domingo, 15 de agosto de 2021

Maya – a ilusão do mundo material

 







por João G. F. Porto

Caminhamos aceleradamente para um estado em que estaremos todos ligados, de alguma forma, como macroestruturas, utilizadores a 100%, a tempo integral, do digital, da TV digital, da internet e das redes sociais. Presentemente, sobretudo nos países criadores da linha da frente tecnológica, dependemos permanentemente dos conteúdos digitais para exercermos o nosso dia-a-dia. No próximo futuro, a evolução poderá conduzir para um estado de “entanglement” da nossa espécie e logo depois com as outras espécies assim com o mundo em geral numa perspectiva Gaia. A evolução através da selecção natural fará a caminhada na união do micro e do macrocosmo, a unidade perfeita contraposta à dualidade criada até agora pela selecção natural entre o mundo quântico e o da Relatividade Geral do Espaço-Tempo onde evolui a matéria. No entanto e de acordo com Donald Hoffman (1) esse “entanglement” sempre existiu como causalidade da consciência.

Nós somos um produto da selecção natural. A nossa visão do mundo que nos rodeia, as nossas concepções e a forma como investigamos e criamos as propriedades dos fenómenos naturais, constituem a forma como a natureza, por uma questão de sobrevivência e adaptação, nos colocou em relação consigo mesmo. As propriedades atribuídas aos objectos das nossas relações são apenas uma forma redutora criada pelo colapso de onda nas inter-relações estabelecidas para que nos seja possível interagir de forma eficaz com o ambiente.

A atribuição de propriedades a um objecto é inseparável da manifestação das interacções que definem essas próprias propriedades e isso constitui a nossa realidade: uma teia de relações onde os objectos, os CAN`s ou Conscious Agents segundo D. Hoffmann (2), são os nodos de ligação de uma rede complexa. Como a mecânica quântica define de raiz, não existem propriedades se não houver interacções: um electrão enquanto não interage com alguma coisa não tem propriedades físicas conferidas pela sua posição e velocidade. Daqui também se infere que factos que são reais para um objecto não são necessariamente reais para outros. Esta é a perspectiva também defendida por Carlos Rovelli (3).

Não poderíamos deixar de evidenciar a similitude entre as duas fórmulas matemáticas (a de Donald D. Hoffman e a de Erwin Shrödinger) que colocam a física da consciência a par da física quântica:

De outro modo estaríamos envolvidos em relações extremamente complexas com um mundo quântico de não localidade, de sobreposição fenoménica e “entanglement”, de acontecimentos descontínuos, relativos e probabilísticos. Mas porquê? Porque a natureza “resolveu” ou derivou para esta opção? Podemos desde logo inferir que a mecânica quântica, bem ou mal compreendida, constitui a realidade constatada até agora pela ciência ao nível do microcosmo. É a nossa gramática de interpretação mais profunda da natureza. Se somos aglomerados de partículas, na visão fisicalista, contudo os fenómenos quânticos deverão permanecer activos e manifestar-se. Esta situação tem vindo a ser confirmada pela recente descoberta de fenómenos quânticos em macroestruturas que abrangem desde estruturas cristalinas ou estruturas biológicas que integram formas de vida evoluídas.

A “necessidade” evolutiva do aparecimento de macroestruturas organizadas, na origem da vida, deve-se à segunda lei da termodinâmica – a Entropia. Da mesma forma que o surge o Universo. Do “ponto Laya” de acordo com H. P. Blavatsky ou de uma flutuação do vácuo originalmente homogénea e sintrópica como advoga a moderna cosmologia onde desaparecem os antagonismos entre a Mecânica Quântica e a Relatividade Geral – o Campo Unificado.

Ou seja, na origem tudo esteve “fisicamente” integrado e em comunicação: a informação inicial permaneceu e cresceu na medida em que o Universo se expandiu aceleradamente. Esta informação de natureza quântica, vai sobretudo estruturar-se e reflectir-se no surgimento do Campo de Higgs que passa a permear todo o proto universo e visa conferir massa às partículas. É o “Akasha” védico que cria a “rede” quântica do Espaço e do Tempo numa estrutura repetitiva fractal, uma rede de spins, em que “o espaço se encrespa como a superfície do mar e estas crispações são ondas semelhantes às ondas electromagnéticas graças às quais vemos televisão.” (4)

A “espuma de spins” encarada com retículo à escala de Planck (10-35m) do espaço quântico acaba por assumir as mesmas características do Teorema da Combinação de Donald Hoffman onde dado qualquer pseudografo de Agentes de Consciência, cada um constituído por 6 componentes, qualquer “subset” destes agentes pode ser combinado para formar um novo Agente de Consciência, dando origem em termos práticos a uma Máquina Universal de Turing ou à Tese de Church-Turing e a um Espaço Conformal de Penrose.

Figura 1 – Estrutura formal simples de um Agente Consciente (C) com os 6 componentes tal como

a Máquina Universal de Turing.

O canal P transmite mensagens do mundo W (o Espaço-Tempo), gerando experiências conscientes X.

O canal D transmite mensagens de X gerando acções G.

O canal A transmite mensagens de G gerando novos estados em W.

N é um inteiro que faz a contagem das mensagens que passam em cada canal.

C = (X, G, P, D, A, N)


É já no processo final da Nucleosíntese (ver Cosmogénese 11 onde se atesta asemelhança espantosa entre as denominadas “Bolhas de Adi” e os “voxels”do modelo holográfico de N. Haramein. Este descreve uma geometria esférica como um volume básico de entropia ou de unidades PSU – Planck Shperical Units ou Unidades Esféricas de Planck, onde se aloja o bit de informação holográfica) que a dualidade ensaia as suas tentativas experimentais conducentes ao aparecimento dos primeiros complexos moleculares que vão depois fazer parte da biologia inerente à vida, transportando no seu âmago as premissas dos Agentes Conscientes – o Espaço-Tempo está consolidado e em expansão, preparado para aceitar os desenvolvimentos futuros que darão origem ao Universo.

“Está dentro e fora de todos os seres. Move-se mas no entanto está imóvel. É incompreensível pela sua subtileza. Está longe e próximo ao mesmo tempo” – Bhagavad Gita/XIII, 15 (5).

A evolução impeliu todos os seres para comportamentos destinados a aumentar as suas aptidões biológicas direccionadas à localidade, à interpretação eficaz de sons, cores, sabores e tacto, tornando-os mecanismos de recurso e de sobrevivência. Neste aspecto Darwin tem toda a razão. A hereditariedade é apenas o mecanismo que assegura a aquisição e transmissão de caracteres relevantes à sobrevivência e à adaptação ao meio de modo que a entropia possa continuar a exercer a certeza da finitude do mundo – daí a ilusão! Confirmada pela equação quântica de Schrödinger. Esta é a actual e renovada concepção de Maya (6), a ilusão do mundo material na filosofia dos Vedas.

Como afirma Brian Greene (7), “A marcha entrópica explica como se podem formar aglomerados ordenados num mundo que se vai tornando cada vez mais desordenado, e como alguns destes aglomerados, estrelas, podem permanecer estáveis ao longo de milhares de milhões de anos, enquanto produzem calor e luz constantes.”

A natureza quântica primordial traduzida na Informação saída do hiper-espaço quântico sintrópico altamente homogéneo (entropia negativa), por uma oscilação do vácuo infinito que se contêm a si próprio, o Parabrahman védico, organiza o Espaço como espuma de spins fractal (figura 2) e como tal cria a flecha do Tempo essencial á marcha entrópica.

Figura 2 – Retículo à escala de Planck do espaço-tempo físico que define uma espuma de spins.


Neste âmbito a existência de uma probabilidade não-zero em éons de tempo fará surgir um Efeito de Túnel Quântico designado por salto Higgs determinando o destino do proto universo a longo prazo. Com o Campo Quântico de Higgs, avançando em crescendo até atingir a velocidade da luz como uma esfera (o Antahkarana nos Vedas) afastando-se de um ponto central, encontram-se as condições necessárias e suficientes para o despontar das primeiras partículas (fotões) criadas naquilo que virá a ser um mega Buraco Negro primordial com uma temperatura colossal. Assim acredita-se que o campo de Higgs irá redefinindo o espaço vazio com o seu campo de 246,22 GeV (de relance e apenas por curiosidade, a constituição septenária reflectida neste valor 2+4+6= 12 = 2+1=3;2+2 = 4, 3+4 =7).

No Horizonte de Eventos deste Buraco Negro titânico em expansão, os fotões que não sentem qualquer resistência de arrasto, o que os torna sem massa, não sentiriam o campo de Higgs e formariam a chamada Radiação Hawking ao desdobrarem-se numa partícula positiva de matéria que abandonaria o horizonte de eventos (a designada “cabeleira” do Buraco Negro ou Radiação Hawking) e noutra negativa de antimatéria, esta última absorvida pelo Buraco Negro. Provavelmente aqui reside o facto de o nosso universo ter uma preponderância de matéria versus antimatéria.

Poderemos dizer que a Informação nesta fase está fortemente entrelaçada com a experiência da criação do Espaço-Tempo e do Campo de Higgs, confundindo-se ambas. Este entrelaçamento poderá desdobrar-se mais tarde, e de acordo com a perspectiva do neurocientista Giulio Tononi, em consciência como informação altamente integrada e diferenciada pela matéria adquirindo paulatinamente na sua evolução um valor crescente de Φ. A protoconsciência panpsiquista.

“Reconhece que a luz do sol que ilumina o universo inteiro, a luz da lua e a do fogo são a minha própria luz.”- Bhagavad Gita, XV, 12. Ou seja pelo comentário de acordo com advaita Sankara, a luz que é consciência, que está no sol, na lua e no fogo, hás-de saber que é minha, pertence a Vishnu.

Estamos agora no dealbar do Trilogos (Informação, Espaço-Tempo granular, campo quântico de Higgs) e na passagem para a realidade quaternária com os seus constituintes traduzidos nos campos quânticos das forças forte, fraca e electromagnética e respectivas partículas fermiónicas (dos quarks aos electrões). Esta é a estrutura septenária original.

E aqui chegados, para bem da nossa evolução deste lado da matéria, tudo emerge de uma colecção de propriedades governadas por leis física atestadas por algumas centenas de anos de experiências e teorias expressas numa mão cheia de símbolos matemáticos. Contudo a mesma evolução que nos dotou com complexas redes neuronais, mas da mesma natureza daquela pertencente a uma minhoca C. Legans, permite com auxílio de tecnologia levantar o véu e mostrar-nos a realidade ilusória, os limites arbitrários, convencionais e cómodos que organizam a informação de que dispomos.

Tal como foi anunciado pela filosofia védica alguns milhares de anos atrás, a ciência hoje explora e realiza, pelo menos matematicamente, uma teoria monista da consciência que a coloca no início da origem de todas as coisas, em que a dualidade é pura ilusão: “… a Inteligência que fecunda o Caos.” (Blavatsky, comentário à Estância III de Dzyan).

João Porto, Ponta Delgada, 14 de Agosto de 2021.

Notas

 (1) Donald Hoffman, The Case Against Reality, how Evolution Hid the Truth from Our Eyes, Norton, W. W. & Company, Inc., Agosto 2019.

(2) Donald D. Hoffman and Chetan Prakash, Objects of Consciousness, https://doi.org/10.3389/fpsyg.2014.00577

(3) Carlos Rovelli, Helgoland,Allen Lane – Penguin Books, 1ª edição, 2021.

(4) Carlos Rovelli, A Realidade Não É o que Parece, Contraponto, 1ª edição, Outubro 2019.

(5) Bhagavad Gitã, Edición de Consuelo Martín, Editorial Trotta, 1ª reimpressão, 2018.

(6) H. P. Blavatsky, A Doutrina Secreta, Volume I – Cosmogénese, Editora Pensamento, 1ªedição 1980, 26ª reimpressão 2020.

(7) Brian Greene, Até ao Fim dos Tempos, editor Luís Corte Real, Edições Saída de Emergência, 1ª Edição Maio, 2021.


quinta-feira, 8 de julho de 2021

A natureza profunda das folhas e a geometria sagrada

     Parque urbano de Ponta Delgada, imagem do autor.


Vem este assunto a propósito de reflexões que afluíram à minha mente durante caminhadas que diariamente faço no parque urbano da minha cidade, ao observar descuidadamente o formato da folhas da diversa vegetação arbórea e rasteira que por ali cresce.

As folhas são um dos principais órgãos do reino vegetal adquirindo formas muito diversas e assumindo funções vitais para a planta. São elas que estão encarregues do fenómeno da fotossíntese e das trocas gasosas com o meio ambiente (respiração e transpiração). Através da primeira convertem os fotões da luz visível em energia biologicamente utilizável por um processo que recentemente foi descoberto e que torna a fotossíntese tecnologicamente tão sofisticada, pois ela, inacreditavelmente, tira vantagem da natureza quântica da luz, a sobreposição ou emaranhamento quântico à temperatura ambiente (1). Um único fotão sensibilizava cromóforos distintos (pigmentos que absorvem a energia) de forma simultânea, envolvidos na formação de cadeias de adenosina trifosfato (ATP) nos cloroplastos, produzindo oxigénio e assimilando dióxido de carbono, tornando-se assim nos pulmões do nosso planeta e produzindo quantidades astronómicas de hidratos de carbono que vão constituir as suas estruturas, desde sementes, raízes, tubérculos, caules, folhas e os seus sistemas reprodutores, as flores. Pela respiração fazem o processo inverso absorvendo oxigénio e libertando CO2. Coloca-se claramente a questão: milhares de milhões de anos antes da nossa existência humana já a natureza havia “compreendido” as bases da mecânica quântica.

Espontaneamente surgiu-me a ideia de que toda a prolificidade que a natureza nos oferece expressa nas suas mais diversas formas e feitios, e que traduzem a sua capacidade de adaptação e de competição entre espécies, deveria ser uma maneira eficaz de dissipação de energia, não fosse o princípio da entropia, motor da evolução, também aplicar-se a esta forma de vida. Contudo suspeitei que algo mais deveria estar por detrás deste aparente caos.

Ao reparar no órgão que sustenta esta forma de vida – as folhas, identifiquei uma forma geométrica comum e redundante a todas elas: o triângulo.

É sabido que a árvore foi utilizada pela filosofia da Kabbala como referência oculta da “Árvore da Vida”, representando a Constituição Septenária ao assumir que a copa representa o quadrado (o quaternário) e as raízes o triângulo (o ternário). O triângulo conjuntamente com o círculo e o quadrado, constituem as principais formas da geometria sagrada. Contudo consubstanciando este aspecto deverá existir um outro ligado á economia de meios de que a natureza é pródiga. A sua sustentabilidade aí reside.

Se repararmos, qualquer que seja o formato considerado de uma folha, esta evolui em torno de uma forma geométrica que se aproxima do triângulo ou de um conjunto de triângulos (quando são compostas) que têm a tendência, nem sempre, de desenvolver formas arredondadas nos seus limbos como é o caso das orbiculares e das reniformes (ver figura 2). Ou seja existe uma complementaridade entre duas formas geométricas: o triângulo e o círculo. Se pensarmos que, geometricamente, uma poderá ser deduzida da outra, não estranharemos essa ligação.

Figura 1 – Geometria nas folhas


Figura 2 – Formatos de folhas. Wikimedia Commons.

Uma folha comum poderá ser representada por dois triângulos partilhando um dos lados e derivados da intersecção de dois círculos (Figura 2).

Figura 3 – Visica Piscis e a origem do formato foliar

É evidente que a base será esta, dois triângulos equiláteros que surgem da intersecção de dois círculos, a famosa vesica piscis, a bexiga de peixe, considerada a semente divina da geometria sagrada, simbolismo esotérico da Criação, cuja altura conjunta corresponde a , assumindo que o valor do raio é a unidade.

A Vesica Piscis representa a relação de duas entidades distintas e a complementaridade dos opostos, a dualidade da existência, mediadores entre um dos círculos que representa a criação da matéria sobre a qual desceu o espírito, a energia da Luz, representado pelo outro círculo, ou seja a relação entre a alma e a Psichê. Para Platão era o arquétipo da beleza, a figura central da “Flor da Vida” e mais tarde constituía a forma geométrica, o “útero”, dos construtores das catedrais medievais.

Figura 4 – Visicula Piscis

Três pontos equidistantes e da sua união resultam dois tipos de triângulos: os equiláteros e os rectangulares, estes últimos formados por dois catetos e uma hipotenusa e constituintes de todas as superfícies poligonais, sejam regulares ou irregulares, incluindo os triângulos não rectângulos. Logo a base de reflexão incidirá sobre os triângulos rectângulos.

Podemos considerar os seus catetos como representando a dualidade de dois pólos opostos, dos quais surge um, e só um segmento: a hipotenusa, a união dos opostos geradora da superfície. Logo, de dois segmentos unidimensionais (1D) surge o 2D.

 

A ordem bidimensional não é apenas representada pelo triângulo rectângulo mas também pela figura geométrica do quadrado. Um quadrado surge também de um segmento reafirmando o significado matemático de elevar ao quadrado, inerente ao Teorema de Pitágoras onde o quadrado maior é a soma dos outros dois e o conjunto dos três formam uma sequência de Fibonaci cujo princípio se baseia no número de ouro e cria uma sequência infinita de triângulos. Este é o conhecido triângulo de Price, único triângulo rectângulo cujos três lados formam uma proporção em progressão geométrica, ou seja a razão entre o cateto maior e o menor é igual á razão entre o cateto maior e a hipotenusa, o mesmo significa que é Φ (Phi = 1,6180339887498948482045…de infinitas casas decimais.

a2 = b2 + c2

Figura 5 – Demonstração prática do Teorema de Pitágoras. Imagem Wikimedia Commons.

Outro triângulo rectângulo é aquele que surge dos 3 segmentos que unem os vértices do quadrado com os pontos médios dos lados opostos, o chamado triângulo sagrado egípcio que deriva da progressão aritmética dos seus lados quando por exemplo tomam os valores 3, 4 e 5 e formado pelas respectivas 3 grandes raízes quadradas:   e , ligados de forma simbólica à criação da matéria.

Estamos a relacionar as 3 formas geométricas principais ligadas à geometria sagrada, o círculo cuja relação directa entre o perímetro e o diâmetro, no que resulta no valor π = 3,14159265358979….de infinitas casas decimais, o triângulo e o quadrado e que estão na base da estrutura septenária e da quadratura do círculo.

Figura 6 – As três raízes sagradas. Wikimedia Commons.

A razão desta relação prende-se com a estrutura tipológica que preside à formação de todas as folhas dos seres vegetais. Esta estrutura apresenta uma geometria complexa onde as células vegetais surgem sob um reticulado definido por aquilo que poderão até ser definidas por funções matemáticas bioholomórficas como se existisse um modelo matematicamente reprodutível que orientasse o seu desenvolvimento, algo semelhante à informação organizada dos campos quânticos morfogenéticos defendidos por Rupert Sheldrake.

Em todo o caso normalmente são tidos em conta factores que influenciam a forma das células em geral e as vegetais em particular e que poderão ser de vária ordem ditados por razões de natureza genética e por influências ambientais, como aqueles ligados á presença mais ou menos abundante de recursos hídricos. Assim quando a tensão superficial no interior da célula for a mesma em toda a superfície, a célula tende a ser esférica. Por outro lado a rigidez das membranas celulares conferida pela celulose e outros polissacáridos, tende a confinar o seu interior de acordo com o equilíbrio das tensões geradas com a viscosidade do próprio protoplasma celular. Ao contrário de muitas células animais, as vegetais não mudam de forma.

Já sabemos que as folhas apresentam diferenças estruturais e morfológicas entre os grupos vegetais conhecidos e classificados como pteridófitas, gimnospérmicas e angiospérmicas. Divergem as briófitas que apresentam estruturas primitivas chamadas filóides confirmando que a evolução é dirigida para a apresentação de uma morfologia conforme a geometria sagrada do círculo, triângulo e quadrado. Muitas morfologias apresentam uma mistura destas três formas geométricas como mostra a figura 2.

Mas poderiam perguntar: o que tem a geometria e a matemática a ver com o morfologia das folhas dos vegetais? Não desconhecemos que um parâmetro base na organização de um ser é a informação estruturada que ele contém, seja sob a forma do seu ADN e de todas as variáveis que ele vai transmitir geneticamente, seja no seu polimorfismo que na sua maioria nada tem a ver com a genética. Isto, só é possível pela informação traduzida em matemática e geometria, veiculada de forma orgânica, a forma material que reconhecemos. Só através desta relação podemos construir o mundo onde evoluímos: um mundo de relações entre objectos materiais. A comprovação da existência dos campos quânticos de ressonância morfogenética, tais arquétipos platónicos ou Akasha das doutrinas orientais, viriam dar um contributo definitivo para a compreensão deste assunto. De facto, muitas investigações nas áreas da biologia e da física sobre a natureza vegetal têm mudado progressivamente a nossa atitude relativa à vida em geral e em particular à das plantas. Citarei apenas dois casos que revelam a existência de uma “inteligência” nas plantas associada ao tratamento de informação relacional.

Num estudo publicado na revista Nature, da autoria de Monica Gagliano, Vladyslav V. Vyazovskiy, Alexander A. Borbély, Mavra Grimonprez e Martial Depczynski, datado de 2 de Dezembro de 2016 (2), mostraram que a designada “aprendizagem associativa”, fenómeno discernível do fototropismo e de influências ambientais, é uma componente essencial no comportamento das plantas, concluindo que a “associative learning” representa um mecanismo universal de adaptação partilhado tanto por animais como por plantas. Os experimentos delineados tiveram a particularidade de evidenciar pela primeira vez que as plantas possuem capacidade de aquisição de aprendizagens que as orientam no seu comportamento como plantas forrageiras, no caso em apreço a ervilha Pisum Sativa.

Num outro caso (3), descobre-se que as árvores possuem um network de comunicação subterrâneo que as leva a troca de informação através dos seus sistemas radiculares e da criação de uma rede de micélios numa perfeita relação simbiótica conhecida como micorriza (do latim myca, fungos, interagindo com as raízes, riza), estabelecendo ligações electroquímicas de longa distância e incentivando o crescimento das suas congéneres, partilhando nutrientes entre si e sabotando a instalação de plantas invasoras concorrentes. Este amplo sistema de cooperação e ajuda mútua constitui o maior sistema relacional do planeta até agora conhecido. Uma rede Web de informação envolvendo extensos campos electromagnéticos, construída e desenvolvida pelo mundo verde que define o comportamento das plantas seja por alterações induzidas pela qualidade da luz, som, estímulos mecânicos e bioquímicos produzidos pelo estabelecimento de relações de quase afectividade sensorial.

Para finalizar, também é sabido da existência de um campo de energia conhecido por radiação Kirlian (4), evidenciado inicialmente pelo método de electrofotografia executado em folhas de plantas pelo russo Semyon Davidovich Kirlian em 1939. O método consiste em fotografar um objeto com uma chapa fotográfica, submetida a campos eléctricos de alta-voltagem e alta-frequência, porém de baixa intensidade de corrente (técnica da kirliangrafia), resultando no aparecimento de um halo luminoso, em torno do objecto, a designada “aura”, também designada nos meios científicos por Corona. Este fenómeno poderá estar associado ao campo quântico de ressonância morfogenético de Rupert Sheldrake que na sua essência supõe-se modelar e formatar os organismos vivos através de um processo quântico relacional de “entanglement”.


Figura 7 – Fotografia kirlian de uma folha Coleus, 1980 - Wikimedia Commons

Em conclusão, a natureza vegetal é pródiga em espantar-nos com a sua capacidade de adaptação e organização, pois ao assumir na sua estrutura componentes do sagrado geométrico que definem princípios matemáticos simples e básicos, revela também existir na génese da Vida um fio condutor que transforma a simplicidade em padrões crescentes de complexidade, cujo resultado coloca em pé de igualdade todos os seres, como fontes de crescimento e aperfeiçoamento de uma única entidade, tal como o fio percorre e une as pérolas de um colar.

 

João Porto

Ponta Delgada, 8 de Julho de 2021


Publicado na Revista Matemática para Filósofos da Nova Acrópole Portugal

https://www.matematicaparafilosofos.pt/a-natureza-profunda-das-folhas-e-a-geometria-sagrada/


Notas

(1)  Ball, P. Physics of life: The dawn of quantum biology. Nature 474, 272–274 (2011). https://doi.org/10.1038/474272a

(2)  Gagliano, M. et al. Learning by Association in Plants. Sci. Rep. 6, 38427; doi: 10.1038/

srep38427 (2016). http://www.nature.com/srep.

 (3)  Elhakeem A, Markovic D, Broberg A, Anten NPR, Ninkovic V (2018) Aboveground mechanical stimuli affect belowground plant-plant communication. PLoS ONE 13(5): e0195646. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0195646.

(4)  WILSON PICLER, FOTOGRAFIA KIRLIAN (BIOELETROGRAFIA): Uma abordagem crítica e desmistificada dos padrões cromáticos, UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS, FEEC - Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação, Campinas 2019. http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/345805.









 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Os números e a entropia/sintropia











O Homem Vitruviano, Pixabay License

Por definição a entropia é uma grandeza termodinâmica que mede a desordem de um sistema e está relacionada com o seu grau de organização ou da previsibilidade da informação que define esse sistema. Quanto maior a desordem do sistema, maior a entropia e vice-versa.

Considera-se geralmente a entropia como um processo espontâneo, natural e nem sempre irreversível seja no sentido de aumento da desordem ou da ordem, ou seja, da variação da entropia (ΔS) respectivamente no sentido positivo ou negativo, neste último caso designada por negentropia ou sintropia, princípio simétrico da entropia que contribui para a organização de um sistema e se opõe à perda ou degradação de energia.

Esta ideia poderá expressar-se por ΔS = SfinalSinicial, onde se ΔS > 0 a entropia aumenta, se < 0 a entropia diminui, sendo que a variação da entropia é directamente proporcional à variação da energia dada pela temperatura ou pela agitação e movimento das partículas, isto significa que a temperaturas mais baixas o movimento/agitação, a informação e a energia, serão menores.

Qualquer sistema funciona com as duas componentes – entropia e sintropia. Por exemplo no âmbito biológico temos o anabolismo e o catabolismo dos processos metabólicos, um repondo e o outro destruindo. É o ciclo Sattva, Tamas e Rajas dos Gunas da filosofia védica.

ΔS define assim a dinâmica dos sistemas abertos porque considerando o Universo como sistema fechado a entropia será sempre maior que zero e irreversível. A sua origem confirma o desiderato: nascido do vácuo quântico, a sua história até hoje, 13,8 mil milhões de anos depois, tem sido feita de sucessos e retrocessos, de organização e destruição, na sua crescente expansão caminhando para o zero absoluto, recriando a sua condição inicial.

A palavra entropia vem do grego “en”, que significa “em” e “tropêe”, que é “mudança”. Esta mudança feita de organização para subsequente dissipação de energia, experiencia a criação de sistemas e de seres complexos num processo evolutivo imparável e irreversível em diversas dimensões da Constituição Septenária. O ΔS < 0 é sempre momentâneo porque se processa numa dimensão temporal conferida pela omnipresença do campo quântico do Bosão de Higgs – o Anthakarana.

Estamos a relacionar já diversas componentes em torno do conceito de entropia/sintropia: informação, temperatura, energia e organização relacional de sistemas.

A informação e a entropia/sintropia ligada aos sistemas cibernéticos representa a tendência para a autodestruição e degradação dos sistemas, sobretudo dos não evolutivos, e por outro lado a estruturação algorítmica e programática. O equilíbrio entre os dois significa a duração de vida do sistema e a evolução da inteligência artificial que actualmente ganha terreno com a computação quântica. Contudo o conceito de informação ultrapassa os sistemas cibernéticos se pensarmos que todos os sistemas tridimensionais, desde os campos quânticos no âmbito do microcosmo até aqueles que constituem o macrocosmo manifestado, são passíveis de serem traduzidos em referenciais de volume, massa, simetria, carga e resistência eléctrica, densidade, pressão, etc.

Esses referenciais conhecidos como grandezas físicas, relacionam e assumem valores e constantes universais como se plasmassem ou cristalizassem “configurações” organizadas de informação sem os quais não existiriam. É assim que o Diagrama de Enzo Tonti classifica cada variável física como tendo uma associação bem definida com um elemento do espaço e do tempo, como mostra a Figura 1.


Figura 1 – As variáveis físicas com os elementos do espaço e do tempo aos quais estão associadas. Wikipedia.org

Estes atributos quantitativos dos sistemas, reflectidos pelo Diagrama de Tonti originam as quantidades físicas relacionadas com o espaço e o tempo, sejam escalares, vectoriais ou tensoriais, sejam quais forem as teorias físicas e qualquer que seja a sua natureza matemática. 

Todo sistema físico, mesmo um campo quântico, assume uma "configuração" própria, descrita por variáveis de configuração, variáveis de fonte e variáveis de energia. Por exemplo num campo electromagnético as variáveis de fonte são definidas pelas cargas eléctricas com as suas grandezas vectoriais como variáveis de configuração e as variáveis de energia surgem da variável de configuração com a de origem.

Ou seja, parece existir um processo utilizado pela natureza, e só a ela inerente, de criação de organização através da complexificação de sistemas que visem a dissipação de energia de forma mais rápida. Aquilo que parece ser o surgimento de sistemas organicamente e estruturalmente mais complexos – do cristal ao vírus, deste ao microorganismo, numa cadeia evolutiva que atinge o seu âmago no ser humano. Constitui apenas um processo momentâneo onde a razão final de equilíbrio entre entropia/sintropia, geradora e impulsionadora da evolução dos sistemas, penderá sempre para um valor final entrópico positivo com a dissolução progressiva desses sistemas materiais em sistemas de outras dimensões onde apenas permanece a informação. A entropia ao conduzir ao vácuo na sua acção de dissolução faz dele o manancial titânico de todas as energias.

Este é também o caso paradigmático e paradoxal dos Horizontes de Eventos dos Buracos Negros, onde a informação não é destruída e permanece como estrutura ou sistema bidimensional. Ou seja, a informação em vez de ser destruída no interior do Buraco Negro, seria acumulada ou armazenada numa superfície bidimensional que de forma semelhante a um holograma projectaria uma imagem de si mesmo em três dimensões. Leonard Susskind e Gerard't Hooft aplicando este conceito a todo o Universo, concluíram que este seria um holograma, no qual as informações tridimensionais estariam “impressas” em superfícies bidimensionais situadas na esfera imaginária que circunda o nosso Universo. Seria como uma “flatland” onde os seus habitantes viveriam sem saber num mundo com apenas duas dimensões. Assim, espantosamente o nosso mundo tridimensional seria apenas uma ilusão, fazendo-nos regressar à concepção milenar dos Vedas (Maya).

Este é também o processo que alicerça a teoria da reencarnação e da vida para além do fenómeno da morte e que é corpo doutrinário de todas as teologias. A informação, como primeiro Logos do Ternário, é indestrutível e permanece na manifestação do Quaternário. A matéria e as suas forças agregadoras são o veículo de evolução da matriz primordial, a informação, e onde a entropia/sintropia constitui apenas o processo.

Como afirmava o pré-Socrático e precursor do atomismo Anaxágoras: “Em todas as coisas há uma porção do noûs, e há ainda certas coisas nas quais o noûs está também”.

 Para Anaxágoras a origem do Universo estava assente em elementos infinitos em número e tempo (as homeomerias, sementes ou spérmata ou ainda os futuros átomos de Demócrito e Leucipo), agregados por uma força chamada noûs – uma inteligência que tudo governava e apenas separava ilusoriamente os pares opostos que compunham o Universo. Dava como exemplos de pares opostos o frio/quente e o húmido/seco ou melhor dizendo de forma generalizada sintropia/entropia.

A Aritmética comum, por razões práticas, encara os números como sequências estáticas inter-relacionadas por sub-séries sem relação dinâmica entre si. O “Uno sem Segundo” da Doutrina Secreta desenvolve a inter-relação existente dos valores numéricos e as suas “sombras geométricas” e do que há entre e dentro delas – a designada Matemática Dinâmica ou Viva.

Carlos Rovelli em Helgoland argumenta de forma similar aconselhando-nos a adoptar uma visão do mundo “relacional” contrariando a visão mecanicista introduzida pela ciência do século XVII. Deste modo os objectos no microcosmos quântico nada mais são do que as propriedades (por exemplo posição, momento e energia) que exibem ao interagir em relação a outros objectos e entre si. Isto significa que se removêssemos o conteúdo do Universo, removeríamos também o espaço e o tempo confirmando que a realidade é feita pelas relações espaciais e temporais entre sistemas. Neste aspecto a Teoria da Relatividade Geral vem confirmar este acervo ao nível macrocosmo e o Bosão de Higgs dá-lhe suporte estrutural ao nível do microcosmo.

O nosso mundo material e energético expresso nas formas ou figuras geométricas estáticas, as designadas “sombras” dos números, resultam do impacto ou do movimento espaço-temporal, inter-relacional entre sistemas onde predomina a dinâmica sintropia/entropia, tal como o exemplo de um ponto de luz que em movimento rápido causa a ilusão de um a linha luminosa contínua.

A Teoria da Informação Integrada (TII) de GiulioTononi (2004 e 2014) ao defender que o todo é maior que a soma das partes, implicitamente assume que os sistemas complexos e organizados num processo de sintropia, criem no seu seio as condições para que a entropia seja a etapa sucedânea. Como resultado deste processo sintropia/entropia, o acumular de “superavit” de informação cria as condições para o despertar da consciência desde o átomo. Aqui a informação inerente aos sistemas confunde-se com a consciência reflectida no primeiro aforismo do Caibalion de Hermes Trismegisto: O Todo é Mente; o Universo é Mental. 

Como Hesíodo na sua Teogonia afirmava: “No princípio, era o caos”. Não existindo dualidade, reinava a vacuidade homogénea – o Nada, do qual nasce um ponto sem dimensões contendo como atributo o infinito em si próprio. Aqui encontramos similitude com a descrição do fenómeno quântico característico da perturbação do vácuo que vai originar, como primeiro acto, o Universo.

Contudo um ponto no hiper-espaço infinito não é gerador de forma nem do espaço-tempo. Este apenas definirá a origem, o zero de um futuro vector e de um potencial que aparece na sequência da dualidade ou paridade de um segundo ponto. Os dois ligando-se originam a grandeza vectorial de natureza linear unidimensional que contém a primeira medida – o um.

É a partir desta unidade primordial, definida pela distância entre os dois pontos, que irá surgir o terceiro elemento como ponto de encontro dos arcos gerados pela velocidade do movimento centrado ora num e noutro e que estruturam um plano bidimensional poligonal. Eis a primeira configuração geométrica 2D cujo polígono – um triângulo equilátero, resulta dos campos quânticos das forças nucleares fortes, fracas e das forças electromagnéticas. Assim se distribuem em ordens de três as partículas subatómicas conhecidas por quarks que dão origem aos protões e neutrões, o mesmo é dizer aos primeiros átomos de hidrogénio, matéria base do Universo.

O triângulo equilátero em conjunto com o círculo constitui a figura principal da geometria sagrada. As outras figuras como o quadrado ou os restantes polígonos são apenas conjuntos de triângulos que a sintropia/entropia organiza por simples economia de meios energéticos.


Os sistemas 3D, expressos pelos sólidos platónicos também vão surgir da mesma forma, onde ganha preponderância de organizador energético o número de ouro Φ=1,6180339887498948482045… com infinitos algarismos decimais.

Sem entrarmos em pormenores que nos encheriam páginas, a secção áurea – configuração geométrica do número Φ (Phi), identifica-se com um segmento de recta e um ponto e é a descrita nos seguintes termos por Euclides nos seus Elementos, livro 2, proposição II: “Uma recta está dividida em média e extrema razão quando a recta (a+b) é para o segmento maior (a) o mesmo que este é para o menor (b).”


Não poderíamos deixar nesta altura de estabelecer ligações óbvias entre o Diagrama de Tonti e a estrutura pitagórica da Tetraktys ou Década Pitagórica com a sua base 10 = 1 + 2 + 3 + 4, e a sua asserção de que os números estão na base de toda a manifestação.

O Tetraktys representa a organização do espaço-tempo, o equilíbrio sintropia/entropia:

Enquanto a primeira linha representa a kénon aristotélica, ou seja, o vazio ou vácuo, zero dimensões, o reino das ideias puras arupicas, Arkhé - um ponto, a segunda linha representa uma dimensão dada pelos números em si, como primeiro reflexo das ideias, uma linha definida por dois pontos gerada pelo potencial residente no vácuo, a passagem do arupico não-formal para o rupico formal. Já a terceira linha representa as duas dimensões, a sombra dos números onde as ideias adquirem forma, o tal plano definido por três pontos enquanto a quarta linha representa as três dimensões - um tetraedro definido por quatro pontos onde as formas adquirem volume (Figuras 4 e 5).

 

Figura 4 – A divina Tetraktys ou Década Pitagórica. Wikipedia.org

Finalmente, nesta geometria sagrada, é evidente a presença geométrica da Constituição Septenária (força divina da trindade, 3 + 4, o quadrado da terra).

Tudo o que evolui obedece a um padrão septenário com origem no número 3:

 - As sete frequências das notas musicais (Figura 6);

 - As sete frequências vibratórias das cores do espectro visível da luz;

- Os sete tipos de configuração dos edifícios cristalinos: monoclínico, triclínico, cúbico, orto-rombico, tetragonal, trigonal e hexagonal;

- Os sete quadrantes de referência do espaço-tempo: alto, abaixo, direita, esquerda, frente, atrás e centro;

- Os sete períodos da vida humana: infância, adolescência, juventude, idade adulta, maturidade, velhice e senilidade;

- Os sete centros biológicos neuro-hormonais do corpo humano: raiz, umbilical, esplénico, coronário, laríngeo, frontal e coronal;

- Os sete “veículos” do Homem e seus correspondentes no plano da Física Quântica:

a) O físico ou Sthula Sharira/fermiões que constituem a matéria propriamente dita;

b) Duplo-etérico ou Prâna/campo electromagnético;

c) Astral ou Linga Sharira/campo das forças nucleares fracas;

d) Mental concreto ou Kâma Rupa/campo das forças nucleares fortes,

 (o seu conjunto define a geometria quaternária, o Tetragrammaton cabalístico);

e) Mental abstracto ou Kâma Manas/campo holomórfico;

f) Intuitivo ou Buddhi/campo do espaço granular;

g) Espiritual ou Atmâ/campo da informação,

 (definem a trindade ou configuram a geometria do ternário).

Estes dois conjuntos estabelecem ligação entre si pelo Antakharana ou Bosão de Higgs cujo campo confere massa ao quaternário – o iniciador da manifestação, do movimento Theos.

 

Figura 5 – A Década Pitagórica e a dinâmica “relacional”

Segundo Helena Blavatsky “Os antigos filósofos sempre atribuíram algo de misterioso e divino à forma do círculo. O mundo antigo, coerente com o seu simbolismo e as suas intuições panteístas, que unificam os dois Infinitos, o visível e o invisível, representava a Divindade, e também o seu Véu exterior por um círculo. Esta fusão dos dois em uma unidade e a aplicação do nome Theos indistintamente a ambos estão explicadas, mostrando-se ainda mais científicas e filosóficas.”


Figura 6 – Diagrama das séries harmónicas e a radiografia de um búzio. Imagem: imgur.com/gallery/XEOQPNi

“A matéria física é música solidificada” –  Pitágoras


 A união do círculo (resultante da distribuição equidistante de pontos infinitos ao ponto seu centro) com o quadrado representado pela Quadratura do Círculo envolve as forças do impulso energético do Fohat da tradição egípcia, o Sattva védico, a tal energia organizadora, a relação universal de sintropia/entropia representada por outra proporção fundamental, a relação entre o perímetro do círculo e a seu diâmetro, π = 3,1416…, onde se irá inserir, num tempo mais tardio, uma representação pela mão de Leonardo da Vinci conhecida como o Homem de Vitrúvio, o ser humano com alma divina, o Verbo feito carne.

 

João Porto

Ponta Delgada, 29 de Junho de 2021

Bibliografia

CARLOS ROVELLI, Helgoland, Edição Allenlane, Kobo-Fnac, 2021.

HELENA P. BLAVATSKY, A Doutrina Secreta, Cosmogénese, Volume I, Editora Pensamento, São Paulo, 1969.

JAIME BUHIGAS TALLON, “a Geometria Divina”, A esfera dos livros, 1ª. Edição, Março de 2021.

KUHNEN, R. F. “Em tudo uma porção de tudo”. In SOUZA, J. C. (org.). Pré Socráticos. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

 

Revista Fénix - Nova Acrópole Portugal

https://www.matematicaparafilosofos.pt/os-numeros-e-a-entropia-sintropia/

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Astrosofia, a astronomia ancestral

 







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“Sujeito e objecto são uma só. Não se pode dizer que a barreira entre eles tenha ruído em consequência da experiência recente nas ciências físicas, visto que tal barreira não existe.”

Erwin Schrodinger

 

Astrosofia, literalmente sabedoria dos astros, acredita-se ser a mais antiga ciência conhecida sobre o nosso planeta. Faz parte integrante dos primórdios da cultura humana colocando a consciência como “objecto” matricial transversal a todo o Universo e integrando o ser humano e o ambiente numa dinâmica relacional estreita.

O Homem percebeu desde cedo a relação íntima entre as coisas vivas da Terra – a mãe natureza, e as coisas vivas do céu – os arquétipos. No despertar da consciência atribuiu outro significado aos movimentos intrigantes dos astros. Reparou nos agrupamentos de estrelas em determinadas regiões do céu relacionadas com eventos terrestres do clima, do crescimento vegetal ou das transumancias animais. Percebeu que a sua sobrevivência dependia do estabelecimento de uma relação harmónica com o Universo que o rodeava. A sincronicidade dos eventos naturais com a biologia humana e animal em geral tomou significados por um lado concretos e também transcendentes por outro lado, referenciados em rituais cronologicamente estabelecidos e de mímica fenoménica, cuja interpretação competia aos que assumiam estados de consciência elevados, às vezes por meios artificiais, que os aproximavam da revelação.

A disrrupção na natureza, catástrofes ou eventos extremos, representava forçosamente um desequilíbrio nessas forças ocultas que reinavam na natureza. Essas forças ocultas poderiam ser redimidas pela assunção de comportamentos convenientes que reporiam a normalidade. A Terra, e todas as coisas viventes e não viventes, representavam um organismo vivo com todos os seus subsistemas interdependentes, que acumulava a informação relativa a todos os acontecimentos num feedback contínuo. Esta é ainda hoje a concepção Gaia fortemente arreigada às bases teóricas do Panpsiquismo.

Saído de uma evolução natural, tendo absorvido todas as circunstâncias que o rodeavam, tanto na competição como na colaboração com as espécies de maior proximidade, onde a condição inferior ou superior era muito relativa, o Homem, o “bom selvagem”, trazia consigo a carga genética, o inconsciente colectivo da espécie, a constituição holomorfogenética necessária à expressão da consciência.

É em Carl Gustav Jung que surge o conceito do “inconsciente colectivo” que molda o ser humano como um ser colectivo, como um representante de sua espécie num determinado momento de desenvolvimento histórico, desde os tempos ancestrais, onde os arquétipos, género imagens arquiprimitivas gravadas na mente, são já parte do património comum daquela humanidade, reflectindo-se posteriormente em todas as mitologias como expressão do “inconsciente colectivo”.

Os arquétipos pré-existentes, construções de um passado de cuja condição o Homem primitivo se afastava de dia para dia, evoluíam lentamente impulsionados tanto pela amenidade dos fenómenos naturais como pelas condições adversas. O Sol iria tornar-se menos agressivo na sua actividade influenciando os climas, estabilizando o geomagnetismo terrestre, protegendo o ambiente dos raios cósmicos e da radiação ultra-violeta; a Lua distanciar-se-ia permitindo que o gigantismo desse lugar a outras naturezas mais conformes, estabelecendo ciclos biológicos mais adequados e, as agressões meteoríticas e cometárias seriam mais clementes. Os impulsos eram cíclicos e transformantes: basta analisar os sucessivos extractos geológicos. Havia urgência na futura humanização do planeta como ser vivo global.

A consciência, sendo sobretudo fenómeno numénico e de natureza quântica, haveria de promover rupturas epistemológicas na evolução da recente espécie humana, sujeita que estava, está e sempre estará, às influências aditivas e construtivas do emaranhamento dos campos quânticos que se estendem por todo o cosmos. Sempre o Homem sentiu essa presença, uma presença natural da qual se foi afastando progressivamente.

Desse afastamento surgiu a astrologia, vertente prática e utilitarista da Astrosofia. Supostamente descortinaria as melhores confluências e influências astrais para orientar as trocas de bens, as viagens, as relações, a guerra e a paz, e se transformaria num instrumento de dominação deitando por terra o “religare” original, aquilo que unia o Homem ao Cosmos.

Atestam-no ainda os Xamanes das mais diversas culturas, ditas primitivas, em fase acelerada de extinção.

Como se realiza esta união? Os princípios da Física Quântica e a estrutura do Modelo Padrão quando aplicados ao modelo da Constituição Septenária, alargam os nossos horizontes dando outro significado abrangente e unificador a toda a natureza, mais densa ou mais subtil, perpassando esta nova percepção do Cosmos a todos os níveis da existência. Modernamente tanto a Cosmologia como a Astrofísica perdem diariamente a fronteira que as distinguia de doutrinas mais esotéricas e da própria ficção científica mais exótica. Poderíamos citar um sem número de teorias que tentam explicar a Vida, a Consciência e a Inteligência como mais uma propriedade quantificável da existência. No entanto bastar-nos-á apontar, de forma muito resumida, algumas mais conhecidas:

1. A teoria do Big Bang, nas suas mais diversas variações, afirma por base que tudo teve uma origem comum pressupondo que tudo o que existe no momento presente e futuro esteve em contacto. Segundo a Física Quântica, os fenómenos de superposição, do estado de probabilidade e simultaneidade onda-partícula, é o reconhecimento implícito da passagem de uma natureza de uma dimensão física para outra de dimensão mais subtil. A Superposição, a não-localidade e o fenómeno do emaranhamento, de que já temos aplicações práticas pouco ou nada compreendidas na computação quântica, poderão derivar desta partilha original comum o que implica que dois objectos distanciados por milhares de milhões de anos-luz estão permanentemente interligados. Uma partícula ao interagir com outra, mantém um vínculo que não depende do espaço e do tempo. É como se estabelecessem uma comunicação telepática, registando ambas o que ocorre uma com a outra. Será a omnisciência e omnipresença que surgem da profunda união das concepções relativistas com a mecânica quântica.

 

2. A Teoria IIT - Integrated Information of Consciousness de GiulioTononi, na qual a evolução física dos subsistemas é concebida nos termos de um processo integrado quantificável matematicamente por uma variável designada Φ (Phi). Assim, sistemas tais como o cérebro humano seriam o culminar de um Φ muito alto enquanto a inexistência de consciência (uma rocha) significaria um Φ nulo.

A integração da informação inerente aos subsistemas (as partes) no Todo, fariam com que o Todo fosse maior que o conjunto das partes. Esta ideia tem conduzido a tentativas infrutíferas de construir modelos computacionais albergando componentes biológicos na ânsia de que fosse atingida uma espécie de massa crítica necessária ao aparecimento da consciência. Esta situação faz da teoria da informação uma área de pesquisa relativamente recente colocando-a na vanguarda da investigação de ponta profundamente ligada aos fundamentos da mecânica quântica.

3. A Teoria do Network Neuronal olha para o Universo como um ampla rede de ligações estabelecidas entre os aglomerados e superaglomerados de galáxias, estendendo-se por biliões de anos-luz e formando estruturas como a Laniakea com mais de 100 000 galáxias onde se inclui a nossa e o Grande Aglomerado da Virgem. Outros dois superaglomerados vizinhos foram também detectados, a saber o Superaglomerado de Shapley e o Superaglomerado de Perseus-Pices. Estas estruturas titânicas condicionariam a curvatura do espaço conferindo gravitacionalmente a distribuição e movimentação das grandes massas de grupos de galáxias e de estrelas. A descoberta destas tendências conjuntas através dos actuais meios observacionais da Astronomia, parece confirmar esta teoria e aspectos particulares da fluidez da expansão do universo. Estes networks seriam os veículos utilizados pelo trânsito de informação inter-galáctica que faria do Universo uma estrutura única onde a actividade dos Buracos Negros seria uma peça fundamental. A recente descoberta (2019) de jactos, detectados em frequências rádio, ultrapassando extensões de milhões de anos-luz entre aglomerados de galáxias e a formação de campos magnéticos e de fluxos de partículas relativísticas, veio confirmar aspectos desta teoria.

4. A Teoria do Universo Holográfico criado pelo físico Leonard Susskind, nos anos 90 do século passado, revela também a unidade básica do universo. Mostra-nos que não podemos decompô-lo em unidades infinitamente pequenas ou grandes com existências independentes, tal como a física quântica o demonstra à escala pequeníssima de Planck (10-35). Pelo contrário, ao penetrarmos nos menores constituintes conhecidos, evidencia-se uma teia complexa de relações entre as várias partes com o todo unificado. Esta teoria replica a estrutura holográfica bidimensional 2D dos Horizontes de Eventos dos Buracos Negros na própria estrutura geral do Universo como se ela fosse uma emanação em 3D. Daí distar apenas um passo para que o Universo tenha tido origem nos Buracos Negros Primordiais.

A Astrosofia vê-se assim reforçada pelas concepções mais modernas saídas da Astrofísica, da Cosmologia e da Física Quântica. Conceber influências espaciais dos mais diversos tipos, é uma tarefa que agora está ao nosso alcance de uma forma segura, alicerçadas nas provas dos instrumentos mais recentes e poderosos dedicados à investigação científica. Destes poderemos citar a plêiade de observatórios espaciais que vasculham o universo nos mais diversos comprimentos de onda (Fermi, Spitzer, Panstarrs, Kepler, Observatório Chandra Raios-X, Observatório de Raios Gama Compton, etc), o futuro James Webb Space Telescope, ou as grandes máquinas com dezenas de quilómetros como o Grande Colisionador de Hadrões, o LIGO - Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory, ou ainda mega telescópios terrestres (como exemplos o futuro Square Kilometre Array ou o Extreme Very Large Telescope – EVLT, o observatório de neutrinos instalado nas profundezas de um glaciar na Antárctida – o IceCube, o maior radiotelescópio do mundo, o FAST na província chinesa de Guizhou, entre muitos outros.

A Astrosofia assume o modelo fractal que está na base da natureza holográfica da matéria do mesmo modo que as últimas teorias sobre a origem do Universo, como vimos anteriormente. O fractalismo está presente na fórmula 4-3-2-1 da Tetraktys pitagórica bem como na estrutura da doutrina dos Manvataras (os “Mentores, os Manus ou avatares cósmicos) em que a partir de uma fracção do todo em particular, se pode construir o todo completo sob a precisão de fórmula matemática. É o número de ouro que se reflecte na estrutura organizativa da natureza, desde as galáxias até ao nautilus.

A influência da estrutura fractal é transversal a todos os fenómenos naturais, de tal modo que não pode ser encarada como uma coincidência. A sua matriz determinou a concepção dos padrões temporais (Manvatara/Pralaya, Eras), os signos da astrologia, a concepção sobre as idades das civilizações, e os Ciclos Yugas védicos. Esta geometria cíclica quando surge está dividida pela influência das fractais, plasmando o “inconsciente colectivo” ou os fluxos fundamentais da energia akáshica e holomorfogenética. É assim que se reflecte depois mais tarde na estrutura dos “idos” dos meses romanos ou mesmo antes no calendário grego luni-solar e na astrologia hinduísta quando cria os milénios dentro das Eras.

A concepção septenária traduz também esta realidade ao perpassar todas as coisas, adaptando a sua terminologia a cada caso específico do micro ao macrocosmo, aos ciclos da cabala hebraica na “Árvore da Vida”, o Caduceu ou ainda os ciclos Dharmicos hinduístas.

Perpassa todas as cosmogonias presentes nas doutrinas religiosas. Religa o humano à sua natureza mais profunda e oculta e está presente no nosso dia-a-dia.

“Morri mineral e converti-me em planta. Morri planta e nasci animal. Morri animal e me converti em homem. Por que, pois, hei-de temer a alguém? Acaso poderei ser menos ao morrer? Na próxima vez morrerei como homem para que me possam nascer asas de anjo, mas também da condição de anjo me elevarei, por que, como ensina o Corão, tudo perecerá, menos a face do Senhor. Outra vez, tomarei o voo por cima dos anjos e me converterei no que a imaginação não pode conceber. Na verdade, voltaremos a Ele”. - Do livro persa, Mathnawi, autor Jalalu’l Din Rumi (1207-1273).

Nesta métrica até aonde poderemos delimitar influências siderais pré-determinadas matematicamente na evolução da espécie humana, sabendo de antemão que tudo se move no Universo? Qual a probabilidade muito concreta de um acontecimento semelhante aquele que retirou da face do planeta os dinossauros, acontecer de novo? Haverá um calendário cósmico gerido por um relojoeiro multidimensional onde estão assentes os acontecimentos futuros já pré-determinados ou teremos o livre arbítrio como opção num campo probabilístico onde apenas o colapso de onda da opção momentânea faz o acontecer?

A questão fundamental que se coloca: poderá a Astrosofia (o conhecimento dos astros) parametrizar a probabilidade de um evento num campo unificado quântico multidimensional e relativístico como parece tendencialmente concluir a ciência actualmente? Esta será a base conceptual unificadora, a religação do Homem e do Universo, apenas uma dualidade temporária e ilusória.

“Poderemos olhar para a matéria como as regiões do espaço onde o campo é extremamente forte (…). Não poderá haver lugar, nesta nova física, para o campo e para a matéria, uma vez que o campo é a única realidade.” – Albert Einstein, Out of My Later Years (Nova Iorque: Philosophical Library, 1956).

 

João Porto e Ponta Delgada, 16 de Abril de 2021


Publicado na revista Fénix da Nova Acrópole Portugal

https://www.revistafenix.pt/astrosofia-a-astronomia-ancestral/


Quando o Vazio deixa de ser vazio

 https://docs.google.com/document/d/1YKbmzpIFSm1zD9FQ5VyqnlQoDDsUiBD2mR1u1PbSfWA/edit?usp=sharing https://docs.google.com/document/d/12MgCad...