segunda-feira, 1 de novembro de 2021

O Universo magnético e Fohat


por João Gabriel Fonseca Porto

Na última década deste século, a Astronomia e a Astrofísica tem utilizado recursos observacionais gigantescos, quando comparados com as décadas anteriores, e que envolvem a pesquisa nos mais diversos comprimentos de onda, de objectos do céu profundo tais como aglomerados de galáxias, conduzindo a descobertas cosmológicas espantosas, redefinindo teorias ou ajustando concepções, sempre alargando o nosso campo de visão a panoramas conceptuais e estruturais até há pouco impensáveis e por vezes parecendo pertencer ao reino da fantasia pura dos contos de fadas.

É o caso da utilização do LOFAR – Low Frequency Array, arquitectado em 2012 e que cresceu sobre uma rede de mais de 70.000 pequenas antenas espalhadas por nove países europeus. Captura imagens na frequência rádio FM (110 a 190 megahertz) que, por serem mais longas, não são absorvidas ou bloqueadas pelas poeiras e gases disseminadas no espaço inter-galáctico. No fundamental o trabalho partilhado em rede por estas dezenas de milhar de antenas, cria na prática um telescópio virtual equivalente a uma lente de 120 quilómetros de diâmetro.

Vivemos numa Era de redes e de partilha de dados que permitem criar “pipelines” de distribuição de dados e de imagens digitalizadas com resoluções até há pouco tempo impossíveis de alcançar, disponíveis a todos os astrónomos ou a qualquer comunidade científica esteja em que parte do mundo for. A grandiosidade deste projecto é-nos dada quando sabemos que a obtenção de uma única imagem equivale á manifestação de 13 terabits de informação ou à memória física equivalente de 300 DVD`s, como também pela dimensão internacional do próprio projecto que reforça o facto de a Ciência não ter fronteiras.

A pesquisa em múltiplas frequências, desde micro-ondas, raios X, raios gama, ondas rádio e agora as ondas gravitacionais, permitem descortinar fenómenos distantes a muitos milhões de anos-luz, recuando à juventude do Universo, envolvendo a formação estelar, o âmago das galáxias, os seus núcleos galácticos activos, o bater do seu coração – os buracos negros hiper-massivos.

A análise de toda esta informação tem revelado a existência de um Universo magnético povoado por campos de forças que modelam redes de filamentos electromagnéticos que confinam os fluxos de matéria, onde circulam electrões a velocidade lumínicas, estruturando deste modo a designada “Web Cósmica” e perpassando todo o espaço por mais vazio que seja.

A grande questão que se coloca é relativa à sua origem: estes campos de força colossais não podem ter sido originados pelas explosões de Supernovas ou apenas pelos Núcleos Galácticos Activos (NGA`s). Pela sua dimensão e natureza universal deverão estar relacionados com a origem do próprio Universo e, muito provavelmente, com a sua expansão acelerada de 67.4 quilómetros por segundo por megaparsec, verificada em 1998 pelo Supernova Cosmology Project e pelo High-Z Supernova Search Team (agraciados por um Prémio Nobel da Física), através da informação obtida pelo observatório espacial Planck.

Figura 1 – Fundo Cosmológico de Micro ondas.

Crédito: European Space Agency, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

Esta expansão foi confirmada posteriormente através das medições das designadas “baryon acoustic oscillations”, que deram exactamente o mesmo valor H0 = 67.4, (H0 é a constante de Hubble). Contudo este valor já foi alterado para H0 = 73.3 pela análise do efeito lenticular gravitacional produzidos por 6 Quasares, trabalho conduzido pelo grupo de cosmologistas conhecido por H0LiCOW e depois para H0 = 74.0 pelo grupo SH0ES. Em qualquer caso a expansão é superior à obtida pelo satélite Planck que nos ofereceu a bonita imagem do Fundo Cosmológico de Micro-ondas onde o Universo surge apenas com 380.000 anos de idade, quando se tornou “transparente” a uma temperatura de 27000 Célsius.

Estes estudos representam afinal um dos métodos de medir a velocidade de expansão do Universo, fundamentados nas observações ditas “locais” como as realizadas pelos grupos H0LiCOW e SH0ES. Ultrapassadas estão as medições da década de 1930 do observatório do Monte Wilson feitas por Edwin Hubble e Vesto Slipher, correspondentes a 528 quilómetros por segundo por megaparsec, devido a erros sistemáticos subtis, entre os quais aqueles derivados do uso de estrelas Cefeidas situadas nas Nuvens de Magalhães (1).

Figura 2 – Nuvens de gás modeladas por “ventos” Electromagnéticos povoam o espaço galáctico. Constituídas essencialmente por hidrogéio e oxigénio, são o produto actual da explosão de Supernovas. A imagem mostra as NGC6960, NGC6974, NGC6979 e o Triangulo de Pickering que constituem parte da Nebulosa do Véu. Imagem do autor obtida em 23 e 25 de Outubro de 2021.

Alguns cosmologistas, como Karsten Jedamzik e Levon Pogosian, têm argumentado que um campo magnético fraco primordial, presente num universo muito jovem, de baixa entropia, poderia ter conduzido a este fenómeno constatado de rápida e acelerada expansão. Esta situação garantiria à partida uma flecha do tempo própria à nossa existência, reforçando a visão antropocêntrica que coloca o Homem como fim último ou pelo menos como etapa de uma ascese evolutiva, em que as propriedades e a natureza das coisas, nomeadamente da Constante de Hubble H0, derivam do estreito relacionamento Homem/Universo, da interacção Consciência/Matéria. A entropia não passaria então uma ilusão como defende Carlo Rovelli e os Vedas, distanciados por milhares de anos.

Figura 3 – Simulação do Universo pelo Projecto Milleninium Run que descreve as grandes estruturas cósmicas em 15/Mpc/h.

Crédito: Chang, Yi-Fang. (2021). Physical Science & Biophysics Journal Committed to Create Value for Researchers Information, Entropy Decrease and Simulations of Astrophysical Evolutions Information, Entropy Decrease and Simulations of Astrophysical Evolutions. Physical Science & Biophysics Journal. 2021. 000181.. 10.23880/psbj-16000181.

Centrados neste problema conhecido como “crise da cosmologia” ou “tensão cosmológica”, potenciada pela até agora indetectável matéria e energia escuras, e pela probabilidade de isto acontecer por mero acaso, ser agora inferior a 1/100.000, os cosmologistas demonstram agora admiração por nunca ter sido levado em linha de conta a natureza dos campos electromagnéticos ou o magnetismo nos estudos dos modelos tipológicos do Universo.

Se bem que o Fundo Cosmológico de Micro-ondas tenha confirmado a hipótese introduzida pela Relatividade Geral de Einstein de o Universo, visto em grande escala, ser homogéneo e isotrópico, ou seja que é possível observar as mesmas estruturas independentemente do lugar onde nos situemos, então como é possível, que a matéria, composta por hidrogénio e hélio, se tenha concentrado em filamentos e aglomerados para formar estrelas e galáxias 200 a 400 milhões de anos depois do Big Bang? Que forças estiveram presentes para que surgisse uma imensa teia de aranha representada por filamentos unindo galáxias e aglomerados de galáxias, também já confirmados por simulações digitais feitas em super computadores?

Acredita-se que uma plêiade de telescópios terrestres em construção (o Dark Energy Spetroscopic  Instrument e o Vera Rubin), assim como outros telescópios espaciais que serão em breve lançados (o James Webb e o Euclides), poderão serenar estas inquietações existenciais.

 

O magnetismo não é assunto tão recente quanto se possa pensar. Fenómeno nunca avaliado ou comentado no pensamento de Aristóteles, foi sempre encarado como uma propriedade oculta. Contudo em 1600 um médico inglês chamado William Gilbert (1544-1603), coperniciano convicto, realizou experiências sobre as então consideradas propriedades ocultas do magnetismo, dedicando grande parte da sua vida a investigá-las.

É do consenso geral que a bússola apareceu na Europa, o mais tardar, no século XII, vinda do oriente de um país tão distante como a China, pressupondo contudo já existir no Ocidente conhecimento das pedras magnéticas e dos seus efeitos, encarados como mágicos. Assim, Pedro, o Peregrino, julgava que as bússolas apontavam para o pólo celeste e que se alinhavam devido à presença de um íman celestial.

Foi William Gilbert que, como médico experimentalista e filósofo natural, encarou a experimentação laboratorial, desenvolvida até então pelos alquimistas, como fonte de dados que compilados e analisados levaram pela primeira vez à distinção entre magnetismo e electricidade estática. Para Gilbert, a Terra tinha uma alma, estava viva e possuía uma “mente astral magnética”. Citando James Hannam, para ele “todo o sistema solar era uma combinação de seres magnéticos que eram impelidos pelo espaço através da força do magnetismo.” (2). Esta é a primeira vez que no Ocidente, datando da Idade Média, encontramos uma relação entre o magnetismo e o cosmos, muito provavelmente inspirada por Giordano Bruno aquando da sua estadia em Oxford em 1583.

 

O magnetismo e o electromagnetismo só voltariam a ter honras de ciência no século XIX com três expoentes: Hans Christian Oersted (1771-1851), André-Marie Ampère (1775-1836) que construiu o primeiro electroíman na base do qual estão aparelhos como o telefone, o microfone, o alto-falante e o telégrafo, e ainda Michael Faraday (1791-1867), com a descoberta da indução electromagnética, na base dos motores mecânicos movidos a electricidade e dos transformadores. Finalmente James Clerk Maxwell (1831-1879), a quem se deve a descoberta da velocidade da luz e do campo electromagnético através de equações matemáticas, e que em 1863 unificou os fenómenos eléctricos e magnéticos.

Estes desenvolvimentos conduziram à formulação de um grupo de leis que informam o electromagnetismo e são expressas nas 4 equações de Maxwell, a saber a lei de Gauss para a Electricidade (que inclui a lei de Coulomb), lei de Gauss para o Magnetismo, lei de Ampère-Maxwell e a lei de Faraday-Lenz, todas complementadas pela lei de força de Lorentz.

Até o final do século XIX, acreditava-se que com estas equações não havia mais nada para ser descoberto na Física. Conta-se que quando jovem, Max Planck ao ter manifestado o ensejo de estudar Física foi aconselhado a não o fazer por esta ter supostamente atingido o seu fim. No entanto seria Max Planck que iniciaria o século XX como autor da Física Quântica e Albert Einstein com a Teoria da Relatividade Geral, abrindo novos caminhos ao conhecimento.

 

Poderá afirmar-se que até finais do século XX, o tempo foi de consolidar os aspectos que envolviam estas leis do magnetismo e do electromagnetismo, que nem mesmo a Mecânica Quântica e a Teoria da Relatividade Geral colocaram em causa, apenas ampliaram o seu campo de aplicação com a descoberta de novos estados da matéria (os condensados de Bose-Einstein, os plasmas de quarks e gluões, os estados superfluidos e os supercondutores, formas de transição entre os estados sólido e liquído e ainda a matéria degenerada encontrada nas estrelas de neutrões e anãs brancas).

Só muito recentemente com o surgimento de Projectos como o Millennium Simulation, motivados pelo paradoxo da Crise Cosmológica, estimularam outros estudos propiciados por tecnologia emergente, como o citado LOFAR, o Virgo Consortium na Itália, o GEO600 ou, o ainda mais recente, Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory – LIGO nos EUA (o sinal GW150914 só foi detectado pelo LIGO muito recentemente, em 14 de Setembro de 2015).

De facto, a lei do inverso do quadrado da distância em gravitação e electricidade, sugeria que, em analogia com as cargas eléctricas quando aceleradas produziam ondas electromagnéticas, também as massas aceleradas na Teoria da Relatividade num campo da gravidade podiam produzir ondas gravitacionais. As ondas gravitacionais propagando-se á velocidade da luz já haviam sido propostas, muito cedo em 1905, por Henri Poincaré.

Realmente se existem algumas forças que possam modelar o Universo em larga escala, essas forças serão a gravidade e a electromagnética. Ambas são portadoras das duas faces de Janus, o deus romano das transições e dos começos, representando o passado e o futuro, a polaridade positiva e negativa no electromagnetismo, a atracão das massas e a repulsão – vista como a expansão acelerada do Universo -, na gravidade.

Contrariamente á electricidade, que como fenómeno local é transitório e de curta duração pela anulação das suas polaridades, os campos magnéticos, apenas visíveis pelos efeitos produzidos sobre a matéria, criados na origem das cargas eléctricas, persistem e desenvolvem-se no espaço-tempo. Foi assim, que as observações do LOFAR, conduziram á descoberta em meados de Novembro de 2014, de emissões de rádio de baixa frequência nos enxames de galáxias Abell 0399 e Abell 0401, unidos por filamentos electromagnéticos, que conduziam fluxos de electrões a velocidades quase lumínicas com Efeito Sincrotrão (emissão de radiação).

Esta descoberta levou ao aparecimento de uma nova temática denominada teoria da magnetogénese (Harrison, E. R., 1973). Tenta explicar como nos primeiros segundos do Big Bang aconteceu a quebra de simetria com a fase de Bariogénese, entre 10 - 12 e 10 - 4 segundos após o Big Bang, onde acontece a separação das forças electromagnéticas das forças nucleares fracas (Vachaspati, 1991). Surgindo como magia do “vazio”, todo o manancial de energia traduzido na aniquilação de pares de partículas e anti-partículas (bariões são partículas subatómicas compostas por três quarks.) com a consequente turbulência electromagnética que se expandiria aceleradamente, criando uma estrutura filamentar e de vórtices que perpassa por todo o Universo manifestado.

O maior problema tem sido a detecção dos efeitos destes campos electromagnéticos. A investigação tem se centrado no mencionado Efeito Sincrotrão, quando as partículas de carga rodam em vórtices perto da velocidade da luz emitindo frequências de rádio, e no Efeito Faraday quando a intensidade do campo magnético faz rodar a polarização da luz que passa por ele. A esperança cresce agora com o Projecto SKAO – Square Kilometer Array Observatory Consortium, que entrará em funcionamento em 2027 e de que faz parte Portugal.

Até lá, no entretanto, poderemos recuar até às Estâncias de Dzyan, pergaminhos esotéricos antiquíssimos de origem tibetana, que se consideram ser os escritos mais antigos do mundo, recuando à Cabala Caldaica e à Judaica ou ao próprio Taoísmo.

Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891) ao comentar estas estâncias na Doutrina Secreta, no tomo relativo à Cosmogénese, lembra que o conceito sânscrito de Fohat está ligado ao da “electricidade cósmica” no âmbito de uma bipolaridade inata à própria Natureza e representada pela potência activa (masculina) e por Sakti como a potência reprodutora (feminina). No seu conjunto poriam em acção as leis da evolução cósmica, também referida como aspecto dos Trigunas na filosofia Hinduísta – Rajas, Sattva e Tamas. Também aqui as partículas bariónicas (protões e neutrões) são compostas por 3 quarks. A semelhança é espantosa com o processo da Bariogénese aceite pela cosmologia actual e anteriormente descrito de forma muito sumária!

Figura 4 – O deus Janus.

Crédito: commons.wikimedia.org/wiki/File:Janus1.JPG

Diz H. P. Blavatsky em Cosmogénese, nos seus comentários às Estância V (3): “Fohat é, portanto, a personificação do poder eléctrico vital, unidade transcendente que enlaça todas as energias cósmicas, assim nos planos invisíveis como nos manifestados; sua acção se parece – numa imensa escala – à de uma Força viva criada pela Vontade, naqueles fenómenos em que o aparentemente subjectivo actua sobre o aparentemente objectivo e o põe em movimento.”

E mais adiante confirma: “No plano cósmico, está presente no poder construtor que, na formação das coisas – do sistema planetário ao pirilampo e à singela margarida -, executa o plano que se acha na mente da Natureza ou no Pensamento Divino, com referência à evolução e crescimento de tudo o que existe.” Segundo Blavatsky, Fohat é muitas vezes designado como o “Mensageiro” ou, diríamos nós, o campo quântico electromagnético que transmite a força que vai modelar o Cosmos.

Um Universo magnético, que poderá seguramente em certas circunstâncias concorrer/emparelhar com a gravidade, que mais não é do que o espaço-tempo curvado pela matéria/massa/energia, foi no entanto assumido pelos textos filosóficos mais antigos da humanidade, numa simbologia propositadamente oculta e envolta na mitologia que chegou até nós (exemplo da mitologia greco-romana com Eros e Cupido), transcorridos milénios, e que moldou as mais importantes mensagens religiosas, contudo já sem o impacto do seu verdadeiro significado na memória da humanidade.

 

Saído das oscilações do vazio quântico, também denominado na Teosofia como a “Substância Absoluta”, “Trevas Primordiais”, “Pensamento Divino”, também designado pelos hinduístas de Svabhâvat, e na Cabala hebraica conhecido como Ain-Soph, Fohat é considerada, em termos gerais, a força agregadora dos elementos constituintes da matéria, no sânscrito Prakriti emanada por Purusha, e estando também na origem do electromagnetismo cósmico tradicionalmente conhecido como Kundalini ou Prana, quando referido aos aspectos biológicos da vida.

 

Assume a tradição oculta que os campos quânticos do Fohat são em número de 49, desdobrando-se em 7 planos vibracionais principais (4) cada um composto por 7 subplanos, que irão corresponder a dimensões distintas que caracterizam os estados evolutivos da matéria, como se esta para além dos 5 estados actualmente conhecidos pela ciência (sólido, liquido, gasoso, plasma e condensados Bose-Einstein) pudesse assumir muitos outros campos de força de natureza quântica ainda desconhecidos.

 

Fohat, concebido nesta tradição, como um “Raio Único”, designado também como o “Solitário dos Céus” nas Estâncias de Dzyan, poderá ser traduzido como sendo uma ressonância emitida pela oscilação do vazio quântico característico do espaço vazio absoluto, logo no início do Big Bang ou na última/primeira fase se considerarmos o modelo Cosmológico Cíclico Conformal (CCC) de Roger Penrose, e que irá diferenciar-se em 49 vibrações harmónicas de campos quânticos, entre as quais os campos electromagnéticos primordiais que poderão assim ser mais fundamentais do que os fotões, encarados como funções de onda da partícula da luz.

 

De facto, os campos quânticos comportam-se como um “material” elástico, propagando-se no espaço-tempo, que tal como um corda de uma viola, podem vibrar com múltiplas frequências de ressonância. Ora, para haver ressonância é necessário aplicar uma força oscilante exterior na frequência natural do “material”, cuja vibração aumentará de imediato. Ou seja, com a aplicação de uma força externa é possível gerar uma multiplicidade de frequências. Este desiderato foi trabalhado por Pitágoras ao descobrir os tons consonantes e a escala musical.

Assim sendo, um campo quântico pode funcionar como uma força externa enquanto outro pode interagir de imediato e ressoar um quanta de vibração. Ou seja a oscilação do vazio poderá produzir uma multitude de frequências que vão gerar partículas, os primeiros bariões.

 

Deduzida da amplamente conhecida fórmula de Einstein

 

E = mc2 onde E = hf (Energia = constante de Planck vezes a frequência)

 

a frequência de um campo quântico sobre outro de massa m pode fazer ressoar um quanta de vibração se aquela frequência for

Assim, o quantum de campo da inflação poderá comportar-se como um grande conjunto de osciladores como o faz uma corda de viola ao vibrar. No entanto a inflação cósmica sincroniza todas essas fases, como se a cacofonia de notas de uma orquestra em ensaio fosse convergindo para a mesma nota musical. No fundo trabalho executado pelo efeito da entropia, a segunda lei da termodinâmica.

Seguindo o pensamento de Chiara Marletto, expresso na sua recente Teoria dos Construtores, poderemos afirmar que Fohat terá sido um “construtor”, um “substrato” entre outros, constituído por informação de natureza quântica – os Lipikas sânscritos, os “catalisadores” (5), a referida força exterior, que fez o ajuste fino para que o campo de inflação tivesse as propriedades correctas, para que o Universo, pudesse existir com as suas forças electromagnéticas e forças nucleares forte e fraca, possuidoras das grandezas adequadas, ajustadas como uma parte em um milhão de milhões. Para que um novo Manvatara tivesse início deixando para trás “Pontos de Hawking” emitida pelos Buracos Negros hipermassivos primordiais e visíveis ainda na radiação cósmica de fundo, como impressões digitais.

Tal como na música, a “oitava maior” da escala tem repercussão na “oitava menor”, assim o desdobramento de ressonâncias do campo de inflação evitou qualquer desvio deste número tão insignificante de   que conduziria a um Universo manifestado inabitável. 

Pitágoras chamou-lhe a “Musica das Esferas”, a Doutrina Secreta os 49 (7x7) Fogos de Fohat.

É espantoso como a actual Cosmologia, recorrendo à Física Quântica, e a doutrina secreta revelada nos Vedas, nos Puranas, no Bhagavad Gita ou em outros textos de filosofia milenar, se entrecruzam e caminham na mesma direcção.

 

Ponta Delgada, 1 de Novembro de 2021

Notas

(1) Diferentes métodos têm dado diferentes resultados. Enquanto o Fundo Cosmológico de Micro-ondas mediu 67,4 km/s/Mpc, as Cefeidas 73,2 km/s/Mpc, as Estrelas Gigantes Vermelhas 69,6 km/s/Mpc, as Supernovas do tipo 1A 72 km/s/Mpc, os Quasars 73,3 km/s/Mpc, por último as ondas gravitacionais mediram 69 km/s/Mpc (ainda em calibração de método). Por exemplo uma Constante de Hubble H0 igual a 73,3 km/s/Mpc significa que a cada segundo, um cubo de espaço com 1 Mpc de lado cresce 73,3 quilómetros.

(2) James Hannam, A Origem da Ciência, pag.302.

(3) Helena Blavatsky, Doutrina Secreta, Volume I, Cosmogénese, Estância V.

(4) O Hinduísmo e o Budismo possuem as sete “Lokas” ou “Mundos”.

(5) Em “The Science of can and can`t”, Chiara Marletto afirma: “… muitas das transformações que são possíveis no mundo físico devem ocorrer através de um catalisador que as promove. Também já notei que todos os catalisadores devem conter um catalisador abstracto, ele próprio feito de conhecimento (knowledge) …. Conhecimento é definido integralmente por contra factos: é informação que é capaz de permanecer identificada em sistemas físicos.”

Bibliografia

Chiara Marletto, The Science of can and can`t, Penguin Books, 2021.

F. Govoni, E. Orrù, A. Bonafede, M. Iacobelli, R. Paladino, F. Vazza, M. Murgia, V. Vacca, G. Giovannini, L. Feretti, F. Loi, G. Bernardi, C. Ferrari, R. F. Pizzo, C. Gheller, S. Manti, M. Brüggen, G. Brunetti, R. Cassano, F. de Gasperin, T. A. Enßlin, M. Hoeft, C. Horellou, H. Junklewitz, H. J. A. Röttgering, A. M. M. Scaife, T. W. Shimwell, R. J. van Weeren, M. Wise, Supplementary Materials for a radio ridge connecting two galaxy clusters in a filament of the cosmic web, Science 364, 981 (2019).

H. P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Volume I, Cosmogénese, Editora Pensamento, 2020.

Harrison, E. R., Magnetic fields in the early Universe, Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, Vol. 165, p. 185 (1973), 1973.

James Hannam, A Origem da Ciência, Alma dos Livros, 2021.

Robert P. Kirshner, O Universo extravagante, Forum Ciência, Publicações Europa-América, 2005.

Tanmay Vachaspati, Magnetic fields from cosmological phase transitions, Physics Letters B, Volume 265, Issues 3–4, 1991, Pages 258-261, ISSN 0370-2693, https://doi.org/10.1016/0370-2693(91)90051-Q.








 


 

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Hermes Trismegisto para “Dummies”

 por João G. F. Porto

Hermes Trismegisto ou Hermes, acredita-se ter sido um sábio que viveu no Egipto antigo (cerca de 1300 a.C. considerado como contemporâneo de Moisés), o Três Vezes Grande, sendo esse o nome dado pelos neoplatónicos ao deus egípcio Toth, que é identificado com o deus grego Hermes.

Após a conquista do Egipto por Alexandre, o Grande, que acabou levando a uma miscigenação entre costumes gregos e egípcios, este nome pretendia assimilar Hermes / Mercúrio, o deus greco-romano da comunicação e mensageiro dos deuses, a Toth, o deus egípcio das letras, dos números e da geometria, um deus de sabedoria e erudição. O epíteto egípcio “Três Vezes Grande” deu origem à expressão grega Trismegisto, que surgiu pela primeira vez em inscrições encontradas em Akhmim no Alto Egipto, datadas de 240 d.C.

Os gregos desde o tempo de Heródoto e mesmo antes acostumaram-se a atribuir a Hermes Trismegisto os escritos do deus egípcio Toth. Em certa medida, todos os escritos egípcios traduzidos para o grego e depois para o latim que fossem atribuídos a Hermes Trismegisto, mesmo que isso não fosse a realidade, conseguiam algum destaque para autores menos conhecidos. Um escrito ganharia mais peso se manifestasse a sua origem revelada do saber sagrado e secreto de Hermes Trismegisto. Foi assim que nos chegaram as primeiras referências duais a Hermes Trismegisto. Enquanto os primeiros representavam doutrinas filosóficas sérias provindas de escolas neoplatónicas (exemplo de Ammonio Saccas, Plotino), comprometidas na busca da “verdade”, os segundos relacionavam-se com as pseudociências da astrologia, magia e alquimia.

Esta dualidade revelar-se-ia de forma consistente após a Idade Média nos princípios do Renascimento onde a procura de manuscritos antigos da literatura remanescente da Grécia antiga pelos estudiosos humanistas ocidentais foi apoiada por exemplo pela criação da Biblioteca Laurenciana de Florença, por Cosme Médicis (1389 – 1464) para acolher o saque de Constantinopla e que continha já 3000 manuscritos quando abriu ao público em 1571.

Marsílio Ficino (1433 – 1499) no papel de tradutor de Cosme, reunia os manuscritos do Diálogo de Platão, cujos escritos eram quase desconhecidos na Idade Média e onde imperava o pensamento Aristotélico, mas que agora sob o auspício financeiro dos Médicis, Leonardo da Pistoia descobria um outro manuscrito num mosteiro macedónio escrito por Hermes Trismegisto, datado de 1300 a.C., ao tempo do êxodo de Moisés do Egipto, acreditando-se estar na base da formulação da filosofia platónica. Nada mais do que o Corpus Hermeticum!

A sua tradução do grego antigo para o latim teve um impacto muito grande, gerando uma volumosa literatura de comentários e discussões em parte devido à reformulação dos conteúdos relativos a magia, alquimia e astrologia de modo a serem adaptados e deste modo aceitáveis pelo cristianismo. De tal maneira que o próprio Papa Alexandre VI (1431 – 1503) mandou decorar os seus aposentos privados no Vaticano com figuras astrológicas onde era incluído a própria figura de Hermes Trismegisto em conversa com Moisés e com a deusa egípcia Ísis.

Foi assim que se desenvolveu o designado esoterismo ocidental com Marsílio Ficino e Giovanni Pico della Mirandola, um sincretismo de hermetismo, neoplatonismo, cabala, tradições mágicas que passaram da Idade Média ao Renascimento e do cristianismo no século XV.

Contudo em 1614 Isaac Casaubon (1559 – 1614), um protestante francês exilado na Inglaterra, refutava o mito criado pelas traduções para o grego/latim em torno do Corpus Hermeticum, revelando erroneamente ser uma falsificação, o que provocou um enorme embaraço e o afastamento progressivo dos intelectuais e estudiosos da sua leitura e interpretação.

Esta situação motivada pela falta de outras provas que pudessem consubstanciar a natureza verdadeira do Corpus Hermeticum viria a dar uma volta de 180 graus quando em 1945 são descobertos, por dois irmãos vivendo no Alto Egipto na localidade de Nague Hamadi, 13 códices manuscritos em papiro envoltos em couro num pote de barro selado, numa gruta calcária na base de um penhasco chamado Djebel El-Tarif. Os códices continham textos sobre cinquenta e dois tratados na sua maioria gnósticos, além de incluírem também três trabalhos pertencentes ao Corpus Hermeticum e tradução/alteração parcial de “A República” de Platão. Esta descoberta da maior importância viria a confirmar de forma definitiva e categórica a autenticidade do Corpus Hermeticum e de Hermes Trismegisto.

Depois de muitas atribulações sofridas por estes manuscritos, encontram-se hoje depositados no Museu Copta do Cairo tendo sido declarados Tesouro Nacional Egípcio. Em 1970 foi constituído pela UNESCO e o Ministério Egípcio de Cultura, o Comité Internacional pelos Códices de Nague Hamadi. Com este acto foi assim dado o merecido reconhecimento científico a este espólio conhecido como a Biblioteca de Nague Hamadi. Posteriormente surgiram diversas edições em paperback em 1981, 1984, 1986 e 1988, esta última revista, completa e não adulterada, com o objectivo de divulgação dos textos gnósticos para o público em geral.

Ainda em 1995 os egiptólogos Richard Lewis Jasnow e Karl-Theodor Zauzich deram o nome de “O antigo livro egípcio de Thoth” a um conjunto de textos demóticos do Período Ptolomaico, reconstituídos a partir de papiros do século II a.C. sobre mais de 40 fragmentos e envolvendo um diálogo entre Toth e uma entidade designada por “ A-um-que-ama-conhecimento”. Este livro veio posteriormente a incorporar o Corpus Hermeticum bem como outros textos apócrifos.

Como entidade nascida no Egipto com outras designações, tais como Zehuti, Tehuti, filho de Seb e de sua irmã Nut, Thot/Hermes Trismegisto era o senhor do conhecimento mágico e dos segredos divinos colocados à disposição dos deuses e dos homens, o “senhor do heka” (magia) sendo esta certamente a fonte da relação da doutrina secreta com o conhecimento mágico.

Era também “aquele que separou as línguas de um país a outro” e “aquele que conta o tempo”, ou seja, o responsável pelas línguas egípcia e estrangeiras e pelo registo da passagem do tempo. Era tido como o escriba divino e criador da escrita, o que o associou ao deus Hermes pelos primeiros colonos gregos que se estabeleceram no Egipto, por volta do século VI a.C..

A primeira referência a um livro escrito por Toth talvez seja uma inscrição datada da XVIII Dinastia (1398 a.C.), encontrada em uma das estátuas do vizir Amenhotep depositadas no templo de Amon em Karnak. O texto sugere a existência de um livro que conteria os ensinamentos iniciáticos do deus, e que pode ser observado na inscrição: “Fui iniciado no livro do deus, vi as glorificações de Toth e penetrei nos seus segredos”.

Acredita-se que o próprio deus Toth teria deixado uma série de inscrições de carácter secreto ou hermético datado do Período Ptolomaico (III século a.C.) onde existiria uma descrição mais detalhada de um conjunto de textos iniciáticos escritos pelo deus Toth. De acordo com Clemente de Alexandria haveria 42 livros contendo todo o conhecimento necessário à humanidade, dos quais 36 conteriam a ciência dos egípcios e os restantes os conhecimentos de medicina, alquimia, astrologia e matemática. O deus Thot foi sempre associado aos aspectos presentes da cosmogénese, assim como às faculdades humanas relativas ao pensamento e ao conhecimento forçosamente ligado à escrita, sendo conhecido como “Senhor das Palavras Divinas”, dos hieróglifos, e das ciências. Representado tanto pelo babuíno e pela íbis com um Quarto Crescente de Lua no topo da cabeça (divindade lunar), tanto na forma animal quanto na híbrida. A primeira associada ao ofício do escriba e à veneração solar enquanto a segunda (forma humana com cabeça de íbis) associada ao seu aspecto de escriba divino, ao julgamento da alma, a Maat (a ordem cósmica) no seu aspecto lunar.

Os textos mais importantes atribuídos a Hermes Trismegisto são a Tábua de Esmeralda, os textos do Corpus Hermeticum e ainda outros textos apócrifos como o diálogo de Asclépio (o deus grego da saúde e da medicina) e que definem uma estrutura de pensamento filosófico conhecida como Hermetismo. A Tábua de Esmeralda, por ter sido gravada em uma tábua de esmeralda, é um dos textos mais conhecidos da literatura hermética e alquímica e teria fundado a alquimia árabe. A versão mais antiga encontra-se num tratado árabe do século VI, o Livro do Segredo da Criação, datado de 825 d.C.

Os princípios do Hermetismo poderão ser traduzidos em 7 axiomas, resumidos deste modo:

1 - Pensamento doutrinário simbólico assente no Princípio do Mentalismo: “O Todo é Mente; o Universo é Mental”.

2 - O homem como símbolo emblemático do mundo (relação microcosmo/macrocosmo) ou Princípio de Correspondência: “O que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima”.

3 - A existência da “anima mundi” ou Princípio da Vibração: “Nada está parado; tudo se move, tudo vibra”.

4 - A teoria das correspondências entre níveis ou o Princípio do Género: “o Género está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e feminino; o Género manifesta-se em todos os planos”.

 5 - A complementaridade dos opostos ou Princípio da Polaridade: “Tudo é duplo; tudo tem pólos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual, são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os Extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

6 - A ascensão da mente individual à região da Grande Mente ou o Princípio do Ritmo: “tudo tem fluxo e refluxo; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação”.

7 - A vida como transmutação pessoal ou Princípio da Causa e Efeito: “Toda a Causa tem o seu Efeito e todo o Efeito tem a sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei”.

Estes princípios traduzidos nos sete axiomas do Caibalion (curiosamente a palavra tem a mesma raiz da palavra Kabbalah que significa “Tradição ou preceito manifestado por um ente de cima") corporizam a popularização da mensagem de Hermes Trismegisto e do Hermetismo actual. O livro Caibalion foi escrito no final do século XIX por três iniciados. Ao contrário dos outros, não é um livro oriundo da era pré-cristã como popularmente se crê. Foi Publicado pela primeira vez em 1908 pela Yogi Publication Society sob o pseudónimo de "Os Três Iniciados", afirmando conter a essência dos ensinamentos de Hermes Trismegisto, tal como ensinado nas escolas herméticas do Antigo Egipto e da Antiga Grécia. Crê-se que o livro teria sido escrito por William Walker Atkinson, pois para além de ser o proprietário da editora, publicava livros do mesmo teor sob diversos pseudónimos.

A influência de Hermes Trismegisto tem atravessado todos os tempos. Modernamente foi frequentemente citado no romance “O Pêndulo de Foucault”, de Umberto Eco, e seu nome também aparece no romance “Picatrix”, de Valerio Evangelisti, e em muitos contos e romances de H.P. Lovecraft. Poderá considerar-se, tal como opinou a historiadora Frances A. Yates, que os Hermetistas desempenharam um papel extremamente significativo no desenvolvimento da ciência moderna com o Renascimento. Na tradição clássica ocidental, calcada na antiguidade tardia, Hermes Trismegisto adquiriu o papel importante de uma lenda, um ideal de sabedoria a ser seguido, o fundador do conhecimento, o profeta da ciência, o primeiro dos sábios.

Contudo a tradição hermética faz recuar no espaço e no tempo as origens destes conhecimentos. Helena Blavatsky, no volume V da Doutrina Secreta, dedica a sua introdução a “provar que a chave de interpretação proporcionada pelas regras orientais indo-budistas de Ocultismo se adpta tanto aos Evangelhos cristãos como aos livros arcaicos egípcios, gregos, caldeus, persas e hebreus”. Afiança que “Ensinava Amônio Sacas que a Doutrina Secreta da Religião-Sabedoria estava toda contida nos Livros de Thoth (Hermes); onde Pitágoras e Platão, beberam os seus conhecimentos e grande parte da sua filosofia; e que esses livros eram idênticos aos ensinamentos dos sábios do Extremo Oriente»”.

Em nota de rodapé em Doutrina Secreta V, Secção IV, H. Blavatsky faz questão em transmitir-nos esta mensagem profunda e transversal: “Os escritos da antiguidade muitas vezes personificavam a Sabedoria como uma emanação auxiliar do Criador. Assim, temos o Buddha hindu; o Nebo babilónico, o Thoth de Menfis, o Hermes da Grécia.” Acrescentando de seguida que: “Na Doutrina Secreta do Oriente esta função auxiliadora encontra-se colectivamente nas primeiras emanações da Luz Primordial, os Sete Dhyan-Chohans, cuja descrição se identifica com os “Sete Espíritos da Presença” dos católicos romanos.”. Eis então o fio condutor espiritual da humanidade que perpassa por todas as civilizações e culturas. Hermes Trimesgisto foi uma das pérolas desse longo colar, apenas um dos Construtores (avatares) propiciadores de metamorfose e mutação, física e espiritual do Homem, uma versão de uma mesma Entidade.

Hoje em dia, o Hermetismo faz parte de programas de estudo de organizações internacionais dedicadas à filosofia tais como a Nova Acrópole, sociedades teosóficas espalhadas por todo o mundo, escolas e academias de filosofia, inspirando a adopção de estilos de vida consentâneos com o respeito pela dignidade humana, o amor à verdade e ao conhecimento e a garantia de um desenvolvimento harmonioso entre pensamento, sentimento e acção.



Bibliografia

James Hannam, A Origem da Ciência (God`s Philophers), Alma dos Livros, 2021.

Helena Petrovna Blavatsky, A Doutrina Secreta, Síntese de Ciência, Religião e Filosofia, Tomo V, Editora Pensamento, 2020.

Hermes Trismegisto, Corpus Hermeticum Y outros textos apócrifos, Arca de Sabiduria, Editorial EDAF, 2019.

Os Tres Iniciados, O Caibalion, Publicações Maitreya, 2018.



domingo, 26 de setembro de 2021

Os Construtores



por João G. F. Porto

Assim como a vida faz uso de uma estrutura de programação que permite que a informação ali residente seja veiculada para replicar e orientar, dar propósito através da evolução, a seres de grande variabilidade morfo-genética, também o Universo poderá usar um sistema de programação que utilize redes to tipo neuronal – uma megaestrutura tipo Laniakea, onde as galáxias se agrupam em redes de potentes vórtices de plasma electromagnético de muitos milhões de anos-luz – que utilize entidades denominadas “Construtores” ou veículos de informação, ao invés de utilizar um conjunto de axiomas e princípios como as Leis da Termodinâmica e as do movimento das partículas ou os estados quânticos para justificar a sua evolução, feita sempre numa óptica newtoniana/galileana, diríamos mesmo puramente fisicalista, limitando-se a descrever factos.

Até agora qualquer teoria de sucesso com base num dado espaço-tempo e considerando um determinado estado inicial e ainda baseando-se nas leis do movimento, deveria conseguir prever num espaço-tempo adicional a evolução dos fenómenos naturais em apreciação.

A Teoria dos Construtores (que passaremos a designar abreviadamente por TC) de David Deutsch e Chiara Marletto da Universidade de Oxford (1) descreve a natureza pelas transformações físicas possíveis e impossíveis e do porquê da sua existência, ao invés de o fazer em termos de estados iniciais pré-estabelecidas e completamente arbitrários e inexplicáveis, que tanto no passado como no futuro são sempre referenciadas como leis dinâmicas que definem trajectórias, percursos que se desenvolvem no espaço-tempo laplaciano. Ou seja, na TC o mundo não deverá ser descrito por condicionalismos elencados ou pré-estabelecidos sem qualquer outra explicação. Os “Construtores” são alheios à possibilidade ou impossibilidade dos factos ou das relações entre factos poderem existir ou deixarem de existir: é por base uma teoria contrafactual que quer explicar a razão da existência das condições iniciais e não descrever os fenómenos naturais a partir delas tornando-se assim um corpo de filosofia não determinística.

As Leis da Termodinâmica que proíbem pura e simplesmente a existência de determinados estados físicos ou garantem a existência de tantos outros, são axiomas que como tal não explicam a sua própria origem e que determinam o que é possível e o que é impossível de acontecer no espaço-tempo. Esta atitude de encarar a coisa fenoménica talvez passe por estarmos confinados ao Espaço-Tempo einsteiniano, onde a matéria (massa/energia) dita ao espaço-tempo como se comportar. Talvez que outra coisa não seria de esperar quanto à nossa visão do mundo, mesmo aquela mais optimizada traduzida pela matemática.

O mesmo é dizer que as leis da física introduzem limitações mas não explicam a existência dessas limitações. Uma das justificações levar-nos-ia a uma visão antropocêntrica: as leis são o que são porque nós existimos. Uma história renovada da menina de caracóis de ouro.

De acordo com David Deutsch, um “Construtor” é qualquer entidade que provoca transformações (referidas na teoria como “tasks”) de acordo com inputs, dando origem a outputs com atributos diferentes dos iniciais, e mantendo a capacidade de reproduzir a sua actividade. Nesta teoria os inputs e outputs são considerados “substratos”. São exemplos de “construtores” na área da biologia os catalisadores, o DNA ou os ribossomas.

Assim, a TC analisa as leis da física sob a óptica da possibilidade ou impossibilidade das transformações ou “tasks” e com que substratos são realizadas bem como os atributos assumidos no decorrer do processo.

Assim é resolvido o problema filosófico da causalidade: o porquê da Causa anteceder sempre o Efeito. A TC é incompatível com a ideia de que a Ciência é uma colecção de factos.

Outro problema que a TC resolve é a definição do que se entende por Conhecimento ao definir o conceito de “Construtor” e a sua capacidade de replicação ou cópia recriando processos contínuos de milhares de milhões de transformações sobre substratos e introduzindo com esse processo novos atributos que constroem e ampliam a Informação. Assim o Conhecimento é um “Construtor” cujos processos de transformação, incidem sobre substratos (neste caso os inputs serão os meios físicos tais como os média, livros, drives, a própria mente e os outputs os registos – que organizados constituem a Informação, agora adicionada aos referidos meios físicos).


A Web Cósmica: esta imagem  gráfica representa uma simulação de uma porção da estrutura do Universo onde os filamentos são constituídos por Matéria Escura localizada no espaço entre as galáxias.
Crédito: Commons.Wikimedia

Na natureza as transformações não ocorrem espontaneamente. Se ocorressem não existiriam “Construtores”. Todas as criações humanas utilizam o Conhecimento espelhado em Informação estruturada. O Universo com os seus buracos negros, galáxias, sóis e sistemas planetários não surgem espontaneamente e são apenas uma ínfima parte daquilo que pode ser “criado” ou transformado a partir de inputs que antecedem seja até às presumíveis condições iniciais do Big Bang do abade belga Georges Lemaître ou da Teoria Cosmológica Conforme de Sir Roger Penrose. Por detrás de toda a actividade existe um “Construtor” ou Informação estruturada. A ideia reducionista que atribui à natureza quântica das partículas, funções de onda ou ao espaço-tempo o reduto fundamental de tudo, e assim é no nosso conhecimento actual das coisas, a TC alicerça os seus fundamentos na compreensão da realidade na Informação ou Conhecimento.

A ideia de que a Informação constitui um dos blocos fundamentais do Universo data de meados do século XX com o matemático e engenheiro Claude Shannon, considerado o pai da idade digital, o primeiro a definir a unidade de informação como um bit. Também John Wheeler que trabalhou com Niels Bohr e Albert Einstein proclamava “it from bit” ou que toda a partícula no Universo emanava da informação nela residente. Mais tarde o Princípio de Landauer e a Relatividade Especial são relacionados por Melvin Vopson onde um bit passa a ter realidade física, quantificável e finita por equivaler termodinamicamente a energia e a massa: um bit de informação à temperatura de 300 Kelvin é igual a 3.19 x 10-38 Kg.(2)

Em 2008 Paul Gough publica um trabalho (3) onde relaciona o valor atribuído à Energia Escura, w=-1, para a época inicial da construção estelar, e estima que um Universo com 1087 bits seria o suficiente para que toda a energia contida na informação equivalesse à Energia Escura.

 

Uma das entidades presentes ou um dos “Construtores” é o próprio ser vivo de que não escapa o ser humano e a consciência.

Não existe nenhuma equação que preveja que milhares de milhões de anos no passado remoto da história da Terra uma bactéria desse origem ao ser dotado de consciência. Não consta dos fundamentos da Teoria Evolucionista de Darwin qualquer propósito neste sentido. Pelo contrário, a evolução foi feita com “Construtores” ou informação acumulada e transmitida de geração em geração através do código genético ou de unidades base, designadas genes. O que esteve na base da Vida foi a capacidade de possibilitar a realização de “Tasks” ou transformações com novos produtos com atributos diferentes deixando para trás os produtos impossíveis de sobreviver. Mas a informação que tornou viável a constituição do primeiro codão ou sequência de RNA, não era cega nem foi obra do acaso ou de um acto espontâneo. Ela encontrava-se na informação da natureza quântica (o software – o “Construtor”) das próprias moléculas em jogo (hardware – substracto, input) e onde o meio aquoso com as suas pontes de hidrogénio teria um papel fundamental (a wetware definida pelo biólogo de sistemas Dennis Bray) em reter a informação e passá-la adiante com novos atributos incorporados (output). Em biologia são as chamadas “vias de sinalização” ou conjunto de módulos que exercem a comunicação entre os diferentes componentes do sistema assim como com o ambiente externo. Permitem enviar sinais electromagnéticos e de natureza química onde a geometria da funcionalidade molecular desempenha um papel crucial, tipo chave “ligado” e “desligado”, qubit 1,0 ou 1 e 0, sobreposição de estados quânticos e utilização de incidência no espaço e no tempo, criando assim propriedades ricas em informação, cujos atributos, tipo etiquetas, podem ser armazenados como memórias de experiências passadas no ADN, passando de geração em geração. Este é o fundamento da epigenética.

Outro aspecto recentemente descoberto refere-se á capacidade de transmigração e incorporação de material proteico e mesmo genético existente no meio ambiente e derivado de material orgânico comum nas células de organismos vivos. Isso significa que muito da matéria orgânica proveniente da decomposição de outros seres vivos pode ser utilizada na génese de outros – a epigenética que ultrapassa o transgeracional.

Estes processos de passagem da informação, agora vistos na óptica de “Construtores”, são a forma que a vida utiliza para criar estruturas ordenadas no espaço e devidamente proporcionais em escala. O Número de Ouro é uma constante simples de origem geométrica que reflecte e revela a extraordinária beleza na capacidade de replicação da informação em gradientes espaciais. Esta informação estende-se para além da dimensão do espaço físico: quando amputamos um braço ou uma perna continuamos a senti-los.

Como afirma Paul Nurse, prémio Nobel da Medicina 2001 (4), “Poderá dar-se o caso de a complexidade da biologia conduzir a explicações estranhas e não intuitivas, e que, para as compreender, os biólogos necessitem cada vez mais da assistência de cientistas de outras disciplinas, nomeadamente de matemáticos, de cientistas da computação, de físicos e até de filósofos, que estão mais acostumados a pensar de maneira abstracta e que estão menos focados nas nossas experiências mundanas quotidianas.”

Os “Construtores”, no processo da Informação, estabelecem uma intrincada rede de nodos pelas interacções que promovem sobre os seus “substractos”, a que Donald Hoffmann designa por CAN`s ou “Conscious Agents” (5). Não existem propriedades se não houver interacções ou relações: é o caso das partículas subatómicas que só ganham atributos físicos conferidos pela sua posição, velocidade e momento magnético, apenas quando interagem. O desempenho dos “Construtores” é fundamentalmente relacional. Não existem propriedades fora das interacções como afirma Carlo Rovelli no Helgoland (6), reiterando que “Em vez de vermos o mundo físico como uma colecção de objectos com propriedades definidas, a teoria quântica convida-nos a ver o mundo físico como uma rede de relações. Os objectos são os seus nodos.” A realidade faz-se de informação estruturada e é relativística. A relatividade é transversal ao macro e ao microcosmo porque o que é comum aos dois é a Informação como conceito construtor.

Este mistério recua no tempo, quando Aristóteles na sua Physics (7) comenta que segundo Empedocles os seres parecem estar organizados com um propósito, quando na realidade as coisas estão estruturadas de forma aleatória e que aquelas que assim não estão organizadas, desaparecem. Ideia muito bela mas que não explica nada, apenas constata factos e relações entre os mesmos. Não ultrapassa os conceitos de “estado inicial” e de “movimento”.

Contudo a ideia de “Construtores” ou dos “Conscious Agents”ou da Informação subjacente aos fenómenos da natureza não é nova e diremos mesmo até que tem já alguns milhares de anos. Podemos encontrá-la na filosofia dos Vedas, nos Puranas, ou mais recentemente na Teosofia da escola de Helena Blavatsky.

Diz Carlo Rovelli (8), “A fé na ciência característica do século XIX, a sua glorificação positivista como saber definitivo a respeito do mundo, está hoje em colapso. A primeira responsável por essa derrocada é a revolução da física do século XX, que revelou que, apesar da sua incrível eficácia, a física de Newton é, num sentido muito preciso, falsa. Grande parte da posterior filosofia das ciências pode ser lida como uma tentativa de redefinir, sobre essa tabula rasa, a natureza da ciência.”

Helena Petrovna Blavatsky, limitada pela ciência do século XIX no seu exacerbado positivismo, lança pistas em Doutrina Secreta, de profunda reflexão filosófica com uma visão nova da história da humanidade, da cosmogénese, dos estados de consciência e até de novas formas de energia ininteligíveis para a época, mas que encontram eco nas mais recentes teorias deste novo século XXI.


Helena P. Blavatsky

Crédito: Wikimedia Commons


Em Doutrina Secreta, Volume I da Cosmogénese, nos comentários sobre a Estância II do Livro de Dzyan é citada a estância que transcrevemos:

“…Onde estavam os Construtores, os Filhos Resplandecentes da Aurora do Manvantara? … Nas Trevas Desconhecidas, em seu Ah-hi Paranishpanna (Dhyâni-Búddhico). Os Produtores da Forma (Rûpa), tirada da Não-Forma (Arûpa), que é a Raiz do Mundo (Aditi), Devamâtri e Svabhâvat, repousavam na felicidade do Não-Ser.”

HPB diz-nos então que os “Construtores” são os verdadeiros criadores do Universo ao constituírem a primeira manifestação no início de um novo Manvatara (fim da idade de Brahmâ) ou ciclo de evolução do Universo, onde este não é criado mas surge de um anterior (tal como a Teosofia defende) – aquilo que a cosmologia actual diz ter detectado com os designados “Pontos de Hawking” teorizados por Roger Penrose como vestígios de Universos anteriores e resultado do acúmulo da “radiação de Hawking” emitida pelos Buracos Negros e visíveis na radiação cósmica de fundo.

O Paranishpanna transmite a ideia de um estado Absoluto (o Paranirvâna sanscrito) e ao qual HPB refere dizendo que “Mais cedo ou mais tarde, tudo quanto agora parece existir existirá real e verdadeiramente no estado de Paranishpanna.” É a versão da filosofia védica transcrita para o Ocidente em 1888 da Cosmologia Cíclica Conforme de Roger Penrose.

Fundamentalmente a doutrina esotérica trabalha sobre a existência dual – Espírito e Matéria, dando primazia ao primeiro. Os “Construtores”, ou “Lipikas”, os “Rishis” ou ainda os “Filhos da Luz”, conceitos que se estendem por corpos de filosofia desde o Bhagavata Puran  indu, passando pela Cabala hebraica, ou ainda reflectidos modernamente nas Mônadas do matemático e filósofo Gottfried Leibnitz, poderiam levar-nos a alvitrar que são entidades de natureza quântica, campo quântico de informação estruturada fazendo parte de um Campo Unificado conjuntamente com o Espaço Granular “espuma de spins” em Carlo Rovelli.

Os “Lipikas” são definidos na teologia indu e pelo sânscrito como os registadores de todos os fenómenos que tiveram, têm ou virão a ter lugar no Universo tendo um papel fundamental após o Pralaya (período entre dois Manvataras) para a evolução do mesmo. Interessante verificar, que a existência do Tempo só é considerado com o surgimento do Universo e que também todos os conceitos ligados aos “Construtores” e seus similares têm uma ligação muito estreita à Informação ao Conhecimento e á Consciência.

A filosofia esotérica transpõe depois estes “Lipikas” como inicialmente entidades construtoras no processo da cosmogénese para entidades que surgem do Conhecimento Colectivo dos Dhyânia-Buddas ou Dzyu, ao converterem-se em Fohat (input, substrato na teoria TC) ou estrutura que contém uma mensagem codificada em qubits, que sofrendo tansformações, originam outputs com atributos sempre diferentes (a base da Lei do Karma). Isto será fruto de um processo evolutivo envolvendo éons de tempo.

Também notar que a expressão “Filhos da Luz” e “Filhos Resplandecentes” são a forma encontrada para referir os campos quânticos electromagnéticos de natureza não conhecida comparando-os com a natureza da luz.

Poderíamos estender as comparações entre os “Construtores” da TC e os védicos ou da Teosofia de HPB. Contudo e como conclusão é importante perceber que o princípio dos “construtores” em ambas está na base de um processo de diferenciação onde o homogéneo, estado anterior ao Big Bang, (a partir do ponto Laya) se converte em heterogéneo, e éons de tempo depois o “Protilo” nos “Elementos”, a organela incorpora a célula e a célula incorpora todos os organismos, os genes dos seres arcaicos incorporam o ADN humano, os fermiões incorporam os átomos e estes todos os elementos da Tabela Periódica. E nesta cadeia de aparente caos subjaz no entanto a ordem instaurada pela Informação.

Ponta Delgada, 25 de Setembro de 2021


Notas e bibliografia

(1) Chiara Marletto, The Science of Can and Can`t, Penguin books Ltd, 2021.

(2) Melvin M. Vopson, The mass-energy information equivalence principle, AIP Advances, 9.095206 (2019), https://doi.org/10.1063/1.5123794.

(3) M. Paul Gough, Information Equation State, Entropy 2008, 10(3), 150-159, https://doi.org/10.3390/entropy-e10030150, Space Science Center, University of Sussex, BrightonBN1 9QT, United Kingdom.

(4) Paul Nurse, O Que é a Vida? Edição 2021 VOGAIS, 20/20 Editora, Junho 2021.

(5) Donald Hoffman, The Case Against Reality, how Evolution Hid the Truth from Our Eyes, Norton, W. W. & Company, Inc., Agosto 2019.

(6) Carlo Rovelli, Helgoland, Allen Lane – Penguin Books, 1ª edição, 2021.

(7) Aristóteles, Physics, II, 8, 198b29.

(8) Carlo Rovelli, Anaximandro de Mileto ou o nascimento do pensamento científico, Edições 70, Edições Almedina, S.A., Julho 2020.

Helena P. Blavatsky, Doutrina Secreta, Cosmogénese – Volume I, Editora Pensamento, São Paulo.

Bhagavad Gitã, Edición de Consuelo Martín, Editorial Trotta, 1ª reimpressão, 2018.

Chiara Marletto, 2015 Constructor theory of life. J. R. Soc. Interface 12: 20141226. http://dx.doi.org/10.1098/rsif.2014.1226. Department of Materials, University of Oxford, Oxford OX1 6UP, UK.

Aleksandar Malecic, WHAT DOES CONSTRUCTOR THEORY CONSTRUCT?: KNOWLEDGE AS A PHYSICAL PROPERTY, Faculty of Electronic Engineering University of Nis, Serbia.

Riccardo Franco, First steps to a constructor theory of cognition, arXiv:1904.09829v1 (csAI), 21 Mar 2019.




domingo, 15 de agosto de 2021

Maya – a ilusão do mundo material

 







por João G. F. Porto

Caminhamos aceleradamente para um estado em que estaremos todos ligados, de alguma forma, como macroestruturas, utilizadores a 100%, a tempo integral, do digital, da TV digital, da internet e das redes sociais. Presentemente, sobretudo nos países criadores da linha da frente tecnológica, dependemos permanentemente dos conteúdos digitais para exercermos o nosso dia-a-dia. No próximo futuro, a evolução poderá conduzir para um estado de “entanglement” da nossa espécie e logo depois com as outras espécies assim com o mundo em geral numa perspectiva Gaia. A evolução através da selecção natural fará a caminhada na união do micro e do macrocosmo, a unidade perfeita contraposta à dualidade criada até agora pela selecção natural entre o mundo quântico e o da Relatividade Geral do Espaço-Tempo onde evolui a matéria. No entanto e de acordo com Donald Hoffman (1) esse “entanglement” sempre existiu como causalidade da consciência.

Nós somos um produto da selecção natural. A nossa visão do mundo que nos rodeia, as nossas concepções e a forma como investigamos e criamos as propriedades dos fenómenos naturais, constituem a forma como a natureza, por uma questão de sobrevivência e adaptação, nos colocou em relação consigo mesmo. As propriedades atribuídas aos objectos das nossas relações são apenas uma forma redutora criada pelo colapso de onda nas inter-relações estabelecidas para que nos seja possível interagir de forma eficaz com o ambiente.

A atribuição de propriedades a um objecto é inseparável da manifestação das interacções que definem essas próprias propriedades e isso constitui a nossa realidade: uma teia de relações onde os objectos, os CAN`s ou Conscious Agents segundo D. Hoffmann (2), são os nodos de ligação de uma rede complexa. Como a mecânica quântica define de raiz, não existem propriedades se não houver interacções: um electrão enquanto não interage com alguma coisa não tem propriedades físicas conferidas pela sua posição e velocidade. Daqui também se infere que factos que são reais para um objecto não são necessariamente reais para outros. Esta é a perspectiva também defendida por Carlos Rovelli (3).

Não poderíamos deixar de evidenciar a similitude entre as duas fórmulas matemáticas (a de Donald D. Hoffman e a de Erwin Shrödinger) que colocam a física da consciência a par da física quântica:

De outro modo estaríamos envolvidos em relações extremamente complexas com um mundo quântico de não localidade, de sobreposição fenoménica e “entanglement”, de acontecimentos descontínuos, relativos e probabilísticos. Mas porquê? Porque a natureza “resolveu” ou derivou para esta opção? Podemos desde logo inferir que a mecânica quântica, bem ou mal compreendida, constitui a realidade constatada até agora pela ciência ao nível do microcosmo. É a nossa gramática de interpretação mais profunda da natureza. Se somos aglomerados de partículas, na visão fisicalista, contudo os fenómenos quânticos deverão permanecer activos e manifestar-se. Esta situação tem vindo a ser confirmada pela recente descoberta de fenómenos quânticos em macroestruturas que abrangem desde estruturas cristalinas ou estruturas biológicas que integram formas de vida evoluídas.

A “necessidade” evolutiva do aparecimento de macroestruturas organizadas, na origem da vida, deve-se à segunda lei da termodinâmica – a Entropia. Da mesma forma que o surge o Universo. Do “ponto Laya” de acordo com H. P. Blavatsky ou de uma flutuação do vácuo originalmente homogénea e sintrópica como advoga a moderna cosmologia onde desaparecem os antagonismos entre a Mecânica Quântica e a Relatividade Geral – o Campo Unificado.

Ou seja, na origem tudo esteve “fisicamente” integrado e em comunicação: a informação inicial permaneceu e cresceu na medida em que o Universo se expandiu aceleradamente. Esta informação de natureza quântica, vai sobretudo estruturar-se e reflectir-se no surgimento do Campo de Higgs que passa a permear todo o proto universo e visa conferir massa às partículas. É o “Akasha” védico que cria a “rede” quântica do Espaço e do Tempo numa estrutura repetitiva fractal, uma rede de spins, em que “o espaço se encrespa como a superfície do mar e estas crispações são ondas semelhantes às ondas electromagnéticas graças às quais vemos televisão.” (4)

A “espuma de spins” encarada com retículo à escala de Planck (10-35m) do espaço quântico acaba por assumir as mesmas características do Teorema da Combinação de Donald Hoffman onde dado qualquer pseudografo de Agentes de Consciência, cada um constituído por 6 componentes, qualquer “subset” destes agentes pode ser combinado para formar um novo Agente de Consciência, dando origem em termos práticos a uma Máquina Universal de Turing ou à Tese de Church-Turing e a um Espaço Conformal de Penrose.

Figura 1 – Estrutura formal simples de um Agente Consciente (C) com os 6 componentes tal como

a Máquina Universal de Turing.

O canal P transmite mensagens do mundo W (o Espaço-Tempo), gerando experiências conscientes X.

O canal D transmite mensagens de X gerando acções G.

O canal A transmite mensagens de G gerando novos estados em W.

N é um inteiro que faz a contagem das mensagens que passam em cada canal.

C = (X, G, P, D, A, N)


É já no processo final da Nucleosíntese (ver Cosmogénese 11 onde se atesta asemelhança espantosa entre as denominadas “Bolhas de Adi” e os “voxels”do modelo holográfico de N. Haramein. Este descreve uma geometria esférica como um volume básico de entropia ou de unidades PSU – Planck Shperical Units ou Unidades Esféricas de Planck, onde se aloja o bit de informação holográfica) que a dualidade ensaia as suas tentativas experimentais conducentes ao aparecimento dos primeiros complexos moleculares que vão depois fazer parte da biologia inerente à vida, transportando no seu âmago as premissas dos Agentes Conscientes – o Espaço-Tempo está consolidado e em expansão, preparado para aceitar os desenvolvimentos futuros que darão origem ao Universo.

“Está dentro e fora de todos os seres. Move-se mas no entanto está imóvel. É incompreensível pela sua subtileza. Está longe e próximo ao mesmo tempo” – Bhagavad Gita/XIII, 15 (5).

A evolução impeliu todos os seres para comportamentos destinados a aumentar as suas aptidões biológicas direccionadas à localidade, à interpretação eficaz de sons, cores, sabores e tacto, tornando-os mecanismos de recurso e de sobrevivência. Neste aspecto Darwin tem toda a razão. A hereditariedade é apenas o mecanismo que assegura a aquisição e transmissão de caracteres relevantes à sobrevivência e à adaptação ao meio de modo que a entropia possa continuar a exercer a certeza da finitude do mundo – daí a ilusão! Confirmada pela equação quântica de Schrödinger. Esta é a actual e renovada concepção de Maya (6), a ilusão do mundo material na filosofia dos Vedas.

Como afirma Brian Greene (7), “A marcha entrópica explica como se podem formar aglomerados ordenados num mundo que se vai tornando cada vez mais desordenado, e como alguns destes aglomerados, estrelas, podem permanecer estáveis ao longo de milhares de milhões de anos, enquanto produzem calor e luz constantes.”

A natureza quântica primordial traduzida na Informação saída do hiper-espaço quântico sintrópico altamente homogéneo (entropia negativa), por uma oscilação do vácuo infinito que se contêm a si próprio, o Parabrahman védico, organiza o Espaço como espuma de spins fractal (figura 2) e como tal cria a flecha do Tempo essencial á marcha entrópica.

Figura 2 – Retículo à escala de Planck do espaço-tempo físico que define uma espuma de spins.


Neste âmbito a existência de uma probabilidade não-zero em éons de tempo fará surgir um Efeito de Túnel Quântico designado por salto Higgs determinando o destino do proto universo a longo prazo. Com o Campo Quântico de Higgs, avançando em crescendo até atingir a velocidade da luz como uma esfera (o Antahkarana nos Vedas) afastando-se de um ponto central, encontram-se as condições necessárias e suficientes para o despontar das primeiras partículas (fotões) criadas naquilo que virá a ser um mega Buraco Negro primordial com uma temperatura colossal. Assim acredita-se que o campo de Higgs irá redefinindo o espaço vazio com o seu campo de 246,22 GeV (de relance e apenas por curiosidade, a constituição septenária reflectida neste valor 2+4+6= 12 = 2+1=3;2+2 = 4, 3+4 =7).

No Horizonte de Eventos deste Buraco Negro titânico em expansão, os fotões que não sentem qualquer resistência de arrasto, o que os torna sem massa, não sentiriam o campo de Higgs e formariam a chamada Radiação Hawking ao desdobrarem-se numa partícula positiva de matéria que abandonaria o horizonte de eventos (a designada “cabeleira” do Buraco Negro ou Radiação Hawking) e noutra negativa de antimatéria, esta última absorvida pelo Buraco Negro. Provavelmente aqui reside o facto de o nosso universo ter uma preponderância de matéria versus antimatéria.

Poderemos dizer que a Informação nesta fase está fortemente entrelaçada com a experiência da criação do Espaço-Tempo e do Campo de Higgs, confundindo-se ambas. Este entrelaçamento poderá desdobrar-se mais tarde, e de acordo com a perspectiva do neurocientista Giulio Tononi, em consciência como informação altamente integrada e diferenciada pela matéria adquirindo paulatinamente na sua evolução um valor crescente de Φ. A protoconsciência panpsiquista.

“Reconhece que a luz do sol que ilumina o universo inteiro, a luz da lua e a do fogo são a minha própria luz.”- Bhagavad Gita, XV, 12. Ou seja pelo comentário de acordo com advaita Sankara, a luz que é consciência, que está no sol, na lua e no fogo, hás-de saber que é minha, pertence a Vishnu.

Estamos agora no dealbar do Trilogos (Informação, Espaço-Tempo granular, campo quântico de Higgs) e na passagem para a realidade quaternária com os seus constituintes traduzidos nos campos quânticos das forças forte, fraca e electromagnética e respectivas partículas fermiónicas (dos quarks aos electrões). Esta é a estrutura septenária original.

E aqui chegados, para bem da nossa evolução deste lado da matéria, tudo emerge de uma colecção de propriedades governadas por leis física atestadas por algumas centenas de anos de experiências e teorias expressas numa mão cheia de símbolos matemáticos. Contudo a mesma evolução que nos dotou com complexas redes neuronais, mas da mesma natureza daquela pertencente a uma minhoca C. Legans, permite com auxílio de tecnologia levantar o véu e mostrar-nos a realidade ilusória, os limites arbitrários, convencionais e cómodos que organizam a informação de que dispomos.

Tal como foi anunciado pela filosofia védica alguns milhares de anos atrás, a ciência hoje explora e realiza, pelo menos matematicamente, uma teoria monista da consciência que a coloca no início da origem de todas as coisas, em que a dualidade é pura ilusão: “… a Inteligência que fecunda o Caos.” (Blavatsky, comentário à Estância III de Dzyan).

João Porto, Ponta Delgada, 14 de Agosto de 2021.

Notas

 (1) Donald Hoffman, The Case Against Reality, how Evolution Hid the Truth from Our Eyes, Norton, W. W. & Company, Inc., Agosto 2019.

(2) Donald D. Hoffman and Chetan Prakash, Objects of Consciousness, https://doi.org/10.3389/fpsyg.2014.00577

(3) Carlos Rovelli, Helgoland,Allen Lane – Penguin Books, 1ª edição, 2021.

(4) Carlos Rovelli, A Realidade Não É o que Parece, Contraponto, 1ª edição, Outubro 2019.

(5) Bhagavad Gitã, Edición de Consuelo Martín, Editorial Trotta, 1ª reimpressão, 2018.

(6) H. P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Volume I – Cosmogénese, Editora Pensamento, 1ªedição 1980, 26ª reimpressão 2020.

(7) Brian Greene, Até ao Fim dos Tempos, editor Luís Corte Real, Edições Saída de Emergência, 1ª Edição Maio, 2021.


Quando o Vazio deixa de ser vazio

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