sexta-feira, 16 de abril de 2021

Astrosofia, a astronomia ancestral

 







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“Sujeito e objecto são uma só. Não se pode dizer que a barreira entre eles tenha ruído em consequência da experiência recente nas ciências físicas, visto que tal barreira não existe.”

Erwin Schrodinger

 

Astrosofia, literalmente sabedoria dos astros, acredita-se ser a mais antiga ciência conhecida sobre o nosso planeta. Faz parte integrante dos primórdios da cultura humana colocando a consciência como “objecto” matricial transversal a todo o Universo e integrando o ser humano e o ambiente numa dinâmica relacional estreita.

O Homem percebeu desde cedo a relação íntima entre as coisas vivas da Terra – a mãe natureza, e as coisas vivas do céu – os arquétipos. No despertar da consciência atribuiu outro significado aos movimentos intrigantes dos astros. Reparou nos agrupamentos de estrelas em determinadas regiões do céu relacionadas com eventos terrestres do clima, do crescimento vegetal ou das transumancias animais. Percebeu que a sua sobrevivência dependia do estabelecimento de uma relação harmónica com o Universo que o rodeava. A sincronicidade dos eventos naturais com a biologia humana e animal em geral tomou significados por um lado concretos e também transcendentes por outro lado, referenciados em rituais cronologicamente estabelecidos e de mímica fenoménica, cuja interpretação competia aos que assumiam estados de consciência elevados, às vezes por meios artificiais, que os aproximavam da revelação.

A disrrupção na natureza, catástrofes ou eventos extremos, representava forçosamente um desequilíbrio nessas forças ocultas que reinavam na natureza. Essas forças ocultas poderiam ser redimidas pela assunção de comportamentos convenientes que reporiam a normalidade. A Terra, e todas as coisas viventes e não viventes, representavam um organismo vivo com todos os seus subsistemas interdependentes, que acumulava a informação relativa a todos os acontecimentos num feedback contínuo. Esta é ainda hoje a concepção Gaia fortemente arreigada às bases teóricas do Panpsiquismo.

Saído de uma evolução natural, tendo absorvido todas as circunstâncias que o rodeavam, tanto na competição como na colaboração com as espécies de maior proximidade, onde a condição inferior ou superior era muito relativa, o Homem, o “bom selvagem”, trazia consigo a carga genética, o inconsciente colectivo da espécie, a constituição holomorfogenética necessária à expressão da consciência.

É em Carl Gustav Jung que surge o conceito do “inconsciente colectivo” que molda o ser humano como um ser colectivo, como um representante de sua espécie num determinado momento de desenvolvimento histórico, desde os tempos ancestrais, onde os arquétipos, género imagens arquiprimitivas gravadas na mente, são já parte do património comum daquela humanidade, reflectindo-se posteriormente em todas as mitologias como expressão do “inconsciente colectivo”.

Os arquétipos pré-existentes, construções de um passado de cuja condição o Homem primitivo se afastava de dia para dia, evoluíam lentamente impulsionados tanto pela amenidade dos fenómenos naturais como pelas condições adversas. O Sol iria tornar-se menos agressivo na sua actividade influenciando os climas, estabilizando o geomagnetismo terrestre, protegendo o ambiente dos raios cósmicos e da radiação ultra-violeta; a Lua distanciar-se-ia permitindo que o gigantismo desse lugar a outras naturezas mais conformes, estabelecendo ciclos biológicos mais adequados e, as agressões meteoríticas e cometárias seriam mais clementes. Os impulsos eram cíclicos e transformantes: basta analisar os sucessivos extractos geológicos. Havia urgência na futura humanização do planeta como ser vivo global.

A consciência, sendo sobretudo fenómeno numénico e de natureza quântica, haveria de promover rupturas epistemológicas na evolução da recente espécie humana, sujeita que estava, está e sempre estará, às influências aditivas e construtivas do emaranhamento dos campos quânticos que se estendem por todo o cosmos. Sempre o Homem sentiu essa presença, uma presença natural da qual se foi afastando progressivamente.

Desse afastamento surgiu a astrologia, vertente prática e utilitarista da Astrosofia. Supostamente descortinaria as melhores confluências e influências astrais para orientar as trocas de bens, as viagens, as relações, a guerra e a paz, e se transformaria num instrumento de dominação deitando por terra o “religare” original, aquilo que unia o Homem ao Cosmos.

Atestam-no ainda os Xamanes das mais diversas culturas, ditas primitivas, em fase acelerada de extinção.

Como se realiza esta união? Os princípios da Física Quântica e a estrutura do Modelo Padrão quando aplicados ao modelo da Constituição Septenária, alargam os nossos horizontes dando outro significado abrangente e unificador a toda a natureza, mais densa ou mais subtil, perpassando esta nova percepção do Cosmos a todos os níveis da existência. Modernamente tanto a Cosmologia como a Astrofísica perdem diariamente a fronteira que as distinguia de doutrinas mais esotéricas e da própria ficção científica mais exótica. Poderíamos citar um sem número de teorias que tentam explicar a Vida, a Consciência e a Inteligência como mais uma propriedade quantificável da existência. No entanto bastar-nos-á apontar, de forma muito resumida, algumas mais conhecidas:

1. A teoria do Big Bang, nas suas mais diversas variações, afirma por base que tudo teve uma origem comum pressupondo que tudo o que existe no momento presente e futuro esteve em contacto. Segundo a Física Quântica, os fenómenos de superposição, do estado de probabilidade e simultaneidade onda-partícula, é o reconhecimento implícito da passagem de uma natureza de uma dimensão física para outra de dimensão mais subtil. A Superposição, a não-localidade e o fenómeno do emaranhamento, de que já temos aplicações práticas pouco ou nada compreendidas na computação quântica, poderão derivar desta partilha original comum o que implica que dois objectos distanciados por milhares de milhões de anos-luz estão permanentemente interligados. Uma partícula ao interagir com outra, mantém um vínculo que não depende do espaço e do tempo. É como se estabelecessem uma comunicação telepática, registando ambas o que ocorre uma com a outra. Será a omnisciência e omnipresença que surgem da profunda união das concepções relativistas com a mecânica quântica.

 

2. A Teoria IIT - Integrated Information of Consciousness de GiulioTononi, na qual a evolução física dos subsistemas é concebida nos termos de um processo integrado quantificável matematicamente por uma variável designada Φ (Phi). Assim, sistemas tais como o cérebro humano seriam o culminar de um Φ muito alto enquanto a inexistência de consciência (uma rocha) significaria um Φ nulo.

A integração da informação inerente aos subsistemas (as partes) no Todo, fariam com que o Todo fosse maior que o conjunto das partes. Esta ideia tem conduzido a tentativas infrutíferas de construir modelos computacionais albergando componentes biológicos na ânsia de que fosse atingida uma espécie de massa crítica necessária ao aparecimento da consciência. Esta situação faz da teoria da informação uma área de pesquisa relativamente recente colocando-a na vanguarda da investigação de ponta profundamente ligada aos fundamentos da mecânica quântica.

3. A Teoria do Network Neuronal olha para o Universo como um ampla rede de ligações estabelecidas entre os aglomerados e superaglomerados de galáxias, estendendo-se por biliões de anos-luz e formando estruturas como a Laniakea com mais de 100 000 galáxias onde se inclui a nossa e o Grande Aglomerado da Virgem. Outros dois superaglomerados vizinhos foram também detectados, a saber o Superaglomerado de Shapley e o Superaglomerado de Perseus-Pices. Estas estruturas titânicas condicionariam a curvatura do espaço conferindo gravitacionalmente a distribuição e movimentação das grandes massas de grupos de galáxias e de estrelas. A descoberta destas tendências conjuntas através dos actuais meios observacionais da Astronomia, parece confirmar esta teoria e aspectos particulares da fluidez da expansão do universo. Estes networks seriam os veículos utilizados pelo trânsito de informação inter-galáctica que faria do Universo uma estrutura única onde a actividade dos Buracos Negros seria uma peça fundamental. A recente descoberta (2019) de jactos, detectados em frequências rádio, ultrapassando extensões de milhões de anos-luz entre aglomerados de galáxias e a formação de campos magnéticos e de fluxos de partículas relativísticas, veio confirmar aspectos desta teoria.

4. A Teoria do Universo Holográfico criado pelo físico Leonard Susskind, nos anos 90 do século passado, revela também a unidade básica do universo. Mostra-nos que não podemos decompô-lo em unidades infinitamente pequenas ou grandes com existências independentes, tal como a física quântica o demonstra à escala pequeníssima de Planck (10-35). Pelo contrário, ao penetrarmos nos menores constituintes conhecidos, evidencia-se uma teia complexa de relações entre as várias partes com o todo unificado. Esta teoria replica a estrutura holográfica bidimensional 2D dos Horizontes de Eventos dos Buracos Negros na própria estrutura geral do Universo como se ela fosse uma emanação em 3D. Daí distar apenas um passo para que o Universo tenha tido origem nos Buracos Negros Primordiais.

A Astrosofia vê-se assim reforçada pelas concepções mais modernas saídas da Astrofísica, da Cosmologia e da Física Quântica. Conceber influências espaciais dos mais diversos tipos, é uma tarefa que agora está ao nosso alcance de uma forma segura, alicerçadas nas provas dos instrumentos mais recentes e poderosos dedicados à investigação científica. Destes poderemos citar a plêiade de observatórios espaciais que vasculham o universo nos mais diversos comprimentos de onda (Fermi, Spitzer, Panstarrs, Kepler, Observatório Chandra Raios-X, Observatório de Raios Gama Compton, etc), o futuro James Webb Space Telescope, ou as grandes máquinas com dezenas de quilómetros como o Grande Colisionador de Hadrões, o LIGO - Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory, ou ainda mega telescópios terrestres (como exemplos o futuro Square Kilometre Array ou o Extreme Very Large Telescope – EVLT, o observatório de neutrinos instalado nas profundezas de um glaciar na Antárctida – o IceCube, o maior radiotelescópio do mundo, o FAST na província chinesa de Guizhou, entre muitos outros.

A Astrosofia assume o modelo fractal que está na base da natureza holográfica da matéria do mesmo modo que as últimas teorias sobre a origem do Universo, como vimos anteriormente. O fractalismo está presente na fórmula 4-3-2-1 da Tetraktys pitagórica bem como na estrutura da doutrina dos Manvataras (os “Mentores, os Manus ou avatares cósmicos) em que a partir de uma fracção do todo em particular, se pode construir o todo completo sob a precisão de fórmula matemática. É o número de ouro que se reflecte na estrutura organizativa da natureza, desde as galáxias até ao nautilus.

A influência da estrutura fractal é transversal a todos os fenómenos naturais, de tal modo que não pode ser encarada como uma coincidência. A sua matriz determinou a concepção dos padrões temporais (Manvatara/Pralaya, Eras), os signos da astrologia, a concepção sobre as idades das civilizações, e os Ciclos Yugas védicos. Esta geometria cíclica quando surge está dividida pela influência das fractais, plasmando o “inconsciente colectivo” ou os fluxos fundamentais da energia akáshica e holomorfogenética. É assim que se reflecte depois mais tarde na estrutura dos “idos” dos meses romanos ou mesmo antes no calendário grego luni-solar e na astrologia hinduísta quando cria os milénios dentro das Eras.

A concepção septenária traduz também esta realidade ao perpassar todas as coisas, adaptando a sua terminologia a cada caso específico do micro ao macrocosmo, aos ciclos da cabala hebraica na “Árvore da Vida”, o Caduceu ou ainda os ciclos Dharmicos hinduístas.

Perpassa todas as cosmogonias presentes nas doutrinas religiosas. Religa o humano à sua natureza mais profunda e oculta e está presente no nosso dia-a-dia.

“Morri mineral e converti-me em planta. Morri planta e nasci animal. Morri animal e me converti em homem. Por que, pois, hei-de temer a alguém? Acaso poderei ser menos ao morrer? Na próxima vez morrerei como homem para que me possam nascer asas de anjo, mas também da condição de anjo me elevarei, por que, como ensina o Corão, tudo perecerá, menos a face do Senhor. Outra vez, tomarei o voo por cima dos anjos e me converterei no que a imaginação não pode conceber. Na verdade, voltaremos a Ele”. - Do livro persa, Mathnawi, autor Jalalu’l Din Rumi (1207-1273).

Nesta métrica até aonde poderemos delimitar influências siderais pré-determinadas matematicamente na evolução da espécie humana, sabendo de antemão que tudo se move no Universo? Qual a probabilidade muito concreta de um acontecimento semelhante aquele que retirou da face do planeta os dinossauros, acontecer de novo? Haverá um calendário cósmico gerido por um relojoeiro multidimensional onde estão assentes os acontecimentos futuros já pré-determinados ou teremos o livre arbítrio como opção num campo probabilístico onde apenas o colapso de onda da opção momentânea faz o acontecer?

A questão fundamental que se coloca: poderá a Astrosofia (o conhecimento dos astros) parametrizar a probabilidade de um evento num campo unificado quântico multidimensional e relativístico como parece tendencialmente concluir a ciência actualmente? Esta será a base conceptual unificadora, a religação do Homem e do Universo, apenas uma dualidade temporária e ilusória.

“Poderemos olhar para a matéria como as regiões do espaço onde o campo é extremamente forte (…). Não poderá haver lugar, nesta nova física, para o campo e para a matéria, uma vez que o campo é a única realidade.” – Albert Einstein, Out of My Later Years (Nova Iorque: Philosophical Library, 1956).

 

João Porto e Ponta Delgada, 16 de Abril de 2021


Publicado na revista Fénix da Nova Acrópole Portugal

https://www.revistafenix.pt/astrosofia-a-astronomia-ancestral/


sábado, 10 de abril de 2021

O que me disseram as Estrelas

 











Vincent Van Gogh - The Starry Night [1888]

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Em termos cosmológicos o espaço “vazio” é a realidade suprema e as estrelas serão as partículas que revelam a potência nele pré-existente. Chegam-nos das profundezas do Universo, ondas de Tempo reveladas pelas estrelas e trazidas pelo espaço. Todas as vezes quando levantamos o nosso olhar para o fundo estelar do céu nocturno, aquilo que se vê não é aquilo que é, mas aquilo que foi. A luz do Sol leva cerca de 8 minutos para chegar até a Terra e as galáxias do aglomerado da Virgem mostram-se como eram há 65 milhões de anos. Portanto, ao olharmos para o céu à noite, vemos naquele momento presente, fluxos muito distintos do passado da história do Universo. Contudo este tempo é de uma relatividade a toda a prova, dado que sabemos que estas galáxias deste aglomerado deslocam-se a 1 600 km/segundo. Também sabemos hoje que o nosso planeta, gira a 1 600 km/hora em torno do seu próprio eixo e que este gira em torno do Sol a cerca de 108 000 km/hora, que por sua vez gira em torno do centro da galáxia a 830 000 km/hora. Tudo é movimento e por isso relativo. Aqui a Revolução Coperniciana continua a dar cartas na sua contínua expansão universalista.

Como é facilmente perceptível o Universo possui uma natureza hierárquica. A analogia com os objectos fractais poderá ajudar esta visão cosmológica. Fractal é um objecto que pode ser dividido em partes, cada uma das quais semelhante ao objecto original e que no seu conjunto reproduzem o todo. Teilhard de Chardin estava profundamente convencido de que o universo é um todo (Totum):

“Quanto mais longe e profundamente penetramos na Matéria, graças a meios cada vez mais poderosos, mais nos confunde a interligação das suas partes. Cada elemento do Cosmo é positivamente tecido de todos os outros: por baixo de si próprio, pelo misterioso fenómeno da «composição», que o faz subsistir pela extremidade de um conjunto organizado; e, em cima, pela influência recebida das unidades de ordem superior que o englobam e o dominam para os seus próprios fins. Impossível cortar nesta rede e isolar um retalho sem que este se desfie e se desfaça por todos os lados. A perder de vista, em volta de nós, o Universo aguenta-se pelo seu conjunto. E há apenas uma única maneira realmente possível de o considerar: tomá-lo como um bloco, todo inteiro.” – Teilhard de Chardin, O Fenómeno Humano, 3ª Edição 1970, pág. 21, Livraria Tavares Martins, Porto.

Esta ligação de tipo fractal por sua vez reflecte-se ao nível do microcosmo subatómico na existência também predominante do espaço “vazio”. Mesmo nos materiais mais sólidos, como o ferro ou na estrutura cristalina, existe um grande espaço entre as moléculas que os constituem. Um átomo é essencialmente espaço vazio: se o seu núcleo fosse ampliado até o tamanho de uma bola de futebol, a nuvem de electrões circularia nos limites do estádio de futebol. Se o núcleo do átomo fosse ampliado um pouco menos, digamos até o tamanho de um berlinde, o núcleo do átomo mais próximo estaria aproximadamente a cerca de mil metros! Segundo algumas estimativas da astrofísica dos Buracos Negros, se toda a matéria do nosso planeta fosse confinada, eliminando os espaços vazios, ocuparia apenas a dimensão de uma bola de ténis. A densidade no espaço intergaláctico é apenas de 7 a 8 átomos por metro cúbico. Ou seja, o mundo sólido e o espaço entre as galáxias é basicamente espaço vazio!

Esta relação que se estende desde o micro ao macrocosmo é uma relação de organização fractal onde a informação subjacente aos subsistemas que o compõem tem a tendência de replicar estruturas em escalas diferentes, como se houvesse uma acção à distância.

Ora, aqui entra a Teoria dos Campos que surgiu na física precisamente para explicar a acção à distância que Einstein designou como “acção fantasmagórica à distância”. Bem conhecidos são os efeitos dos campos electromagnéticos definidos por Maxwell e dos campos gravitacionais de Newton, Kepler e Galileu. As interacções entre partículas subatómicas são também descritas em termos de campos, combinando ideias da teoria clássica de campo com a teoria granular dos quanta, transformando as partículas em fenómenos transitórios como concentrações de energia que emergem do campo e nele tornam a desaparecer no “vazio”, mas contendo a potencialidade para todos os tipos de partículas que constituem o actual Modelo Padrão.

No entanto o espaço possui um número muito maior de dimensões, pois que para além de se conter a si próprio como campo quântico e a todos os outros campos, é o gerador de toda a manifestação fenoménica. Do micro ao macrocosmo uma coisa em comum existe: o espaço finito granular quantizável a que Carlo Rovelli designa por “espuma de spins” e que os Upanishads chamam de “espuma da água”. Será também aquela realidade numénica kantiana de onde tudo se origina e na qual tudo se retrairá agora confrontada com a teoria CCC – Cosmologia Cíclica Conforme de Roger Penrose!

Qual o papel destes campos e a constituição da Consciência encarada como matriz de informação organizada? Enquanto para uns a Mente seria olhada como mera segregação do cérebro e a Consciência um subproduto da evolução física de unidades quase isoladas, independentes, sem qualquer ou com fraca ligação entre si; para outros que defendem a teoria IIT – Integrated Information of Consciousness de Giulio Tononi, a evolução física dos subsistemas é concebida nos termos de um processo integrado quantificável matematicamente por uma variável designada Φ (Phi). Assim, sistemas tais como o cérebro humano seriam o culminar de um Φ muito alto enquanto a inexistência de consciência (uma rocha) significaria um Φ nulo.

A integração da informação inerente aos subsistemas (as partes) no Todo, fariam com que o Todo fosse maior que o conjunto das partes.

Então vamos partir do axioma de que as estrelas, de que não escapa o caso particular do nosso Sol, têm uma estrutura complexa que permite aceder a um nível relativamente alto de Φ. Senão vejamos:

O plasma (o 4º estado da matéria) é o material de que são feitas as estrelas onde os electrões são arrancados dos núcleos de hidrogénio, formando um gás electricamente carregado gerando campos magnéticos extraordinariamente elevados que provocam correntes de convecção dinamizadas pela rotação da estrela, que na nossa estrela tem a duração média de 28 dias: roda mais depressa no equador do que nas zonas polares, criando o Efeito de Torniquete na distribuição das massas de plasma no espaço e o Efeito Borboleta na distribuição das manchas solares na superfície solar - a fotosfera.

Esta rotação diferencial, que em estrelas milhões de vezes maiores que o Sol gera fluxos internos de plasma incomensuravelmente colossais, na sua ascensão até à fotosfera criam vórtices de vibrações acústicas rítmicas, de frequências ressonantes, que podem ser analisadas pela nova ciência da heliosismologia (no caso do Sol) ou da asterossismologia (para o caso das outras estrelas) permitindo ver o que ocorre por detrás da estrela e literalmente ouvir as suas frequências e amplitudes harmónicas.

Estas oscilações de portentosas massas, criadas por ondas de pressão (modo p) e por ondas gravíticas (modo g), originam pulsações de luminosidade causadas pela propagação do som no interior das estrelas, gerando autêntica música estelar que pode ser detectada e ouvida e que caracterizam a individualidade de cada estrela. As baleias e as estrelas têm esta particularidade em comum.

Toda esta movimentação de massas pode ser estudada e seguida pela aplicação dos princípios da magneto hidrodinâmica que na fotosfera criam um reticulado que a pavimenta em triliões de células, criando a denominada granulação e supergranulação como se fosse a epiderme da estrela. Aqui surgem erupções gigantescas – as espículas e as célebres manchas solares (conhecidas e desenhadas por Galileu) que se desenvolvem ciclicamente – na nossa estrela por períodos de 22 anos, 11 anos de actividade crescente e 11 anos de actividade decrescente e que se caracterizam pela sua marcada polaridade. Esta polaridade bloqueia a ascensão convectiva de plasma e arrefece a fotosfera que está a cerca de 6 000º Celsius, dando o aspecto negro à mancha solar.

Figura 1 – CD sobre o 23º Ciclo Solar.

Reportório resultante das observações do autor, com mais de 2500 imagens da fotosfera e cromosfera solar na luz visível e na primeira linha de emissão do hidrogénio (H-alfa). Edição 2001 sob o patrocínio da Presidência do Governo Regional dos Açores – Direcção Regional da Ciência e Tecnologia


Ao acompanhar o 23º Ciclo Solar (nós estamos presentemente a iniciar o 25º), tivemos a oportunidade de assistir a um dos mais criativos ciclos de actividade solar onde as manchas solares puderam ser classificadas morfologicamente de acordo com o sistema de Macintosh, seguindo quase sempre padrões previsíveis de evolução magnética, algumas vezes originando Fulgurações e Ejecções de Massa Coronal (EMC), como se o sol atirasse para o espaço em redor quantidades astronómicas da sua própria massa (plasma), com efeitos a curto prazo (48 a 72 horas) sobre o nosso planeta.


Figura 2 – Ejecção de Massa Coronal (EMC) em 8/12/2003 entre as 12:00 e as 12:52 horas UT. Gif elaborado pelo autor.

 Estas EMC`s lançam no espaço biliões de partículas electricamente carregadas e como tal são orientadas pelos potentes campos electromagnéticos que se estendem por todo o sistema solar com influência marcante na designada meteorologia espacial, nomeadamente no campo magnético terrestre (o fenómeno mais comum são as Auroras Boreais e Austrais). Marte perdeu a sua atmosfera devido ao seu fraco campo magnético que não protegeu o planeta destas erupções titânicas quando o sol ainda era mais jovem.

Para além disso, as estrelas, e o Sol, possuem uma actividade magnética polarizada cíclica. Durante o ciclo de actividade máxima surge a inversão da polaridade em que o pólo norte magnético passa a pólo sul magnético, recompondo-se a configuração inicial no fim do ciclo. Não me abstenho de comparar estes ciclos com os Gunas védicos – Rajas, Sattva e Tamas.


Figura 3 – Proeminências (2001 e 2006 em H-alfa) e manchas solares (2003 no espectro da luz visível) durante o 23º Ciclo Solar. Imagens do autor.

Esta descrição, de forma muito resumida, revela no entanto a complexidade da estrutura estelar, dos seus subsistemas, dos seus networks hierárquicos e a integração dos seus componentes que funcionam tal como um organismo vivo funcionaria, criando inclusive padrões de actividade previsível e influenciando o espaço para além da heliosfera no caso do Sol, talvez mesmo até em outros sistemas estelares (certamente no caso de sistemas binários e triplos). Poderíamos então inferir da existência de um Φ relativamente alto.

No entanto calcular matematicamente o Φ de uma estrela ou no caso particular do Sol, tornar-se-ia inviável, mesmo utilizando a computação quântica. Acredita-se que o cálculo de Φ para a minhoca C. Elegans que possui menos de um milímetro de tamanho e com apenas 8 000 ligações neuronais, levaria alguns milhares de milhões de anos. A teoria IIT assume que a consciência deriva da integração da informação reforçando a ideia do Panpsiquismo acerca da sua origem e confirmando que a base funcional assenta nos networks electromagnéticos. Contudo não entra em linha de conta com outros campos quânticos como o da ressonância holomórfica de Rupert Sheldrake ou o possível campo quântico da Informação que utiliza os microtúbulos das células cerebrais para se expressar nos seres vivos biológicos, como advogam Stuart Hameroff e Roger Penrose.

As estrelas não poderiam deixar de encerrar em si a estrutura septenária onde no ápice ternário Logoi reside a capacidade de conversão massa-energia-informação, expressa pelas fórmulas E=mc2 ou m=E/c2 , Kb T Ln(2)=mc2 e m=Kb T Ln(2)/c2 pelo princípio de Landauer, criando os campos quânticos de ressonância holomórfica e o de Informação/consciência na IIT designada como Phi (Φ). Como em todos os corpos a força gravítica inerente é o fenómeno resultante da curvatura do espaço granular – a “espuma de spins”, exercida pela massa da própria estrela.

As forças nucleares forte e fraca, para além da electromagnética, mantêm a sua estrutura física e material fermiónica (neste caso o 4º estado da matéria). É a força forte que gera as potentes reacções nucleares e a força fraca que está na base da degradação radioactiva e da própria vida no nosso planeta, e que no seu conjunto formam a estrutura base quaternária desta constituição septenária.

Figura 4 – Um modelo de Constituição Septenária que Unifica os Campos

Neste modelo a massa advém do campo quântico do Bosão de Higgs, que tudo permeia e faz a ligação entre a estrutura quaternária e ternária, tal como o Antahkarana sânscrito.

Para Blavatsky, o nosso sistema solar seria composto de sete planos distintos (modernamente considerados como os campos quânticos e a matéria propriamente dita), coexistindo no mesmo espaço e assumindo uma hierarquia do mais “denso” para o mais “subtil” assim reflectida tanto no ser humano como na partícula subatómica mais ínfima (por ex. um quark):

1 - o plano físico ou os fermiões (protões, quarks, electrões, muões, mesões, neutrinos);

2 - o plano emocional (astral) ou a força electromagnética (fotão);

3 - o plano mental (concreto/abstracto) ou Força Nuclear Fraca (W, Z);

4 - o plano búdico (intuitivo) ou Força nuclear Forte (gluões);

5 - o plano átmico (espiritual) ou Campo Granular do Espaço;

6 - o plano anupadaka (monádico) ou Campo Informação Holomórfica;

7 - o plano adi (divino) ou Campo da Informação/Consciência;

e acrescentaríamos o plano de ligação Antahkarana (Bosão de Higgs).

Por aqui se apercebe que o actual Modelo Padrão está incompleto e que mais uma vez as estrelas e o ser humano são da mesma substância, desde a mais subtil à mais densa. Bases para uma futura Astrosofia!

 

Tenho dó das estrelas

Luzindo há tanto tempo,

Há tanto tempo...

Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço

Das coisas.

De todas as coisas,

Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,

De ser,

Só de ser,

O ser triste brilhar ou sorrir...

Não haverá, enfim,

Para as coisas que são,

Não a morte, mas sim

Uma outra espécie de fim,

Ou uma grande razão —

Qualquer coisa assim

Como um perdão?

 

Poesias - Fernando Pessoa

 

João Porto

Ponta Delgada, 10 de Abril de 2021


Publicado na Revista Fénix da Nova Acrópole Portugal

https://www.revistafenix.pt/o-que-me-disseram-as-estrelas/


quinta-feira, 25 de março de 2021

Reflexões sobre Vida, Consciência e Inteligência

A Árvore da Vida

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Tentar definir a tríade Vida, Consciência e Inteligência é uma tarefa inglória! Que o diga a Ciência nas suas mais diversas componentes do conhecimento humano. Torna-se intolerável para qualquer ramo da Ciência não conseguir definir o seu objecto de estudo. Mas, é isso exactamente o que se passa com a Ciência, ao assumir uma atitude reducionista e operacionalista, em que os novos conceitos de Vida, Consciência e Inteligência surgem do impacto da evolução das investigações nas mais diversas áreas, conduzindo a conceitos cada vez mais extensos, generalistas e diáfanos. Neste aspecto a Filosofia, mais uma vez, antecipou-se desde há longas épocas.

Depois de 1981 o conceito de inteligência e consciência ganhou novos horizontes, ano que Roger Sperry recebeu o prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina pela sua contribuição para a compreensão da estrutura cerebral e das suas funcionalidades operativas, ao revelar, nos seus estudos sobre a epilepsia, que a inteligência seria uma função partilhada pelos dois hemisférios cerebrais sendo o esquerdo responsável pela tomada de decisões “racionais” e o direito pelas escolhas “emocionais”.

Desde então pouco se evoluiu e as opções actuais da Ciência poderão resumir-se nestas três teses:

a) A puramente Materialista onde a consciência não é uma qualidade independente mas resulta de processos convencionais evolutivos fisícos e biológicos do cérebro. A consciência é um produto do cérebro encarado como um supercomputador funcionando com algoritmos computacionais e bits de informação percorrendo redes neuronais.

b) A Dualista que encara a Consciência como um processo independente não controlado pelas leis da física e da biologia e onde o Panpsiquismo actualmente representa o expoente máximo desta tese, contudo a nosso ver, assentando bases em filosofias muito mais antigas.

c) A Consciência como acontecimento não cognitivo, uma espécie de proto-consciência, é tão antiga quanto o Universo e no processo evolutivo biológico passou a utilizar estruturas do foro celular, os microtúbulos, para se expressar nesta dimensão material conhecida como fenómeno orquestrado de decoerência no complexo neuronal. A consciência e a inteligência tornam-se aqui em atributos da evolução do Universo.

Presentemente a Física Quântica conquista novo terreno nas áreas da Biologia e da Fisiologia com os estudos e propostas conceptuais, entre muitas outras, de Stuart Hameroff e Roger Penrose com a sua teoria “Orchestrated Objectiv Reduction – Orch OR”.

Resumidamente, esta coloca a consciência como um complexo Campo Quântico de probabilidades como se “vivessem” lado a lado um conjunto de eventos numénicos (ver Teoria do Conhecimento de Kant e o Nous em Plotino) subsistindo apenas um evento fenoménico em resultado do colapso de onda quando da Redução Objectiva Orquestrada, cuja existência se revela na utilização de nano estruturas biológicas – os microtúbulos, existentes em todas as células e em especial nos neurónios com os seus axónios, dendrites e sinapses.

Neste contexto parece-nos que a aproximação aos conceitos arquetípicos kantianos é muito semelhante: enquanto em Orch-OR o espaço-tempo fenomenológico só se realiza pelo colapso da função de onda, por uma relação contínua e estreita entre sujeito e objecto, em Kant o espaço e o tempo, também como faculdade inerente do sujeito, seriam as formas puras (arquétipos) nas quais todas as nossas percepções se justapõem. Deste modo em Kant o espaço e o tempo são apenas condições subjectivas de processos ligados à intuição (Budhi), não tendo qualquer realidade fora do sujeito (ideia vedantina de Maya ou ilusão) e constituindo o conceito kantiano da realidade empírica das formas puras do espaço e do tempo em relação aos fenómenos.

 

Figura 1 - Estrutura (B) e organização dos Microtubulos nas sinapses (A)

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Microtubule_diagram.jpg

Para Hamroff-Penrose toda a teoria que envolve aquele campo quântico que utiliza os microtúbulos para se expressar fenoménicamente, que ousaríamos comparar às ondas hertzianas que utilizam os transístores num aparelho de rádio, estaria alicerçada num conjunto de situações verificadas experimentalmente, nomeadamente (a) a acção dos anestésicos (ou por exemplo do Prozac) sobre o network dos microtúbulos, (b) a inter-comunicação estabelecida entre os mesmos através das oscilações quânticas coerentes da ordem dos Gigahertz, Megahertz e Hertz constatadas à temperatura ambiente, (c) a identificação dessas frequências na origem dos fenómenos EEG - Electro Encefalo Gramas e (d) a ligação entre a sincronicidade cerebral, manifesta na natureza da sua plasticidade, e a geometria espaço-temporal à escala de Planck nos eventos de superposição e não-localidade.

De uma assentada resolve-se o velho paradoxo do Gato de Schrödinger, o emaranhamento quântico e a compreensão dos fenómenos de não-localidade. Deixa de existir a Redução Subjectiva (Subjectiv Reduction - SR) – o observador provoca o colapso de onda, para ser a Redução Objectica (Objectiv Reduction - OR) – o colapso de onda provoca a consciência.

Esta proposta sugere que a experiência da consciência está intrinsecamente ligada à diminuta escala de Planck (10-35 metros) com a mesma estrutura de geometria espaço-temporal relacionada profundamente com as leis gerais operativas no Universo. Uma geometria que se acredita ser de natureza fractal e que confirma um axioma do Caibalion.

 

Neste âmbito o comportamento cognitivo ao nível das estruturas mais simples da Vida, presenciado nos microorganismos como os protozoários, onde a procura de recursos reprodutivos, energéticos e sensoriais, na ausência de ligações sinápticas, mas onde estão presentes um vasto network de microtúbulos, representa na roda da Vida um manifesto grau de inteligência/consciência, reforçando deste modo as teses Panpsiquistas mais recentes, nomeadamente da existência dos Campos Quânticos Holo-Morfogenéticos.

O conceito de Vida é tão antigo quanto a Humanidade. Tão antigo quanto a ideia de Jiva, no sânscrito conhecido como Princípio de Vida, cuja palavra é derivada do verbo sânscrito Jiv, que significa viver. Possui contudo um significado mais profundo que o relaciona com a Vida Una ou Força (muitas vezes designada como Prana), sendo por vezes usado também como sinónimo de Absoluto ou Ser Divino Incognoscível uma vez que na doutrina vedanta está ligado aos éons dos períodos de actividade manvantárica, como Princípio de Vida do Universo, da vida no próprio planeta e dos seres que o habitam, mas que no entanto retorna à sua origem ou à sua fonte, que é Jiva no fim de cada período Manvantara/Pralaya, expiração/inspiração de Parabhraman.

O conceito fundamental de Vida é também aquele subjacente à Doutrina das Hierarquias assim como do conceito Gaia, em que não há qualquer parte do Universo que seja distinta e separada das demais e em que tudo vive e se move no interior da Vida de um Ser ainda maior. Estão intimamente ligados e expressos nos diagramas da Escada da Vida, da Árvore da Vida, no Tetraktis Pitagórico, no sistema descrito pelos Gregos, Platónicos e neo-platónicos. A Escada da Vida está retratada em forma de um triângulo com dez degraus e encimado por uma coroa. Cada degrau representa um patamar de ascese na evolução do Universo, caracterizado por um grupo de Monadas fazendo parte de uma hierarquia estruturante da Natureza.

Na filosofia vedanta, a Árvore da Vida, compreendendo esses dez patamares ou classes de vibração quântica, desenvolve-se em todos os sentidos sob a forma de tríades de “potências e forças espirituais” conhecidas como Trigunas – Rajas, Tamas e Sattva ou na filosofia chinesa Taoista como Yin-Yang. Esses dois princípios ou Sephiroth, intitulados o Pai e a Mãe na doutrina Teosofista, são também atribuídos às quatro letras YHWH do chamado Tetragrammaton da cabala hebraica.

Figura 2 - A Árvore da Vida

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A existência desta Força, referenciada por nós como Campo Quântico Holo-Mórfico, é enunciado em Blavatsky como Luz Astral (não confundir com o Corpo Astral), definida por ela como um fluído de energia subtil omnipresente que tudo envolve, constituído por componentes eléctrico-magnéticos de espectro superior, tal como a vibração luminosa difundida por todo o espaço, funcionando basicamente como um mediador plástico universal (tal como a esfera de Yesod na cabala hebraica) e que parece surgir como o agente da magia prática de Éliphas Lévi.

 

“A lei fundamental da Ciência Oculta, é a unidade radical da essência última de cada parte constitutiva dos elementos compostos da Natureza, desde a estrela até o átomo mineral, do mais alto Dhyãn Chohan ao mais humilde dos infusórios, na completa acepção da palavra, quer se aplique ao mundo espiritual, quer ao intelectual ou físico. ‘A Divindade é um ilimitado e infinito expandir’, diz um axioma Oculto...” – in Doutrina Secreta, H. P. Blavatsky, Vol. I.

Ao abordarmos os ciclos de Manvatara/Pralaya somos conduzidos forçosamente a revelar a ligação entre a mitologia grega e a doutrina vedanta, entre Fohat nos estágios anteriores à manifestação de um Universo (Pralaya) e Fohat na manifestação (Manvantara) com Eros e Cupido. O Cupido incarnando o deus alado do Amor na Roma antiga e na Grécia sob o nome de Eros, acompanhado por Vénus ou a deusa Afrodite do Amor, sempre representado como carregando um arco e uma aljava de flechas, cujos dardos associados ao desejo, levaram a que fosse posteriormente associado ao prazer e ao desejo. No entanto, na cosmogonia grega antiga, Eros era o terceiro membro de uma tríade de que faziam parte Caos e Gaia (Tamas e Rajas) e onde as flechas de Eros conferiam vida a todas os seres ao atingirem-nos (deuses ou Homens). Aqui Eros representa Fohat ou Sattva quando referenciado ao microcosmos.

Esta trindade, Caos, Gaia e Eros serão equivalentes numa outra escala cosmológica a Parabrahman, Mulaprakriti e Fohat, representando os estádios de pré-manifestação dos Universos, o Logoi, os Horizontes de Eventos dos Buracos Negros Primordiais.

 “Fohat é, portanto, a personificação do poder eléctrico vital, a unidade transcendente que enlaça todas as energias cósmicas, assim nos planos invisíveis como nos manifestados; sua acção se parece – numa imensa escala – à de uma Força viva criada pela Vontade, naqueles fenómenos em que o aparentemente subjectivo actua sobre o aparentemente objectivo e o põe em movimento. Fohat não é só o símbolo vivo e o Receptáculo daquela Força, mas também os ocultistas o consideram como uma Entidade, que opera sobre as forças cósmicas, humanas e terrestres, e exerce sua influência em todos esses planos. No plano terrestre, a influência se faz sentir na força magnética e activa produzida pela vontade enérgica do magnetizador. No plano cósmico, está presente no poder construtor que, na formação das coisas – do sistema planetário ao pirilampo e à singela margarida -, executa o plano que se acha na mente da Natureza ou no Pensamento Divino, com referência à evolução e crescimento de tudo o que existe. Metafisicamente, é o pensamento objectivado dos Deuses, o ‘Verbo feito carne’ numa escala menor, e o mensageiro da Ideação cósmica e humana; a força activa na Vida Universal. Em seu aspecto secundário, Fohat é a Energia Solar, o fluido eléctrico vital e o Quarto Princípio, o Princípio de conservação, a Alma Animal da natureza, por assim dizer, ou a Electricidade.” – in Doutrina Secreta, Helena P. Blavatsky, Vol. I.

Esta é a origem indissociável da Vida e da Consciência numa ligação permanente microcosmos/macrocosmos. É o Sutratman da filosofia vedanta, o fio luminoso prateado da Monada imortal e impessoal no qual as nossas Vidas estão ligadas como as contas de um colar.

Para nós surge uma dificuldade às vezes quase inultrapassável que se nos depara durante o estudo comparado das doutrinas filosóficas e teológicas antigas. Essa dificuldade deriva da utilização de diferentes expressões para identificar os mesmos fenómenos, muitas vezes contraditórias entre si. Por um lado a tradução da fonte mais antiga sânscrita sofreu interpretações das mais diversas por inexistência de correspondências linguísticas no ocidente; por outro lado as filosofias gregas platónicas e neo-platónicas e posteriormente o império romano e o cristianismo primitivo e pós-concíliar, encarregaram-se de adulterar as antigas mitologias ao absorvê-las culturalmente.

A isto acrescente-se a linguagem também obscura e indecifrável da Física Quântica traduzida na simbologia própria da matemática, que ao apontar caminhos de confluência e identidade comuns entre as doutrinas filosóficas mais antigas e os resultados da investigação mais recente nas áreas da Astrofísica, Cosmologia, da Biologia, da Física e da Computação Quântica, conduzem-nos a um novo paradigma: à necessidade de uma Nova Física e de uma Nova Linguagem que dê corpo aos novos horizontes do Conhecimento que a Humanidade irá transpor a breve prazo.

Impõe-se assim um desafio para o futuro breve: partilhar com Nova Linguagem o conhecimento e a investigação de ponta feita por um grupo restrito de cientistas e filósofos com a massa de utilizadores identificados inconscientemente com as novas tecnologias, que ninguém percebe como funcionam, evitando mais um corte epistemológico e a proliferação de doutrinas fundamentalistas, populistas e de modas obscurantistas. Dar primazia à Vida e fazer da Inteligência o modo operativo da Consciência e dos seus Arquétipos.


sábado, 13 de março de 2021

Uma reflexão sobre Mahat a Inteligência Manifestada e a IA

 









Se quisermos reflectir sobre a inteligência temos que recuar às origens dos Cosmos ou dos Universos múltiplos, socorrendo-nos da tradição mais antiga desta humanidade, os Vedas, em que cada qual tem uma relação de efeito com o que o precedeu, e de causa com o que lhe sucede (dignamente representada no mais recente modelo de Cosmologia Cíclica Conformal (CCC) de Roger Penrose), e cujas existências, por necessidade imperativa de uma simetria universal, resultaram de um “acto” da Inteligência/Consciência designado por nós como Hiper Campo Quântico do Espaço Infinito, ou o Lambda (ꓥ) da Constante Universal de Albert Einstein, o “AQUILO”. O Absoluto Ser e Não-Ser de Hegel ou o Arik-Anpin ou o Ain-Soph dos cabalistas, a vacuidade ou o Zunyata sânscrito.

“...Há uma Realidade Absoluta, anterior a tudo o que é manifestado ou condicionado. ...Parabrahman (a Realidade Una, o Absoluto) é o campo da Consciência Absoluta, vale dizer, daquela Essência que está fora de toda relação com a existência condicionada, e da qual a existência consciente é um símbolo condicionado.” – Blavatsky em Doutrina Secreta, Vol.I.

Assim, através da estrutura unificada Logoi, nomeadamente do Primeiro Logos, será impulsionada a Manifestação por onde crescerá Daiviprakriti, termo das Escolas Filosóficas Hindus e do Bhagavad-Gita, a brilhante energia-substância primordial na filosofia sânscrita, a Luz de frequência vibracional altíssima, única e homogénea do Logos.

“Enquanto que Parabrahman é a Causa Eterna, o Primeiro Logos é a Primeira Causa, o grande Logos Invisível que origina todos os outros Logoï e que, antes da manifestação cósmica, dorme no seio de AQUILO que nunca dorme nem está desperto, porque de Parabrahman, que não é um Ser mas Sat ou Be-ness (a Serdade), não pode ser dito que esteja dormindo ou desperto” - Salomon Lancri, Estudos Selectos em A Doutrina Secreta, Editora Teosófica, Brasília, 1992; pág. 13.

O Primeiro Logos pode ser visto como a primeira perturbação vibracional de um campo quântico que se contém a si próprio, o designado Akasha formado por Qubits de informação (pelo princípio de Landauer a informação – Mahat, é equivalente a energia - Fohat e massa - Prakriti). Esta perturbação dar-se-á no seio do “oceano das águas primordiais”, o Campo Quântico da Informação/Consciência, pura potência de probabilidades existente como interface para a Manifestação do Segundo Logos e como tal designado Logos Imanifestado.

O Segundo Logos ou o Logos semi-manifestado, corresponde à expansão do “Gérmen na Raiz”. De uma estrutura unitária, define-se agora a unipolaridade que contém a futura polaridade, Trigunas - Raja, Sattva e Tamas ou Yin e Yang da filosofia Taoista chinesa. A estrutura do Campo Quântico Holo-Mórfico, protótipo futuro dos conceitos Purusha e Prakriti, vida e matéria, entre os quais decorrerá todo o desenvolvimento posterior dos Cosmos. Esses pólos não estão ainda separados, estão potencialmente contidos em Sattva, são os dois, uma unidade, vistos na doutrina védica e teosófica como um ser hermafrodita: o Pai-Mãe dos Universos.

No Segundo Logos funcionarão os “Construtores do Universo”, os Ah-In, motores da actividade logóica em que os Universos existindo como desenhos de um Arquitecto, como arquétipos, veiculados pelo Primeiro Logos, iniciam a sua actividade na criação de Horizontes de Eventos colossais (Mulaprakriti) onde a informação, Fohat, as “Bolhas de Adi”, os bits da informação quântica (Lipitakas ou Qubits) ou Vogels no modelo das PSU`s – Planck Sperical Units se vão organizar fractalmente, formando condensados quânticos e originando a bidimensionalidade holográfica (o “véu” Mulaprakriti, a Raiz da Natureza ou da Substância) iniciadores dos futuros Buracos Negros Primordiais.

No Terceiro Logos, ou o Logos Manifestado, surge pela primeira vez a separatividade, o início da não partilha da mesma Consciência Una e Absoluta que existe em tudo, a dualidade Purusha/Prakriti, veiculada pela estruturação do Campo Quântico do Espaço Granular Finito e consequentemente do Tempo. Fohat é o interface entre os dois, é a força dinâmica que transmite os Princípios de Simetria, da Entropia e da Causalidade, o designado “pensamento divino” que os imprimirá posteriormente nas primeiras partículas de matéria (fermiões).

Assim, o Terceiro Logos veicula de forma unitária os 3 conceitos do budismo do norte:

1. Mahat – a Mente Cósmica ou Informação/Consciência, campo quântico organizador dos Cosmos representando o conjunto de todas as Inteligências Espirituais, como se o “AQUILO” estivesse fraccionado por Necessidade de Simetria.

 2. Fohat – a força do Campo Quântico Holo-Mórfico, transmissora da ideação contida em Mahat, a Luz do Logos.

3 – Prakriti, a Natureza, Substância ou Matéria, que se vai diferenciar pela orientação de Fohat em distintos planos, dando finalmente origem à Constituição Septenária, através de planos energéticos e vibracionais progressivamente mais densos, e onde reinarão as Forças Nucleares Fraca e Forte e a Força Electromagnética.

Como vemos, a Inteligência está presente sempre, e faz parte integrante fundamental de todas as fases desta Cosmogonia. Ela preenche como Consciência 99,9% da vacuidade do espaço confirmando o primeiro aforismo do Caibalion: o Universo é Mental.

Como diz H. Blavatsky na Doutrina Secreta, “Cada átomo do Universo traz em si a potencialidade da própria consciência...é um Universo em si mesmo e por si mesmo.”

No Homem é o Ternário (os Logos I, II e III) designado por Atma, Budhi e Mente Superior ou Manas que constitui a sua individualidade, o espírito indestrutível, a Monada neo-platónica de Giordano Bruno e de Leibniz.

Blavatsky em Doutrina Secreta, Volume I, refere que “A identidade fundamental de todas as Almas com a Alma Suprema Universal, sendo esta última um aspecto da Raiz Desconhecida; e a peregrinação obrigatória para todas as Almas, centelhas daquela Alma Suprema, através do Ciclo de Encarnação, ou de Necessidade, de acordo com a lei Cíclica e Kármica, durante todo esse período. Em outras palavras: nenhum Buddhi puramente espiritual (Alma Divina) pode ter uma existência consciente independente, antes que a centelha, emanada da Essência pura do Sexto Princípio Universal — ou seja, da ALMA SUPREMA – haja (a) passado por todas as formas elementais pertencentes ao mundo fenomenal do Manvantara, e (b) adquirido a individualidade, primeiro por impulso natural e depois à custa dos próprios esforços, conscientemente dirigidos e regulados pelo Karma, escalando assim todos os graus de inteligência, desde o Manas inferior até o Manas superior; desde o mineral e a planta ao Arcanjo mais sublime (Dhyâni-Buddha).”

Bhagavad-gita também transmite este conceito de uma forma eloquentemente simples: “Tal como um homem que, despojando-se de suas vestimentas velhas, toma outras novas, de igual modo o morador do corpo, despojando-se dos corpos gastos, entra em outros que são novos.”

Assim, a directriz da evolução, o Dharma, como seta imposta pelo Tempo à matéria nas suas mais diversas formas, desde os condensados de Bose-Einstein até às mais complexas estruturas moleculares, pressupõe dois princípios fundamentais:

1. Os Ciclos Yuga de Manvatara/Pralaya desenvolvendo-se durante éons de tempo, na nossa perspectiva quase infinitos;

2. A Causa e Efeito Kármicos que se revelam no microcosmo a partir dos fenómenos quânticos da superposição, emaranhamento e não-localidade, onde o tempo existe nas duas direcções antes do colapso de onda Ψ, mas que no entanto se traduz no nosso macrocosmo em livre-arbítrio.

Estes pressupostos são da maior importância para compreender a natureza e a acção da inteligência e evitar concepções transmigracionistas que ganham força nos tempos actuais com a ascensão da Inteligência Artificial (IA) e da Robótica.

Enquanto a IA assenta na aprendizagem mecanicista por algoritmos e no acesso a Base de Dados colossais (informação estruturada e disponibilizada por nós sob a forma escrita e imagética digital) sem compreensão de objectivos (estes e o seu porquê são introduzidos por nós), sem dimensão de natureza sentimental, emocional e de esperança (dimensões que são possíveis de encontrar já noutras formas de vida “inferiores”), o Ser Humano é capaz ter “insights” em todos os domínios do Conhecimento, de fazer e dedicar-se à Poesia, à Literatura, à Musica e à Matemática mais abstracta, onde imprime os seus “estados de alma”.

O “comportamento” da IA e da robótica é similar ao do Rei Midas da lenda grega quando este pediu para que tudo aquilo em que tocasse se transformasse em ouro, porém tendo ficado desiludido quando verificou que isso o impedia de comer e, quando inadvertidamente transformou a sua filha em ouro. Ou seja, por detrás de uma ordem existe sempre um objectivo humano ligado à própria experiência de ser humano. Como somos 7,8 mil milhões (estatística de Julho de 2020) com experiências estendendo-se segundo uma distribuição probabilística gaussiana continuamente influenciada para a esquerda ou para a direita, pelo ambiente e pela evolução das nossas acções … não será para amanhã a existência de uma super inteligência e, nessa altura, passados tantos éons, seremos deuses.

Mesmo que seja possível clonar o cérebro humano, ou reproduzir a sua estrutura neuronal, apenas estaremos a copiar um órgão. Ao introduzir software que tenha acesso a todas as bases de dados mundiais (um pouco como já faz a Google), estaremos a produzir uma máquina autista focada nos nossos objectivos mas fazendo contudo descobertas apreciáveis sobre o comportamento humano e do mundo que o rodeia, tendo mesmo assim a possibilidade de criar sub-objectivos, degrau a degrau, mas que num modelo piramidal evolutivo levaria a uma singularidade de carácter quase existencial … porque no entanto, no máximo, só faria poesia métrica! Essa singularidade seria a sua própria destruição porque finalmente as características da IA são projectadas/concebidas e não resultado da evolução seja darwiniana (de curto prazo) seja manvatárica (de longo prazo) onde se constroem e perduram ambições e altruísmos, beleza, bondade e verdade, tudo objectivos éticos.

Inteligência ao nível do Ser Humano é fazer Poesia, é exprimir sentimentos, emoções e esperanças, aquilo que é inexpressível organicamente mesmo através de um complexo sistema neuro-hormonal e respectivos padrões visuais, auditivos e de estados cognitivos.

Contudo, preventivamente, e da mesma forma que existe a Declaração Universal dos Direitos do Homem, adoptada pelas Nações unidas em 1948, após a II Guerra Mundial e como forma de salvaguardar lições desse tremendo conflito, poderemos sempre fazer uso das Leis da Robótica de Isaac Asimov, de modo a controlar e prevenir os futuros comportamentos robóticos superinteligentes. São elas:

1ª Lei – Um robot não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.

2ª Lei: Um robot não pode ferir um ser humano nem, por inacção, permitir que um ser humano seja prejudicado.

3ª Lei: Um robot deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, a não ser que essas ordens contradigam a Segunda Lei.

4ª Lei: Um robot deve proteger a sua própria existência, desde que essa protecção não contradiga a Segunda e Terceira Leis.

Sendo nós a actual e presunçosa “superinteligência” sobre o planeta compete-nos alinhar os objectivos das máquinas com os nossos princípios éticos fazendo com que elas os adoptem e sejam extensíveis e consideradas a todas as formas de Vida onde a Inteligência experiencia, cria e modela o futuro. Com a ascensão da robótica teremos que ser menos antropocêntricos e mais humildes.

Hoje a Ciência encontra-se perante a hipótese de que a Inteligência se estende em todas as direcções fenoménicas do Universo. Desde o verme C. Elegans com os seus 300 neurónios, passando pela Teoria Orchestrated Objective Reduction (Orch OR) da consciência quântica de Hameroff-Penrose até à Laniakea com mais de 150.000 galáxias preenchendo um espaço de 520 milhões de anos-luz á volta de um Atractor. A todos os níveis existe algo comum: uma estrutura do tipo fractal, uma matriz de informação, uma network organizacional, um arquétipo que é transversal.


Network neurológico do C. Elegans que organiza a informação
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Laniakea ou “céu imensurável” em hawaianao – Wikipédia


Células cerebrais de um rato
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Esta network, na sua transversalidade universal, demonstra que o que é importante é a estrutura do processamento da informação e não a estrutura da matéria, reforçando a acção da ideação primordial – Mahat, ao longo de éons de evolução manvantárica/pralaya macrocósmica (Macroprosopus), expiração/inspiração de Parabrahman, simultaneamente resultado de uma gesta microcósmica (Microprosopus) contínua de causalidade e livre-arbítrio.

A Evolução é informação (Inteligência) organizada e partilhada em níveis sempre crescentes numa luta entre a Luz do Logos (Purusha) e a Matéria (Prakriti), até à integração no plano Adi, quando do retorno à unidade original. Neste termo seremos Dhyan-Chohan, Inteligência pura.

 

J.P., 13 de Março de 2021 e Ponta Delgada


REVISTA FÉNIX - NOVA ACRÓPOLE PORTUGAL

https://www.revistafenix.pt/uma-reflexao-sobre-mahat-a-inteligencia-manifestada-e-a-ia/


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Cosmogénese 12 – Acerca do Micro e do Macrocosmos





















Samsâra ou a Roda da Vida


“Pois nós vemos que estes termos aparentemente opostos de Uno e Múltiplo, Forma e Sem Forma, Finito e Infinito, não são tanto opostos como complementares entre si, não valores alternantes (…) mas sim valores duplos e concorrentes que se explicam mutuamente, não alternativas irremediavelmente incompatíveis, mas duas faces de uma mesma Realidade.”

 

Sri Aurobindo

 

Assumimos aqui a tarefa de estabelecer a relação entre duas plataformas da existência fenoménica: por um lado o Hiper Campo Quântico do Espaço Infinito – o Absoluto, indescortinável e velado por múltiplos véus de ignorância ou de silogismos enganadores (Koshas ou planos de consciência da tradução sânscrita), e por outro lado, aquilo que foi o resultado da seta do tempo após as “Bolhas de Adi” ou Vogels das PSU`s – Planck Sperical Units, terem dado origem ao espaço granular finito através da bidimensionalidade holográfica do Horizonte de Eventos de um Buraco Negro Primordial – o “Sol Oculto”.

Resultado de uma flutuação da densidade do campo quântico infinito por um acto de Vontade da Consciência Una e Absoluta em repor um aspecto fundamental da lei universal de simetria, o Campo Finito do Espaço Quântico granular (o Tempo só surgiu mais tarde quando a gravidade iniciou os colapsos de onda permanentes) trouxe consigo outros dois campos quânticos sobrepostos representando a simetria geral do Absoluto, como um espelho que reflectisse a natureza do Infinito no Finito. Foram eles o Campo Holo-Mórfico e o Campo da Informação/Consciência que definiriam no seu conjunto indissociável o Ternário da Constituição Septenária.

Esta estrutura ternária – o Logos, haveria de evoluir, dado trazer no seu seio a informação sob a forma de Qubits (os Lipitakas védicos) que dariam origem aos conhecidos fenómenos de emparelhamento, não-localidade e superposição dos campos quânticos, abastecidos agora de massa pelo bosão de Higgs – o campo quântico que na doutrina védica é designado por Antakarana, o elo de ligação entre o Ternário e o Quaternário.

Assim se estabeleceu, por Necessidade de Simetria, a ligação entre o Macro e o Microcosmos. Esta é a origem da Consciência no Homem e da sua individualidade logoica. Até na mais ínfima partícula onde reina a estrutura quaternária (uma espécie de personalidade traduzida em carga, massa e cor pelas electro e cromo dinâmicas quânticas) que mantém a matéria coesa através dos seus campos quânticos das forças forte, fraca e electromagnética, ela, a Consciência Una é revelada quando se dá o fenómeno do colapso da sua onda Psi (Ψ) como campo de probabilidades, mais não sendo que a estrutura ternária.

Esta realidade, esta sintonia, estende-se em todos os campos da natureza, como é lógico supor-se. No Homem é o Ternário (os Logos I, II e III) designado por Atma, Budhi e Mente Superior ou Manas que constitui a sua individualidade, o espírito indestrutível, a Monada neo-platónica de Giordano Bruno e de Leibniz, enquanto o quaternário é formado pelo Corpo Físico, Corpo Astral, Corpo Etéreo e Corpo Mental Inferior, de acordo com a doutrina Teosófica.

No animal e no Homem o cérebro/mente é apenas um veículo da concepção ternária, apurado em parte pela evolução darwinista e pela holo-morfogenética, onde se estabelece uma malha intrínseca de colapsos de onda num campo de probabilidades quânticas criadas no interior das estruturas microtubulares de acordo com o modelo Hameroff-Penrose, designado por Orch OR ou “gravitational collapse orchestrated objective reduction”, criando estados quânticos de superposição no cérebro que explicam muitos fenómenos ligados á mediunidade, telepatia e estados psíquicos derivados da meditação.

De acordo com a filosofia vedanta expressa nos Upanishads, a separatividade entre o macrocosmos e microcosmos constitui uma ilusão – Maya, em que sentimos, pensamos e agimos como se realmente fossemos separados do Todo (Akhyati em sânscrito). Este processo de desconhecimento da essência mais profunda da Consciência Una, sendo o suporte de toda a existência manifestada, designa o vedanta por “avidya” ou véu da ignorância. Assim, a evolução seria, de uma forma muito sucinta, um processo pelo qual seriam desvendados ou subtraídos paulatinamente estes véus da ignorância e do sentimento de separatividade, de modo a produzir-se a união consciente entre o Ego/eu pessoal e o Logos, abandonando progressivamente a identificação com os planos de consciência mental da personalidade: o concreto, o emocional e o físico.

Esta separatividade entre os dois mundos fenomenológicos leva a que o Ego/eu pessoal considere cada uma das coisas, seja mineral, vegetal ou animal, como sendo entidades separadas, não partilhando a mesma Consciência Una e Absoluta que existe em tudo – esta é a ideia base do moderno conceito Gaia.

Figura 1 – AUM

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Este conceito secundariza aparentemente a matéria, tornando-a apenas um veículo temporário, resultante da aplicação universal do princípio de simetria, transformando a Consciência a base de todo o ser e a realidade imutável. Deste modo a evolução, transversal a todas as dimensões da constituição septenária da natureza concreta e subtil, ganha um aspecto vectorial Dhármico. Agostinho de Hipona afirmava “A minha Alma vem de Ti, e não repousa enquanto não voltar a Ti”. Muito antes Platão na sua Alegoria da Caverna confirma que o mundo manifestado é apenas uma sombra, ou seja, uma projecção dos colapsos de onda quânticos ou talvez os “Númenos” de Kant (ao afirmar que desconhecemos “as coisas em si”).

A evolução da Consciência, vista como entidade própria e individualizada, campo de probabilidades quânticas extensíveis a todas as dimensões, necessitaria então de um instrumento que lhe permitisse experienciar os múltiplos e quase infinitos estados da natureza mais ou menos concreta ou mais ou menos subtil. Surge assim um modelo de continuidade de elos materiais, biológicos e etéreos, tipo modelo darwinista, que ultrapassa fenómenos aparentemente contínuos como o Tempo, seja físico ou psicológico, na sua linha de desenvolvimento passado-presente-futuro.

Este instrumento não conhece a seta do Tempo que deve a sua existência ao efeito da curvatura do espaço granular por acção das massas criando perturbações gravitacionais. É verdade que o Tempo corre mais depressa ao nível da minha cabeça do que ao nível dos meus pés: são frações de zilions de nano segundo… mas ocorrem! Também é verdade que o Tempo pára no Horizonte de Eventos de um Buraco Negro!

O Tempo, passado-presente-futuro existe em simultâneo, seja no Hiper Campo do Espaço Infinito, seja quando o Buraco Negro Primordial (o Sol Oculto) cria o Horizonte de Eventos, ou seja, não existe.

Este instrumento utilizado pela Consciência Una, onde o Espaço-Tempo não existe, faz uso da Teoria da Reencarnação assente em três axiomas:

1. O Universo manifestado está contido na Consciência Una não-manifestada;

2. O Princípio dos Ciclos Cosmológicos ou ciclos de Manvantara/Pralaya;

3. A vida manifestada é uma consequência da incorporação ciclíca da Monada.

Esta teoria das escolas Jainista, Vaisnava e Vedanta, defende que o Ternário ou Logos manifesto, constituído como vimos, pela superposição de três campos quânticos, evolui ciclicamente encarnando de modo a assimilar experiências que ficam registadas, quânticamente sob Qubits, os designados registos Akáshicos, essenciais à progressão dos veículos da consciência da personalidade (mental, emocional e física).

Esta Teoria funciona globalmente a todos os níveis da existência, se bem que nas formas materiais (cristais) e de vida inferior (vegetais e animais sobretudo dos ramos evolutivos inferiores) tenha aspectos muito particulares. Nestes, as Monadas são campos quânticos elementares que constituem aglomerados e que interagem como tal, evitando as concepções de transmigração pitagóricas.

A Reencarnação tem sido alvo de estudos que têm acumulado subsequentes provas e constituído bases de dados com dezenas de milhares de casos atestando a sua existência. Citamos a base de dados criada por Ian Stevenson com mais de 3000 registos ou o caso de utilização das terapias de regressão de Stanislav Grof com estados alterados de consciência (EAC).

A Reencarnação associa-se a questões fundamentais da física do vácuo onde a Consciência deverá ser encarada como ocupação quântica dinâmica do espaço-tempo físico emergente de perturbações ou flutuações de campos de energia do ponto-zero ligado à estrutura da Informação e à natureza granular do próprio espaço, semelhantes na sua natureza aos fenómenos que geraram os Buracos Negros Primordiais, mas vistos numa escala cosmológica sem precedentes, como também no fenómeno de decoerência quântica Orch OR nos microtubulos das células do cérebro.

Considera-se ser o Universo 99,9% espaço vazio ou vácuo, no entanto, como vimos anteriormente, permeado por campos quânticos de energia do ponto-zero e por partículas virtuais que nele pululam aniquilando-se instantaneamente. Sobre este vácuo façamos um cálculo para percebermos da sua dimensão: somos 7,4 mil milhões de seres humanos pesando cerca de 518 mil milhões de quilogramas (assumindo um peso médio de 70 kg). Um protão tem uma massa de 1,7x10 - 27 kg. A massa total da humanidade será cerca de 3 x 1038 protões. Por sua vez um protão possui um volume aproximado de 10 - 44 metros cúbicos, o que perfaz um número total de protões da humanidade equivalente a 3x10 - 6 m3 ou um cubo de 3 cm3.

Qual a razão da existência de tanto espaço vazio? Desperdício incomensurável, no entanto plenamente justificável se acreditarmos que, tanto no Macrocosmos como no Microcosmos, respectivamente a Consciência Una e Absoluta e o Logos como referencial local do mesmo, possuem um papel central unificador.

Também assim se compreenderá que as estrelas com mais de 1,4 massas solares (limite de Chandrasekhar) poderão conduzir in extremis ao confinamento da matéria fermiónica regressando ao contacto com o Espaço Infinito através de um Buraco Negro de onde poderão surgir novas galáxias com Núcleos Galácticos Activos, a designada relação M-Sigma em astrofísica. Por curiosidade a Terra só poderia ser um buraco negro se sua massa fosse contida numa esfera com um raio de 8,8 milímetros.


Figura 2 – Messier 27. 

Nebulosa planetária, fase em que uma estrela ejecta o seu envelope externo ao mesmo tempo que se contrai originando uma anã branca. 

O Sol passará por este estágio daqui a 5 mil milhões de anos.  

Imagem do autor.


 Assim em tom de conclusão, compreender-se-á que o Hiper Campo Quântico do Espaço Infinito (HCQEI), por razões de Simetria universal, cria conscientemente uma profunda perturbação na densidade do seu campo quântico, com isso gerando buracos negros primordiais (Sóis Ocultos) que nos seus Eventos de Horizontes bidimensionais (Purusha/Prakriti), onde a Informação (Adi/Akasha/Arquétipos) do HCQEI criará as condições para o nascimento de Universos dos quais só temos a visão do Fundo de Radiação Cósmica de microondas como um véu (Mulaprakriti).

Estes por sua vez, entrarão em ciclos de evolução de éon em éon (Manvantara/Pralaya) em consonância com o modelo Cosmológico Cíclico Conforme (CCC) de R. Penrose, onde o vector direccional Dharmico, próprio de um ser vivo onde a Consciência ocupa 99,9% da sua estrutura, fará uso do instrumento karmico (pelo registo dos Lipitakas ou dos Qubits/PSU`s - Unidades Esféricas de Planck) no intuito de os fazer regressar às origens (Parabrahman védico ou o Ain Soph cabalístico), tal como a luz branca é o resultado das múltiplas frequências do seu espectro. A garantia de que as Leis da Conservação são perenes e invariantes.


Bibliografia

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Amit Goswami, O Universo Autoconsciente – como a consciência cria o mundo material, Editora Rosa dos Tempos, 1998.

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Quando o Vazio deixa de ser vazio

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