundos das mais diversas e conceituadas academias do mundo europeu, americano, africano e do médio-oriente. O outro, que provocou a ignição da labareda intuitiva, deveu-se também a uma leitura feita em tempos anteriores, e editada dois séculos antes, da obra de Blavatsky, a Antropogénese.

Aquele, o trabalho de natureza científica a que me refiro, deve a sua publicação ao Journal of Modern Physics, Volume 10, de Janeiro de 2024 sob o extenso título Extraterrestrial Life in the Thermosphere: Plasmas, UAP, Pre-Life, Fourth State of Matter. Nele se revela um conjunto de hipóteses alicerçadas em numerosas investigações experimentais, como é apanágio daquela metodologia onde se exerce a esclarecedora actividade do escalpelo e do bisturi, e ainda de outros tantos factos iluminados pela inteligência humana, sobre um assunto que tem despertado a maior curiosidade mundial e alvo das mais acutilantes teorias da conspiração.

Refiro-me à existência do fenómeno OVNI, acrónimo da oculta designação de Objectos Voadores Não Identificados, também conhecido na língua inglesa por UFO - Unidentified Flying Object, mais recentemente designados por UAP - Unidentified Aerial Phenomena ou Fenómenos Aéreos Não Identificados, e que a Wikipédia esclarecidamente diz ter sido “utilizado no âmbito da National Aviation Reporting Center on Anomalous Phenomena – NARCAP”. Por muitas que sejam as siglas, mantêm-se contudo o seu carácter e origem absolutamente desconhecidos.

No entanto, aquele trabalho de investigação de 2024, resulta da análise acurada de imensos fenómenos registados e relatados por cosmonautas e astronautas (e talvez por taikonautas chineses, mas não divulgado) ao longo de todos estes anos envolvidos na exploração espacial) e antecedendo mesmo a década de 40 e o período da Segunda Guerra Mundial (então designados por “Foo fighters”).

Ali é referida a ligação do fenómeno UAP (mas certamente não de todos, como é salvaguardado) com a descoberta de plasmas com dimensões que atingem por vezes quilómetros de dimensão e que se manifestam na Termosfera terrestre, a zona fronteiriça com o espaço intergaláctico.

O plasma é tido como o quarto estado físico da matéria (depois dos estado sólido, liquido e gasoso) e origina-se na ionização das partículas subatómicas da matéria gasosa quando sujeitas a altas temperaturas cujo efeito dissocia os componentes do átomo em electrões e respectivos núcleos.

Diz aquele artigo do Journal of Modern Physics no seu Abstract, que “os “Plasmas” de tamanho superior a um quilómetro e comportando-se como organismos multicelulares tem sido filmados durante as 10 missões da NASA do Space Shuttle, acima das 200 milhas da superfície terrestre na região da Termosfera. Estes “plasmas” auto iluminados são atraídos e podem “alimentar-se” com a radiação electromagnética. Possuem diferentes morfologias: 1) cone, 2) nuvem, 3) donut, 4) esféricos – cilíndricos; e foram filmados evolucionando para cima e para baixo desde a Termosfera até às tempestades atmosféricas; agregando-se às centenas e interagindo com os satélites artificiais gerando actividade electromagnética; aproximando-se dos Space Shuttles.”

E mais adiante, de forma inequívoca, é-nos dito que os “Plasmas não são biológicos mas podem representar uma forma de pré-vida que através da incorporação de elementos comuns existentes no espaço, podem resultar na síntese de RNA”. Esta asserção é novamente vincada confirmando que estes plasmas possuindo cargas eléctricas polarizadas podem formar ”cristais de plasma” que formam sistemas helicoidais podendo evoluir para estruturas de dupla hélice semelhante ao DNA. Inclusivamente a transferência de cargas eléctricas poderia configurar um fenómeno semelhante à transferência horizontal de genes. Contudo, por mais de uma vez, assegura-se que de momento não existirem evidências dos plasmas conterem DNA, nucleótidos ou aminoácidos (já foram descoberto 92 aminoácidos no espaço intergaláctico), apesar de possuírem propriedades que os acercam das características de uma vida pré-biótica, incluindo estruturas do tipo parede celular, formadas por correntes eléctricas bipolares, tais como as estruturas bipolares das paredes celulares orgânicas. As similitudes são impressionantes quando nos mostram assumir comportamentos complexos tomando formas esféricas, ovóides, hélicoidais e apresentando muitas vezes um núcleo central protegido por camadas iónicas duplas de carga positiva e negativa, tal como as estruturas celulares dos organismos biológicos e ainda apresentarem fenómenos de pulsação que imitam movimentos de deslocação. Deslocam-se ora em linha recta, ora virando abruptamente 90 e 180 graus, ora dirigindo-se a outros plasmas e canibalizando-os energeticamente. 

Quando observados da superfície terrestre poderão assim configurar a presença e os movimentos de alguns UAP`s.

De tal modo são as semelhanças com os conhecidos organismos vivos, que dois investigadores, Lozneanu e Sanduloviciu, propuseram que estes plasmas semelhantes a entidades celulares constituíam uma forma de vida extra-terrestre completamente diferente daquela que conhecemos. De acordo com a Academia Russa das Ciências, na pessoa de V. N. Tsytovich, “Estas estruturas de plasmas complexos e auto organizados exibem todas as propriedades necessárias que as qualificam candidatas à matéria viva inorgânica”. Tanto Tsytovich como Teordorani argumentam que as condições necessárias para gerarem estes plasmas vivos são comuns no espaço potenciando a que sejam uma forma de vida abiogénica extra-terrestre muito comum.

Figura 1 – Plasmas com mais de 1 km de extensão configurando cones, donuts, formações nucleadas e espiraladas, registadas pela missão shuttle STS-75.
Fonte: Extraterrestrial Life in the Thermosphere: Plasmas, UAP, Pre-Life, Fourth State of Matter, Journal of Modern Physics, Vol 10, 2024

Verificou-se que estes plasmas reagiam às tempestades geomagnéticas, às fulgurações solares e às EMC`s – Ejecções de Massa Coronal solares, às mudanças de temperatura em resultado de eclipses e às ondas atmosféricas provocadas por flutuações electromagnéticas ambientais como radiação rádio, a Ressonância Shumann e fluxos de protões e electrões, emanados pelas tempestades solares. 
O Sol sendo o maior plasma na nossa vizinhança, retoma mais uma vez um papel central, ao condicionar o comportamento destes plasmas tidos como estruturas pré-bióticas que antecederam e são precursoras da vida como a conhecíamos até agora. 
Com isto reavive-se a mitologia solar! Fazemos parte de um grande organismo vivo, na certeza que estamos a desconstruir concepções e ideias anquilosadas do que considerávamos ser a Vida.

Está na hora de retomar “o fio à meada”. O fio de Ariadne que nos levará ao que nos propusemos logo no início deste tema. Para tal faremos referência a H. P. Blavatsy e à Doutrina Secreta (D.S.).

Para que não subsistam dúvidas sobre as opções acerca da evolução defendidas pela filosofia teosófica, transcrevo da D. S. - antropogénese: “Se o homem é realmente o Microcosmo do Macrocosmo, o ensinamento nada tem de impossível e é de todo lógico. Porque o homem se converte em Macrocosmo para os três reinos que lhe são inferiores. De um ponto de vista físico, todos os reinos inferiores, excepto o reino mineral – que é a própria luz cristalizada -, desde as plantas até às criaturas que precederam os primeiros mamíferos, se consolidaram em sua estrutura física por meio da “poeira abandonada” pelos minerais e dos resíduos de matéria humana, provenientes de corpos vivos e mortos, de que se alimentam e lhes deram o seu corpo externo. Também o homem, por sua vez, se transformou, graças às transmutações alquímicas da Natureza, ao passar pelos cadinhos vivos dos animais.” (DS, pp187). Aqui se espelham as mais recentes ideias, de que “somos pó das estrelas”, de que somos o produto de uma vasta evolução de consecutivos reinos, originados na Terra Arqueana pré-biótica, onde os aminoácidos e nucleotídeos, agrupados nos primevos polímeros de RNA, fornecidos por meteoritos carbonáceos, aumentavam de concentração através de ciclos contínuos de fases húmidas e secas , “as transformações alquímicas da natureza” vistas à luz ocultista do século XIX.
No entanto surge na DS o conceito de “Construtores”, os Pitris Lunares e Solares, aquelas entidades pré-existentes de natureza um tanto “espiritual” que vão instilar no homem os seus conteúdos  e características.

Todas as mitologias estão recheadas por cultos lunares e solares.
Diz o Vishnu Purana, volume III, capítulo II, que os primeiros homens foram os Chhâyâs, emanados dos Pitris. Blavatsky faz-lhe referência: “É a encantadora história de Sanjna, a filha de Vishvakarman, casada com o Sol. Sanjna, “não podendo suportar os ardores do seu Senhor”, lhe deu a sua Chhâyâ (sombra, imagem ou corpo astral), enquanto se refugiava na floresta para praticar as suas devoções religiosas ou Tapas. O Sol, crendo que a Chhâyâ era a sua mulher, teve filhos com ela…”. (DS, pp191). Comparemos Sanjna à nossa Termosfera e Chhâyâ aos plasmas. O Sol através da sua intensa actividade, expressa nas ejecções de massa coronal, a matéria da sua própria natureza constituinte, e fulgurações explosivas de dimensão titânica, projecta no espaço interplanetário, potentíssimas correntes eléctricas, raios X e gamma e ondas rádio que vão criar corpos plasmáticos como se de filhos seus se tratassem. Estes, como vimos evoluem desde a Termosfera até à Ionosfera, comportando-se como seres vivos abiogénicos, podendo recolher material orgânico, por exemplo deixado pelas esteiras dos meteoritos carbonáceos.
Aqui parece residir a alegoria solar e dos respectivos Pitris.

Sabemos hoje que a vida na Terra surgiu entre 3,5 e 4,5 mil milhões de anos. Corolário provável de um conjunto de homeostasias como a nova força exercida pela gravidade de uma lua, a sua presença protectora em grande parte ao bombardeamento meteorítico tardio e a estabilidade magnética conferida à Terra e ao seu eixo, levaram a que o clima passesse a ser regulado por estações. 
Outras homeostasias: a Terra, ao ter sido impactada por Theia, adquire um núcleo interno, um acréscimo de água, placas tectónicas, ganha uma lua (agora uma parte significativa da antiga Terra) que cria sinergias com o novo planeta e tem assim condições para que a vida vingue e evolua.
Este acontecimento inesperado, e as sinergias criadas, terão acelerado ou mesmo justificado o aparecimento de vida. Um corpo planetesimal gelado que se encontrava na mesma órbita do que a Terra, num ponto de Lagrange L4, viria a fazer pender o prato da balança, sobretudo no que respeita à presença da água na futura Terra. Não fosse este acontecimento e a Terra seria apenas uma estrutura rochosa estérea muito semelhante a Vénus, sem um campo magnético e sem placas tectónicas. Por outro lado, a presença do efeito gravitacional da Lua induziu a uma oscilação muito pequena do eixo da Terra à medida que evolui em torno do Sol.

Segundo a Teosofia, e o seu sistema complexo de Rondas, Cadeias e Globos, a Lua é definida como um resíduo de um Globo muito maior, que foi o planeta físico da 3ª Cadeia mantendo a mesma posição na 3ª Cadeia que aquela mantida pela Terra na 4ª Cadeia e que irá desaparecer no futuro (na 7ª Ronda). A coincidência de eventos e as previsões parecem ser totais.
Esta será então o que parece ser a alegoria lunar e dos seus Pitris.

 Este sistema complexo, umbilicalmente ligado ao conceito de Constituição Septenária, estende-se à evolução planetária quando atribui a cada corpo do sistema solar, sob a designação de Globo, a existência simultânea de sete dimensões ou Globos, dos quais apenas um é materialmente visível. No seu conjunto formam uma Cadeia que agrupadas em ciclos de 7 definem uma Ronda em que foram percorridos 49 Globos. A doutrina postula que cada planeta evolui durante sete Rondas estando o nosso planeta presentemente a atravessar o período correspondente à 4ª Ronda. Os Puranas hinduístas designam os Globos por Dvipas sendo a Terra conhecida por Jambudvipa. 

É ponto assente que ambos os Pitris – lunares e solares, contribuíram para o aparecimento do homem. Os lunares por pertencerem à cadeia planetária da Lua, contribuíram com o conjunto de homeostasias que descrevemos anteriormente, designados por princípios inferiores pela DS. Decididamente aqueles que garantiram definitivamente as condições de equilíbrio e as bases para o surgimento da vida. 
Já os solares, referidos como Dhyan-Chohans, são os responsáveis por fornecer os atributos dos princípios superiores ou aqueles que emanados directamente do Sol, garantiram o aparecimento de soluções cumulativas de índole energética, que de abiogénicas e extra-terrestres – sob a forma de plasmas, evoluíram até formas superiores biológicas onde a consciência fez caminho no decurso de muitos éons.
Outras mitologias cosmogónicas construíram-se em torno destes dois princípios, sempre apresentados sob um carácter dualístico, por vezes adquirindo aspectos de género – feminino versus masculino, forças de cariz positivo-negativo, Yin-Yang.

O culto solar fez um longo percurso histórico nas tradições religiosas e culturais dos povos: surge nos deuses hinduístas védicos Savitr e Surya, que fazem parte dos Adityas, os sete deuses solares que representam, ao fim e ao cabo, as sete frequências de luz visível (as sete cores do arco-irís). As divindades solares são referência em todas as obras védicas: Surya aparece no Ramayana na figura do rei-macaco Sugriva e no Mahabharata, Kunti a mãe dos heróis Pandavas alimenta a culpa de ter dado vida a uma criança, fora do casamento e contra sua vontade, filha do Sol. 

Figura 2 - Savitar e Surya na sua carruagem de ouro, representam o Sol.
Fonte: Pieter Weltevrede, http://www.sanatansociety.com


Mais tarde vai estar plasmados na heliolatria grega do culto solar onde pontificavam os deuses Apolo e Hélio, este último adoptado posteriormente ao equivalente do deus romano Sol Invictus, transformado pelo imperador Aureliano na primeira divindade do Império pré-cristão.
No Egito dinástico, também surgem diversas deidades associadas ao Sol e aos cultos solares, onde se destacam os de Ámon, Rá, Hórus e Áton e Hator com papéis preponderantes nos mitos da criação revelados nos Textos das Pirâmides. Os cultos solares, atestando a sua importância, estiveram associados às grandes cidades egípcias, Hermópolis Heliópolis, Mênfis e Tebas.

A par dos mitos solares, os lunares e as suas deidades estão presentes em todas as mitologias (confira em https://es.wikipedia.org/wiki/Deidad_lunar). A deidade lunar em algumas mitologias adquiria poderes superiores à deidade solar, uma vez que tanto habitava a noite como o dia, para além de encobrir o Sol durante os eclipses. Era a deidade que representava a estabilidade cíclica que permitia, com o seu calendário próprio, as sementeiras, o florescimento das culturas agrícolas e a realização de boas colheitas. O eterno retorno vinculado à celebração dos ritos e à marcação da passagem do tempo.
As duas deiades representavam a Vida nos seus múltiplos aspectos: “Deste modo, os irmãos gémeos (Castor e Pólux) vivem alternativamente, um durante o dia e o outro durante a noite.” (DS, pp 138). Um é mortal e o outro imortal. A dualidade sempre presente na construção da Vida.

Voltemos àqueles plasmas abiogénicos, concebidos como estruturas pré-bióticas ( e portanto imortais), são como entidades “Construtoras”, os Devas solares e lunares, que albergam no seu seio os elementos essenciais ao surgimento da vida biológica (mortal), como a conhecemos. Diz Blavatsky na Doutrina Secreta: “Usando uma metáfora, embora insuficiente para exprimir a ideia completa, mas bem adaptada ao caso, diremos que esses Criadores (querendo referir-se aos Pitris), são como os raios numerosos do orbe solar; este permanece inconsciente da obra realizada por aqueles, e nela não intervém, enquanto seus agentes mediadores, os raios, servem de meios instrumentais em cada primavera - a aurora manvantárica da Terra - e fazem despertar e frutificar a vitalidade adormacida inerente na Natureza e em sua matéria diferenciada.” (DS, pp 175).
Nas alegorias exotéricas os Pitris estão sempre ligados ao fogo, o que é o mesmo que dizer aos plasmas, quarto estado da matéria. É assim que no complexo sistema dos cultos solares e lunares hinduístas as entidades mais elevadas e puras, designadas por Agnichvâtta-Pitris, os Devas ou ainda os Mânasa-Dhyânis, são as verdadeiras entidades solares, portadoras do “fogo” interior, que farão brotar a inteligência e a consciência; enquanto as lunares, conhecidas como Barhichad-Pitris ou os Prajâpatis inferiores, são aquelas entidades “criadoras” ligadas à formação da Lua e ao surgimento das condições materiais necessárias à vida no planeta Terra, como resultado da colisão com o proto-planeta Theia. De acordo com a DS iremos encontrá-los correspondendo às características dos Elohim, transmitidas pelas doutrinas cabalísticas e bíblicas, que posteriormente em éons de tempo de evolução, irão conferir o aspecto mórfico ou físico do futuro homem. Aqui associa-se outro tema defendido pelo biólogo Rupert Sheldrake e colocada em evidência pela recente descoberta do Electroma, ambos a reavivarem os conceitos ancestrais de Prana e Fohat.

Em conclusão, podemos seguramente afirmar que em resultado da convergência de dois eventos criaram-se duplas sinergias: de um lado os plasmas termosféricos criados pela actividade solar - o “fogo” -, e por outro da imprevista formação da Lua – na designação esotérica de “Cadeia Lunar” e que irá condicionar a existência da futura “Cadeia Terrestre” -, criam-se as condições necessárias e suficientes para que a vida apareça e com ela, na escala evolutiva, o futuro homem.
Corresponde isto à visão actual das coisas nos mais variados domínios da Ciência.

Poder-se-ia argumentar contrapondo com uma apreciação probabilística: a casualidade dos discursos esotéricos e exotéricos e aquele das estruturas existentes na Termosfera terrestre. Mas nem aqueles das teorias filosóficas nem as hipóteses científicas agora elaboradas em bases factuais, são construções casuísticas do pensamento humano. Devem-se ambas, por um lado a elaborados sistemas mitológicos exotéricos construídos durante milénios e fazendo parte da cultura da humanidade, e por outro, das descobertas resultantes de saturados investimentos no domínio da actividade aeroespacial e dos avanços do conhecimento humano realizados neste século.

Em qualquer caso, fica aqui lançado o repto a outras hipóteses que nos possam esclarecer sobre este intrincados assuntos ligados às doutrinas esotéricas milenares e reflectidas em todas as mitologias. 

“Os véus que ocultam os verdadeiros mistérios da Filosofia Esotérica são densos e intrincados, e ainda hoje não se pode dizer a última palavra. Contudo, algumas pontas podem agora ser levantadas, proporcionando-se ao estudante realmente interessado certas explicações que até então lhe eram negadas.” (DS, pp 328).


Bibliografia

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Helena Petrovna Blavatsky, Doutrina Secreta – Antropogénese, Volume III, Editora Pensamento-Cultrix, Ltda., 1980.


João Porto e Ponta Delgada, 15 de Março de 2024


O PROBLEMA DOS 3 CORPOS

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